O encontro do vírus com a bactéria. - Fernando Braga





O encontro do vírus com a bactéria.
Fernando Braga

14-04-2019   Dia nacional do neurocirurgião


Ele era um cabra forte, com físico avantajado, considerado bonitão no ambiente em que vivia. Já tinha namorado a grande maioria das bactérias, desde as menos, até as mais resistentes ao grande inimigo, o antibiótico.

Um dia, ele se encontrou com uma superbactéria e assim que a viu sentiu como que uma flecha atravessando seu peito. Ao olhá-la, potente, mas feminina, corpo hexagonal, logo pensou fazer de sua vida, uma vida paralela à dela. Tendo tido muitas experiências anteriores, aproximou-se feito uma marola suave que apenas cobre os pés na areia, e foi perguntando o seu nome. E ela lançando um olhar melindroso, respondeu que se chamava Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase, mas que podia chama-la de KPC.

Ele inflou o peito mostrando satisfação e orgulho, com voz imposta, se apresentou como o Mr. Herpes Zoster, cujo apelido era “cobreiro”, descendente da família do vírus da varicela, também causador da catapora. Ela pondo a mão no coração, pasmada, referiu que já o conhecia de nome, de sua fama, pois ele tinha tido caso com a maioria de suas perigosas amigas, a Salmonella, a Shiguella, a Escherichia coli e até com sua prima a Klebsiella , com a qual brigou por causa da Pseudomona Aeruginosa, aquela desalmada e outras mais, todas conhecidas como bactérias super-resistentes.

Ele convidou-a para um passeio e trocarem ideias e assim ocorreu, notando que ela havia se interessado também por ele. Após se sentarem em um banco, ela perguntou o que ele fazia. Respondeu que tinha a vida calma, permanecia em latência até que alguém mais velho, ou aquele que tivesse uma queda imunológica como os portadores de hipertensão, diabetis, câncer, Aids e principalmente os transplantados, aparecessem em sua frente, e aí os atacava.  Enfatizou que gostava mais de entrar nos nervos do tórax dos humanos, nos intercostais produzindo dor, coceira, febre e depois o que mais o deliciava era formar vesículas ao longo destes nervos, de um lado apenas e, que os humanos chamavam de cobreiro. Daí o meu apelido. Demoro uma semana ou duas em atividade e daí parto para outras, mas estas minhas vítimas vão continuar sofrendo por muito tempo após minhas vesículas terem secado, deixando uma marca. Aí sobrevêm uma dor atroz, com sensação de queimação, inchaço, que piora quando qualquer coisa toca a região lesada, até um simples toque, mesmo um sopro. Causa um sofrimento diuturno e não é qualquer remédio que vai aliviar ou curar, nem mesmo as cirurgias de denervação local.

Eu sou foda, minha amiga! E outra coisa, não quero que me confunda com meu primo o herpes simples que é um sacana, malandro e fica sempre de prontidão para se desenvolver, causando aftas, e feridinhas nos lábios, na boca e partes genitais, e fica esperando que as pessoas se beijem, ou façam sexo, para agir.

Gozado que outro dia, encontrei com um amigo, cujo apelido é “pé de atleta” ou frieira. Adora ele formar micose nos pés, coceira intensa entre os dedos, com descamação e rachaduras. Aparece naqueles caras que usam tênis, calçam-no sem enxugar bem os pés e costumam não usar chinelos em banheiros públicos, clubes. Me contou que estes indivíduos adoram passar o indicador entre os dedos dos pés para coçar e depois cheirá-lo. Por que será? Eu também não soube responder.

Olha, muitas vezes ataco também o nervo do rosto causando nevralgia do trigêmeo, terrível e também o nervo do ouvido levando à surdez e em casos raros, até produzo uma encefalite. Meu primo, o que dá o herpes labial, mais do que eu, pode dar uma meningite e encefalite. Cruz credo para os humanos!

A mim, estes nojentos antibióticos, seus inimigos nunca me atingiram.

Bem, já falei muito de mim, fale agora de você, que parece garota muito importante! Confesso que “Não te guento”!

