ALBERTO SANTOS DUMONT UMA FRAÇÃO DA SUA HISTÓRIA - Oswaldo Romano






ALBERTO SANTOS DUMONT
UMA FRAÇÃO DA SUA HISTÓRIA

Oswaldo Romano           
                                             
         Ricardo Lenz Dumont Villares é um amigo e juntos participamos de um empreendimento imobiliário.

         Foi quando fizemos o Condomínio Toriba Resort em Campos Do Jordão. Dumont, ou melhor, Ricardo descendente da família de Luiz Dumont Villares proprietária do conhecido Hotel Toriba, com Elisa, herdeira no comando, permitiram destacar das terras do hotel dois alqueires para esse empreendimento.
         Nessa ocasião jantando no seu conhecido espaço chamado Tarandú, minha curiosidade quis ir mais fundo:
         — Ricardo você é um apaixonado por cavalos, até aulas de hipismo proporciona neste seu parque, patinação no gelo, tirolesa e tantos outros divertimentos, com esse nome Dumont devia ter aqui um aéreo clube. Quero que me conte um pouco dos seus antecedentes. Do famoso inventor. Porque Dumont, porque Villares?

         Lenz com Villares é uma união de fazendeiros, conhecida, quatrocentona. A história dos Villares pioneiros no desenvolvimento de elevadores, você me contou quando nos encontramos na sucessora Atlas.

         Agora mais um copo de vinho, e fale um pouco do Dumont.

         — Romano, a história e longa, porque só o Alberto teve sete irmãos. Eu mesmo tenho que de novo puxar pela memória, para lhe dar um pouco dessa história.

         — Aceito um resumo.

         — Mas, contando me empolgo. Vou tentar resumir.

         — Um artesão ourives francês tinha uma filha chamada Eufrásia Honoré, casada com François Dumont. Estava difícil matéria prima para o ourives. Convence a filha a embarcar para o Brasil, tanto ouvira falar das nossas pedras preciosas, principal produto da sua pequena indústria.

         — No Brasil deu certo o comércio de pedras que eram enviadas para a França deixando o sogro empolgado. Também empolgados resolveram ficar aqui, onde nasceram seus três filhos. O segundo que recebeu o nome de Henrique, era tido como o mais ousado. O pai François Dumont faleceu muito cedo, ficando Henrique responsável pela família, nessa altura com um bom emprego na Prefeitura de Ouro Preto.

         Henrique conheceu Francisca, casando-se no ano de 1.856. Homem inteligente foi encarregado de construir trecho da Central do Brasil, na região da Serra da Mantiqueira. Foi o início de um grande progresso. Pai de muitos filhos, em 20 de Julho de 1.873 nascia seu sexto filho, a quem deu o nome de Alberto. Dono de muitas fazendas, Henrique era chamado de O Rei do Café.

         Alberto, um menino admirado, com 6 anos equiparava-se aos capatazes da fazenda. Mas era uma criança, e como criança cortava e brincava com pequenos galhos providos de folhas que ao balanço imitavam voos dos pássaros. Admirava os pássaros, e o que lhe chamava mais a atenção eram os grandes, como urubus que deslizavam nas alturas.

         Crescia, e seu agitado desenvolvimento fez com que o pai o mandasse estudar na França. Lá, tão jovem, além dos estudos, ganhava elogios dos mecânicos a quem ajudava nas oficinas. Foi o primeiro a usar um motor em um balão, deixando a imprensa francesa devorando notícias. Construiu muitos aparelhos. Um dos seus balões em um concurso circundou a torre Eiffel, perdendo o prêmio Deutsch por 6 minutos a mais do tempo estipulado! Mas Deutsch contrariando os juízes, deu-lhe o prêmio de 100 mil francos. Numa demonstração de altruísmo, desprovido de interesse monetário, pediu permissão e distribuiu esse valor à pobres de Paris. Na série de aviões ficaram famosos seus 14 Biz, e Demoiselle 19, dando-lhes a honra de ser chamado o Pai da Aviação.

         O governo brasileiro pousava ao seu lado, havia controvérsia da sua sexualidade, fato na época velada pelos militares,  que muito mais poderia ter sido feito por ele, enquanto vivo. Sustentou-se depois sua importância, com reconhecimentos e muitas  honrarias.

         No Brasil, depois da sua casa Encantada em Petrópolis, instalou-se em São Paulo e no Guarujá, tentando curar sua depressão. Ver seu invento a serviço das guerras o definhou por completo.

