JUVÊNCIO 0 BACANA - Oswaldo Romano

 

JUVÊNCIO 0 BACANA
Oswaldo Romano                                                                                              
                                                                                                   
         Nosso Juvêncio o Bacana conheceu Ceci e se entusiasmou com a nova namorada. Tinha somente 20 anos, e recém-chegado em São Paulo, com a polpuda mesada do pai, entretinha-se pela movimentada noite Paulistana. Sua família é do interior, moram em uma fazenda onde viveu ate então.

         Está demorando largar os costumes adquiridos, imagem logo visível nas suas atitudes. Era realmente engraçado. Pegava o ônibus com trejeitos como que alcançando o lombo do cavalo.

         Ela ria dos seus modos, mas como era seu primeiro namorado, filho de fazendeiro, um bom partido, pouco sabia da conduta dos homens apaixonados. Cavalos para ele era uma vida. Tinha-os como raios.

         Resolveu leva-la  para conhecer a fazenda e sua gente. Nessa viagem quis mostrar o sucesso que suas peripécias faziam junto a colonia. Em tudo mostrava uma grandeza irreal. A verdade foi que Ceci viajando para conhecer a família, ficou atenta na conduta do seu namorado, que prometia ser seu futuro marido.

         Mas seus modos a incomodavam. Tinha repentes de grandeza, e a maioria das suas atitudes eram inesperadas.

         No jantar, assustou-se quando ele junto aos seus, virou-se para a moça e disse com voz eloquente: — “O segredo é não correr atrás das borboletas... É cuidar do jardim para que elas venham até você”. Ceci ficou olhando-o, sem palavras. O pai interveio, e disse:         

É do Quintana, filho. Só que a hora não é própria para falar isso. Podemos conversar outras coisas...

         Ai extrapolou:

         — “A coisa mais cruel que se pode fazer é permitir que alguém se apaixone por você, quando você tem dúvida de fazer o mesmo”.

Ceci ia se manifestar..., mas o pai interveio:

         — Filho, hoje você está bem inspirado, hem? Mas, filho, coisa que você decorou, não é próprio falar em certos momentos, nem sempre combina.
         — É verdade pai. Vou fechar esta boca maldita.

         Sua maior mania era vestir-se de Zorro. Quando o pai lhe deu o nome, não esperava que ao crescer levasse tão a sério. Na sua cabeça queria ser à sombra do Juvêncio, o homem que montava até de costas na narração da novela de sucesso, da antiga Rádio Piratininga.

         O pai percebendo essa tendência resolveu manda-lo para São Paulo, na esperança de que tomaria outro rumo. Ainda bem que lhe deu o nome de Juvêncio, pois, pensou chama-lo de  Jerônimo o famoso cavaleiro, herói do sertão. Ao invés de aparecer ali com a namorada, traria  provavelmente Canarinho, o Moleque Saci. 

         Ao findar a semana, Ceci que logo mais faria um ano de namoro, agradeceu a Deus o retorno e naquele mesmo mês, deixou Juvêncio cavalgando pela cidade. 
Percebeu que para ser feliz com ele, em primeiro lugar, deveria ficar o mais longe possível.

          Sua atitude foi oportuna: Antes tarde do que nunca.



O Homem foi Demitido! - Vera Lambiasi


O Homem foi Demitido!
Vera Lambiasi

Bem feito!

Clóvis entrou bem novo a trabalhar na firma de contabilidade do tio.
Exemplo de conduta, galgava posições.
O tio o protegia e lhe dava cada vez mais responsabilidades.
Clóvis era mestre em imposto de renda pessoa física.
O mês de abril era dos mais agitados e lhe rendia um bom salario.
Frequentava a casa do tio e aproveitava-se de muitas vantagens. Viajava com eles para a praia, a fazenda, e até usava o carro da empresa.
Foi-lhe confiada, então, a tarefa de recolher as guias de impostos dos melhores clientes.

E o diabo fez cócegas em Clóvis ...
Adulterava a quitação e ficava com o montante polpudo.

Por meses, nada foi descoberto, afinal, Clóvis, santinho-do-titio, estava acima de qualquer suspeita.
Outros funcionários escorregadios foram responsabilizados.
Até que o tio bonachão o pegou com a boca na botija!

Sem perdão, Clóvis foi sumariamente afastado.

Perdeu o emprego, as férias, o automóvel e a família.




