A MULHER ILHADA, ESCRAVA DAS NOTÍCIAS.- Oswaldo Romano



A MULHER ILHADA, ESCRAVA DAS NOTÍCIAS.
Oswaldo Romano                                                                  

         Julho de 1932. Todo paulista, homens e mulheres estavam revoltados com as pretensões do governo Vargas, golpista de 1930, mostrando truculência ao resto do Brasil.
         Oriundo lá dos recantos do sul, avançava para o centro e norte, numa ferrenha vontade de calar e sustentar o domínio da nação já conquistada.
         Seus guerreiros estavam dominados pelas mentiras, próprias das ditaduras que garantem suas forças pelas vias de comunicações, prometendo um futuro de sonhos, resultando na chamada lavagem cerebral.

         Já havia nomeado interventores, e as eleições livres ficariam desde já prejudicadas. Informado que encontraria resistência nos ideais dos paulistas que queriam nova Constituinte e o direito de respirar liberdades, preveniu-se reforçando seu exercito local.

         Os senhores do café, fazendeiros Paulistas reagindo, encabeçaram forte oposição contando com os esclarecidos universitários. Em uma das manifestações no Largo São Francisco, os soldados de Getúlio abriram fogo, morrendo os estudantes Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, deixando outros feridos de morte.
         A população revoltada deu inicio, a Revolução Constitucionalista. Para a arregimentação não precisaram apelos. Os Paulistas compareceram em massa, e sem preparo de guerra, ofereciam suas velhas espingardas de caça para a luta.

E daqui nasceu a história de Vitório.

         O Vitório, era um homem quase sempre omisso em casa, dava pouca atenção à sua mulher Fátima. Tomado de brios viu a grande oportunidade de demonstrar sua valentia. Sob a égide das marchas militares, sentiu no arrepio da pele o desejo de compartilhar.

         Apresentou-se, disse não ter armas em casa, deram-lhe uma boca larga, parecia um trabuco. Nunca havia pego em arma, achou essa interessante, apropriada para a luta.

         Passaram-se meses, Fátima não recebia qualquer notícia. Acendeu velas, invocava sua Santa. Não imaginava que sentiria tanta falta. Postava-se na janela, ouvindo seu rádio, o retumbar dos tambores. Sentia-se orgulhosa. Notícias alentadoras, promoviam vitórias.

         Fátima aos poucos foi sentindo-se isolada. Já não saia de casa. Preferia o isolamento, pensando com saudades do seu Vitório. Assistia passar velhos conduzindo suas carroças levando mantimentos. Crianças em grupo portavam bandeirinhas listradas e cantavam:

         Da alma cívica de um povo/   Irmanado nas trincheiras
         Surgem as novas bandeiras/  Criando um São Paulo Novo
         Irmanado nas trincheiras .../ Conosco marcha a vitória
         Marchemos cheios de glórias...

                  Vitório no front junto ao seu batalhão aguardava um prometido reforço dos voluntários de Mato Grosso do Sul. Viam esgotar as provisões de alimentos e munições. Combatentes desarmados portavam grandes matracas que simulavam disparos de metralhadoras. Seu batalhão estava sendo dizimado.

         Fátima precisava de notícias. Já não deixava a casa, ficava desolada, sentia-se ilhada. Ligada no ruído espúrio do rádio que engolia palavras, não deixava escapar uma só notícia.

         Finalmente os batalhões receberam ordens de regressarem. Noticiavam muitas mortes, mas nunca anunciaram serem mais de mil o número de baixas. A derrota aconteceu, mas ficou o aviso de que queriam suas reivindicações e a Constituinte em pouco tempo.

         Os batalhões regressando, desfilavam imponentes pela Av. São João sob aplausos dos que ficaram. Abanavam as mãos, jogavam beijos, batiam no coração.

         Mas Vitório não apareceu. Desesperadamente Fátima procurava notícias. Interrogava aqueles homens fardados, chorava. Um mais pesaroso levou-a ao coronel. Este lamentando anotou seu nome, e disse:

         — Vamos aguardar trinta dias. Não aparecendo ao cabo desse prazo prometo a Senhora coloca-lo na lista dos “soldados desaparecidos”, e que serão homenageados. Fique em sua casa, feche-se, ele pode aparecer a qualquer momento. Tenha fé.

Passou-se um mês, na casa imperava triste silêncio, quebrado com o bater na porta. — Ávida de notícia só pode perguntar: Quem é?

         — Sou um soldado — Meu Deus! Vitório, não é hora de brincar...


Abrindo a porta era um soldado. Sem palavras, lhe entregou um capacete numerado.   

CAMINHOS ESQUECIDOS - Maria Luiza C. Malina




CAMINHOS ESQUECIDOS          
Maria Luiza C. Malina

Tec...tec...tec... O metrônomo continuava seu compasso na contagem das notas, sem se dar conta de que Catarina estava debruçada sobre o teclado do piano numa cena profundamente inquietante.

- O tiquetaquear deve tê-la hipnotizado! - dizia Amélia.