         Certa manhã na praia, protegido pelo seu inconfundível chapéu, concentrado nos pensamentos, ouve ronco de vários aviões. Acontecia a revolução de 1932, que ele aliou-se aos Paulistas. Vê aproximar-se uma esquadrilha com um voou rasante sobre o porto de Santos. Lançaram bombas, atingindo um cruzador, dos dois que tínhamos disponíveis.

         Aterrorizado, não era o que desejava. Sentindo uma parcela de culpa, depressivo, vai para casa e nessa mesma noite suicida-se.

         — Sim Ricardo, você carrega uma grande história e conta com orgulho. Mas onde você se encaixa nessa família?

         — Romano, Alberto Santos Dumont entre oito irmãos, três delas, Maria Rosalina, Virgínia e Gabriela Dumont, casaram-se com também três irmãos Villares: Eduardo, Gilherme e Carlos! Ao todo ele teve 32 sobrinhos!

         Imagine quantos Dumont Villares deu nesses três casamentos!

         Pegando a garrafa, ofereci:

— Vai mais uma ai?

         — Opá, já é a segunda garrafa.

         — Nosso brinde final aos Dumonts!


         — Saúde, tim, tim. À nossa! Também a você, um merecedor! Ao tempo!

MOMENTO QUE ANTECEDEU A FAMA. - Mario Augusto Machado Pinto




MOMENTO QUE ANTECEDEU A FAMA.
Mario Augusto Machado Pinto

Examinava os mínimos detalhes da cena que havia terminado de pintar há alguns dias, agora exposta nessa vernissage em Etienne.

As pessoas ao redor olharam surpresas quando ele exclamou em alto e bom som: Merde, alors c’est finie!

Elas não entendiam, mas ele sim, ahn, e como! 

Olhando fixamente a tela durante algum tempo sentia que faltava alguma coisa. Logo percebeu o que era.

Veremos, veremos. Ainda pode esperar, pensou.

E lembrou-se quando tudo começou: estava posando nua no atelier de esculturas do amigo Terence. Seu corpo começou a se mexer como que o chamando para ficar ao seu lado na bergére. O desejo de ambos ficou tão evidente que Terence gritou:
Não, Não. Agora não. Mais tarde? Talvez.

Desse dia em diante ficaram amigos e amantes, além de artista e modelo.

Algo o desagradava: a impontualidade crônica. Combinavam dia e hora para trabalhar e ela, com muita frequência, enviava seu criado jamaicano avisar que não viria. O pior é que o aviso geralmente era dado no dia seguinte, mas os passeios pelos seus Alpes e Canyons compensavam a espera.

Certo dia chegou no horário e pediu para posar com um vestido novo, no seu dizer, maravilhoso, de seda, de um verde-azul brilhante que ela trazia numa caixa enorme. Queria muito a companhia de um casal amigo pintado junto com ela na tela, o da foto.

Deixo aqui. É para não andar com essa caixa toda vez que vier posar. Tchau, amore!

Veio algumas vezes no horário combinado, mas faltava tanto que perdendo a paciência, Terence disse que ela não precisava mais vir. O vestido estaria lá. Mais alguns dias e terminaria a pintura. Podia vir no próximo domingo.

Não veio e avisou que iria viajar e, na volta, passaria para comemorar o término do quadro. Isso o deixou aborrecidíssimo.

Resolveu pintar outra cena: um casal de idade olhando para fora da tela e ela à frente deles, conversando, pintada a parte detrás do vestido, um chapéu alto e o rosto, de perfil, voltado à esquerda para um salão lotado. É a hora do chá. A impressão é a de alguém procurando uma pessoa, ele o próprio, rosto pintado em cores no meio da multidão.

Ela não apareceu.

Ai resolveu tomar uma atitude: mudar o titulo do quadro.

Assim pensado, assim feito na calada da noite da véspera da premiação. Contou com a ajuda do porteiro.

Até hoje não sabe se ganhou Menção Honrosa pela pintura ou pelo titulo diferente da obra:"Você viu esta mulher? Não me avise".





A dama das Camélias - José Vicente Jardim de Camargo




A Dama das Camélias       
José Vicente Jardim de Camargo



Corria o ano de 1907 na bela cidade do Rio de Janeiro, cuja elite se esforçava ao máximo para exalar o glamour da belle epoque parisiense.

