Só Dez Por Cento é Mentira (Manoel de Barros) - 2008


MANOEL DE BARROS
Poeta que reinventou o estilo e os significados das palavras.


O livro sobre nada

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.



O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Retrato do artista quando coisa

A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.


O fazedor de amanhecer

Sou leso em tratagens com máquina.
Tenho desapetite para inventar coisas prestáveis.
Em toda a minha vida só engenhei
3 máquinas
Como sejam:
Uma pequena manivela para pegar no sono.
Um fazedor de amanhecer
para usamentos de poetas
E um platinado de mandioca para o
fordeco de meu irmão.
Cheguei de ganhar um prêmio das indústrias
automobilísticas pelo Platinado de Mandioca.
Fui aclamado de idiota pela maioria
das autoridades na entrega do prêmio.
Pelo que fiquei um tanto soberbo.
E a glória entronizou-se para sempre
em minha existência.



Tratado geral das grandezas do ínfimo


A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Os deslimites da palavra

Ando muito completo de vazios.
Meu órgão de morrer me predomina.
Estou sem eternidades.
Não posso mais saber quando amanheço ontem.
Está rengo de mim o amanhecer.
Ouço o tamanho oblíquo de uma folha.
Atrás do ocaso fervem os insetos.
Enfiei o que pude dentro de um grilo o meu
destino.
Essas coisas me mudam para cisco.
A minha independência tem algemas


Aprendimentos


O filósofo Kierkegaard me ensinou que cultura

é o caminho que o homem percorre para se conhecer.
Sócrates fez o seu caminho de cultura e ao fim
falou que só sabia que não sabia de nada.

Não tinha as certezas científicas. Mas que aprendera coisas

di-menor com a natureza. Aprendeu que as folhas
das árvores servem para nos ensinar a cair sem
alardes. Disse que fosse ele caracol vegetado
sobre pedras, ele iria gostar. Iria certamente
aprender o idioma que as rãs falam com as águas
e ia conversar com as rãs.

E gostasse mais de ensinar que a exuberância maior está nos insetos

do que nas paisagens. Seu rosto tinha um lado de
ave. Por isso ele podia conhecer todos os pássaros
do mundo pelo coração de seus cantos. Estudara
nos livros demais. Porém aprendia melhor no ver,
no ouvir, no pegar, no provar e no cheirar.

Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.

Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno
grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!
Eu vivi antigamente com Sócrates, Platão, Aristóteles —
esse pessoal.

Eles falavam nas aulas: Quem se aproxima das origens se renova.

Píndaro falava pra mim que usava todos os fósseis linguísticos que
achava para renovar sua poesia. Os mestres pregavam
que o fascínio poético vem das raízes da fala.

Sócrates falava que as expressões mais eróticas

são donzelas. E que a Beleza se explica melhor
por não haver razão nenhuma nela. O que mais eu sei
sobre Sócrates é que ele viveu uma ascese de mosca.


O menino que carregava água na peneira

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!


Uma didática da invenção

I


Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:

a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre 2 lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

II


Desinventar objetos. O pente, por exemplo.

Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.

III


Repetir repetir — até ficar diferente.

Repetir é um dom do estilo.

IV


No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:

Poesia é quando a tarde está competente para dálias.

É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.

V

Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.

VI


As coisas que não têm nome são mais pronunciadas
por crianças.

VII


No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá
onde a criança diz: Eu escuto a cor dos
passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um
verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz
de fazer nascimentos —
O verbo tem que pegar delírio.

VIII


Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

IX


Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
3 horas da tarde, no mês de agosto.
Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer
em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até
o mato sair na voz .
Hoje eu desenho o cheiro das árvores.

X


Não tem altura o silêncio das pedras.







Homenagem ao poeta Manoel de Barros - Maria Luiza C.Malina




Homenagem a Manoel de Barros      
            
  1. Nascimento19 de dezembro de 1916 (97 anos), Mato Grosso
  2. Faleceu 13 de novembro de 2014


A PERDA DE SONHOS INSONHADOS

Hoje, a senhora Noite, se esqueceu de tirar o manto escuro no raiar do Dia.
O Sol desamanheceu com lágrimas laranjas no tropeço da alma das palavras, de quem não terminou a última linha da poesia da vida, que ficou sem o ponto final.