- Ora! Deixe-a em paz, está cansada, teve um dia muito agitado! - retrucou sua avó, que, de tempos em tempos lhe lançava um olhar de espreita, o que não passou despercebido à Amélia, que continuava seus afazeres intrigada com a situação.

Catarina, finalmente, abre as janelas da sua vida debruçada em cima de seus segredos, depois de ter adquirido forças na solidão do silêncio. O ar fresco da manhã do seu dia tem um efeito esplêndido, repleto de ideias úteis, liberando toda sua emoção contida.

Com o rosto recostado no batente da janela desperta sua feminilidade   sentindo-se enamorada de si mesma, recobra a auto suficiência com o leve toque de sua mão no rosto.

Assim, passa o dia lentamente, cantarolando pequenas canções que a fazem abrir mais e mais janelas. Seu corpo de casarão mal assombrado, toma forma e vida, sem notar o tempo em que ficara debruçada em uma só janela.  Continuava cantarolando, girando e dançando por todos os compartimentos de sua alma, trajando uma longa e leve vestimenta, que se esvai criando uma nova Catarina.

A cada girar Catarina elimina de uma a uma suas incertezas e seus medos e, no cantarolar, conspira junto ao universo de mulher em flor, todos os seus desejos.
Percebe o compasso da ânsia do viver, pelo tiquetaquear de seu coração, deixando a passividade adormecida, trancada no baú de sua infância, cheio de conchinhas do mar.




O Valetão que Engolia Meninos

Vida de Menina - MEMÓRIAS


E por falar em Memórias, temos neste filme um exemplo de recordações.

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS - Machado de Assis

Para ler e conhecer:





Memórias Póstumas de Brás Cubas

Autor:  Machado de Assis

Publicado em 1881, o livro aborda as experiências de um filho abastado da elite brasileira do século XIX, Brás Cubas. Começa pela sua morte, descreve a cena do enterro, dos delírios antes de morrer, até retornar a sua infância, quando a narrativa segue de forma mais ou menos linear – interrompida apenas por comentários digressivos do narrador.

O romance não apresenta grandes feitos, não há um acontecimento significativo que se realize por completo. A obra termina, nas palavras do narrador, com um capítulo só de negativas. Brás Cubas não se casa; não consegue concluir o emplasto, medicamento que imaginara criar para conquistar a glória na sociedade; acaba se tornando deputado, mas seu desempenho é medíocre; e não tem filhos.

A força da obra está justamente nessas não-realizações, nesses detalhes. Os leitores ficam sempre à espera do desenlace que a narrativa parece prometer. Ao fim, o que permanece é o vazio da existência do protagonista. É preciso ficar atento para a maneira como os fatos são narrados. Tudo está mediado pela posição de classe do narrador, por sua ideologia. Assim, esse romance poderia ser conceituado como a história dos caprichos da elite brasileira do século XIX e seus desdobramentos, contexto do qual Brás Cubas é, metonimicamente, um representante.

O que está em jogo é se esses caprichos vão ou não ser realizados. Alguns exemplos: a hesitação ao começar a obra pelo fim ou pelo começo; comparar suas memórias às sagradas escrituras; desqualificar o leitor: dar-lhe um piparote, chamá-lo de ébrio; e o próprio fato de escrever após a morte. Se Brás Cubas teve uma vida repleta de caprichos, em virtude de sua posição de classe, é natural que, ao escrever suas memórias, o livro se componha desse mesmo jeito.

O mais importante não é a realização ou não dessas veleidades, mas o direito de tê-las, que está reservado apenas a uns poucos da sociedade da época. Veja-se o exemplo de Dona Plácida e do negro Prudêncio. Ambos são personagens secundários e trabalham para os grandes. A primeira nasceu para uma vida de sofrimentos: “Chamamos-te para queimar os dedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou não comer, andar de um lado pro outro, na faina, adoecendo e sarando…”, descreve Brás. Além da vida de trabalhos e doenças e sem nenhum sabor, Dona Plácida serve ainda de álibi para que Brás e Virgília possam concretizar o amor adúltero numa casa alugada para isso.

Com Prudêncio, vê-se como a estrutura social se incorpora ao indivíduo. Ele fora escravo de Brás na infância e sofrera os espancamentos do senhor. Um dia, Brás Cubas o encontra, depois de alforriado, e o vê batendo num negro fugitivo. Depois de breve espanto, Brás pede para que pare com aquilo, no que é prontamente atendido por Prudêncio. O ex-escravo tinha passado a ser dono de escravo e, nessa condição, tratava outro ser humano como um animal. Sua única referência de como lidar com a situação era essa, afinal era o modo como ele próprio havia sido tratado anteriormente. Prudêncio não hesita, porém, em atender ao pedido do ex-dono, com o qual não tinha mais nenhum tipo de dívida nem obrigação a cumprir. 

Os personagens da obra são basicamente representantes da elite brasileira do século XIX. Há, no entanto, figuras de menor expressão social, pertencentes à escravidão ou à classe média, que têm significado relevante nas relações sociais entre as classes. Assim, "Memórias Póstumas de Brás Cubas", além de seu enorme valor literário, funciona como instrumento de entendimento desse aspecto social de nossas classes, como se verá adiante nas caracterizações de Dona Plácida e do negro Prudêncio. 