Hugo Almeida, jovem estudante de direito, mais por imposição paterna do que por vontade própria, e assim poder continuar a receber a polpuda mesada que lhe propiciava noitadas regadas ao melhor champanhe, carteado de apostas proibitivas e de fogosos agarra-agarra com as polacas na casa de Madame Helene, aguardava impecável em seu fraque, confeccionado pelo mais renomado alfaiate da elite carioca, por Isabel e sua mãe.

Não podia crer que estava se esforçando tanto para por tudo que tinha de mais invejado e cobiçado por seus amigos, a perder.

Sim, mas o que fazer, senão entregar-se ao destino, pois desde que a vira pela primeira vez, sua vida se transformou em um tormento.

A brancura e o frescor daquela pele, o carmesim daqueles lábios sensuais e a graça do porte juvenil, infundiram-lhe à primeira vista, um amor platônico e sufocante, tirando-lhe a vontade de fazer tudo que lhe era de mais agradável na vida que curtia intensamente.

Há semanas não visitava mais a casa de Madame Helene e muito menos a Faculdade de Direito. Mal dormia, mal comia e seu humor, elogiado por todos pela sua finesse e sutileza, desaparecera. Seus amigos de carteado lhe mandavam recados insistentes, temendo perder as apostas elevadas, mas nem sempre  acompanhadas de jogadas astuciosas. Só pensava na volta do amigo Teodoro de uma viagem de negócios, pois fora com ele que a vira pela primeira vez.

Foi no teatro Municipal. Estava sentada na frisa da família em companhia da mãe, viúva de um rico comerciante português. Teodoro, companheiro fiel de noitadas e carteado, percebendo a inquietude do amigo, lhe acalma o espírito, informando-lhe que a conhecia desde criança, já que seu pai e o dela foram sócios em negócios de importação e exportação e que arranjaria um encontro para apresentá-la assim que retornasse da viagem de negócios, já agendada para o para o interior do Estado.

- Mas te previno amigo, que a mãe vira uma cascavel quando o assunto envolve a filha, único fruto do seu casamento com o comendador Sampaio. É exigente no aprumo dos pretendentes e mordaz nas armadilhas de palavreados, frases e situações que arma, na tentativa de rebaixá-los e mesmo de ridicularizá-los. Tudo, em prol de um ciúme doentio pela filha ou, segundo as más línguas, para não se ver despojada da maioria dos bens deixados pelo Comendador em nome da filha.

O martírio de Hugo enfim cessou, quando recebeu um bilhete de Teodoro informando-o que a Sra. Comendador Sampaio aceitara por sua intercessão, apresentar-lhe a filha no final da estréia da peça A Dama das Camélias no lobby do restaurante do teatro Municipal.

Era praxe nas noites de estréias, fazer a ceia no restaurante e, entre goles de champanhe, tecer comentários e críticas sobre a peça encenada, direção, cenografia, figurinos e a atuação dos artistas e mesmo encontrá-los entre os comensais para parabenizá-los e solicitar autógrafos.

Logicamente não faltavam os comentários maliciosos, entre cochichos e sorrisos disfarçados, das eventuais gafes e dos trajes mais audaciosos ou mais démodé do mulheril e do “quem está com quem” do lado masculino.
No final do bilhete, Teodoro lamentava não poder comparecer ao encontro por problemas de última hora surgido nas negociações e ser indispensável a prorrogação de sua estadia no interior. Mas, dado o desespero febril do amigo, achara por bem arranjar o encontro o mais breve possível e não postergá-lo até sua volta em data incerta.
Almeida sente o calafrio dos apaixonados ao ver prestada à sua frente Isabel e sua mãe.

Sr. Almeida, diz a mãe em tom de surpresa:

- Isabel deve estar desapontada, pois imaginava que o Sr. a iria recepcioná-la com um buque de camélias, após uma peça tão romântica e, naturalmente, deve ter conhecimento por parte de Teodoro, que é sua flor predileta.

Hugo, num lampejo de segundos pensa consigo – “desgraçado do Teodoro nada me disse e esta matrona já está mostrando as presas de cascavel”...Mas, dado a sua experiência boêmia e a volta repentina de seu humor acurado, contra ataca:

- Mil perdões Srta. Isabel se a decepcionei. Estou ciente sim por Teodoro da sua predileção pelas camélias, mas, preferi ser inovador, que, aliás, é uma característica da geração jovem deste inicio de século e presenteá-la, não com uma camélia de duração efêmera, de cor neutra e de perfume adocicado, mas sim com este cravo vermelho vivo que ouso tirar da lapela de meu peito inquieto, e, ...olhando-lhe nos olhos fixamente, completa :

 - de um aroma muito, muito penetrante.

