Mais uma história do Zé Osvaldo - Fernando Braga




Juca e Chico



Mais uma história do Zé Osvaldo
Fernando Braga



Quarentena em plena ação, há quase dois meses. Em casa, aproveitamos para ler, ouvir boa música, ver filmes na TV e as notícias tumultuadas sobre o Covid-19, e de nossa política. Ao lado disto, um bom tempo para meditar, lembrar de coisas passadas que guardamos no baú de nossa memória.

Hoje, sentado em minha poltrona, tranquilo, não sei por que, lembrei-me de um livro infantil que eu e minha irmãzinha, já falecida, chegamos a decorar de tanto que o lemos. Era feito em ritmo de poesia, assim:

-Não há conta as aventuras, as peças, as travessuras, destes dois endiabrados. Um é  Juca, o outro  Chico, põem toda gente maluca, não querem ouvir conselhos, estes travessos fedelhos... 

Aí me lembrei, que há bom tempo não tenho ouvido falar   de dois grandes amigos, o Zé Osvaldo e o Oswaldo José. Os dois, famosos neurocirurgiões, profissionais éticos, capacitados, acima da média, que trabalharam na mesma universidade federal, onde se formaram. Seguiram a vida universitária, com desempenho bem ativo, grande produção científica e mãos cirúrgicas de primeira. Com nomes invertidos distinguiam-se em um ponto. Zé Oswaldo era um gozador de primeira, “that liked to tease” em inglês, que não perdia a chance de inventar histórias, que os outros acreditavam, mas que não passavam de um “Primeiro de Abril”. Seus colegas, amigos e mesmo parentes ficavam desconcertados. Embora todos soubessem desta característica, sempre caiam em sua rede. Entretanto, não deixavam de admirá-lo.

Oswaldo José, por outro lado era sério, detestava gozações e era o tipo certinho, também muito admirado.

Agora, falando exclusivamente de Zé Osvaldo!

Desde estudante, aprontava das suas. Andava com uma bolinha de papel, de uns quatro centímetros, com conteúdo de serragem em seu interior e presa por um fio elástico cumprido e fino. Daquelas coloridas, que se encontravam para vender em livrarias, shoppings e com as quais todos se divertiam, jogando-a uns contra os outros. Ele, com alguém andando em sua frente, jogava a bolinha sobre a perna ou sapato da pessoa, imediatamente a recolhendo pelo elástico e passava reto ao lado, sem olhar para trás. O sujeito parava e ficava olhando para o chão, com a certeza de que tinha caído algo de sua mão ou bolso!  

 Ainda residente da Neurocirurgia, inventou uma boa.

Os residentes do Hospital tinham seu dormitório no   primeiro andar e abaixo, no térreo ficava o grande e comprido setor do RX, cujas paredes eram chumbadas, para evitar a saída dos raios gama para fora. Um dia, ele subiu ao Laboratório e conseguiu com um amigo, que lá trabalhava, uma folha de resultado de exame. Na máquina de escrever, colocou o resultado de um exame de sangue dele próprio, onde mostrava uma grande alteração no número de glóbulos vermelhos e brancos, uma agranulocitose, certamente produzida pelo escape dos raios pelo teto, atingindo os quartos dos residentes. Com o resultado falso nas mãos, mostrando enorme preocupação, entregou-o aos colegas que dormiam no mesmo andar, advertindo sobre o grande risco que corriam, provocando um enorme rebuliço entre eles. No mesmo dia, bem preocupados, lá estavam mais de 30 residentes no laboratório para fazerem o mesmo exame. O chefe do laboratório, o famoso Dr. Joãozinho, que era bravo, se assustou! Não encontrando o registro de tal exame, ninguém sabendo explicar quem o havia feito, assinado o resultado, desconfiaram e chegaram ao autor da proeza, com o pedido de sua expulsão da residência. Com a ajuda de seu chefe, que já o conhecia bem e “morreu de rir”, conseguiu safar-se e até ficou famoso na Escola!

Zé Osvaldo foi galgando posições acadêmicas, fez o doutoramento, doutorado, livre docência e finalmente tornou-se o professor titular da disciplina por concurso.  Professores titulares de Neurocirurgia eram poucos no Brasil, em menor número que os próprios ministros do governo federal. Sempre que havia um concurso de doutorado, livre docência e mesmo para professor titular de Neurocirurgia no país, o Zé Osvaldo era convidado como participante da banca examinadora.