A sociedade da época se estruturava a partir de uma divisão nítida. Havia, de um lado, os donos de escravos, urbanos e rurais, que constituíam a classe mandante do país. Estão representados invariavelmente como políticos: ministros, senadores e deputados. De outro, a escravidão é a responsável direta pelo trabalho e pelo sustento da nação e, por assim dizer, das elites. No meio, há uma classe média formada por pequenos comerciantes, funcionários públicos e outros servidores, que são dependentes e agregados dos favores dos grandes privilegiados. (Guia do Estudante)


OBRA COMPLETA: Leia a obra completa no link abaixo do site Domínio Público:

MEMÓRIAS PÓSTUMAS DE BRÁS CUBAS - OBRA DE MACHADO DE ASSIS


O QUARTO HOMEM - Suzana da Cunha Lima


O QUARTO HOMEM
Suzana da Cunha Lima

Cheguei em casa cansada e feliz. A festa tinha sido ótima, dançamos muito, bebemos champanhe à vontade e ainda fui pedida em casamento.  Três anos juntos com Rubens e não tínhamos ainda oficializado nossa união, porque brigávamos toda hora: eu por ciúmes e ele pelo vício do carteado. Mas o amor falou mais alto, as promessas mútuas também e como o relógio biológico não para, estava mais do que hora de juntarmos nossos trapinhos e esperanças e irmos morar juntos de vez. Foi mágica a hora em que ele se resolveu. “Se queremos construir uma família é agora, Bia. Vamos encarar?” e me beijou com a velha paixão dos primeiros tempos. Saímos do Clube enlevados um com o outro e não sei como ele não bateu com o carro em algum poste, de tanto beijo que me dava, mesmo guiando. 
 
Entrei flutuando em casa e ao mesmo tempo louca para dormir. Danças e emoções fortes cansam muito, pensei. Fui largando tudo pelo quarto, a bolsinha, sapatos, pulseiras e brincos, mas quando passei pelo grande espelho da porta, estaquei: a imagem era de uma mulher descalça com um vestidinho preto . Faltava algo. A echarpe dourada! Ele tinha comprado para mim em Marrocos e ela,  sozinha, fazia de qualquer vestidinho preto básico, um traje de coroação.

Aí lembrei-me  que eu a tinha deixado numa cadeira, no baile.  Não podia perdê-la, ia usá-la numa cerimônia do dia seguinte, em Búzios, já estávamos com a viagem marcada e devíamos acordar bem cedo. Fiquei pensando: bom, a festa deve ter acabado, mas sempre há seguranças pelo Clube e eles recolhem tudo que o povo esquece e levam para a Portaria.  Coloquei umas sapatilhas e um casaquinho e fui para  lá. Era bem perto.

Parei  na entrada, e mesmo sem sair do carro, perguntei ao porteiro se haviam achado alguma echarpe.  Ele olhou na prateleira e veio com minha linda echarpe na mão, dizendo que  a haviam entregue há poucos minutos. Ah, que bom – disse – agora é voltar para casa e dormir.  Segui em frente para depois pegar a Marginal, de lá era um pulo para casa. Foi quando meu olhar se deteve num carro estacionado bem na esquina, embaixo de uma árvore.  Era o carro do Rubens! 

Será -  pensei? Olhei a placa e era dele mesmo.  O que estaria fazendo ali naquela hora? Dali mesmo,  liguei para os telefones fixo e celular dele. Nada!  Um caiu na secretária eletrônica e outro estava desligado.

O velho ciúme tomou conta de mim. Será que ele tinha alguma amante nos arredores? Pareceu-me pouco provável, só se ele fosse muito burro. Aí acendeu-se uma luzinha na minha cabeça. Ou será que ele foi para o carteado do Clube? 

Resolvi dar a volta completa no quarteirão, para ver se havia luz da sala de jogos. 

Esta sala dava para a Marginal, onde ficam o refeitório dos empregados, a lavanderia e área de serviço. Bem escondidinha.  Fui devagar e pude perceber uma luzinha, no segundo andar.  Então, tinha carteado mesmo!

Parei o carro sem saber o que fazer, chorando em cima do volante,  atordoada com a ideia de Rubens ter sucumbido ao velho vício. Quando levantei a cabeça reparei num vulto no portão e parecia estar carregando um embrulho pesado. Alguma coisa ilegal, com certeza, para ser levada assim, no meio da noite. Muito estranho, pensei e resolvi telefonar para a polícia, contando tudo.  O Distrito é ali perto, duas quadras do clube,  em minutos eles chegaram, sem sirena e bem silenciosamente. Pararam o carro atrás do meu e bateram no meu vidro.  Fizeram sinal para eu ficar quieta e dirigiram-se para lá.

Eu estava inquieta e apreensiva.  Observei que outro homem surgiu pelo portão de serviço. Parece que o embrulho era pesado e veio ajudar o companheiro.

Gostei de ver a presteza dos policiais. Com as mãos no coldre, renderam os dois homens e os fizeram abrir o embrulho.  De onde eu estava não dava para ver o que era. Logo que foi aberto, eles se entreolharam e rapidamente algemaram os dois homens. Eu ainda os vi ao rádio. O jogo é sempre com quatro pessoas. Nenhum daqueles homens era Rubens.