TRÊS MINUTOS COM FRANCESCA - M.Luiza C.Malina



TRÊS MINUTOS COM FRANCESCA
M.Luiza C.Malina

A força a indiferença na vida de Francesca determinaram sua escolha pela profissão.

Os conhecimentos recebidos durante sua juventude a tornaram uma moça culta, as atividades físicas delinearam seu corpo escultural, sua necessidade em ultrapassar densas nuvens escuras, era mais forte.

A beleza e a liberdade de mãos atadas, aumentam a cada dia, pois não conseguia realizar-se profissionalmente. Sabia do algo que tanto a prejudicava nas entrevistas.

Aceita de olhos abertos a corrida cega da noite. Sua apresentação é algo de especial. Decide usar as técnicas a seu dispor, pois tudo tem de sobra.

“Striper”. Agora era assim. Concentração total. Sem passado. Só o momento. No olhar sem ver, exibe-se em seu contorcionismo deixando o silêncio pasmo no ar, seguidos de algumas conversas a meia voz. Surpreendera o público, não pela sua beleza, tão pouco pela sensualidade.  O corpo totalmente tatuado havia desconcertado o público, que se denotava pelo acender de muitos cigarros piscando no escuro. Realizara-se. Este seria o caminho.

No minuto seguinte, com a magia da lentidão retira sua primeira peça, e mais tatuagens surgem. A mente masculina entra em delírio máximo. Ela sinuosamente com ar irônico, retira a próxima peça, que nada mais é do que a segunda pele, a malha transparente tatuada de que tanto necessita para despertar o vivo interesse. Uma seguida da outra, ouvindo os suspiros da plateia, se assegura cada vez mais do seu segredo, mas tinha que dar certo no errado.

Não consegue manter a expectativa prometida de uma “striper”. Não podia mostrar-se no todo, depois de haver conquistado a todos de assalto.

A partir deste momento os segundos voam ao encontro de sua fuga, retira as outras peles tatuadas, deixando apenas uma, a da parte íntima, acompanhadas do êxtase.


Retira-se.  Olha-se no espelho e inicia a retirada das outras segundas peles, que escondem as cicatrizes de uma vitória em que fora arrancada dos braços da morte.

Le Destin de Soraya - Vera Lambiasi



Le Destin de Soraya
Vera Lambiasi


Soraya nasceu em família humilde no interior de São Paulo. Sua casa de madeira, chão vermelhão, sacudia com o passar do trem, em Parapuã.

Seus pais trabalhavam na plantação de café, colheita difícil, em mãos estropiadas de cortes e calos. Queriam outra vida para a menina, matriculando-a na escola da vila.

Quanto mais estudada tornava-se a garota, menos interessada nos afazeres domésticos. Panelas a arear eram substituídas por livros emprestados da biblioteca municipal.

Tanto estudo fez de Soraya professora primária. Normalista formada, mudou-se para a capital e instalou-se numa pensão para moças no Cambuci.

O serviço de casa, que já não era o seu forte, não mais fazia parte da sua vida. Até mesmo sua roupa era confiada a uma lavadeira.

Soraya dava aulas pela manhã no ensino público e dedicava as tardes aos alunos relapsos de escolas particulares, que não davam conta do recado nas lições de casa.

O mundo dos ricos fazia Soraya sonhar cada vez mais alto.

Nas aulas de reforço em mansões de Higienópolis, ansiava por uma vida de conforto e cultura.

Uma dessas famílias abastadas lhe ofereceu aulas de francês e piano, em companhia das meninas da casa. Era sempre a aluna mais dedicada, sua condição de ouvinte acabou em participação das mais ativas, surpreendendo tanto o pianista como Madame Lafayette, parisiense de origem.

Galgando etapas, Soraya ingressou na faculdade de pedagogia. Dar aulas no grupo escolar já a entediava. Queria mais. E formada foi dar aulas no científico de um renomado colégio particular. Os pais das crianças endinheiradas a enchiam de mimo.

Soraya mudou-se para um apartamento alugado no Largo do Arouche.

Suas férias eram nas fazendas dos barões do café, acompanhando seus alunos.

Quanto tempo havia se passado desde a infância necessitada. Seus pais faleceram precocemente, carcomidos por sol e terra. Um seguido pelo outro, no intervalo de um ano. As duas únicas vezes que Soraya retornou a Parapuã, enterrando seus mortos dignamente.

Muito estudo e trabalho levaram-na à França e Estados Unidos, mundos distintos que a encantavam, línguas opostas que já dominava.

Madura, ainda não encontrara o amor.