Certa ocasião foi convidado para examinar o concurso para professor titular da Universidade de Brasília. Eram seis examinadores, o presidente da banca, dois examinadores da própria faculdade e três examinadores de fora, de outras universidades do país. Evidentemente, todos professores titulares!

Entre os três de fora estava ele, o Prof. AA do Rio e o Prof. BB, de Curitiba. No dia anterior, fez seu consultório à tarde e por volta das 18,00 horas pegou o avião em Congonhas, para Brasília. Chegando à capital, lá estava um carro da faculdade esperando para conduzi-lo à Universidade. Iriam jantar e depois, conduzidos a seus aposentos dentro da própria universidade. O concurso tomaria todo o dia seguinte.

Os aposentos para os professores estavam lotados, pois mais dois ou três concursos seriam realizados na mesma ocasião. Restavam apenas três quartos. Como Zé Osvaldo atrasou-se um pouco, conversando com outros colegas, quando chegou, restava apenas um quarto pequeno, estreito, sem janela, banheiro localizado no final do corredor. Os outros dois ficaram em quartos bem superiores, suítes. Encontrando-se novamente, foi aquela gozação ao visitarem o quarto, onde ficaria o Zé Osvaldo!

No dia seguinte, já engravatados, se encontraram para o café da manhã. A gozação continuou:

— Como é? Dormiu bem? Não tinha baratas, percevejos no quarto? Você tomou um bom banho? E por aí foi.

Certo momento, Zé Osvaldo disse:

— Veja que sorte a minha! Pela manhã, ao pegar meus sapatos debaixo da cama, vejam o que encontrei.

Mostrou um pacotinho branco, fechado e abrindo-o havia um maço de notas de 100 dólares, presos com um elástico. Disse que contou as notas e havia 5.000 dólares!

Um silêncio abismal pairou entre eles. Zé Osvaldo perguntou:

— Que faço agora? Alguém que lá dormiu antes, devia tê-lo perdido!
Imediatamente o AA enfatizou:

— Acho que devia devolvê-lo na secretaria. Certamente eles vão encontrar o dono!

O outro colega imediatamente denodou dizendo:

— É o certo! Eu faria isto!

 Zé Osvaldo encarou a ambos e disse:

— Vocês acham isto? Vamos pensar melhor!

— Se entregar a gaita na secretaria, não encontrando o dono, certamente vão embolsá-lo.

Saíram para o concurso e no intervalo para o café, os dois se aproximaram de Zé Osvaldo e perguntaram:

— Como é? Já decidiu o que fazer com a gaita?

— Vocês comentaram isto com alguém?

— Não! É claro que não!

Zé Osvaldo olhando fixamente nos olhos de ambos, disse:

— Estive pensando! E se nós dividíssemos, dando 1600 dólares para cada um? Eu ficaria com 1800, porque eu o achei! Novamente um silêncio sepulcral entre eles.

Se entreolharam e em sinal afirmativo, retrucaram:

— Ok. Concordamos, mas boca de siri! Isto vai ficar somente entre nós! Agora, vamos dar uma voltinha para dividirmos a gaita.

Zé Osvaldo disse:

— Vamos fazer isto mais tarde, talvez no aeroporto. OK?

— Já estão entrando na sala para continuar o concurso.

Não se falou mais no assunto e durante o almoço, os três foram alvos de muitos agradecimentos, por terem se deslocado de tão longe.  Zé Osvaldo via os dois, que se sentaram juntos, cochichando e olhando de soslaio! Talvez pensassem: Será que ele vai nos dar o cano?

Terminando o concurso, o candidato aprovado, houve alegria geral, muitos cumprimentos, abraços, regozijos pela presença de um titular de Neurocirurgia, agora na Universidade de Brasília!!!

Pegando suas malas depositadas na secretaria, tomaram a van, que os levou ao aeroporto. 

La chegando, após confirmarem suas passagens, sentaram-se os três, com Zé Osvaldo no meio.

Entreolharam-se. AA foi o primeiro a se manifestar:

— Vamos lá?

— Lá aonde?

— Ora, dividir a bufunfa, conforme ficamos acertados!

— Vamos tomar um café naquela confeitaria, disse Zé.

Sentaram-se em uma pequena mesa, pediram três cafés e dirigindo-se ao garçom, Zé Osvaldo pediu que trouxesse duas bananas nanicas. O BB gozou:

— Você ainda está com fome?

— Vamos logo resolver nosso negócio!