Nestas alturas, um policial se acercou de mim e me pediu telefone e RG, informando que eu tinha que ir à Delegacia prestar informações.   “Vai um policial com a senhora no seu carro e ele lhe leva depois em casa” – informou ele.  

Seguimos para lá.  Enquanto eu prestava depoimento, vi pela janela o carro da polícia chegando com os dois homens algemados. Eu os conhecia de vista, estavam  no clube, naquela festa. Agradeci por Rubens não ser um deles.  Será que neste meio tempo ele já teria voltado para casa? Não quis telefonar ali na delegacia, aliás, nem queria que a polícia soubesse que meu noivo possivelmente estava com aqueles dois no carteado.  Já bastava  eu ainda estar acordada naquela hora, por ter bancado a boa cidadã.

Comecei a ficar bem apreensiva,  cheia de dúvidas e sem querer incriminar ninguém, falei o mínimo, mas o medo ia crescendo no meu peito. Não disse para o delegado que eu estava procurando meu noivo. Ainda bem que ele viu a echarpe e meu testemunho pareceu válido. Dei a entender que tinha dado a volta no clube, para pegar a marginal e ir para casa, que era ali perto.  Foi quando eu vi aquele movimento suspeito e resolvi acionar a polícia.   O delegado agradeceu e mandou alguém comigo para a volta à casa. Já eram três da manhã.

Cheguei cada vez mais aflita e antes de pegar o elevador, tentei ligar outra vez para meu noivo e nenhum telefone  tocou. Subi e entrei em casa sem saber o que pensar. Joguei a bolsinha e a echarpe na poltrona da sala, quando vi um vulto sentado no sofá. Meu coração disparou. “Psiu, sou eu, não grite”. Era ele, parecendo mais assustado do que eu.

- Meu Deus, o que houve, por que está aqui? Sentei perto dele, segurando suas mãos, que estavam geladas e o abracei. Ele se abraçou comigo chorando, falando depressa e baixo, não consegui entender quase nada.   

Tinha me levado em casa e resolveu voltar para pegar o carteado que ia começar naquela hora. Vício é uma coisa danada mesmo... Estavam os quatro jogando quando começou uma discussão entre os dois mais velhos, e tudo por causa de mulher. Que um tinha paquerado a mulher do outro, e outras tantas baixarias que ele me poupou de contar.  Numa hora, a coisa saiu do controle, um deles pegou o taco de bilhar e acertou na cabeça do outro. Foi uma tacada certeira, ele caiu e lá ficou. Um deles que era médico, constatou a morte. Eles eram figuras conhecidas na sociedade, com belas carreiras consolidadas, não podiam ser expostos num julgamento. Afinal, ninguém teve intenção de matar ninguém, mas o morto estava ali mesmo, na frente deles, pedindo uma solução rápida. Então combinaram que, para todos os efeitos, eles nunca estiveram ali, da festa tinham retornado às suas casas.  Iam colocar o morto num saco de lixo,  e desovar perto da marginal. Pronto! 

Rubens ia ficar para apagar vestígios e desligar a luz. Mais um crime sem solução! 

Uma história terrível, da qual, infelizmente,  ele não iria se salvar. Evidente que os dois que foram presos iam denunciá-lo, no mínimo por cumplicidade. Rubens era advogado, sabia que a história ia ter muitas outras implicações, nenhuma boa.

 Nem podia dizer que estava na minha casa na hora do incidente, seria minha palavra contra a deles e, afinal, o carteado é com quatro jogadores. Fazendo as contas, Rubens era o quarto homem. Que estava na hora errada num lugar errado, violando promessas e destruindo sua vida pelo vício.  Creio que aprendeu a lição.

Está acabando de cumprir sua pena e logo vamos casar.

E se eu lhe desse um beijo? - Vera Lambiasi


E se eu lhe desse um beijo?
Vera Lambiasi


        - Eu iria adorar, bobão !

Gargalhava com a resposta.

        - Não se acanhe, já nos amamos tanto.

Palavras sufocadas, escritos desbotados pelo tempo, e agora esse encontro fortuito.

       -  Je ne pense qu’à toi, mon enfant.

Amor não utilizado, como aquela canção do Chico :

      -   “Não se afobe não, que nada é pra já, amores serão sempre amáveis, futuros amantes, quiçá se amarão sem saber, com o amor que eu um dia deixei pra você ...”

        - Ah ... você tem cada uma !


       -  Precisa pedir ?



ATRÁS DA JANELA, INFERNO - Mario Tibiriçá



ATRÁS  DA JANELA, INFERNO
Mario Tibiriçá

A janela do sobrado que   era apenas uma vista para a praça, talvez pudesse representar uma saída para o mundo. Saída que determinaria   o  escape do próprio corpo,  para fantasias   maiores  ou menores, que certamente contribuiriam  para desanuviar a mente, fortalecer o corpo, criar expectativas novas e renovar esperanças. Mas,  apenas  uma janela  para a praça talvez não fosse o bastante para Eleonora. Casada com Carlos, há dez  anos, sempre  fora o ciúme  corporificado, sempre quis saber de  tudo a  volta dele, emprego, amigos, futebol, roupas, camisas, cabelo,  tudo era da sua conta,  do físico à mente do marido.