Bem, não me julgue jactanciosa, mas eu simplesmente sou a bactéria mais super    resistente da atualidade, nenhuma se equipara a mim. Me descobriram nos USA apenas em 2000, logo, sou ainda uma mocinha. Venho de uma geração de bactérias que sofreram muitas mutações genéticas para adquirirem resistência ao nosso grande inimigo, o antibiótico, que começou a ser usado em 1940, durante a guerra. Veja bem, muitos e muitos antibióticos surgiram para nos matar, mas agora a mim, não fazem muito mal, pois resisto a todos. Causo pneumonias, infecções nos tratos urinários, infecções sanguíneas, em feridas cirúrgicas  posso produzir uma infecção generalizada. Levo a maioria à morte.

Os debilitados fisicamente e as crianças são os meus preferidos. Vivo sempre em hospitais e detesto a higiene usada em muitos deles. Agora deram de lavar as mãos, passarem aquele gel com álcool, que muito me irrita. Mas, não consigo viver fora dos hospitais. Quando me acham presente em exame de laboratório, procuram isolar a minha vítima, tolhendo-me os passos.

Sinceramente, quero ver logo o que se chama de “o apocalipse dos antibióticos¨. Demorou muito anos para que meus ascendentes fossem criando resistência a eles, principalmente graças àqueles que viviam tomando antibióticos desnecessariamente ou fazendo tratamentos incompletos. Graças a isto, hoje aqui estou eu, inteirinha. Espero viver muito, mantendo esta resistência!

Ouvi dizer que em 2050, só mais 30 anos, vamos matar uma pessoa a cada 3 minutos no mundo! A Salmonella e a Shigella, minhas amigas, que você namorou, têm matado cerca de cento e sessenta mil  pessoas todos os anos, através de alimentos contaminados.

O diabo é que também ouvi, que agora estão usando uma nova versão da Vancomicina, do qual sempre tive muito medo. E ainda, que estão quase no ponto de usarem a chamada bactéria canibal, com o nome muito estranho de Bdellovibrio bacterriovorus , um antibiótico vivo, capaz de nos destruir, principalmente minhas amiguinhas  Salmonellas e as Shiguellas. Este sacana canibal tem uma movimentação muito rápida, se infiltra dentro das bactérias e depois de se alimentar, se replicam e explodem em seu interior. Os testes de laboratório têm mostrado que no caso das Shiguellas, 99,9% delas, desaparecem pela ação destes miseráveis canibais!

Bem meu amigo, já conversamos e perdemos muito tempo! Vai dar algum programinha ou não? Eu também não te guento!

AGENTE LITERÁRIO - UM CAMINHO NECESSÁRIO



AGENTE LITERÁRIO - UM CAMINHO NECESSÁRIO

Com essa nova onda de novos escritores as editoras se abarrotaram de manuscritos, e muitos deles nem lidos já são rechaçados. Não, não por falta de profissionalismo das editoras, e por causa da demanda e da qualidade dessa avalanche. Há empresas que já estampam aviso: 

Manuscritos, somente através do Agente Literário. 
Mas o que faz um Agente Literário?

Esse profissional é capacitado para avaliar o manuscrito e optar pela editora que tem afinidade com o tipo do seu material. Ele vai representar o autor perante a editora, contratos, acompanhar o andamento do processo.  

Esse agenciamento encurta caminho e facilita tratativa. 

É claro, o texto antes de chegar às mãos do agente literário, passa por várias esteiras de tratamento com profissionais qualificados:

- Leitura crítica - é fundamental 
- Revisão ortográfica 
- "Faxina" - cortes - copidesque
- Reestruturação o texto.
- Boa apresentação do material.
etc

Mas, a contratação do agente garante a publicação.

Não, não garante. No entanto, é o caminho para seu manuscrito seja lido pelos profissionais das editoras. 

Grandes nomes da literatura contratam ou contrataram um agente que faz a intermediação do contato autor / editora. Quer ver?

Rubem Fonseca, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles, Adélia Prado, Zuenir Ventura, Erico e o seu filho, Luis Fernando Veríssimo, Ariano Suassuana, Rachel de Queiroz, Lya Luft,  Mário Quintana e uma infinidade de outros nomes são agenciados pela AGÊNCIA RIFF

Ver entrevista com  LUCIA RIFF.