— Tudo bem! Vamos lá!

Zé Osvaldo enfiou a mão no bolso da calça, com os dois avidamente seguindo seu gesto e retirou um papel dobrado que mostrou a ambos. O papel mostrava uma cópia de um recibo de 5000 dólares que Zé Osvaldo havia entregado a um cliente, que na tarde anterior viera acertar a conta de sua operação. Naquela época, década de 80, a inflação atingiu 80, 85% mensalmente e para se proteger, muitos médicos acertavam seus honorários em dólares.

Zé Osvaldo deu uma enorme gargalhada, entregou uma banana nanica para cada um e completou:

— Deixa que eu pago o cafezinho!

Sem comentários! Conheceram o Zé Osvaldo?!

 Eta quarentena braba!!!




A história que me trouxe aqui - Maria Verônica Azevedo



Comerciante é morto com tiro na nuca em Colíder :: Leiagora ...


A história que me trouxe aqui
Maria Verônica Azevedo
      


       Corri, corri o mais que pude para fugir dali. Mas um estampido cortou-me a pressa, cortou-me a visão e instalou o silêncio dentro de mim.

       Acordei com alguém acariciando a minha testa. Observei aquele rosto tristonho repleto de rugas, aqueles cabelos brancos... quem seria?

       Tentei falar algo, mas a voz não saía. Não podia me mover e nem falar. Não sabia quem eram aquelas pessoas a minha volta. Ouvi uma voz suave ao meu lado:

       - Vovô. Você está me vendo?

       Virei minha cabeça e a vi. Uma menina com fisionomia doce. O rosto emoldurado por uma linda cabeleira ruiva, totalmente desalinhada, olhos de um azul profundo e boca delicada de lábios grossos que se moldavam num sorriso amoroso. Aí a minha voz saiu bem fraquinha.

       - Quem é você? Suponho que seja minha neta... é isso? Estou confuso. Como vim parar aqui?

       - Você saiu de casa para ir ao banco. Como não voltava, ficamos preocupados. Então papai saiu a sua procura e o encontrou desacordado no meio da rua. 

       - Minha cabeça dói muito!  Cadê o seu pai? Qual é o seu nome?
       Naquele instante, entrou um rapaz de óculos, com fisionomia preocupada, mas um olhar suave. Vestia com um jaleco branco. Concluí ser o médico.

       - E aí pai? Você nos deu um susto e tanto!

       - Suponho que o senhor seja o médico que me acudiu. Onde está Almerinda?  Como eu me machuquei?

       - Dona Almerinda está aí na sua cabeceira. O Senhor pode vê-la, não?

       A senhora, ao lado, chorava.

       - O senhor sofreu um traumatismo causado por um tiro. Perdeu parte da sua memória. Mas o dano é passageiro. Em algumas horas vai se lembrar. Agora precisa repousar. Vamos lhe dar um sedativo para ajudar o seu descanso. Fique tranquilo.

       Quando acordei, me recordei da tentativa de assalto.
        
       Surpreendido à tardinha na saída do prédio, fiquei nervoso. 

Acabara de tirar o dinheiro da aposentadoria do caixa eletrônico. Não pensei duas vezes. Tinha que correr. Tropecei

       Senti a pancada e logo em seguida tudo escureceu.

       Essa é a história que me trouxe aqui.
      

      
 
      

Apenas uma questão de oportunidade Maria Verônica Azevedo






Apenas uma questão de oportunidade
      
 Maria Verônica Azevedo


       Estava com a matula pronta. Com certeza seria uma aventura e tanto. Pelo menos era isso que eu estava esperando.

       Nós éramos amigos desde crianças.  Acostumados a explorar as cercanias sem medo, nós dois escalávamos montanhas, atravessávamos pântanos ou enfrentávamos a travessia da grande lagoa a nado, sem nenhuma boia de apoio. Todo tipo de emoção nos empolgava.

       Com este espírito, saímos naquela manhã em busca de aventura.

       Conforme o combinado, fomos em direção ao rio. A aventura seria na cachoeira. Por isso estávamos cada um com a sua mochila pequena impermeável. Dentro da minha o bote inflável e na dele a lanterna, o fogareiro, algumas latas de conserva e frutas. Ah! No bolso de trás da calça, eu levava o canivete. Aquele de muitas funções.

       Queríamos vencer o desafio de navegar sobre a correnteza do rio na direção da cachoeira. A gente tinha visto uma cena assim num filme de aventura.