Por isso sofria muito. Suas tardes quando só, a  janela  era seu escape e a fuga do seu inferno particular, criado em seu próprio ser, por ela mesma sem escrúpulos e sem vergonhas.

Mas Eleonora sabia  da verdade que seu coração tentava ocultar, que o inferno dentro de sí mesma a levaria  ao delírio da auto  mortificação, suicídio , para se ver livre e voltar em um  nova vida e em outro mundo.


A janela  em seu desatino era sua destruição e seu fim.


Falsos delírios - Mario Luiz Tibiriçá Ramos


 

Falsos   delírios
                           Mario  Luiz Tibiriçá Ramos

A falsidade constante nos delírios, certamente provém do próprio conteúdo do delírio, sempre criando expectativas e esperanças  que  jamais se cristalizam,  por isso delírios.

Como  é lindo e agradável sonhar, imaginar coisas, criar situações que justificam sempre, esperas demoradas e maravilhosas  que nunca se realizam. O imaginário do homem é infinito,  e as propostas, embora quase sempre descabidas, determinam euforias e esperanças que um dia podem  ou não,  acontecer.

O etéreo  dos desvarios de Raquel, que regularmente vinha a sua cabeça a levava  à certeza de que se tornaria realidade, também pelas  suas expectativas religiosas, pois além dos delírios havia  também a fé, e sabemos que a fé move montanhas.

Avançada nos anos e um tanto doente, Raquel não abdicava da certeza de que haveria de partir, rumo às   terras maravilhosas do Senhor de alma e o corpo, que para outros restariam na terra. Todos os dias na sua inabalável fé, lá  estava ela, junto a janela que formava um desenho com  o formato de uma cruz, aguardando  a realização de   seu  falso, para ela verdadeiro delírio.

Raquel  participava há anos de reuniões de senhoras em festas de caridade, onde tricotavam  peças de roupas para aquecimento da pobreza no inverno. Suas companheiras  debicavam de seu  delírio que jamais aconteceria. O deboche e as risadas  eram chicotadas no animo de Raquel que  todavia respondia apenas com um sorriso.

Até que um dia, na festa de São Pedro, junina com fogos, fogueiras,  bebidas, danças e risadas, Raquel não apareceu.....Estará doente ! Vamos  visita-la diziam as amigas.

No dia seguinte dirigiram-se á casa de Raquel, e lá chegando, logo constataram que os vidros da grande janela que  dava para a praça  estavam quebrados. Onde está  Raquel? - perguntaram.

A moça que tomava conta da casa e fazia companhia para Raquel  explicara que  havia acontecido alguma coisa, pois  desde que chegara naquele  dia ainda na vira Raquel. Esperava que estivesse com as Senhoras disse.

A surpresa dias após, tomou conta da cidade, D. Raquel misteriosamente havia desaparecido.


Não podiam compreender  que o  delírio de Raquel tornara-se realidade, viajara ela para o reino dos céus de alma e corpo, seu delírio tornara-se verdadeiro.

Viagens Secretas - Vera Lambiasi

                         

                           Viagens Secretas
Vera Lambiasi

“Amor mais perfeito não é feito do fácil. Floresce por dentro, embora se pretenda que cesse. E quando nas águas da pressa, foge o amor mais depressa, é tempo de saber, quanto dura o tempo de não saber.”
 LINDOLF BELL

Quem teria escrito essas linhas no bilhete deixado embaixo da porta, murmurava a moça, para seu dorso refletido no espelho.

Aquele amor a acometeu há tantos anos, não seria possível revê-lo agora.

Essa frase adornava um quadro, bordado em ponto cruz, em sua sala de costura.
Entre agulhas, alfinetes e ilhoses, o pensamento tomava rumo próprio.

E viajava secretamente por imagens proibidas.



STEPHEN KING (LEGENDADO, "DICAS PARA SER UM ESCRITOR")

A escada - Mario Augusto Machado Pinto



A ESCADA
Mario Augusto M. Pinto

Aquele homem que estava por ali passando e olhando pra mim disse: Ah, se essa escada falasse diria cada coisa... E foi subindo pelos meus pés.

Então eu pensei: vou tirar o dia pra conversar com todo mundo. Não é bem conversar porque eu vivo numa cidade de surdos. Por mais que eu me esforce, ninguém escuta minhas palavras e olha que eu já venho falando há muito tempo.  É tanto tempo que eu já disse que esse falatório seria de horas e horas seguidas.  Aprendi essa frase outro dia. Tirei da conversa de dois homens velhos porque achei bonita.

Eu não sei falar direito. O que eu sei foi de ouvir os outros que passam e agarotada que vive aqui do meu lado.