Há centenas de agentes literários, e há muitas formas de orçar esse serviço. Se houver interesse, faça uma busca na internet. Cuidado com quem faz negócios.

Fica a dica.

Boa sorte

Persona non grata - Ledice Pereira



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Persona non grata
Ledice Pereira


Cá estou confinada neste vidrinho minúsculo, isolada de tudo, nadando nessa aguinha azul sem poder me mexer. De vez em quando, acendem uma luz forte que me cega e percebo que me observam com lentes grossas presas a um monstro preto gigantesco.

Bem que me avisaram pra ter cuidado, que podiam me escolher como amostra. Não dei ouvidos. Achei que jamais seria escolhida. Eu me achava tão insignificante!

Sei que não estou no meu melhor aspecto, mas procuro ser discreta. Só me aproveito de corpos debilitados. Também, quem manda ficarem fracos. Vou lá e me reproduzo mesmo.

Foi assim que fui escolhida. Estava tão bem instalada naquela faringe. E a dona só fazia tossir: coff, coff, coff.  Achei que ia me deixar ficar. Não botou nada para me afogar.

Mas ouvi alguém falando que ela devia ir ver o que estava acontecendo. Foi. E aqui estou eu, pobre bactéria, morrendo de medo. Coisa boa não irá acontecer. Sinto-me desfalecer. Acho que é o meu fim. Adeus! Fui!



CRUZ CREDO ! - Sérgio Dalla Vecchia




CRUZ CREDO !
Sérgio Dalla Vecchia



Certa noite Alberto teve um sonho assustador. Não chegava a ser um pesadelo, mas foi tão real que se encaixava muito bem no modo de pensar de alguns governantes de superpotências.

Nele viu a imagem de um médico indignado desabafando nas redes sociais. 

Dizia ele que pesquisou em várias fontes que superpotências já praticavam métodos de controle demográfico mundial. Utilizavam métodos sutis de envenenamento, inserindo vírus, bactérias e outras substâncias toxicas nas tradicionais vacinas, aplicadas principalmente nas populações mais carentes. O objetivo era reduzir para um terço a população mundial e livrar-se de todos os carentes, formando assim uma população saudável e instruída através dos mais fortes.

Surgiam flashes de povos famintos na África, guerra na Síria, pessoas agoniadas morrendo nas fugas pelo mar em embarcações frágeis.

Pensava nos netos, nos jovens e suava frio. Agitado revirava-se na cama, na dúvida entre o real e o imaginário, vivenciando cada cena do sonho, quando ouviu uma voz suave.

—Bom dia querido, acorde, hoje inicia-se a campanha de vacinação contra a gripe, lembra-se, combinamos de irmos agora cedo ao posto de saúde.

Ainda sonolento, esfregou os olhos e olhando firme para a esposa disse:

Desculpe, mas não iremos hoje nem que a vaca tussa, depois explicarei, preciso acordar bem devagar!




SORTE DELA - Sérgio Dalla Vecchia



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SORTE DELA
Sérgio Dalla Vecchia


— Lá vai a Gení no carrão conversível, exclamou Vera para a amiga!

— Sorte dela, retrucou a amiga dando de ombros.

Assim, Gení acelerou o possante, deixando para trás as duas amigas respirando os gases dos rombudos escapamentos e ouvindo o som redondo do motor equilibrado.

Mais adiante, Gení deparou-se com uma vaca no meio da pista, fez uma manobra brusca e acabou despencando numa ribanceira.

Logo depois, as amigas passaram por ali, viram a cena e Vera comentou.

— Coitada da vaca, acho que morreu!

— Qual delas, retrucou a amiga?

— A Gení, é claro!

— E a outra?

— Vivinha, respondeu Vera.

— Sorte dela, disse a amiga dando de ombros!