Isabel, recebendo o cravo, ruboriza-se de imediato.

Sua mãe rosna um som indecifrável e de pronto intervém:

- Sr. Almeida, está na hora da ceia, por favor, conduza-nos à mesa.

Hugo, à frente, atravessa o salão em direção à mesa estrategicamente reservada por ele num canto menos visível do restaurante.

Os comensais, que miravam o trio passar, retinham mais a atenção, não na dupla feminina, mas sim no jovem da frente, nem tanto pelo seu porte esbelto, mas mais pelo sorriso discreto e contagiante que trazia abaixo daquele bigode milimetricamente aparado, como se, diriam os cavalheiros jogadores de pôquer, tivesse acabado de baixar à mesa, um “Royal Flush”, a seguida máxima de ouros...



Olha a turma comemorando o aniversário da Suzana. Parabéns para ela!



O copo - Suzana da Cunha Lima




O COPO
Suzana da Cunha Lima


Não sou um copo comum. Fui idealizado por um designer famoso, que me criou em puro cristal, com um pé ricamente trabalhado. Ele me imaginou em brindes em salões suntuosos e acompanhando vinho de safras famosas.  

Realmente eu frequentei as melhores mesas, nas mais finas comemorações.

Porém o desleixo de alguns serviçais, foi acabando com o restante de meus irmãos. Éramos doze, só eu restei. E desta maneira, passei para “o uso doméstico”, vejam só...

E esta mulher, que herdou o outrora belíssimo jogo de cristais do qual eu fazia parte, não entende nada de refinamento nem de elegância, não sabe dar valor a uma obra de arte num material tão precioso como o cristal. É muito tosca e me utiliza como um copo comum, de vidro barato, onde coloca coca-cola ou outro refrigerante horroroso e dá para seu filho, um moleque sem nenhuma educação.

Ah, não pude suportar mais tanta ignorância.  Tanto fiz que acabei caindo no chão. Antes destroçado e aos pedaços, do que servindo bebidas bregas, em mesas sem nenhuma classe ou elegância.

Ah, ninguém merece!


Antes da Viuvez - Vera Lambiasi

                         
Antes da Viuvez
Vera Lambiasi

Helga, chata de galochas, cuidava do marido com esmero. Lavava, passava, engomava, cozinhava um chuchu como ninguém.

E o tal, não lhe dava o devido valor. Debochava de seu trabalho doméstico, e odiava chuchu com toda sua força.

Funcionário público dedicado, deixava a repartição no final do dia, levando para casa ainda muita papelada.

A esposa o acolhia já de banho tomado, com seu peignoir acolchoado cor de rosa. Servia o jantar, e corria para a sua novela.

Assim eram as noites no lar quase feliz dos Ribeiros.

Filhos crescidos, casados, com suas próprias famílias. Netos raramente vistos.

Helga encerava tanto o synteko que as crianças não tinham ousadia de brincar na casa dos avós. E a distância foi ficando cada vez maior.

Sr Ribeiro, cansado da vida sem graça, ao se aposentar, propôs à Helga pegarem um trailer e caírem no mundo.

Negado o convite, foi-se sozinho e nunca mais deu notícias.

Até que ela recebeu um telefonema da polícia informando a morte do marido.


E finalmente passou do estado de abandonada à viúva.

GUARDA-CHUVA GENIOSO - Suzana da Cunha Lima



GUARDA-CHUVA GENIOSO
Suzana da Cunha Lima

Olhei para o céu. Nuvens negras avisavam de chuva iminente.  Já fiquei ansioso porque eu e meu guarda-chuva vivíamos brigando por causa das varetas que eu não consertava. Era vaidoso, o danado.   De pirraça, ele custava a abrir e a chuva me ensopava todo. Eu já estava cansado daquelas briguinhas bobas, então conversei com minha velha capa de chuva, amiga de tantas campanas do tempo que eu era investigador, e armamos para ele.

Quando saí do carro, pedi com muita gentileza que ele se abrisse, pois a chuva já caía forte. Mas aí que ele emperrou de vez.  Então me cobri com o capuz da capa e andei rápido com ele na mão até encontrar uma caçamba de lixo. Ali mesmo o deixei, e segui indiferente aos seus pedidos de desculpa. Suas varetas tremiam descompassadas, ele estava meio aberto, meio fechado, fazendo força para sair dali.  Uma lástima!