        Seguimos pela floresta que margeia o rio tropeçando nas raízes das grandes árvores e, vez por outra, escorregando na lama. Quando o rio enche, durante a maré alta, encharca tudo.
      
       Sabíamos que a chuvarada da semana anterior tinha aumentado o volume da cachoeira. Aproveitar aquele dia era apenas uma questão de oportunidade. Não podíamos perdê-la.
      
       Depois da longa e acidentada caminhada, paramos para comer.  Com todo aquele estressante exercício, a fome era bem grande. Com as mãos muito sujas, o jeito era lava-las nas águas do rio.  Descemos um pouco até a margem e nos abaixamos em direção a água. Foi aí que o estresse começou.
      
       Quando ouvi um ruído, virei a cabeça e dei de cara com uma gorila. O susto foi tão grande, que nem gritei. Fiquei foi congelada de pavor. No instante seguinte, tomei fôlego, puxei meu amigo pela camisa e saímos correndo dali. Ele gritava zangado, mas seguia aos tropeções.

       Mais a frente, nosso trajeto foi interrompido. Estávamos à beira de um abismo. Logo me lembrei da corda. Tinha que pegá-la rápido antes que o enorme e desajeitado animal nos alcançasse.

       Ufa! Consegui. Amarrei uma ponta da corda na cintura e a outra no tronco de uma grande árvore.  Meu amigo que era mais leve subiu nas minhas costas.  Comecei imediatamente a descida pelo barranco. Nossa esperança era de que o gorila se atrasasse por algum milagre...

       E a corda se soltou... O Sol da tarde foi se esvaindo e em menos de 5 segundos tudo escureceu.


O Enigma do Sorriso - José Vicente Camargo




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O Enigma do Sorriso
José Vicente Camargo


E a corda se soltou! O sol da tarde foi se esvaindo e em menos de cinco segundos tudo escureceu...

Contorcido no chão duro e frio do quintal, sua última visão foi o pé de Jaboticaba que ele mesmo plantou, viu crescer e agora lhe serviu de apoio fatídico. Apoiada no galho, a outra ponta da corda ainda balançava. Tudo certinho conforme planejara. O nó, propositadamente frágil, abriu-se para que não expusesse seu corpo dependurado pela angustia a visão de terceiros. Sua alma, agora desprendida do corpo inerte, voa para lá do tempo onde tudo começou...  

Era férias de verão na universidade. Como nos anos anteriores, foi passar esse período na casa de praia da família do melhor amigo desde os tempos da calça curta, da curiosidade da puberdade e da rebeldia da juventude. Local paradisíaco abalroado de belezas naturais que tonteavam a vista na escolha do melhor ângulo para a câmara ansiosa. Seu jardim verde-musgo “pé na areia” contrastava com o branco da espuma das ondas quando invadido nas horas de marés cheias.

Dado a frequência das estadias e o aconchego da família hospedeira, se sentia em casa. Mesmo assim, seu instinto observador e atlético o excitava para a aventura exploratória sempre que descobria no cenário deslumbrante uma pincelada desconhecida, contornando assim a rotina do dia a dia.

Ela, ao contrário, chegou naquele ambiente como uma marinheira de primeira viagem, pisando no escuro a procura da porta de escape. Mas, compensando sua insegurança, trazia consigo algo além da humana admiração. Um sorriso enigmático de dentes tão alvos como nuvens de verão emoldurando um par perfeito de lábios cor de rosa fresca. Sobressaindo nesse conjunto harmonioso, um par de olhos verdes. Meu assombro de surpresa juntou com os dos demais familiares e a atração emergida a acolheu com um abraço na mesma intensidade em sentido contrário fechando-lhe a porta de escape. Era amiga da irmã do meu amigo e logo emparelhou comigo na atenção de todos.

Cada dia passado ia me aprisionando mais ao seu sorriso e à atração que dele emanava, instigando-me a conhecê-lo. Em poucos dias tornamo-nos dois imãs que não conseguiam se separar pelas próprias forças. Sugávamo-nos avidamente, porém não conseguia sentir o seu amálgama dentro de mim, pois negava revelar seu lado pessoal. Continuava um enigma!

Com a pressa que veio, as férias se foram. O ar sem sua presença me asfixiava e o tempo, na sua pressa inabalável, tornou-se meu pior inimigo modificando aquela situação de gozo por outra realidade com novos acontecimentos, fatos e convívios.