Em uma noite garoada, nas barracas de flores junto ao La Casserole, conheceu Monsieur Pierre. Estava perdido, procurando o restaurante do amigo Roger. Chegara a pouco de Saint-Tropez, tez bronzeada, os cabelos douravam seus olhos na escuridão. 

Foi tropeçar justo em Soraya, que lhe fez a indicação num francês perfeito.

Encantou-se de cara com a fluidez da jovem longilínea, de seios pontiagudos.

Convidou-a para jantar, mas ela declinou, dizendo que estava ali só para comprar flores para alguém especial.

Pierre não a queria perder de vista e lhe deu o cartão do Cadoro, onde estava hospedado. Intrigava-o para quem seriam as flores, o que fazia uma mulher tão linda sozinha naquela noite gelada.

Seguiu para o seu cassoulet com os amigos, mas seu coração ficou em Soraya.

Ela tomou o rumo de seu prédio, subiu as escadas, entrou em seu apartamento vazio e ornamentou o vaso murano com as petúnias compradas.

Recolhida em seu leito caprichado, ainda não entendia porque havia sugerido alguém especial ao charmoso desconhecido. Afugentara-o, insinuando um amante, namorado ou marido...

De que tinha medo, afinal, pensara toda a noite acesa.

Dia claro, de árdua labuta, fez Soraya distrair-se, e pensar apenas carinhosamente no encontro surpreendente.

Sabia onde encontrá-lo, mas a coragem escapava cada vez que agarrava o cartão nas miúdas mãos escorregadias.

Pierre nem sequer sabia o nome da mulher flor, mas não lhe saía da cabeça seu sotaque molinho de brasileira. Morena, olhos de ameixa, precisava vê-la.

Com a caída da noite, lhe veio a compulsão de voltar às barracas e procurar a moça. Os vendedores saberiam quem era ela, qual sua condição amorosa, se havia mesmo alguém tão especial em sua vida. Jamais vira uma mulher comprar flores a um amante ! E a  esperança tomou conta de sua alma.

Soraya, com as flores ainda frescas na sala, não via motivo para voltar às bancas. Só que uma vontade inexplicável tomou conta de suas pernas e já não podia parar.
Correu para a praça, arrumaria uma desculpa se, por acaso, o encontrasse.

Adubos! Sim, adubos! Matutava ela, todas as plantas precisam de adubos!

Adubos, adubos, adubos, repetia, para não esquecer, como quando sua mãe a mandava na venda comprar mantimentos.

Assim esbaforida, tendo adubos como um mantra, correu pelos jarros arquibancados.

Não menos nervoso, vinha o desesperado francês, a procura da amada.

O encontro foi de supetão na noite seca. Soraya esqueceu os adubos. Pierre se declarou, ignorando quem seria o tal do amante.

Nesta noite, entraram no restaurante. Jantaram até de madrugada, quando foram expulsos pelas cadeiras sendo colocadas em cima das mesas.

No apartamento de Soraya, petúnias aguardavam alguém especial.

Alguns meses depois, Madame Soraya Vernon mudava-se com seu marido Monsieur Pierre Vernon para um estúdio pertinho da Gare de Lyon, onde o chão tremia com a passagem do trem.

Ah ... Parapuã ...




SAUDADES - Judith Cardoso


SAUDADES
Judith Cardoso

Na minha infância o melhor de tudo era brincar na rua. Que delícia!

Como sempre fui perereca e estava acostumada a ser mandachuva, portanto chamava as outras  crianças e tratava de mandá-las fazer alguma coisa.

Certa vez queríamos apanhar uma flor dentro de um jardim, que só dava para apanhá-la subindo na grade. Mandei os meninos irem  apanhá-la, mas os bobocas não quizeram. Foram logo dizendo:

 - Logo ela que é tão metida a bacana, quer que nós façamos isso?

Tendo ouvido o que disseram, fui lá e peguei a flor, mas logo respondi:


 - Sou metida a bacana, mas não sou marica, tá?

AQUELE QUE FOI SEM TER SIDO - Mário Tibiriçá



                              
AQUELE   QUE  FOI  SEM TER SIDO
Mário Tibiriçá  

As  derrotas em sequência aniquilaram  as pretensões à títulos e conquistas que os torcedores esperavam. A diretoria do clube,  já em meados do campeonato, nadava em contradições histéricas dos dirigentes, quaisquer esperanças eram, ou melhor seriam,   soluções para os  graves problemas políticos   principalmente  financeiros do clube.