- Traidor, gritei.  Quem vai te pegar agora vai ser um mendigo. Ou o lixeiro te esmaga na máquina e  vais servir de serragem.  Cansei! Agora é com nós dois, minha velha capa - disse alisando a capa.
Ela sorriu satisfeita e ainda fez um gesto feio para ele, preso entre os sacos sujos e mal cheirosos. 


Confesso que fiquei com muita dó, ao vê-lo soluçar agarrado na beira da caçamba para não se sujar no lixo. Era cheio de frescuras e chiquezas...

UMA CARTA - M. Luiza de Camargo Malina


UMA CARTA                           
M. Luiza de Camargo Malina
                                                               
Destinatário: Lápis                                                              
Remetente:   Caneta

Meu amigo, eu quero te contar uma história.

Era uma vez um estojo cheio de lápis apontados. Resolveram fazer greve. Acostumados que estavam aos risos, não queriam mais escrever. O medo havia tomado conta do estojo. As pontas se quebravam na primeira letra a ser escrita. O papel se assustava. O doutor apontador cansado de deixá-los com a ponta certa,  emperrou e disse:

 - Estão de brincadeira comigo. Chega!

A mão não vacilou. Usou a caneta. As pontas do cilindro de grafita espiavam apavoradas, às escondidas de dentro do tronco de madeira. Uma delas disse:

                - E não é que vai escrever mesmo! Tomara que a tinta acabe.    

                              Começou assim:

“A cada dia fico mais triste com o que estão fazendo com minha São Paulo. Passeava vendo o mundo pelo bolso da camisa do meu “amo”, até  óculos escuros eu usava. Brilhava, era uma vedeta, depois passei a ser vedete. Mas eu era! Nos dias de rodízio do carro, ia  com meu “amo” de bicicleta, ôps, de “bike”,  é mais chique. O vento era muito gostoso. Ele não me largava para nada. Na sala de aula os alunos me olhavam e eu os espiava pelo bolso. No escritório eu era respeitada como meu “amo”, bonita caneta diziam!  Agora não saio mais, sequer posso saborear o deslizar da pena numa folha de papel. Fico engavetada no estojo de veludo. Às vezes ele me pega e fica me olhando meio tristonho, me rola entre os dedos, conversando ao telefone.  Num destes dias ouvi uma conversa esquisita, acho que foi a última vez, aí ele me guardou.

Ele não deixou de me amar. Só não pode me levar a passear e escrever, por cuidado.

Depois de tanto tempo engavetada, estou em cima da mesa e vejo as crianças brincarem no escritório, fazendo as lições. Uma delas me encontra. Fica olhando admirada o meu brilho girando entre os dedos, como meu “amo” fazia e, pergunta a mãe:

- Mamãe! Posso usar isto aqui?

- Um dia filhinha, logo, logo, você a usará! Ela é uma caneta mágica. Escreve palavras transformadas em poemas muito especiais. Seu pai a usava para registrar nossos momentos, como o nascimento, os aniversários de vocês e outras belas lembranças.       Um dia vou lhe mostrar tudo isto. Ele ganhou de seu avô no dia da formatura de Engenharia.

- Mamãe, então eu também preciso estudar engenharia para ganhar esta Caneta?

Agora sou eu que não consegui entender mais nada! - diz a caneta.

Um abraço,
Caneta de Ouro, Cross, Irlanda

São Paulo, 27 de janeiro de 1967.

O REINO DO IMPOSSÍVEL - Suzana da Cunha Lima




O REINO DO IMPOSSÍVEL
Suzana da Cunha Lima

O bosque do Duque era o tesouro do reino dos besouros gigantes. Era regado com as lágrimas das folhas voadoras e mantido sempre verde e colorido pelos saguis pintores.

O Duque gostava de passear entre as árvores transparentes através das quais seu corcel trotava garboso.

Às vezes  a dianteira do corcel se separava da traseira. E com ele  próprio acontecia o mesmo: Suas pernas e tronco iam para a frente, enquanto sua cabeça e tronco se ajeitavam na garupa do animal.

Uma brincadeira gostosa que revigorava o Duque, e o deixava pronto a voltar a governar seu pequeno reino de verdes ondulantes, que tinha céu, mas não tinha chão.




Paris, 1909 - Vera Lambiasi



Paris, 1909
Vera Lambiasi

Anna e seu segundo marido, o duque de Perigord, se preparam para a grande noite no restaurante Pre-Catelan. Tout Paris estará na casa do Bois de Bologne, e ela queria estar deslumbrante.