Meu amigo e irmã se formaram, assim como eu, e foram exercer suas profissões no exterior cortando-me o único elo que me unia a ela. Sem sucesso, os indaguei várias vezes sobre seu paradeiro recebendo a mesma resposta vaga que segundo terceiros, foi exercer seus conhecimentos antropológicos em algum esconderijo tribal na Amazônia, sem possibilidade de contato. Me sobrou a angústia crescente cada vez que deparava com um vestígio tímido de seu sorriso branco, com a imagem retocada de uma praia qualquer o jardim “pé na areia” passou de mãos e os pais do amigo preferiram o isolamento do campo ou com um par de olhos verdes indiferentes.

Essa angústia crescente transformou-se em alcoolismo, desempregado e solidão social, até que um WhatsApp do meu amigo decidiu meu destino. Secamente informou que recebeu via “pinga-pinga” a notícia que ela falecera lutando em prol da demarcação de uma área indígena. Fora enterrada incógnita numa cova comum embaixo de um pé de jacarandá-rosa. Os índios a chamavam de “cunhã-suassuarana” – mulher borboleta – por suas multicores, beleza e voo de rumo incógnito com altos, baixos e curvas inesperadas.

O amálgama de seus beijos voltou-me à boca, vomitou minha alma e pôs em prática o plano que já vinha matutando esperando a coragem chegar...



OLHAI AS AVES DO CÉU - OSWALDO U. LOPES








OLHAI AS AVES DO CÉU
Oswaldo U. Lopes



       Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis vós mais do que elas?
Mateus 6-(26).

       Nestes momentos complicados que vivemos, em que a compreensão dos fatos e dos desígnios de Deus se mostram difíceis de entender, a leitura de certas passagens dos evangelhos, mesmo para os não crentes ou para os agnósticos (como eu mesmo), inspira a que não matemos a esperança.

       Nem todos entendem a diferença de ateu e agnóstico. O ateu nega peremptoriamente a existência de um Ser Supremo. O agnóstico não nega, apenas confessa que, diante de um universo tão complexo, seu conhecimento não lhe permite formular nenhuma hipótese, ou seja, não crê nem descrê, apenas não consegue entender.

       É uma das razões pelas quais os ateus refutam totalmente os livros religiosos, como fábulas mal contadas e os agnósticos muitas vezes se surpreendem, pela beleza e pelo senso humano de certas passagens dos livros religiosos. É por isso que Jesus é uma figura muito citada pelos agnósticos, a poesia e o sentido das palavras Dele, cativam.

       Em tempos de emponderamento feminino (graças a Deus), talvez por pirraça ou maldade, muitos machistas lembram a história de Pandora e o desastre que ela fez permitindo, ao abrir-se a famosa caixa, que os males afligissem para sempre o homem, restando-lhes apenas a esperança que, solitária, ficou na famosa caixinha.

       O mito grego, no entanto, também celebra a criação, por Zeus, da primeira mulher, de uma beleza incrível e que ele enviou a terra para constituir o primeiro casal. Pandora, na mitologia grega, é tão seminal quanto Eva na Bíblia.

       Ou seja, ao mito da esperança se ajunta a criação da mulher e da felicidade na terra.

       Se valemos mais do que as aves do céu, por que nos ocorre tanto sofrimento?  Cristo mais adiante no próprio relato de Mateus quando fala dos lírios do campo, arremata: “homens fracos na fé”.

       É o que somos, fracos na fé? Todos os dias vemos a proteção de Deus às aves do céu e, ainda assim não nos acode a esperança.

       Aqui em casa temos, no fundo do quintal, um belíssimo caquizeiro que nesta época do ano esta coberto de caquis. Saio todos os dias para recolher alguns e encontro no chão, muitas cascas, que as aves do céu deixam cair lá de cima.

        Entre nós há uma espécie de acordo, eu colho os de baixo e eles comem os de cima. Tem funcionado e temos nos entendido. O Pai celeste nos deu o caquizeiro desde que o dividíssemos com eles. Temos certo prazer em vê-los por ali, sobretudo os sanhaços.

       À vista de tantos pequenos milagres, a abundância do alimento para as aves do céu, por que não nos socorre a esperança em meio à pandemia e a solidão imposta a todos?

       Creio que isto passará, creio que seremos melhores quando isto acabar, mas, desejo ardentemente que o Senhor nos alimente, como faz com as aves do céu, de esperança, alegria e conforto para que possamos entender seus desígnios e orar pelos que perdemos. Amém.