Eis  que, em dia de treinamento, repórteres famintos por notícias podres  e  fofocas permanentes faziam plantão no clube. Apareceu também  um garoto nos seus 21 anos, alto, corpo atlético, um Apolo, com apetrechos esportivos debaixo do braço, pedindo para treinar.

O técnico do  futebol, já sem esperanças e quaisquer outros recursos para fazer a esquadra jogar bem, aceitou que mais um pudesse tentar contribuir para tirar  o  clube  da encrenca vivenciada.

Como é seu nome menino?  - quis saber o técnico.

Jorge Luiz - respondeu o rapazinho com os olhos cheios de esperança e  o coração aos pulos pela possibilidade de participação no treino.

Qual é sua posição Jorge Luiz?

Eu sou meia, mas jogo onde o senhor mandar.

Bem,  entre lá na meia e vamos ver.

Jorge Luiz encantado, entra no treino  e passa a fazer fantásticas jogadas organizando , botando ordem, e dando seriedade  ao elenco   e ao treino.

Meu Deus, de onde saiu esse garoto?! -  disse o técnico.

  Ele é fantástico -  gritava o treinador já  imaginando a ressurreição  do time.

No domingo seguinte a irritada torcida pôde  ver no campo um novo  ídolo, paradigma de vontade, lucidez, esforço e carisma que mudaram a face do time.

Mais tarde, divulgando para a imprensa detalhes do jogador, da grande vitória e ressurreição do  clube, o treinador dizia “ Eu já sabia”.

Jorge Luiz, endeusado, celebrado em prosa e verso, apenas sorria.
JAMAIS HAVIA JOGADO EM UM TIME PROFISSIONAL.



Lembranças - Judith Cardoso


 


Lembranças
Judith Cardoso

Obviamente só posso escrever sobre a bailarina. Quando pequena aos 4 anos já era bailarina! E por isso meu pai me colocou no Conservatório de São Paulo, onde desde então desempenhei meu papel.

Dancei, dancei e dancei! Aos 10 anos fui para a escola do Teatro Municipal, onde, em pouco tempo, tornei-me a Primeira bailarina. Que saudades! Quanto eu amava essa atividade!  Nada mais importante do que aquelas aulas. Duraram tantos anos, até chegar aos 15 anos.

     Nessa altura, que besteira! Naquela época não era muito comum a profissão de bailarina, e meu pai que era professor de latim, me empurrou para os estudos.
     A tontona sem parâmetros para se espelhar, lá foi fazer Direito, de uma maneira muito torta.

     Qual o quê! Não deu uma coisa nem outra. Que idiota!


     Não tive mais nenhuma profissão e quando me ponho a pensar, imagino na minha casa, onde meu filho tem uma academia de lutas, que aquele espaço seria uma bela sala de aulas de balé. Pena que na minha idade já não dá para recomeçar, principalmente com este corpão atual. Talvez fosse um belo jeito de revalidar minhas energias, mas acredito que a família me internaria como uma velha louca.

Maria Luiza Malina - Agradecimento



Seu brilho da pedra de água marinha foi o toque especial de uma tarde de domingo em que, oficialmente, você me tirou do obscuro medo de escrever e do se expor cara a cara, em meio a pessoas avisadas ou desavisadas, do evento que incluiu uma Oficina de Criação de Textos.

Parabéns Ana Maria, por a cada terça-feira, deixar um pouco de si. Você é o MITO ou  MUSA inspiradora que me faz ficar à beira do precipício, a cada semana, fecho os olhos e sigo adiante sem me deixar cair no vazio do nada.


Muita luz em sua jornada. M.luiza
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Eu, na posição de monitora deste valioso grupo,  agradeço o empenho de cada participante da Oficina EscreViver. 
Agradeço pela rica amizade que existe entre nós, pelo carinho, pelo tempo que dedicam aos encontros, às pesquisas, e aos textos que elaboram em casa.
Muito obrigada !

Vera Lambiasi - Textos na Internet





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O CÉU NO SEU DESCOBRIR - M.Luiza Camargo Malina





O CÉU NO SEU DESCOBRIR
M. Luiza Camargo Malina

O dia amanhece ainda deitado na preguiça da mudança das cores. 

O verde lá de longe é de um azul de marinheiro, das noites de mar sem lua.

Daqui à pouco, este mesmo verde vai ficando clarinho, com gotinhas brilhantes de saudade da noite, lavando os olhos de quem sonhou.