Conseguiu uma modista de última hora na rua Cambon, para fazer seu vestido longo em renda, e a capa cor de carne. Chapéu, sapatos, bolsinha e pinciné!

  – Preciso enxergar todos os detalhes!

Sabe que vai esbarrar nos salões com a mundana Liana, sua antiga rival.

E até com Santos Dumont, brasileiro queridinho dos franceses, nos tempos que correm.

   – Bem que gostaria de dar uma voltinha no Demoiselle. Oh-là-là.

–        Helie, my love, você me apresenta o Marquês de Dion? Dizem que está projetando um novo automóvel!

–        Quero entrar para a sociedade elegante da França e conhecer todos os lugares da moda.

–        Sim para todas as suas perguntas, minha americaninha!

Divertia-se o duque com sua amada. Conheceu Anna em New York, ainda casada com seu primo, Boni. Tinha muito dinheiro de família, seu pai era um abastado banqueiro.

Juntaram a aristocracia europeia com as finanças americanas, em um casamento espetacular.

Não sabiam, mas eram também muito aguardados naquela noite de festa. Afinal, todos queriam conhecer uma dama riquíssima do novo mundo.

Liana se mordia de ciúmes, por não ter fisgado o duque, e espalhou por toda cité boatos horríveis sobre Anna. Desde uma doença contagiosa até demência. E os nobres punham em xeque a própria sanidade do duque, em ter se casado com uma louca.

Anna e Helie não tinham ideia do que os esperavam.

E chegando à grande soirée foram interpelados de pronto por uma dama de verde, de olhos afogueados.

Anna foi informada, ali na entrada da grande maison, que seu pai havia falecido, nos Estados Unidos, e ela devia partir no primeiro navio.

Foi-se sua vontade de entrar na elite francesa naquela noite. E uma dor imensa pela morte do seu mentor.

Sonhos adiados, obrigações a cumprir, ela se deu conta de quanto foi feliz com as futilidades pré-festa.

Partiu em desespero para o outro lado do Atlântico, para saber, ao chegar, que seu pai gozava de plena saúde. A alegria preencheu sua raiva pela notícia inventada.

Enquanto isso, em Paris, Liana tentava, mais uma vez, conquistar o coração do duque.

Em vão, Helie aguardava ansioso a volta de Anna. A senhora de verde, indagada pelas falsas palavras, acabou por tudo confessar e incriminar Liana.

Anna ao retornar, entra finalmente para a aristocracia francesa, desta vez em um baile em Versailles!

E sem ter a algoz por perto.


Muito melhor!



A HISTÓRIA DE HELGA - Oswaldo Romano



A HISTÓRIA DE HELGA

Oswaldo Romano                                                        

         Mesmo morando num castelo acostumada a ouvir fantasmas, contadas em tantas histórias, Helga nos seus quatorze anos vivia absorvida pensando como seria seu futuro.

         O imenso jardim do castelo mostrava centenas de enormes árvores que impediam a entrada do sol. Helga vestida com seu transparente vestido branco, corria entre as arvores dando luz àquele espaço. Imaginava a qualquer momento encontrar seu príncipe encantado. Imaginava-o saindo detrás de uma daquelas enormes castanheiras, brilhando com uma coroa de ouro na cabeça, camisa branca, calça bufante até os joelhos, legging de veludo vermelho que disputava espaço com as longas botas.

         Imaginava que empunhasse um cetro real e que a vendo corresse em sua direção. Sua capa esvoaçando destacaria o forro vermelho purpuro.

         A esperança não morria. Voltava constantemente, cada vez mais, desenhando aquele quadro. Numa tarde, todo ambiente ficou rosado, mostrando que nas alturas o sol caia ruborescendo as nuvens.

         Entusiasmada, tomada pela floresta viva, enquanto corria cantava sua canção de amor. Alguns pássaros a acompanhavam levando-a a dar profundos agudos. Jogando-se, dando voltas, presa a uma arvore menor, notou entre a neblina que surgia uma imagem colorida. Helga cheia de espanto e esperança, cerrando os olhos, seu corpo tomado de emoção vislumbrou entre nevoa seu esperado príncipe.

         Helga fechava as pupilas tentando clarear aquela imagem. A neblina esvoaçando disputava espaço naquele corredor, fechando sua visão.

         Foi tomada de desejo que soltando o tronco da arvore, postou-se no meio do caminho, abrindo os braços com frenesi, bradava:

         — Hei, hei estou aqui. Olha! Estou aqui!