A menina da mochila - Vencendo preconceitos - Ises A, Abrahamsohm



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A menina da mochila
Ises A. Abrahamsohn

Eu sou jornalista do tipo frila. Para quem não sabe é a gíria de “free-lancer”. Escrevo sobre alguns assuntos de meu interesse, entre eles literatura escrita por mulheres e relações interpessoais. Envio para algumas revistas. Se gostam de um artigo, compram. Trabalho na Inglaterra e na Europa com revistas publicadas em inglês.

Estava numa livraria folheando um livro de Lupita N’gila Dorothy Brown. “Uma garota nigeriana em Londres”. Na contracapa havia uma fotografia que me chamou a atenção. Uma garotinha negra, vestida com roupas velhas muito gastas sentada na terra vermelha laboriosamente escrevendo com lápis letras num velho caderno. Nas costas uma surrada mochila. Queria há tempo escrever sobre essas crianças africanas, algumas sortudas que foram adotadas e cresceram na Europa e quem se tornaram. Li o livro de Lupita em duas horas. Lupita N’gila era seu nome na aldeia africana. Era sobrevivente de um ataque do Boko Haram ao povoado de Dalore no norte da Nigéria.

A pequena Lupita por obra do destino se salvou por ter ido ao amanhecer urinar na latrina que ficava a uns cinquenta metros da choupana, na borda do campo de mandioca. Ao ouvir o barulho das caminhonetes, os gritos e tiros, entrou na plantação, se enfiou num buraco e se cobriu com galhos.

Fiquei pensando na garotinha de oito anos ali, imóvel, apavorada, e sentindo o cheiro da fumaça dos casebres queimando. Quieta permaneceu no buraco mesmo depois que pararam os tiros, e quando só se ouvia o vento quente do deserto dançando entre as folhas do mandiocal. Ficou lá até o meio da tarde, com fome e sede. Só saiu quando ouviu vozes em inglês e na língua local chamando pelos habitantes. Os pais e toda a família estavam mortos e a esquálida morada tinha virado um monte de madeira queimada e cinza.

Lupita foi levada para o recolhimento de um orfanato de passagem. Foi lá que uma das enfermeiras lhe deu uma mochila bem surrada, um velho caderno e dois lápis. Todos os dias ela sentava no pátio de terra batida em frente ao barracão de madeira do acolhimento e copiava as palavras que a enfermeira Dorothy escrevia no caderno. Tinha um lápis azul e um vermelho. Alternava uma palavra de cada cor. Depois orgulhosa ia mostrar à enfermeira que a abraçava e dizia que um dia seria escritora.

Era a enfermeira que tirava as fotos das crianças órfãs e foi a foto que aparece na capa do livro que tenho nas mãos que fez com que Lupita fosse adotada. O casal inglês, os Brown, se encantou com a menina compenetrada escrevendo ali mesmo no chão, em pleno sol, alheia a tudo que se passava à sua volta. Lupita, ao se despedir da amiga, pediu que ao seu nome ajuntassem também o da enfermeira. Explicou que assim era feito na sua família que o nome de uma madrinha ou tia protetora era adicionado ao nome das crianças.

E ela viajou para a Inglaterra já como Lupita N’gila Dorothy Brown. Inicialmente a família morou em Plymouth. Depois quando Lupita tinha treze anos mudaram-se para Londres. O livro narra ainda alguns episódios de adaptação de Lupita à nova vida e à escola. Aparentemente era uma garota muito inteligente. Aos dez anos tinha superado a defasagem de escolaridade e se saía muito bem. Os pais adotivos foram muito amorosos e dedicados.

Nesse livro ela não fala quase sobre os problemas que deve ter tido para se acostumar com a vida na Inglaterra e a convivência com os colegas. Eu sei que ela vai lançar um novo livro, oito anos após esse primeiro. Nesse novo livro, do qual já ouvi comentários, ela relata a sua vida de jovem e adulta em Londres.


II

Vencendo preconceitos

Ises Abrahamsohn

Cheguei cedo para o lançamento do livro. A revista me enviou para fazer uma matéria sobre essa nova escritora Lupita N’gila Dorothy Brown. Eu já tinha lido os comentários favoráveis sobre o seu livro anterior publicado há três anos. Haveria a leitura de alguns trechos pela própria escritora, seguindo-se uma sessão de perguntas aberta ao público coordenada por alguém da editora.