Por: M.luiza de C.Malina

ERAM DUAS MULAS - Oswaldo Romano

 
ERAM DUAS MULAS
Oswaldo Romano                    
                                                         
Cedo Maria mal viu nascer o dia, cuidou-se de levantar e preparar o café do seu marido Chico. Chico pula da cama em seguida, espreguiça-se, veste as surradas roupas da semana, enfia os pés nas  botas.

Teve alguma dificuldade porque além das botas estarem  deformadas, já não tinham as tiras de couro que ajudavam calçá-las. Sente o cheiro do café que o leva à cozinha.

O dia está começando. Sua gleba de terra onde cultiva a mandioca fica distante vinte quilômetros. Fácil porque tem seu antigo Fordinho de caçamba, partida a manivela, carroceria corroída pelo tempo, que o leva.

Quer distrair-se ouvindo os violeiros que cantam e encantam o povo da roça. Mas, o barulho do motor e o bate-latas dos para-lamas carcomidos, forçam-no a dobrar o corpo sobre o volante, ficando assim mais próximo do rádio.

O Fordinho comeu a estrada. Ele chega, a terra esta exalando a umidade da noite e solta a nevoa puxada pelo rei sol, que sobe, não esperando ninguém.
Toma o arado, agora motorizado. Quando puxado pelas mulas rolava melhor a terra, mas elas lhe davam muito trabalho. Eram duas que se revezavam. Ao troca-las, vendo-se livre, a mula sugava vinte litros d’agua, e mascava meio fardo de forragem.

Este fato aconteceu num dia de chuva intermitente. O serviço não rendia. Ele na época, usava as mulas. Estavam mais soltas, mais alegres com o tempo. É difícil saber quando uma mula está contente. Avalia-se por dedução. Com a chuva a terra amolece, fica mais fofo seu arrasto.

Nesse dia, na volta, o tempo ainda não estava firme. Caiu à noite, garoa intensa, a estrada estava barrenta.  O fraco farol do Ford iluminava pouco, estava esmaecido pelos anos. Depois da curva das bananeiras, as poças que eram muitas, refletindo, até ajudavam na iluminação.

Próximo a venda do Firmino, dois homens brigavam, se agarrando. Já se aproximava quando sacaram suas facas, as lâminas brilhavam e, muito estranho, duelavam no meio da estrada vicinal. Apostava que os atropelando, saíssem do caminho. Arriscou. Ainda há uns trinta metros, com marcha moderada, piscou o farol, não deram bola. Continuaram o espetáculo!

Sua decisão tinha que ser tomada rápido. Com a buzina aberta, acelerou o que pode, quase os tocando. Pulou um de cada lado. Pelo retrovisor, viu uma escuridão só.


        Certamente haviam montado uma armadilha para assalta-lo.

Aquele ladrãozinho - Fernando Braga


Aquele ladrãozinho
Fernando Braga

Moravam em uma boa casa no Alto dos Pinheiros, onde, no verão chuvoso, era invadida, frequentemente, por uma multidão de pernilongos, provenientes do poluído rio Pinheiros, além de multidão de baratas, que entravam pelos ralos e se dirigiam mais à cozinha,o que trazia muito incomodo noite e dia.

Há alguns anos, um intruso resolveu, sem convite, participar da convivência da família. Entrava sempre à noite, sorrateiramente, após todos se recolherem. Não fazia qualquer barulho suspeito.

 Começou-se a perceber sua presença quando pelas manhãs, se observava que qualquer alimento deixado encima da mesa,    apareciam parcialmente roídos e tinham que ser desprezados. A suspeita logo recaiu sobre a presença de um roedor, o mais comum deles em nossa cidade. De onde vinha ele, como entrava em casa, como saia, ficava escondido dentro de casa em algum armário, no piano, onde afinal? E mais... como conseguia subir na mesa da cozinha, mesmo após as cadeiras terem sido afastadas? Impressionante como o pequeno animal executava diariamente a mesma missão. Certa ocasião, tarde da noite, ao voltarem para casa, subiram as escadas para irem quando por eles passa velozmente o roedor, que em um pulo sensacional, saltou uns quatro metros, para cair no hall de entrada e desaparecer. Ele desceu rapidamente as escadas e munido de pau e vassoura, tentou localiza-lo debaixo dos móveis, atrás das portas, na cozinha, mas tudo em vão. A mulher, apavorada ficou encima da cama. Por que mulher tem tanto medo de rato?