Oi pessoal, gente, escuta! Eu vivo aqui bem no meio disso que chamam de cidade, debaixo de uma marquise – bonito, não? - que me abriga um pouco da chuva, do vento e do sol mais quente. Aqui passa muita gente pra ir prá parte mais alta onde fica uma rua que, por sinal, nunca vi  Aqui é donde vejo e escuto as pessoas que passam.
Deste meu lado tem uma rua chamada formosa. Vocês já imaginaram uma ladeira ainda com pedras no chão (vocês chamam de outro nome), suja com o lixo das lixeiras espalhado por cachorros nas calçadas esburacadas, ser chamada de Formosa? É o fim; vocês arranjam cada nome...

O meu outro lado já é melhor: há uma bacia com esguicho, duas figuronas que estão sempre do mesmo jeito e uma prima, pequena, uma escadinha de três pés ao seu redor. O pessoal chama de fonte. Quando faz calor, algumas crianças que moram aqui na calçada ao meu lado tomam banho e quando isso acontece escuto gente gritando “vai derreter, vai derreter”... Fico contente ouvindo os gritos, as risadas e até os palavrões dessa garotada.

Se olhar pra frente tem um gramado muito verde, bonito, com caminhos de pedrisco – ouvi o homem que meche ali falar que é assim que se diz - e uns lugares com plantas de folhas grandes e altas e outras que tem uns copinhos dependurados durante o tempo todo. Eles aparecem, ficam grandes, caem no chão e aparecem novamente. Não sei como não se cansam. Algumas pessoas pegam esses copinhos e levam pra passear. Eles reclamam, dizem que vão ficar doentes; as pessoas não escutam. Claro, só tem surdos por aqui, só surdos... Reparando bem, surdos só para a nossa voz. Até agora não entendo porque acontece isso; já pensei até que é pouco caso.

Eu escuto muita fala das gentes que passam ou param pra conversar encostadas nos meus braços que elas chamam de corrimão. As mãos não correm!!! Elas se apoiam nesse meu braço!

Bom, mas como eu estava dizendo, tem todo tipo de conversa. Só para vocês fazerem uma ideia outro dia duas mocinhas estavam subindo e conversando.  Uma dizia pra outra: Imagina se eu vou ficar com o Sérgio na sala depois do expediente. Ele é um safado (?).  Você viu, a Clara ficou várias vezes e só foi promovida depois que ela disse que ia contar tudo pra todo mundo. Lembra? Foi uma discussão braba com ele.  

Elas continuaram, subiram conversando; não deu pra ouvir mais nada.

Tem gente que sobe ou desce bem devagar; outras não tão devagar e umas vão com pressa e até muita pressa pulando os meus pés.  Ai eu posso reparar nos sapatos que tem. Antes eram com sola de couro, de borracha em dias de chuva; as mulheres sempre com sapatos de salto alto. Hoje, hum, é todo mundo de tênis. Tem um até que se chama reboque...

E as roupas... Já houve tempo em que os homens – inclusive garotos como esses que moram aqui do meu lado– andavam de roupa diferente, camisa branca com ou sem lenço. Hoje é tudo chamado de moletom; inclusive as moças usam. Ouvi dizerem que assim tem mais liberdade – do que? - não precisam se preocupar com os olhares e piadas dos outros. Elas comentaram muito sobre anágua. Anágua? Não sei o que é. Eu sinto falta dos vestidos. Eram de todo jeito. As mulheres estavam sempre bonitas e mudavam muito de vestido. Eu via as pernocas delas e quando as saias eram mais largas e ventava chegava a ver por dentro. Mas isso só acontecia de vez em quando.

Outro dia veio até aqui um bando com um professor – acho que era porque era o mais velho, os garotos diziam assim. Ele mandava o pessoal calar a boca e ninguém achava ruim. Ele explicou que antigamente aqui foi um lugar importante. Era aqui que ficava o pessoal nas festas do governo (?). Falou uma porção delas; disse que a maior era a do sete de setembro. Não sabia desse nome. Eu me lembro das festas, dos meninos e dos soldados, até dos aviões que faziam uma barulheira enorme. Depois diminuiu o barulho com uns tais de jatos.  Nunca entendi que jato. Eu conheço jato d´água. Da primeira vez entendi “gatos”, já imaginou a bruta confusão? Agora diminuiu e quase não tem mais dessas festas.

Agora, bom mesmo é ver e ouvir os namorados que vem aqui por causa de um canto escurinho. Eles pensam que ninguém vê ou ouve. Eu estou aqui, ó gente! Escuto e vejo tudo que acontece e me lembro!

Eu sempre pensei que os moços começavam esse negócio de esfreguncho, mas não, são as meninas. È interessante ouvir os moços dizerem coisas para as moças com a voz melosa e rouca. Deixa, bem. È só um pouquinho. Elas dizem alto, Você está maluco? Nem que a vaca tussa!  Há aqueles que dizem que vão dizer uma poesia: são palavras que não entendo e há abraços e beijinhos rápidos. Eu observei um casal de namorados durante bastante tempo. Era só beijinho e abracinho. Outro dia não sei o que aconteceu e a moça gritou  NÃO E NÃO, JÁ DISSE! Mas eu não consegui ver e entender o que era porque estava muito escuro.

Agora, tem um dia que vem um pessoal diferente: são pais com filhos, grupinhos de moços, até um grupo que canta junto umas músicas muito bacanas.