         Desesperada tirou seu lencinho branco entre os seios, momento que exala seu perfume e agitava-o ao vento.

         A visão, mais prejudicada começou duvidar ser verdade. Mas ela viu, culpa dessa fumaça, dessa nuvem que já a alcançava.

         Um susto! Da nuvem entre vagas vê-se uma imagem esvaecida multicolorida.

         — Oh Deus! É você? É você?

         — Em carne e osso, veja!

         — Oh Deus, minha vista escurece.

         — Mas quem é você?

         — Espere... Ele pediu. Veja-me!

         Clareando a vista dela, ele cumprimenta-a e dando pulinhos, curva-se e fala:

         — Sou o bufão do castelo para lhe servir princesa.

 Helga caiu em convulsivo choro correndo para casa.

 Jamais passou por tamanha desilusão.

         Cresceu, e na realidade conheceu Angelo com quem ficou casada por dez anos, morando numa enorme casa na pequena cidade de Taurina. Com a morte de Angelo, ficou só nessa enorme casa, coisa que não estranhava porque quando solteira viveu no castelo de cento e vinte cômodos.

         A noite protegida pelo seu edredom pouco ligava pelos ruídos da casa, pois muito mais tinha, no palácio. Com seus 50 anos, seu pensamento estava ligado em encontrar um novo amor. Pensava no vizinho.

         Doutor, homem probo, discreto a cumprimentava mantendo por instante seu olhar. Prometia.

         Uma noite ouviu barulho acima do normal. Pensou:

         — Estão roubando o carro dele a quem alugo a garage.

Não acendeu a luz, pé ante pé foi espiar na fresta da veneziana.


         — MEU DEUS! BOTARAM-LHE ALGEMAS. ELE ESTA SENDO PRESO!

Adeus ano velho, feliz amor novo! - Suzana da Cunha Lima



Adeus ano velho, feliz amor novo!
Suzana da Cunha Lima

Marina da Glória, 31 de dezembro, 23 horas.

A escuna começou a se mexer lentamente, ao som da música marinheira:.”qual cisne branco, que em noite de lua, vai deslizando num mar azul...*

.Ao longe, Niterói, um colar faiscante de luzes, esforçando-se para  aparecer. Não é fácil ser irmã do Rio de Janeiro, a joia mais bela de nossa costa.

No céu, a lua cheia, que havia se preparado tão cuidadosamente para enfeitar a noite do dia 31, tentava espantar as nuvens que ameaçavam chuva e iriam estragar o espetáculo do Ano Novo, ansiosamente aguardado pelo povo apinhado na praia. A lua venceu e ao costearmos a praia do Flamengo, já brilhava gloriosa rodeada de estrelas, derramada num mar de almirante.

Toda a orla da baia de Guanabara estava enfeitada com mil luzes e mil cores. A escuna deu a volta no Morro da Viúva e passamos para a praia de Botafogo, a brisa leve arrepiando meus cabelos. Milhares de luzinhas brilhavam no bairro da Urca e nas encostas dos morros.

Subitamente vi-me mocinha, num passeio igual, enfrentando os vagalhões da Fortaleza da Laje, só para tomar banho em  Piratininga, a primeira praia fora da Barra, em terra fluminense.   Não queria aparentar medo para o namorado recente que pilotava com orgulho sua modesta lancha, mas estava completamente apavorada.

Depois desse, foram muitos e muitos passeios pela baia de Guanabara, com algumas incursões em mar aberto, até a ilha de Cutunduba, ilhota sinistra, de vegetação rala e pedras ásperas, sempre espancada por um mar enfezado, batido como claras em neve..Fui perdendo o medo, mas confesso que ainda ficou um restinho dele, principalmente à proximidade de ondas grandes.

 E agora eu estava lá, outra vez.  Mulher feita, com novo companheiro, seguindo aquela rota tão conhecida, tantos anos depois.

A escuna saiu para mar aberto, contornou o Morro da Urca, quase roçando o Pão de Açúcar. E, finalmente, ela surgiu, Copacabana!

Tão falada, cantada em prosa e em verso, talvez a praia mais conhecida do mundo.