No dia seguinte, ele foi comprar veneno e uma ratoeira, destas de arame, em que se coloca no interior um pedaço de queijo. Deixou como isca alguns alimentos sobre a mesa da cozinha e sobre uma pequena geladeira no andar superior. Não é que o bichinho comia os alimentos, subindo nos moveis, mas nem tocava naqueles que estavam envenenados. Era muito, muito espertinho. Sentiram falta de não terem um gato, mas ficaram muito preocupados com o cão, que ficava no quintal e que poderia vir a ingerir alimento contaminado, colocado para o roedor.

Mas, com tanta coragem, certo dia, o esperto roedor cometeu um erro.

Analisando como o rato poderia entrar em casa, eles observaram que, na porta lateral de vidro, que dava para um jardim lateral e depois para a rua, havia um pequeno espaço entre a porta e o res do chão, de uns dois centímetros de altura ou pouco mais. À noite, preencheu o vão com jornal dobrado, fechando completamente o espaço, por onde o inimigo poderia entrar. No dia seguinte, pela manhã, foram à cozinha e viram que bananas estavam comidas, logo o rato havia entrado e talvez habitasse algum cômodo da casa, onde se escondia de dia. Contudo, indo ver a porta lateral, se surpreenderam ao ver que o jornal havia sido roído e aberto um vão. 

Hah! disse ele:

- Agora te peguei! Foi o seu primeiro, mas grande erro!

Ele saiu, foi à Romano, uma famosa casa de material de construção e lá comprou um pega rato, ou seja, um  papelão  grosso, com duas abas, que se abrem e dentro está uma espécie de cola espessa, que prende as patas de qualquer animal pequeno, que passe sobre ela. Este dispositivo foi colocado junto à porta evidentemente, do lado de dentro.

No dia seguinte, lá estava o rato, de tamanho médio, preso por suas patas e barriga.

Com dó, ele ainda pensou em poupar o tão esperto animalzinho, mas a esposa, imediatamente, intimou-o a jogar o bicho no lixo, junto com o  pega rato.


É exatamente isto o que acontece com bandidos, que pensam estarem sempre imunes, mas acabam por cometer algum deslize, que vai lhes custar a liberdade.

EQUÍVOCOS BEM-VINDOS - Suzana da Cunha Lima


EQUÍVOCOS BEM-VINDOS
Suzana da Cunha Lima

Ele chegou afogueado. Largou as chaves no aparador e levou a valise para o quarto.  Lá encontrou sua mulher numa bela lingerie preta, fingindo que estava lendo um livro, ar condicionado ligado. A temperatura do quarto o recebeu convidativa, mas ele estava molhado de suor, assim fingiu não entender o convite explícito na roupa e pose da mulher. 

- Oi, tudo bem, Bel? – tirou o paletó, foi desmanchando a gravata, em um minuto estava só de cuecas.  – Vou tomar um banho logo, depois podemos jantar, ou, quem sabe, talvez uma rapidinha  - sorriu maroto,  piscando o olho e entrou no banheiro..

- Como quiser, amor. – respondeu ela, guardando o livro e indo direto à valise. Ao abrir, não encontrou o  presente que havia visto de manhã, sorrateiramente, enquanto ele se arrumava para trabalhar. O embrulho parecia o de um estojo de joia, logo, só poderia ser para ela mesma, era seu aniversário e tinham combinado jantar fora.

Começou a ficar impaciente  e com raiva.  Para quem ele havia dado aquele presente?  Não se aguentou e entrou no banheiro. Silvio cantarolava, satisfeito, debaixo de uma ducha quase gelada.  Nem notou a entrada dela.
- Há alguma coisa que você queira me contar, Silvio?

- Que eu saiba não, querida – replicou ele, meio espantado com a entrada dela no banheiro e pela pergunta, que a seu ver, não fazia nenhum sentido.

 – Mas, já que você está aqui, venha tomar banho comigo, há tanto tempo não fazemos isso, não é? – e a puxou, de camisola e tudo, para dentro do box.  

Bel, pega de surpresa, aceitou a brincadeira e se divertiram um tempo, esfregando as costas um do outro, rindo e acabaram se beijando e ali mesmo fizeram amor.

