MARIA A ESPIVETADA - Antonia Marchesin Gonçalves

 


MARIA A ESPIVETADA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             O que estou fazendo aqui? Está tudo escuro, será que me perdi? Pensou Maria Fernanda. Ao se beliscar, não sentiu dor, começou tatear e nada sentia, alguém está aprontando comigo. Sei que sou chata, briguenta, gosto de transgredir as regras e sou mandona, tudo tem que ser da minha maneira, mas isso está passando dos limites. Chamou seu pai, bem baixinho, mas depois se pôs a gritar: você me paga, seu purgante. Nisso viu uma luz branca e foi em sua direção, parecia um portal, atravessou. Senti-se flutuando e a claridade ofuscou seus olhos, com as mãos os esfregou e, ao abrir novamente, nada mudou.

             Olhou em torno e visualizou uma pessoa, se aproximou, era um senhor barbudo, uma veste longa toda branca. Ao se olhar, percebeu estar de camisola curta e decotada, não é possível como vou falar com ele assim? Se olhando mais detalhadamente, viu uma mancha grande de sangue perto do coração, fui esfaqueada, então estou morta. Quem é o Senhor?

Eu, filha, sou São Pedro. Você existe mesmo? Sim, querida Maria.

E sabe, meu nome, eu morri, né?

Sim, você não lembra?

Não, não tem uma cadeira, preciso sentar para tentar lembrar.

São Pedro levantou o braço e na sua mão apareceu um pequeno banco onde ela se sentou. A conversa ia ser longa.

             Puxa, só tenho vinte anos, é muito cedo, eu tinha a vida inteira pela frente.

É verdade, mas o que você fez para estar aqui, filha?

Calada, pensou, depois de um tempo falou.

Fui ingrata com meus pais, eles tentaram me dar de tudo, mas eu sempre achava pouco. Entrei na faculdade e quis um carro e, com muito sacrifício, me deram, pagando em longas prestações. Sou filha única, me tratavam como uma princesa. Ambiciosa, resolvi estudar à noite para de dia garantir um dinheiro extra. Sou bonita e meu amigo me levou para fazer programas à tarde na casa de garotas universitárias, onde recebíamos homens casados, ricos e velhos para uma hora ou mais de prazer.

             Fiz logo sucesso, carne nova no pedaço, né? Entrava uma boa grana.

             Com ela podia me vestir com roupas de marcas famosas, cuidar dos cabelos com aplique, bolsas e sapatos idem, meus pais nunca poderiam me dar. Eles estranhavam, mas eu dizia que o escritório de advocacia pagava bem aos estagiários e eu tinha que estar bem vestida, mentia muito. Agora lembro que, nesse dia, meu amigo, que já ganhava uma comissão, resolveu aumentar muito a sua parte e tivemos uma briga feia e, além de me bater, porque eu reagi, ele me esfaqueou. Andava sempre com um grande canivete para se proteger. São Pedro, o senhor poderia me mandar de volta, prometo que serei outra pessoa, tipo me ressuscitar?

             Infelizmente, não, quando o seu amigo te largou e não pediu socorro, logo sumiu, você ficou morta muito tempo.  E agora? Você vai ter um longo período de aprendizado e aceitação, nós temos aqui excelentes espíritos para isso e depois desse tempo você poderá escolher em voltar para a terra com outro corpo físico ou continuar aqui para também ajudar a receber os novos espíritos nessa transição. Nesse tempo também poderá visitar em espírito os seus pais para dar consolo e receber, quando eles também fizerem a passagem. 

             Acho que não, tenho certeza de que quero aqui continuar.

        

AO PAI QUE NÃO TIVE - Suzana da Cunha Lima

 





AO PAI QUE NÃO TIVE

Suzana da Cunha Lima

 

Pai, fostes tão cedo...

Não chegastes sequer a ver tua menina

Ir-se tornando moça

E desabrochar como mulher.

Não me conheceste carregando no ventre

Um neto teu, um varão como querias

 

E como avô, meu pai, como serias?

Pois hoje tens muitos netos,

Mas foi-te roubada a alegria

De vê-los nascer a crescer,

Como a mim roubaram o direito de ter um pai,

Ainda tão criança, ainda a florescer...

 

Como faz falta um pai...