Agora, há coisas muito, mas muito chatas que acontecem. É uma falta de respeito e consideração total. Afinal, faço parte da cidade. Uns caras vêm passear com os cachorros e eles deixam  fazer xixi e suas necessidades nos meus pés; alguns pegam mas a maior parte deixa por ai mesmo. E uns, então, que chegam á noitinha. O pessoal os chama de Zumbi. O que é Zumbi? Enrolam-se em panos sujos, se arrastam pelo chão, vomitam e deixam lixo por todo lado. Brigam, gritam, assustam as gentes que tem que passar por aqui e ninguém faz nada! Ninguém diz nada! Eles ficam uma parte do meu tempo. Por causa deles só consigo descansar quando é muito tarde e logo, logo começa a luz e o movimento novamente.

Hoje foi diferente. Vou aproveitar essa calmaria e descansar um pouco... Opa, opa! Mas o que é isso? O que é eu estou vendo!. Olha quem chegou! Gente há quanto tempo você não passava por aqui! Lembra? Você estava naquela escola do largo, e passava todas as noites indo e voltando e não ligava pra nada e pra ninguém, muito menos pra mim. Você pulava meus pés de dois em dois. Não vá embora assim sem falar comigo... Ai, não faça isso...Ó, eu me lembro da musiquinha que você e seus amigos sempre cantavam praquela moça morena. Aposto que você não se lembra

Vouz que passez sans me voir
Sans meme me dire bon soir
Donnez moi un peu d´espoir
Ce soir...

Você podia ter parado e cantado. Você foi muito mau... Ao menos, podia dizer Tchau.

Bem o tempo todo é assim... Às vezes.

Com essas e outras vou descansar.

Tchau. Vai...

Carta para uma amiga - Judith Cardoso




Querida Suzana,

Muita alegria me deu sua carinhosa cartinha. Afinal,  fomos parceiras em muitos eventos nestes 30 anos de conhecimento.

E pensar que você era conhecida de minha filha Rita mesmo antes de nos conhecermos.
Hoje, revendo todo esse tempo, lembro-me de muitas coisas, inclusive de sua netinha inglesa, com quem eu conversava na piscina, sem saber que era sua neta. Ela tinha uns 11 ou 12 anos e era um mimo, e eu encontrava bastante com ela na piscina.

Temos muito que curtir ainda neste clube, que para mim foi a segunda casa de meus filhos! Lembro-me também que você me contou que quando veio morar em São Paulo, mudando do Rio, onde havia a praia, o que te valeu para os meninos principalmente foi o espaço do clube.

Vê como o AP é importante?

Fico por aqui, muito satisfeita por pertencer à sua roda de amigos.

Um abração a você e ao Luiz.

Judith e Paulo

SUSPENSE NA SAÍDA DO CLUBE AP - OSWALDO ROMANO


SUSPENSE NA SAÍDA DO CLUBE AP.
OSWALDO ROMANO

         Vários amigos do Clube Alto de Pinheiros se comprometem com o carteado. Para eles, as quartas a noite são sagradas. O pôquer toma conta da sala. Fala-se que é para distração, não adianta, o vício está plantado ali. Costumo falar que o único que se distrai sou eu, destacado para fazer o fechamento,  e nos fins de semana os pagamentos.    

      Sobrou-me esse trabalho que absorvo fazendo elogios e críticas. É um jogo de habilidade contando com trinta por cento de sorte. Dizem que começou na China na Dinastia Sung. Mas, para nós brasileiros temos o Oeste Americano como o palco das grandes disputas. Chamado o jogo da trapaça, levado pelos franceses para uma terra quase sua, ali fundaram “Nouvelle Orléans”. E era pelo Rio Mississipi o encontro das cartas, e dos desentendimentos resolvidos pelos Smiths & Wessons, todos querendo imitar Bob Munden.

         Na quarta passada, tudo corria normal o jogo terminou as quatro, saíram, uns sorrindo amarelo, outros respeitando a perda alheia com seriedade.

         Fiquei mais o tempo dos registros e também sem alegria porque, tinha perdido um pouco. A bruxa estava solta! Sempre tenho uma desculpa: Essa noite não foi lá essas coisas. Abri nosso armário, tomei um gole, apanhei o meu capote, a madrugada estava fria, nublosa, garoava. Com a falta de estacionamento no clube, que com respeito aos sócios já deveria existir no subsolo, os carros ficam nas ruas. Nosso horário de chegar coincide com o maior movimento das atividades. Meu carro estava estacionado depois da quadra, distante uns duzentos trezentos metros.

         Grandes árvores, rua escura, calçada molhada. O jeito era seguir o rumo de onde estava o carro e findar a noite. Naquela quietude conseguia ouvir o pingar dágua das folhas e sentir o quanto eram frias no rosto. Uma ofegada respiração, segurei-a para confirmar se era minha.

         Foi quando nesse silêncio vejo na calçada oposta uma pessoa, ela caminhava no meu ritmo, o mesmo sentido, um pouco atrasada. Ouvi-a seu pisar macio, mas firme. Estava de capote, encapuzado, e com frequência olhava para meu lado.