O DJ, para entrar no “clima”, tocou Copacabana, imortalizada por Dick Farney:

Existem praias tão lindas, cheias de luz
Nenhuma tem o encanto que tu possuis
Tuas areias, teu céu tão lindo
Tuas sereias sempre sorrindo

Copacabana, princesinha do mar
Pelas manhãs tu és a vida a cantar
E a tardinha ao sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente

Copacabana, o mar eterno cantor
Ao te beijar ficou perdido de amor
E hoje vive a murmurar:
"Só a ti, Copacabana, eu hei de amar"

.
Copacabana, ali estava, com toda pompa e circunstância!  Cintilante, com sua melhor roupagem e suas joias mais preciosas, sabendo-se bela e única! De onde estávamos dava para ver uma multidão de gente vestida de branco na praia;  parecia um monte de pipocas jogadas na areia.  As balsas dos fogos estavam bem à nossa frente.

Muitas embarcações, grandes e pequenas, transatlânticos e escunas, iates, barcos de pescadores e pequenas lanchas ali esperavam os fogos, Iluminadas e festivas, a velha esperança de início de ano, tão acesa como suas luzes.

Nossa escuna procurou um lugar e fundeou. Eu estava muda de emoção, nunca tinha visto os fogos do mar. Até a passagem pela orla tinha sido muito emocionante. De noite, as coisas se vestem de mistério e de magia. Nada melhor para incrementar um novo amor. Senti meu parceiro me beijar a nuca e despentear meus cabelos e, subitamente, nosso Dj, muito inspirado, começou a tocar  Assim falou Zaratustra, uma música maravilhosa e impactante. Faltavam poucos minutos para a meia-noite.

Logo depois,com uma voz possante, ele iniciou a contagem regressiva e nós todos da escuna, começamos a contar juntos, de olho no relógio:

 Dez, nove, oito.... eu prometia, pedia e agradecia – ele não parava de dizer eu te amo, eu te amo. Sete, seis, cinco... ficamos em pé e começamos a jogar flores na água.. Quatro, três, dois e um... Zero!!!

Foi um estrondo o início do espoucar dos fogos. Voltei-me para meu companheiro e nos abraçamos e nos beijamos, explodindo amor por todos os lados.  Intimamente agradeci a Deus ter-me permitido viver este momento, exorcizando outros, nem tão felizes. Viver o nascer de um novo ano e de um novo amor, no meio do mar, iluminados por aqueles fogos estonteantes e tomando Prosecco, é mais do que um privilégio, é uma graça divina.

E de repente nos deu uma Epifania. Nós nos olhamos e tanto eu quanto ele pensamos a mesma coisa: Sem precisar dizer nada um para o outro, tiramos os sapatos, eu o vestido (ainda bem que eu estava de biquíni) e ele a camisa e nos atiramos no mar. Águas tépidas e mansas, o luar brigando com os fogos, cada um querendo aparecer mais do que o outro e nós dois ali, abraçados, o coração batendo como louco. Que momento surreal!

Estávamos tão enlevados que quase não ouvimos os gritos do marinheiro nos chamando para voltar. Por pouco não ficamos ali mesmo. Quando subimos à escuna, sinceramente, pensei que ia morrer de tanta felicidade.  O marinheiro já estava com toalhas na mão, a copeira com duas taças de Proseco e nossos companheiros de passeio batiam palmas e cantavam:

Adeus Ano Velho
Feliz Ano Novo
Que tudo se realize no ano que já nasceu
Muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender...
 Para os solteiros, sorte no amor
 nenhuma esperança perdida
Para os casados, nenhuma briga
Só paz e sossego na vida

E viemos a viagem de volta na maior farra com o pessoal do barco, todos querendo conhecer nossa história. Fizemos trenzinho na pequena pista de dança da escuna, dançamos, rimos e nos divertimos muito.  Foi fantástico, inesquecível, porém o momento em que nos olhamos, sem dizer nada  para entrar no mar, me deu certeza que eu tinha agora um parceiro para toda a vida. Um cúmplice que estaria sempre a meu lado, validando todas minhas loucuras.


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Músicas Citadas

O Cisne Branco
Autores; 1º Sargento do Exército: Antonio Manoel dos Santos
                2º Tenente : Benedito Xavier de Macedo
Copacabana:
De: João de Barro e Alberto Ribeiro

Assim falou Zaratustra
De Richard Strauss
Música tema do filme “Uma Odisséia no Espaço” de Stanley Rubrick

 Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo

De Francisco Alves e David Nasser


COMO PODERIAM TER VIVIDO ESSAS PERSONAGENS ANTES DE SEREM FAMOSAS?




O Chá / Pintado por Healey, pode ser experimentado no Hotel the Ritz em Piccadilly, Londres.


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