Eu sabia em linhas gerais o conteúdo deste novo livro “Vencendo preconceitos”. Era um relato romanceado sobre uma garota negra crescendo e se educando na cosmopolita Londres. A personagem principal parecia ser o “alter ego” da escritora. A questão principal era quais das experiências relatadas no livro foram de fato vivenciadas por ela e quais eram fictícias. Fui cumprimentar Lupita antes da leitura. Deve ter uns trinta e cinco anos. Alta e esguia usava os cabelos bem curtos o que lhe caía bem acentuando a testa e um crânio alongado. Usava um vestido clássico de cor bordô de mangas longas sem decote e sapatos de salto médio combinando. O único enfeite era um pingente moderno de prata sustentado por uma corrente do mesmo material.

Apresentei-me como jornalista “free-lancer” que escreveria uma matéria sobre a ocasião e seu novo livro. Brinquei dizendo-lhe que além de acompanhar a leitura pública eu leria o livro, mas que sabia do que se tratava. Perguntei-lhe, é claro, sobre a identidade da personagem. Ela sorriu e disse que era um livro de ficção e eu fingi que acreditei. Despedi-me e ela autografou um exemplar para mim dizendo, leia e diga depois sua opinião ou me envie a matéria.

A sala em frente ao pequeno palco começou a se encher. Lupita após uma pequena apresentação começou a ler trechos do livro em voz clara e cultivada por anos de estudo e vivência nas universidades inglesas. Eu estava sentada bem à frente e havia na audiência, além de jornalistas especializados e críticos, várias pessoas que provavelmente eram de Colleges, talvez alguns onde a escritora estudou ou trabalha. Os curtos trechos que leu, e ela o fez como se estivesse lendo uma peça de teatro com toda a ênfase e sentimento, causaram enorme impacto. Foi aplaudida por grande parte da plateia, mas vários ouvintes mostravam claramente sua desaprovação.

As perguntas do público eram, em resumo, as que eu mesma tinha feito à Lupita antes da apresentação. Quanto naquele incrível livro de denúncia de racismo e assédio fora de fato vivido por ela ou quanto era ficção. A escritora calmamente respondeu que o ali relatado de fato havia acontecido. Aquele público era em geral culto e bastante heterogêneo no que diz respeito a etnias. Muitos ouvintes eram ligados às áreas de literatura e jornalismo das faculdades londrinas. Foi aplaudida em vários momentos da leitura.

Alguns da audiência a desafiaram colocando em dúvida a existência das situações descritas no livro. Afinal Londres era tão multicultural! Impossível haver ainda racismo e o preconceito descritos. E, naturalmente, veio a pergunta de um distinto senhor sobre por que ela não havia denunciado as pressões que sofrera durante os seus estudos de pós-graduação na universidade.

A moça sorriu da pseudoingenuidade de seu interlocutor, claramente um professor pertencente ao ‘’establishment” universitário.

Se eu tivesse me queixado naquela época, teria sido pressionada a abandonar os meus estudos, respondeu. E, certamente, nunca teria conseguido ser contratada como professora-assistente no mesmo Departamento. Mesmo agora, dez anos depois, sei que meu livro vai causar um tremendo reboliço. Espero não perder a minha posição. Senti que agora era a hora de falar às mulheres e também aos homens, a todos que sofrem algum tipo de discriminação para que denunciem. É necessário acabar com o assédio e com o racismo. Este racismo e assédio que muitos negam existir, mas que pervade a sociedade, mesmo nessa Londres cosmopolita. Basta entrar na internet para conhecer os relatos dos estudantes, alguns vindo de nossas mais famosas universidades.

E com essa mensagem a escritora Lupita N’gila Dorothy Brown encerrou as entrevistas, saudada por entusiasmadas palmas do público. Deve ter autografado pelo menos uns trezentos livros naquela noite. No dia seguinte estava nas páginas literárias dos grandes jornais. 

Eu fiz a matéria para a revista sobre o livro de Lupita e inseri uma introdução sobre as origens de Lupita e dos desafios vencidos narrados no seu livro anterior: “Uma garota nigeriana em Londres”.