Depois de se enxugarem, foram ao quarto para se vestirem, mas Bel ainda estava invocada com o sumiço do embrulho de presente que havia visto de manhã na valise dele.  Não sabia como abordar o problema, principalmente depois da ardorosa cena   debaixo do chuveiro.

- Bom, vamos jantar então, este exercício lá no box acabou me dando muita fome e desta vez não é de você, gatinha -  disse ele sorrindo, enlaçando-a pela cintura.

Abriu a porta para ela passar, todo cavalheiro.  Dirigiram-se para a sala de jantar e Bel estacou, surpresa e admirada com a bela decoração:  a mesa estava posta como se fosse para uma festa, cristais e porcelanas, um lindo arranjo de orquídeas e o espumante esperando sua vez no balde de gelo.

- Gostou? Vamos ter uma noite porreta... Já começamos bem, lá no banheiro.
- Gostei sim, mas não estou entendendo nada.   Não íamos jantar fora? Balbuciou Bel, sem saber o que pensar.

- Íamos, porém hoje é seu aniversário e quis lhe fazer uma surpresa.   Não ia dar para levar seu presente ao restaurante, assim resolvi jantar em casa mesmo.

- Não? Ora... Ela gaguejava, feliz por um lado e meio desapontada por outro.  Então não era joia, joia é portátil  – pensou – Tomara que ele não tenha comprado a esteira, ou a bicicleta, ou aquele baú antigo que eu gostei tanto. No meu aniversário, quero ganhar uma coisa para mim... - suspirou e perguntou: - E onde está este presente? Você o escondeu?

- Sim senhora. Deixei ai fora, perto da porta. Você é muito curiosa e podia ficar bisbilhotando pela casa e nas minhas coisas – alegou Silvio enquanto abria a gaveta do aparador, retirando de lá um pequeno embrulho de presente. – Eu ia lhe dar depois do jantar, mas estou ansioso para lhe entregar logo, quero ver sua reação.

Bel reconheceu imediatamente o embrulho que estava dentro da valise. Ficou sem voz, de tão emocionada, e abraçou-o calada, o coração aos pulos.

- Não abra agora.   Vamos lá fora primeiro, ao luar é mais bonito.

 Ela o seguiu apertando o pacote contra o peito e imaginando qual a surpresa que ele havia lhe reservado, porém mais interessada no conteúdo do pacote. Que joia seria? Brincos, aliança? Pedras, brilhantes? O que ficaria mais bonito ao luar?

 Sílvio abriu a porta, cobriu seus olhos com as mãos e sussurrou enquanto beijava de leve sua nuca.
- Pronto, abra os olhos, é todo seu.

Bel se arrepiou toda e desembrulhou avidamente seu presente. Mas viu apenas uma chave deitada no veludo da caixinha. E nem de ouro era...

Olhou interrogativamente para Silvio, bem decepcionada, mas ele, sem falar nada, gentilmente guiou sua cabeça para algo que estava ali à sua frente e ela não tinha ainda notado. 


Um belo Hyundai Azera, novinho em folha, brilhando ao luar, com um grande laço de fita e um cartão onde estava escrito: SOU DA BEL