Eu me tornei órfã muito cedo

E muito cedo  aprendi como machuca

Uma saudade que não se compreende

Um vazio que nunca se preenche,

Uma risada que nunca mais se escuta

 

Perdi aqueles braços fortes

Que me colocavam lá no alto

Tão alto que eu me sentia um gigante

Naquele lugar onde o mal não nos alcança

Onde só existem certezas e esperanças.

Aquele lugar onde apenas os pais conseguem colocar seus filhos

 

Pela Eternidade - Adriana Frosoni

 


Pela Eternidade

Adriana Frosoni

 

Lena chegou ao purgatório inquieta, questionando tudo. Sentia-se o ser mais injustiçado do universo e decidiu que não pararia de reclamar enquanto não permitissem que voltasse para resolver umas pendências.

Pudera. Passou a vida sendo ciumenta do marido, possessiva com seus pertences e invejosa das coisas alheias. Gildo manteve o casamento aos trancos e barrancos, sempre dizendo que tinha de arcar com as consequências das suas escolhas, certas ou erradas. Mas a morte dela veio sem aviso, deixando conversas inacabadas, assuntos pendentes. Foi súbita e fulminante, parecia até que havia sido envenenada com a própria peçonha.

Insatisfeita, Lena procurou o setor de reclamações, alegando que nem deveria ter falecido. Sempre fingira suas doenças só para manter Gildo ocupado, perto de si e longe de outras mulheres, embora fosse totalmente saudável. Porém, não havia argumento que permitisse a sua volta: mortos ficavam mortos. Se os vivos descobrissem como era do outro lado, o mistério da morte se perderia e isso era muito perigoso para a humanidade.

Até que um dia ela se lembrou de que ouvia falar de “aparições” quando era viva, nas quais nunca havia acreditado, mas agora, não tinha mais nada a perder. Então, resolveu tentar. Passou um tempo observando os vivos, estudando regras e estratégias. Quando se sentiu pronta, escolheu uma noite em que, supostamente, a energia estaria favorável para as comunicações entre os planos terrestre e espiritual.

Com muito esforço, conseguiu se deslocar até sua antiga casa, indo direto ao local de maior apego, o quarto do casal.

— Gildo! — chamou, arrastando a voz como fazia quando brigavam.

Ele acordou abruptamente, sentou-se na cama, arregalou os olhos e ficou de queixo caído ao vê-la pálida e de pé no meio do quarto. O grito ficou preso na garganta. O coração disparou, uma dor atravessou-lhe o tórax. Ele levou a mão ao peito num último gesto de desespero, sufocou e tombou.

Lena se aproximou e pediu para ele respirar fundo, mas já era tarde. Não conseguiu sequer tocá-lo. Por mais que tentasse, seus dedos espectrais não permitiam. Viu, impotente, uma luz intensa abrir-se diante dele.

— Nããão! — berrou, desesperada.

Mas Gildo já tinha partido para o outro plano. E ela ficou ali, com sua chance de redenção dissolvendo-se como fumaça. Os que subiam ao céu alcançavam a paz plena e jamais se comunicavam com as almas penitentes.

Quando ela voltou ao purgatório, os espíritos administrativos balançaram a cabeça em desaprovação, pois agora ela havia causado, também, a morte do marido. Lena, que passara a vida tentando controlar tudo, agora enfrentava seu maior castigo: a impotência diante dos fatos. Sem paz e sem esperança pela eternidade.

 

Um espírito inquieto demais - Ledice Pereira

 



Um espírito inquieto demais

Ledice Pereira

 

Giulia não se conformava com sua morte prematura. Pretendia ainda fazer tanta coisa, engravidar, voltar a estudar, trabalhar na área que havia escolhido. Aquilo era muita provação. Não podia aceitar. Aquele purgatório era um inferno. Ali não tinha voz, ninguém lhe dava atenção. Já havia marcado audiência com o superior e até agora nada!

Já se passara três meses que chegara ali, sem perceber o que havia acontecido. Só se lembrava de estar no lugar errado na hora errada quando todo aquele tiroteio começara. Maldita a hora em que resolvera ir procurar aquela vidente. Ela morava tão longe, no subúrbio do Rio. O pior é que nem chegou lá. Quando estava perto, ouviu aqueles estalos e não conseguiu identificar o que era. De repente, era gente correndo pra todo lado, se abaixando entre os carros. Demorou a entender. Sentiu como se tivesse levado uma chicotada, ainda viu um buraco no vidro do carro e não viu mais nada.