HÍFEN - NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO


"Auto" e o hífen


 falso prefixo auto é um elemento de composição na formação de palavras. Pela nova ortografia, somente é separado do segundo elemento por hífen nos casos em que este inicia por "o" ou "h". Caso o segundo elemento inicie com a consoante "s" ou "r", é necessário dobrá-la, sem usar hífen. Nos demais casos, quando o segundo elemento inicia por outras consoantes ou vogais, não há hífen.

Exemplos com hífen:
auto-observação
auto-oxidante
auto-ônibus
auto-hipnose
auto-hemoterapia


Exemplos sem hífen (dobrando as consoantes "r" ou "s")
autorretrato
autosserviço
autossuficiente
autossustentável


Demais casos, sempre sem hífen:
autoajuda
autoanálise
autobiografia
autobomba
autocontrole
autodisciplina
autoescola
autoestima
autoestímulo
autoestrada
automobilização
autopeças
autopreservação
autovia
autotransporte
autotrem
autopromover-se
automedicar-se
autocensurar-se



origem: Só português

Pratique o autoabraço e em breve estará abraçando a quem ama - Paulo Abrahamsohn



                                                                                                   Saiba o que fazer se você foi deferred | Estudar Fora            
                                                                                                                                                                                  
Pratique o autoabraço 
e em breve estará abraçando a quem ama

Paulo Abrahamsohn




Que coisa mais idiota! Quem será que inventou esta barbaridade! Eu não aguento. Pô, coisa mais estúpida. Mais nojenta. Fico revoltada.

Eu aqui, indo para o meu trabalho tenho que ouvir este tipo de coisa.

Pratique o autoabraço. Ridículo. Eu tento ouvir uma música legal na Rádio Rock e me aparece essa besteira. Autoabraço.

Com que cara vou dar um autoabraço? Quer dizer que tenho que gostar de mim? Ame-se! Amo-me? Será que não percebem! Com um excesso de quilos colocados em lugares errados! Volta e meia aparecem essas espinhas no rosto. Ou são cravos, nem sei. Meu cabelo todo espetado, não adianta o jeito que eu penteio. Roupa legal nem tenho grana para comprar. Todo dia com a mesma roupa. Lá no trabalho o pessoal só fica reparando. Mas eu nem dou bola.

Que horas são? Vou chegar atrasada no trabalho de novo? Nem ligo. Vou ter que sair correndo. Ainda tenho que lidar com aquele pessoal das compras. Ô pessoal enjoado. Hoje vai ser mais um daqueles dias. Todo dia a mesma coisa.

- Oi!

Vou ver se faço um regime. Nunca funciona comigo. Vi um no programa da Joyce que dá pra contemplar. Será que consigo?

- Oi! Olá! Olha eu aqui.
A Jaqueline perdeu sete quilos em um mês. Vou perguntar para ela o que ela fez. Quero fazer uma plástica no rosto. Será que é muito caro?

Acho que pode pagar em prestação.

- Oi, lindinha! Como é seu nome?

- Fala, qual seu problema

- Oi. Estou olhando você. Está o tempo inteiro fazendo caretas. Com a testa toda enrugada.

- Sim, e daí, está reparando em mim por que? Qual o problema com minhas rugas?

- Eu vou para o trabalho toda manhã neste vagão. Sempre sento na sua frente. Nunca reparou em mim?

- Não, não fico reparando nos outros.

- Sei que você vai descer na próxima estação.

- Ué! O que você quer comigo?

- Se eu pudesse eu desceria com você nessa estação.

- É só o que me faltava. Vai me seguir?

- Não dá. Também tenho horário. Não posso chegar tarde no emprego. Por que não me passa seu telefone? A gente pode conversar depois do trabalho.

- Olha. Não sei o que quer comigo. Não se enxerga? E tem mais, não dou meu telefone para qualquer um.

- Então pega este papel. Anotei meu telefone para você.

- É minha estação. Vou descer.

Ai credo! Que cara mais nojento! Não se enxerga? Fica me encarando.

O que que será que viu em mim? Vou caminhando rápido para não perder a hora.

Começou a caminhar mais e mais rápido para não perder a hora. Ainda bem que ela já estava chegando. 

O que faço? Telefono para ele? Nem sei o nome dele. Se criar coragem vou telefonar na hora do almoço. Aí, conforme for, eu pratico um auto abraço.