Espero que o seu novo livro também alcance outros países e leitores e sirva de inspiração para que as pessoas reajam aos preconceitos e racismos. Infelizmente o que vemos é o ressurgir dessas manifestações por todo o lado e em todo o mundo. Até naquele belo país da América do Sul, o Brasil, onde os habitantes hipocritamente se gabavam de não haver racismo! O bom é que agora as pessoas podem denunciar racismo e assédios que são considerados crimes.


PONTOS NÃO SÃO PARA ENTREGAR - Sérgio Dalla Vecchia




 


PONTOS NÃO SÃO PARA ENTREGAR
Sérgio Dalla Vecchia



Lutador incansável nas suas qualificações, entra na briga fazendo todo tipo de estrago; tosse, febre vespertina, sudorese noturna, fadiga, emagrecimento, e até mesmo a morte.

É conhecido mundialmente como Mycobacterium tuberculosis, mas nos rinques da vida tem como cognome Bacilo de Koch.

Recebeu esse apelido em 1882, quando um treinador esperto, chamado Robert Koch percebeu algumas das suas táticas de luta e começou a estuda-las a fundo.

O mundo não entendia, como esse lutador era praticamente invencível, chegando até mesmo a matar com seus indefensáveis golpes em diversos países.

Entretanto, em 1906, outros dois treinadores Albert Léon Charles Calmette e Jean Marie Camille Guérin criaram um possante contragolpe, denominado BCG (Bacilo de Calmette-Guérin) que atingia em cheio as partes vulneráveis do Koch.

Puseram-no em prática e, finalmente, as lutas começaram a se equilibrar.                 
                                             
Porém, isso foi apenas o começo de uma série de novas artimanhas do destemido lutador. Para cada contragolpe sofrido ele criava novos movimentos.

Para derrotá-lo o adversário teria que atacar logo no início da luta, caso contrário Koch o dominaria e a vitória seria certa.

Foi o que aconteceu durante muitos anos. Quando os adversários eram ágeis, venciam, quando não, perdiam. Assim, formou-se um histórico de vitórias e derrotas, podendo-se considerar, no geral, um empate.

O descaso em agilizar a defesa custou caro. Os adversários que subestimaram a capacidade de recuperação de Koch, pagaram algumas vezes com a própria vida.

São registrados no mundo, aproximadamente, 9,6 milhões de casos por ano, só no Brasil 67 mil casos.

Descobriu-se também que Koch anda ingerindo um energético chamado HIV, que pelo que dizem nos bastidores dos rinques, é ótimo    e está fazendo muito sucesso.

Assim, por sua linhagem de guerreiro africano há 70 mil anos, esse incansável lutador evoluiu com o homem e não entregou os pontos. Continuou esperto, pontuando e apto para atacar a qualquer momento.



UM PASSO A FRENTE - Oswaldo Romano





UM PASSO A FRENTE
Oswaldo Romano



         A chuva contínua e pesada impedia o Tiãozinho de sair do casebre para a escola.

         Era seu segundo dia de aula, do quarto ano, levava o resultado da lição anterior.

         Quando ela deu trégua, percebeu que chegaria muito atrasado. A escola ficava há uma hora caminhando, andando bem.

         Quem o atrasou foi a chuva. No horário certo Tiãozinho estava pronto. Uniformizado, meinhas brancas, calçava alpargatas. Então, por que não ir agora? Impaciente falou alto:

         Manhê, agora eu vou...

         —Zinho não, não vai dar tempo.

         —JÁ tô arrumado, eu vou. Tchau manhê.

Tiãozinho sai, quase correndo, não dando chance à canseira que viria pela pressa. Mas é vencido, respira sôfrego.

         Para, olha pra frente, vê o caminho se perder nas nuvens. Desce a mochila, arreia no chão, olha em volta, ninguém! Mas não estava só. No pasto um cavalo branco com mancha preta na testa, vendo-o, deu aquele rincho, mostrando presença.  De companheiros, tinha vários cadernos. Eles não conversavam, mas diziam muito. O livro de história na mochila foi apanhado e na falta do que fazer, ia virar suas páginas.