Tinha uns flashs de alguém que a carregou pra algum lugar... um monte de gente olhando... gente de branco... uma dificuldade para respirar.

Até que chegou ali, naquele lugar inóspito, sem ninguém conhecido. Um povo sem vida, desanimado, que não queria nem conversar. Custou a acreditar que tinha morrido. Então morrer é isso? Que coisa mais sem graça?

— Oi gritou – gente boa, não quero continuar aqui não. Quero voltar, quem mandou fazer isso comigo?

O que devia ser o chefe do lugar, encarou-a, mandando que ela parasse de gritar. Estava incomodando as outras almas que estavam tentando se purificar para subirem aos céus e ela, em vez de fazer o mesmo, havia infringido todas as normas.

— A senhora não leu o regulamento quando chegou aqui?

 Ela não havia lido nada. Era uma rebelde sem causa. Tentou explicar:

— Seu anjo, ou o que quer que o senhor seja, me desculpe, mas eu não estava preparada para vir pra cá. Olha pra mim, acha que eu tenho idade pra estar aqui. Fiz 33 o mês passado. Tenho a vida pela frente! O senhor já está bem velhinho, pela sua barba posso avaliar, então não tem mais o que fazer na terra, tem mais é que se conformar de ter este cargo importante, mas e eu? O que vou fazer o resto da vida?

O “anjo” percebeu que ela seria um eterno problema, não só pra ele, mas pra todos que procuravam a paz naquele lugar escuro e, digamos, desagradável.

Resolveu marcar uma assembleia com os veteranos do lugar, para juntos resolverem o que poderia ser feito. Aguentar aquele blá, blá, blá daquela malfadada recém moribunda, por longos anos, seria infernal para todos. Ninguém ali merecia passar por esse dissabor.

Levaram o assunto para o superior. O velho matusalém não gostava muito de se envolver em assuntos polêmicos, mas dessa vez era imperioso que desse seu aval, concordando com o veredito a que haviam chegado em deliberação.

— Que tal, excelência, devolvermos a criatura para o seu habitat, já que tantos transtornos nos tem causado?

O velho coçou a cabeça branca. Nunca havia tido que decidir coisa de tal alcance. Teria que pensar muito a respeito.

O destino de Giulia estava em suas mãos. Era muita responsabilidade! Poderia até ser destituído do cargo que conquistara às custas de muito sacrifício. Não podia, de uma hora pra outra, ser enviado para arder no fogo do inferno...

 



Um Fato Inesquecível - Yara Mourão

 


Um Fato Inesquecível

Yara Mourão

 

Dizem que cada dia deve trazer algo novo para todo mundo; mas não é bem assim.

Passa-se um bom tempo ansiando por uma novidade e quando a gente até já desistiu, eis que um dia nasce diferente. Aí tudo muda. Muda o olhar, o sentimento, e uma história nasce para sempre dentro do coração.

Foi assim que no final dos anos 90, pouco antes do século XXI chegar, eu intuí que aqueles momentos que eu vivia seriam guardados com muito carinho.

Eu havia me divorciado há pouco e as mágoas ainda eram muito palpáveis. Estavam à flor da pele me sufocavam e cegavam. Nada parecia se encaixar mais na minha vida.

O trabalho com jovens me salvava porque a energia que o pessoal na casa dos 30 anos tem, é um motor poderoso.

Lidando com os pós-graduandos eu me realizava e até imaginava que a vida podia ser uma aventura gratificante.

Na época conheci pessoas incríveis. Mas quem mais me marcou foi um rapaz alegre, meio feioso mas muito charmoso, culto e interessante.

Os eventos universitários eram comuns e eu fui me entrosando aos poucos, timidamente, mas com muita vontade de estar entre aquele pessoal.

Só que aquele pessoal tinha 30 anos. Eu já beirava os 50...

Foi incontrolável. Surgiu à minha revelia, uma atração contida por aquele rapaz feioso. Recíproca atração.

Embora fosse algo muito marcante tinha todo o potencial de uma bomba relógio.