E olhe só, quem está chegando. O grupo alegre e simpático da “WWF” carregando nas mochilas a cara de um novo companheiro, e eu acho que este bicho arrendondado de pelos brancos e orelhas pretas vai encarar o mato com a gente.
Vou ficar espiando do meu galho, de galho em galho, o que é que vai dar hoje, justo no hoje do dia em que achei um espelho para mostrar a uma amiga, bonita de feia que é como ela pode se tornar a deusa das matas despeladas.

O pessoal caminha sem olhar para a riqueza do céu, e eu pulando de esconde-esconde sem ter que me esconder.

Êta! Pararam. Estão procurando alguma coisa aqui em cima. Acho que estão meio perdidos, me olham sem me ver, não respiro para deixar o vento voar.

Ufa! Lá se vão sem vontade de ir. Gritam e escutam suas vozes que vão ficando mais perto da cidade e eu mais perto do meu verdinho em folha, bem pertinho do meu céu.



Alerta Vermelho - Vera Lambiasi



Alerta Vermelho
Vera Lambiasi

Marie Claire, falsa francesa, dedicava-se a arte da depilação em Manhattan.

Seu estúdio era famoso pela brazilianwax e seus formatos desconcertantes.

Atendia homens e mulheres, e Gerson Tony Ramos era um de seus mais assíduos clientes.

Com a inusitada aproximação, foi surgindo a mútua admiração.

Quanto mais dor Marie Claire fazia-o sentir, mais o amor crescia em seu peito nú.

Gerson, empresário brasileiro dos mais espertos, acabou por pedi-la em casamento e afastá-la do mais íntimo dos trabalhos.

Ofereceu-lhe um vidão, e assim Mademoiselle Marie Claire transformou-se em Maria Clara, a dona de casa faz-tudo de New York.

Trabalhadeira que só ela, dava conta do recado na manhã esticada, e por volta das 3 PM partia para o pilates, yoga e musculação.

Gerson, cada vez mais satisfeito com as habilidades da esposa e seu corpo torneado, nem se dava conta do inimigo a espreita.

Alguém mais queria levar vantagem em tudo, certo?

E os telefonemas noturnos começaram a importuná-lo.

Maria Clara vinha sempre com a mesma desculpa, que era um amigo gay recém-brigado com o namorado, chorando as pitangas.

Gerson tinha o coração vazio e o peito cheio de mágoas nesse momento.

Maria Clara não mais correspondia aos seus anseios.

E descartou-a qual cera de depilação usada.



MUNDO MALUCO O DA LUCY - OSWALDO ROMANO



MUNDO MALUCO O DA LUCY
OSWALDO ROMANO

É nesse mundo maluco de hoje que se movimenta Lucy, e milhares de senhoras que carregando seus cinquenta e tantos anos já viveram ficando saudades dos chamados anos dourados.

Pena que agora nos ônibus superlotados, acabou aquela gentileza masculina de levantar-se e ceder o lugar a uma senhora. Naquele tempo até para um senhor mais idoso, o jovem demonstrava esse respeito e educação.

Dona Lucy tem passado constrangimentos viajando nesses transportes, aos solavancos e superlotados.

E aconteceu com ela. Espremida, de pé, sustentando- se na alça, viu-se incomodada por um crioulo que por traz tirava partido dos trancos do ônibus. Olhou-o com repreensão por diversas vezes, mas este, diante da superlotação do coletivo, inocentava-se.

Mais alguns quilômetros vencidos pelo coletivo, e nova surpresa: Sentiu mexerem na sua bolsa! Era ele, sem dúvida! Sua bolsa tipo tira colo acabava de ser aberta! Virou-se e o ameaçou:

— Devolva minha carteira já, vou gritar e você será linchado aqui mesmo. Vou botar a boca no mundo! Vamos, vamos seu descarado, vagabundo!

— Pelo amor de Deus, minha senhora, estou desempregado... mas -tome –tome, eu devolvo, -tome.

Lucy conferiu e meteu a carteira na bolsa, fechou muito bem fechada puxando o zíper, suspirou vencedora e aliviada. O safado continuou ali.

Realizou-se ao ganhar a parada. Com essa idade, depois de passar por tantas, estava sempre atenta.

Valeram as recomendações do marido!

A propósito ele a esperava em casa, a quem contaria toda esta história. Refeita, num gesto natural, agarrou o balaústre acima, próprio para segurança. Esse movimento arregaçou a manga do casaco que cobria o relógio. Aproveitou para ver as horas. Cadê, cadê o relógio...