REFORMA ORTOGRÁFICA: Minivocabulário

REFORMA ORTOGRÁFICA: Minivocabulário
Palavras e expressões com ou sem hífen
Inez Sautchuk*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Palavras e expressões mais usadas com ou sem hífen, atualizadas conforme o Acordo Ortográfico. 
A
a fim de
à queima-roupa
à toa 1
à vontade
abaixo-assinado
ab-rupto 2
acerca de
aeroespacial
afro-americano
afro-asiático
afro-brasileiro
afrodescendente
afro-luso-brasileiro
agroindustrial
água-de-colônia
além-Brasil
além-fronteiras
além-mar
amor-perfeito
andorinha-do-mar
anel de Saturno
anglomania
anglo-saxão
ano-luz
antessala
antiaderente
antiaéreo
antieconômico
anti-hemorrágico
anti-herói
anti-higiênico
anti-ibérico
anti-imperialista
anti-infeccioso
anti-inflacionário
anti-inflamatório
antirreligioso
antissemita
antissocial
ao deus-dará
arco e flecha
arco-da-velha
arco-íris
arqui-inimigo
autoadesivo
autoafirmação
autoajuda
autoaprendizagem
autoeducação
autoescola
autoestima
autoestrada
auto-hipnose
auto-observação
auto-ônibus
auto-organização
autorregulamentação
ave-maria
azul-escuro
B
Baía de Todos-os-Santos
belo-horizontino
bem-aventurado
bem-criado
bem-dito
bem-dizer
bem-estar
bem-falante
bem-humorado
bem-me-quer
bem-nascido
bem-te-vi
bem-vestido
bem-vindo
bem-visto
bendito (= abençoado)
benfazejo
benfeito
benfeitor
benfeitoria
benquerença
benquerer
benquisto
bico-de-papagaio (planta)
bio-histórico
biorritmo
biossocial
blá-blá-blá
boa-fé
bumba meu boi
C
café com leite
calcanhar de aquiles
cão de guarda
carboidrato 3
causa-mortis (a...)
centroafricano 4
centro-africano 5
circum-murado
circum-navegação
coabitação
coautor
cobra-d'água
coco-da-baía
coedição
coeducação
coenzima
coerdar
coerdeiro
coexistente
coexistir
cofator
coirmão
comum de dois
conta-gotas
contra-almirante
contra-ataque
contracheque
contraexemplo
contraindicação
contraindicado
contraofensiva
contraoferta
contraordem
contrarregra
contrassenha
contrassenso
coobrigação
coocupante
coocupar
cooptar
cor de café
cor de café com leite
cor de vinho
cor-de-rosa
couve-flor
criado-mudo
D
decreto-lei
dente-de-leão
depois de amanhã
desumano
deus nos acuda (um...)
dia a dia 6
disse me disse (um...)
doença de Chagas
E
em cima
embaixo
entre-eixo
euro-asiático
eurocêntrico
ex-almirante
ex-diretor
ex-presidente
ex-primeiro-ministro
ex-secretária
extra-alcance
extraclasse
extraescolar
extrafino
extraoficial
extrarregular
extrassolar
extrauterino
F
faz de contas (um ...)
feijão-verde
fim de século
fim de semana
folha de flandres
francofone
G
general de divisão
geo-história
giga-hertz
girassol
grã-fina
grão-duque
grão-mestre
Grão-Pará
guarda-chuva
guarda-noturno
Guiné-Bissau
H
habeas-corpus (o...)
hidroelétrico
hidrelétrico
hidrossolúvel
hidroterapia
hipermercado
hiper-raquítico
hiper-realista
hiper-requintado
I
inábil
indo-chinês 7
indochinês 8
indo-europeu
infra-assinado
infra-axilar
infraestrutura
infrassom
inter-hemisférico
inter-racial
inter-regional
inter-relacionado
intramuscular
intraocular
intraoral
intrauterino
inumano
J
joão-de-barro
joão-ninguém
L
latino-americano
lenga-lenga
luso-brasileiro
lusofobia
lusofonia
M
macroestrutura
macrorregião
madressilva
mãe-d'água
má-fé
mais-que-perfeito
mal de Alzheimer
mal-acabado
mal-afortunado
malcriado
malditoso
mal-entendido
mal-estar
malgrado
mal-humorado
mal-informado
má-língua
mal-limpo
malmequer
malnascido
malpassado
malpesado
malquerer
malquisto
malsoante
malvisto
mandachuva
manda-lua
manda-tudo
maria vai com as outras
médico-cirurgião
mesa-redonda
mestre-d'armas
microcirurgia
microempresa
microestrutura
micro-ondas
micro-organismo
microssistema
minicurrículo
minissaia
minissérie
multissegmentado
N
não agressão
não fumante
não me toques 9
não violência
não-me-toques 10
neoafricano
neoexpressionista
neoimperialista
neo-ortodoxo
norte-americano
O
olho-d'água
P
pan-africano
pan-americano
pan-hispânico
para-brisa
para-choque
para-lama
paraquedas
paraquedismo
paraquedista
para-raios
pé-de-meia
pingue-pongue
plurianual
poli-hidratação
pontapé
ponto e vírgula
por baixo de
por isso
porta-aviões
porta-retrato
porto-alegrense
pós-graduação
pospor
pós-tônico
predeterminado
preenchido
pré-escolar
preexistente
preexistir
pré-história
pré-natal
pré-nupcial
pré-requisito
pressupor
primeiro-ministro
primeiro-sargento
pró-ativo
proeminente
propor
pró-reitor
pseudo-organização
pseudossigla
Q
quem quer que seja
R
reabilitar
reabituar
reaver
recém-casado
recém-eleito
recém-nascido
reco-reco
reedição
reeleição
reescrita
reidratar
retroalimentação
reumanizar
S
sala de jantar
segunda-feira
sem-cerimônia
semiaberto
semianalfabeto
semiárido
semicírculo
semi-interno
semiobscuridade
semirrígido
semisselvagem
sem-número
sem-vergonha
sobreaquecer
sobre-elevação
sobre-estimar
sobre-exceder
sobre-humano
sobrepor
social-democracia
social-democrata
sociocultural
socioeconômico
subalimentação
subalugar
subaquático
subarrendar
sub-brigadeiro
subemprego
subestimar
subdiretor
subumano (ou sub-humano)
subfaturar
sub-reitor
sub-rogar
sul-africano
superestrutura
super-homem
super-racional
super-resistente
super-revista
supraocular
suprarrenal
suprassumo
T
tenente-coronel
tico-tico
tio-avô
tique-taque
tomara que caia
U
ultraelevado
ultrarromântico
ultrassecreto
ultrassensível
ultrassom
ultrassonografia
V
vaga-lume
vassoura-de-bruxa
verbo-nominal
vice-almirante
vice-presidente
vice-rei
vira-casaca
X
xique-xique 11
xiquexique 12
Z
zás-trás
zé-povinho
zigue-zague
zum-zum
1 como adjetivo ou como advérbio.
2 preferível esta forma a "abrupto", também correta.
3 a forma carbo-hidrato também está correta.
4 refere-se à República Centroafricana.
5 refere-se à região central da África.
6 como substantivo ou como advérbio.
7 quando significar Índia + China; indianos + chineses.
8 referente à Indochina.
9 significando "facilidade de magoar-se".
10 planta.
11 chocalho.
12 planta.
Este quadro está apoiado nas obras: 
BECHARA, Evanildo. O que muda com o Novo Acordo Ortográfico. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2008.
INSTITUTO ANTÔNIO HOUAISS. Escrevendo pela Nova Ortografia. Rio de Janeiro/São Paulo, Houaiss/Publifolha, 2008.
GOMES, Francisco Álvaro. O Acordo Ortográfico. Porto, Porto Editora, 2008.