         De início folheava-o com pouco interesse. Estava focado na aula perdida. Mas uma foto que mostrava a cidade, chamou-lhe a atenção. Descansou um olhar sobre ela, pensando: um dia, sei lá quando, sou muito criança ainda, eu vou lá. Vou engraxar sapatos, um jeito de conhecer homens ricos.  Meu amigo Pedrinho faz isso na cidade. Engraxa até botas dos fazendeiros! A gente não precisa ir atrás deles, eles é que veem ter com a gente.

         Três anos depois, Tiãozinho viu realizado seu sonho.

Acomodou-se num barraco onde tinha outros que dividiam seus ganhos com a Julia, a dona do casebre.

         Construiu sua caixa de engraxate com sobras de taboas apanhadas no lixo do mercado.

         O que programou, estava acontecendo. Sujou de graxa a caixa, simulando seu constante uso.

Foi para a praça. Perambulou até aproximar-se de um velho engraxate, soube chamar-se Escovão.

         Ainda com a caixa nas costas mirava o Escovão que não demorou, perguntou: — O que é que você quer?

—Não, não é nada não.

—Vai andando, vai. Cuidado, o juiz de menores te pega.

—Eu tenho o conduto. Quero aprender um pouco mais com o senhor.
         O velho nesse momento sentiu-se professor.

—Esse ponto é meu, faz muito tempo.

—Sei sim, senhor. Se me deixar aprender engraxando o dinheiro fica pro senhor.

Escovão começava a achar o garoto interessante.

—Tá bem, você me ajuda, mas eu digo quem você pode pegar.  Pensamento logo imaginou quais chatos jogaria para ele.

—O senhor me dá uns trocadinhos para eu comer?

—Tá combinado. Volte amanhã. A propósito, como é seu nome?

—Tiãozinho. Eu sei que o senhor é o Escovão. Foi o que disse aquele varredor do jardim.

         Logo cedo Tiãozinho estava a postos.

Tornaram-se bons amigos. Alguns fregueses achavam, serem tio e sobrinho.

         Poucos anos se passaram, foi construída na rua principal da praça, a nova sede da Prefeitura. Deu novos fregueses que disputavam horário para serem atendidos. Nunca antes se viu marcarem horário com um engraxate.

Tiãozinho, agora Tião, com 21 anos e o velho engraxate, formaram a Escovão&Tião.com.br donos de seis cadeiras, sendo quatro arrendadas.

         Nesse meio tempo ingressou na Escola Caetano de Campos, ali junto a praça. Estudando a noite, levantou seu diploma.


         Escovão não podia deixar de assistir à diplomação, e quando viu Tiãozinho de Toga não conseguiu segurar o choro. Pegou seu melhor lenço, limpo, mas manchado de graxas, e enxugou as lágrimas.

         Tiãozinho sempre acreditou que atrás daquele bigode pousava uma generosa alma.

Escovão viu o que imaginava impossível. Alguém seu, transitando por aquela escadaria, que todo dia via luzir, observada do seu consagrado posto.

         Juntos fundaram a sapataria UM PASSO A FRENTE.



PAVIO CURTO - SERGIO DALLA VECCHIA




Quais são os signos de “pavio curto”? E como eles podem se ajudar prevenindo tais reações?
Se você acha que Áries é o primeiro dos signos de “pavio curto”, acertou em cheio. Não é uma dedução difícil, já que Marte, o planeta que rege o signo, era o deus da guerra. Arianos são impetuosos, corajosos, cheios de vontade e com a paciência muito curta. Nem sempre eles deixam que a outra pessoa termine a frase, o que pode levar a mal-entendidos. A mente ariana é ágil e, pressupondo que os outros vão cometer erros ou fazê-lo perder tempo, Áries já se inflama e explode. Sinceros e transparentes, vão se arrepender imediatamente e pedir desculpas, mas os caquinhos já estarão por todos os lados. Ou seja: os danos já foram feitos. O ideal é que procurem jogar toda essa energia nos esportes ou em alguma atividade que traga um pouco mais de calma, como a ioga ou a meditação.