         No natural senti o batimento do coração acelerar. Ativei os ouvidos, pensando o que fazer. Sentia que seria abordado a qualquer momento. Pensei em voltar, mas,  quando sai fecharam o Clube. Correr não, não iria conseguir, pois a idade não permitia.

         Dei uma parada, sei lá como, talvez medo, indeciso, agi abaixando-me e dobrando a barra da calça. Pensamento inquieto. Estava enrolado.

         Sem mudar seus passos ele continuou andando. Foi um desafogo, fiquei bem mais leve, aumentava a influência do vento úmido e frio daquela noite. Estava mais calmo. Fiquei uns quinze passos atrás, vi mais segurança, encurtava o andar.

         Foi por pouco tempo. Ele parou e virando-se ficou atrás de uma das árvores. E minha respiração? Tenho idade, controlava o batimento. Idade, mas forte, esportista, não podia demonstrar medo. Apoiava o pé no tronco, amarrava seu calçado. Eu não via como mudar minha conduta. Enquanto procurava uma saída, ele de novo caminhou.

         Havíamos passado as casas, estávamos junto aquele medonho muro da esquina. A distância entre nós ficou bem menor. Finalmente vislumbrei o carro estacionado na travessa, não pude avançar como queria já pensando apanhar o extintor ou a chave de rodas, coisas que me ocorreram para defesa. Felizmente o carro estava na guia do meu lado.

         Foi quando o cara também cruzou a rua e tomou minha direção. Passos pesados. Eu apressado para abrir a porta do Jeep, não dava certo, esqueci que era só apertar um botão. Arrepiei, ele certamente queria o carro! Sequestro? Era só o que me faltava essa noite.

         Abandonei a chave no local e fui pra frente do capô como que examinando alguma batida, alguma coisa. Nesse momento o arrepio foi mais forte. Sabe aquela involuntária tremida: “a morte passou por aqui”? Foi isso que senti.

         Distante uns oito metros, enfiou a mão no casaco, tirou alguma coisa que brilhava. Continuou caminhando, aproximou-se.  Levantou a cabeça e acenou um cumprimento. Abriu seu carro que se achava junto ao meu, deu a partida, uma ré, e seguiu seu destino.

“Quanto mais acreditamos nos homens, mais vezes essa fé balança”.
Romano


Match Point - Vera Lambiasi

                                              

Match Point
Vera Lambiasi

O jogo de tênis do torneio feminino de duplas havia sido marcado naquela segunda-feira invocada.

Tudo ali estava inadvertidamente esquisito, marcando as pisadas no saibro úmido.
A bola se recusava a atravessar a rede. Quando partia, passava dos limites da fita.

Kátia, parceira constante, perguntava-me a certa altura :
        O que está acontecendo ?

        A bruxa está solta, minha amiga !
Respondia eu.

O lusco-fusco cegava-nos.
Bichinhos voadores ameaçava-nos assustadoramente.
Íamos perdendo o game imprevisivelmente. E depois o set, e vários deles.
Os saques repentinamente deixaram de entrar. As devoluções bruscamente dirigiam-se ao fundo da quadra, sem êxito.
O terror tomou conta de nossos backhands.
Era um aparvalhamento sem precedentes.

E no vazio de um clube ermo saímos derrotadas, inesperadamente.
Ofereci-lhe uma água de coco. Em vão, a lanchonete já estava fechada.
Não havia viv’alma nos arredores. As adversarias já tinham tomado o rumo de suas casas. Vangloriavam-se com a vitória presenteada.
Desanimadas fomos nos dirigindo para nossos carros.
Katia achou o seu, despediu-se e partiu na noite marrenta.

Agora eu estava só, triste na escuridão.
Um uivo de cachorro bravo ao fundo. Uma sirene disparada, gritos na esquina.
Isso não estava me cheirando bem. E meu carro que não aparecia entre tantos outros.
Já não bastava aquele jogo infernal. O que mais tinha para acontecer nessa noite, meu Deus ?
E foi nesse estupor de emoções que morcegos descomunais começaram a dar rasantes na rua escura.
Estaria sonhando, murmurava com meus botões, essa moda de vampiros pode ter me influenciado. Podem ser apenas corujinhas protegendo o ninho.
E veio mais um, veloz como um boing 747, aterrissando em minha direção.
Abaixei-me para salvar minha pele e poder observar melhor.
Morceguinhos nos chapéus de sol da praia são tão dóceis.
Esses gigantes estavam me apavorando. Passou pela minha cabeça todos os filmes de vampiros, George Hamilton em Love at First Bite, toda a série Crepúsculo, Os Pássaros de Hitchcock.
Me enfiei dentro da raqueteira, deitada na calçada, para me salvar.
A cena era ridícula demais e de assustada passei para um riso esganiçado.
A noite toda foi uma coletânea de erros para acabar assim nessas gargalhadas.

Rastejando desajeitadamente até a esquina, avistei meu veículo. Era aquele com o alarme disparado. O time de futebol em peso rindo em volta dele.

E um morcegão gigantesco de controle remoto estatelado no parabrisa!

Ô brincadeira mais besta!