AUDIOLIVRO: "O Cortiço", de Aluísio de Azevedo

AUDIOLIVRO: "A Peste", de Albert Camus (Audiobook)

AUDIOLIVRO: "Aladim e a Lâmpada Maravilhosa", de Carlos Heitor Cony

Santo de Casa Não Faz Milagre - José Vicente Jardim de Camargo


Santo de Casa Não Faz Milagre
José Vicente Jardim de Camargo


O silêncio da madrugada na casa aconchegante do casal Siqueira é quebrado pelo cantar estridente do cuco do relógio da sala de jantar anunciando a virada do dia.

Mariana, mais uma vez, procura no rodamoinho dos pensamentos, pegar no sono que insiste em lhe escapar:

— Maldito sono que não vem! Exclama para si mesma. Com tantas coisas para fazer hoje cedo e esta bendita dúvida não me deixa em paz. Só de pensar que pode ser verdade, me estremeço toda... Não tenho forças para encarar a realidade.

Há dias vem notando um comportamento estranho nas atitudes do Celso que ficou mais arredio, distante e põe-se nervoso quando perguntado se algo o está perturbando:

— Nada que seja da sua conta! Contesta gritando, procurando desviar o assunto com banalidades como:

— Hoje vai chover? Não sei se levo o guarda–chuva. Ou se esquivando de mim:

— Tenho reunião o dia todo, não atenderei o celular, deixe recado com a secretária...

 Não fala mais do dia a dia no escritório, das deficiências e fofocas dos subordinados, das perspectivas do mercado. Até o jogo de tênis, sua paixão,  relegou ao segundo plano.

O cantar mecânico do cuco anunciando mais um passar da noite, intensifica a dúvida cruel:

— Ele me disse que iria jantar, após o expediente, com colegas da empresa, inclusive com pessoal da matriz americana. Mas, por mais assuntos que tivessem a tratar, já deveria estar de volta há muito tempo:

— Com certeza tem mesmo “rabo de saia” no meio... - Cresce na mente a dúvida incessante...