O segundo signo é Sagitário, metade homem, metade cavalo, sabedoria e instinto. Sagitário pode ser conhecido por suas “patadas”, seja em momentos estratégicos ou completamente fora de hora. Ele demora um pouco mais do que Áries para explodir, mas acaba perdendo a paciência e afugentando quem estava por perto. Costuma ter razão nas suas observações, mais isso não justifica o comportamento. Tão sincero e espontâneo quanto Áries, mas muito vaidoso, o sagitariano não vai pedir desculpas, mas ajudar a quem magoou porque seu coração é bom e quer consertar a situação.

O terceiro signo é  Escorpião, profundo, misterioso, intenso, emocional e… explosivo! Escorpião se promete todos os dias que vai mudar e suportar melhor as tensões cotidianas. Mas basta a pressão começar e… ele perde a cabeça (!). Procura exercitar a tolerância mas, suporta por tanto tempo, até que o dique arrebenta e perde a cabeça. Emotivo, magoa-se facilmente e tanto pode explodir de raiva como chorar durante horas porque alguém disse algo que machucou seu coração. A questão é: quem está ao seu lado demora para entender o que está acontecendo e se afasta porque não consegue ajudar.

Leão – Não perde a pose e segura o grito, pois o rei e a rainha não vão cair do trono. Salto alto e um olhar de superioridade funcionam melhor do que aquela baixaria e gritaria que outros signos fazem.

Troca de Emoções - Maria Verônica Azevedo






Troca de Emoções
Maria Verônica Azevedo


         Perdi o sono de madrugada. Uma olhada no relógio revelou que eram cinco horas.

         Então, me deu a vontade de ver o amanhecer na praia.

         Eu estava em Salvador para ministrar um curso de Didática para professores. A aula só começaria às oito horas no salão do hotel.

         Vesti uma roupa leve: bermuda de algodão e camiseta. Desci os dois lances de escada que levavam à recepção do hotel. Saí em linha reta em direção à praia de Itapuã.

         Com os olhos no encontro do céu e mar, livrei-me das sandálias afundando os pés na areia branca e macia. O silêncio era reconfortante. A luz do Sol se insinuava no horizonte.

         Na praia, as silhuetas dos pescadores, começando a voltar da lida, quebravam a paz e rompiam o quase silêncio com suas vozes que se misturavam ao rumor das ondas.

         Vinham empurrando, até a arrebentação, os humildes barcos de pesca repletos de pequenos peixes.

         Era bonito de se ver os garotos ajudando os pais. Ali mesmo separavam os peixes por tamanho em grandes cestos de palha.

         Sentei-me na areia e fiquei ali observando.

         Um menino cuidava de um dos grandes cestos, agachado na areia, observando o pai que dobrava a rede de pesca.

         No instante seguinte o pai o chamou para comemorar o êxito da pescaria daquele dia.

         Começaram um canto ritmado. O pai se pôs a ensinar ao filho passos de capoeira. A cena me emocionou. Guardei-a na memória. Meses depois a reproduzi num quadro.
        
                 


         Enquanto observava a dança de pai e filho, um movimento ao longe, na orla do mar, mostrava uma silhueta difícil de distinguir.

         Fixei a atenção. Aos poucos percebi a aproximação de um burro com dois grandes cestos no lombo, um de cada lado e um homem acomodado entre eles, no lombo do animal. Vinha bem devagar entoando uma canção.

         Vendia água de coco.

         O Sol já estava forte suficiente para que o calor me fizesse desejar a bebida.  

         Ali, no meio daquela cena poética, me senti bem recebida naquela terra baiana, até então bastante estranha para mim.

         Sai da praia revigorada e com mais coragem para encarar a tarefa de falar sobre educação para aquele grupo de cinquenta professores de escolas fundamentais do interior da Bahia. Uma realidade tão diferente da minha.

         Dessa vivência eu mais aprendi do que ensinei. Foi emocionante a troca de experiência com aqueles professores que faziam muitas perguntas, mas também emocionantes depoimentos de vida. E de uma vida desconhecida para mim.