Seu relógio tinha sumido! Não teve dúvidas...

Incontinente virou-se pro grandalhão abriu o zíper da bolsa e ordenou-lhe faiscando de raiva:

— Ponha aqui o relógio. Ponha aquiiiiii o relógio! Já! Vagabundo mesmo... ponha aquiiii!, Vou gritar, chamar policia. Espremendo a voz soltava fogo pelas narinas.

O crioulo com medo do escarcéu, olhando pros lados e vendo outras pessoas atentas, jogou o relógio pra dentro da bolsa da Lucy. Ela carregando ódio, não querendo mais confusão, nem aborrecimento com polícia, olhou feio pro ladrão e foi torcendo-se para a porta de saída, chegando ao local costumeiro de descer e desceu.. Embora assustada, sentindo-se realmente revoltada pelo atrevimento e pela cara de pau do ladrão, que hoje roubam e não correm, mesmo assim olhava constantemente para trás se era seguida. Chegou triunfante sã e salva em casa, logo contando e aumentando a aventura para o Orlando, seu marido.

— Também Lucy, depois de tantos anos, toda sua experiência, poderia perfeitamente ter ido com seu carro? – Ele disse percebendo o perigo das ruas.

— É você tem toda razão, mas o trânsito está insuportável e, além disso, hoje foi o dia do meu rodízio, esqueceu?

— É verdade. Você vê, não é só com os outros que as coisas acontecem. Raramente você vai de ônibus e justo hoje aconteceu. Estava na hora errada, no lugar errado. Você viu se a seguiram?

— Vi, não fui seguida.

Precisamos ter muito cuidado, e principalmente sorte! Antes da sorte, a proteção de Deus.

Lucy, aliviada por estar no aconchego do lar, deixando a bolsa e o casaco na cadeira, subiu para o quarto, todo arrumado, tudo estava nos seus devidos lugares, elogiou a arrumadeira pelo trabalho. Calçou os chinelos, ajeitando-se para mexer com o jantar. Tirou também seu anel, pequena bijuteria, e ao colocá-lo no cantinho da gaveta, como fazia diariamente, levou um susto. Arregalou os olhos e com a mão tapou a boca para abafar o grito:

— Meu relógio! Meu Deus... ! Olha aqui, hoje não levei! Ficou em casa!

Sentou-se de peso na cama, olhava admirada o seu relógio, e disse:


Coitadinho, tô com dó daquele crioulo...

ROSAS CALIENTES - MLuiza C.Malina

 

ROSAS CALIENTES
MLuiza C.Malina

Um cartão cuidadosamente escrito em negrito com rosas “calientes” de um avermelhado escuro, tiravam os pés de Ceci de seu castelo, hàbilmente fortalecido, construído há anos.

A busca constante de símbolos do status que o sucesso concede, não mais lhe interessava. Concentrava prazer no recebimento deste tão singelo e atraente cartão de duas cores, afinal uma suíte no luxuoso hotel frente ao mar de Copacabana com amplo terraço e o mais requisitado pela elite de então, era o suficiente para o enigmático momento.

O dia passa ràpidamente. Ceci, dona de elegância sem par, estaciona o carro na vaga. Seu perfume adocicado atrai os olhares curiosos de um belo rapaz que, intrigado a persegue cuidadosamente.

Ao entrar na suíte, deixa a porta entreaberta como de costume, delicia-se com as rosas vermelhas sobre a mesa, brincando com os desenhos da fumaça do cigarro jorrando no quadro de sua espera.

Caminha pelo aposento com sua fértil imaginação, piteira de um lado e um copo de Champanhe em outra mão. Suas acompanhantes.  Tudo está perfeito. Num momento, seus olhos se deparam com a ponta de uma estola de pele distraidamente caída embaixo da cama. Agacha-se para pegá-la quando é surpreendida de costas por um grande abraço, entrega-se de olhos fechados a este grande momento, sem remorsos usando a estola em seu fetiche.

A pouca claridade das luzes e o leve som das ondas preguiçosas a reconduzem à realidade. Surpreende-se por estar só. Levanta-se ao ouvir sussurros no corredor. Apressa-se ao se vestir. Sai, deixando a estola caída à beira da cama, procurando em vão por algum indício de seu cartão de duas cores.

Entra em seu carro. Acelera ao sair olhando pelo retrovisor outro carro entrando na vaga pré-reservada. Dá-se conta.  É seu marido.