Mas, Celso nunca lhe deu motivos para suspeitas. Até lhe causa  certo remorso quando pensa na sua queda por Rogério, seu personal -trainer. Arrepia-se toda só em pensar na hora do relaxamento dos músculos quando ele lhe toca com aquelas mãos fortes, meio ásperas, massageando suas pernas, braços, pescoço subindo pela cabeça:

—Que alivio! A dor de cabeça parou... Confessa ela de olhos fechados torcendo para que ele se atreva a quebrar o limite da ética...

De repente seus pensamentos cessam com o abrir da porta de entrada.

As batidas crescentes do coração acompanham os passos atravessando a sala, subindo a escada, abrindo devagar a porta do quarto:

— Pode ascender a luz, senão vai tropeçar na banqueta que pus de propósito para acordar quando você chegasse.

— E por que?  Está com alguma imaginação fértil? Ironizou ele tirando a gravata e desabotoando a camisa.

— E poderia ser diferente? Contesta ela se pondo sentada na cama com olhar felino. Você me disse que iria jantar com colegas do trabalho, mas não que iria pra farra depois...

— Ora, deixe de fantasias! A culpa é da crise em que estamos vivendo, que nos atola de serviços... Ou você não lê jornais?

— Sim leio, só que não sabia que a tal da crise curte um inferninho até altas horas...

— Veja quem fala! Se a minha curte inferninhos na madrugada, a sua é mais chegada às massagens nas manhãs frias...

— Se não fosse meus exercícios diários, você não teria esse corpinho a disposição. Aliás, o coitadinho está de quarentena...

— Quarentena você vai ver depois do meu banho, alerta Celso jogando o resto da roupa no chão e batendo a porta do banheiro...

Mariana pula da cama e com instinto de leoa em busca da presa, corre a farejar e revistar as roupas do marido em busca de pistas que a ponham em vantagem de ataque.

Nada encontrando nas roupas, agarra a pasta executiva torcendo para que ele não tenha mudado o código de segurança. Abre-a,  e cuidadosamente, vai folheando os papéis e encontra, entre eles, uma pequena caixa embrulhada em papel de presente envolta num delicado laço de fita preso com o selo de sua joalheria preferida:

— Aqui tem coisa! Conclui Mariana examinando o achado contra a luz do abajur na tentativa de descobrir algo mais, talvez algum bilhete – “Certo que meu aniversário é na semana que vem, mas proibi o Celso de dar-me presente, pois nunca acerta nos meus gostos e muito menos nas minhas medidas. O último anel que me deu, cabia no meu dedão do pé...”

Nisto a água do chuveiro cessa de cair...

Mariana volta às pressas para a cama e finge já estar dormindo.

Celso se estica na cama e se aconchega a mulher. Mas sentindo-a inerte, volta ao seu lugar sem insistir no carinho desejado. Mesmo porque, ainda está de cabeça quente com a discussão que tivera com sua colega americana, e conta baixinho para Mariana:

— Tudo por causa de uma gringa muito metida! Só porque trabalha na 5ª avenida pensa que tem o direito de pisar em todo mundo. Mas, comigo sentiu que as coisas não são como pensa! Se quiser ganhar dinheiro aqui, vai ter de abrir as pernas e acatar minhas decisões... A reunião de hoje confirmou isso depois de semanas de discussões... A bichinha gritou, esbravejou, berrou, mas no final, com os votos dos colegas, sai vitorioso... Continuo a dar as cartas neste mercado... Mas, por outro lado, é bom não exagerar, o melhor agora é usar o jeitinho brasileiro e fazer uns mimos pra que ela não volte aos States e peça a minha cabeça para o presidente da Companhia... Espero que o presente que a secretaria comprou lhe acalme a raiva... Água marinha legítima!

Mariana, que tudo ouvia com o desejo cada vez mais lhe queimando o corpo,  não espera  mais nada... Pula em cima do marido e, entre beijos, lágrimas e aconchegos confessa:

— Quem disse que “Santo de Casa” não faz milagre? O meu transformou minhas dúvidas, meus remorsos, em fogo ardente... Melhor remédio é o corpão do maridão...

—Na próxima visita da gringa, lhe apresento a causadora do nosso desencontro - promete Celso animado com a vontade da mulher...


— Com muito prazer! - concorda Mariana, e pensa: “Só que estava me referindo às mãos ásperas e fortes das manhãs”...