Forças internas e externas conspiraram para dar um cheque -mate no nascente “affair.”

Mas, ficaram sequelas. Ficou também um poema que eu fiz para ele, mas que nunca tive coragem de entregar, e que até hoje guardo com bastante carinho:

Me encantam os teus olhos;

Não são tanto os olhos

É mais o olhar,

Que promete o céu sob seu manto

E ainda, o canto da cotovia

Que embalou os sonhos dos amantes de Verona

Quando já raiava o dia.

Me encanta o que dizes

E o que não dizes

Num silêncio revelador;

Que não sabias, mas te exibe

Fascinado, reticente, sedutor.

Me encantam tuas pernas

Que são fortes como troncos.

Mas que se insinuam displicentes, adolescentes,

Em teus trajes de menino sonhador.

Me encanta,

Esse não querer querendo

Esse partir iminente que sempre deixas no ar.

É como se de repente

Não fosse conveniente

A gente se enamorar.

E o meu encantamento

Se desfaz por um momento

Erodido de ilusão!

Mas, para não deixar de lado

O dom supremo de sonhar,

Eu te imagino voltando,

Imagino a gente se amando,

E recomeço a me encantar...

A VELHA GUERREIRA - SUZANA DA CUNHA LIMA

 


A VELHA GUERREIRA

 SUZANA DA CUNHA LIMA

 

Era de um humor sarcástico que, por vezes, feria sem provocar dor.  Vivaz, alegre e sempre capaz de descobrir milhares de significados nas entrelinhas de uma simples conversa ou atitude.

Assim era vovó, do alto de seus 90 anos, quando chegara, finalmente, ao seu ápice! E que ápice… Para tudo havia um jeito, e ela descobria ou inventava maneiras variadas e originais para consertar um coração partido, fazer uma criança comer, voltar o amor perdido, amansar um chefe irascível ou conseguir um abraço ou um perdão de um desafeto.

Até que um dia ela observou que, para muitas situações, quase não havia remédio que resolvesse. E não se conformava.  Casais jovens se desentendendo por ninharias e provocando desenlaces e sofrimentos quase irremediáveis. Ah, não!  Havia muito pouco amor no mundo e o que restava era para conservar a qualquer custo, mesmo com manobras, digamos, ligeiramente ilegais.

Foi daí que surgiram as cartas.

 O tempo de enviar cartas perfumadas em papel fino decorado já havia acabado. Infelizmente, pois era um recurso simples e barato, mas que produzia grande efeito… E flores e chocolates estavam perdendo força, tal a banalidade com que eram usados.

Mas vovó não se intimidava com os “nuncas” ou os “impossíveis”.

— Nunca mais quero ver tua cara, seu safado sem-vergonha! Quero mais que você se exploda! Não dá mais, este homem é impossível de se lidar. Não dá, não dá, não dáaaaaaaaaa!!!

E lá vinham o choro, a raiva, palavrões nunca proferidos, histerias.

— Então vamos usar a modernidade e um pouco da antiga sedução, pensou ela. — Desistir, jamais!

E, sempre atenta ao que se passava em sua volta, principalmente em sua família, bem numerosa, por sinal, começou a usar o WhatsApp como sua ferramenta de trabalho.

Todo dia enviava uma mensagem para alguém, que, a seu ver, precisava de seus serviços, e sempre no mais absoluto anonimato…

 Intitulava-se Poliana e depressa aprendeu as manhas e recursos de seu celular. E agora, que já dominava a IA, produzia ela própria as imagens que achava mais apropriada a cada situação. E eram mesmo criativas, e mandavam o recado direitinho. Descobriu-se artista!

Depressa correram as notícias de que alguém estava se valendo do anonimato para despir os pudores dos mais tímidos e ajudá-los na difícil tarefa de arranjar um companheiro.

— Eu, sendo você, ficava de olho em sua “melhor” amiga. Vive se esfregando em seu marido na hora das fotos.

— Já percebeu a gentileza de Fulana, na hora de servir o cafezinho? Ele é sempre o primeiro…

— Não interessa se a moça é ou não “sem noção”. Eu te digo, ela é um perigo.

— Que história é essa que a moça é bobinha, veio agora do interior, você está ajudando-a a se “socializar”;

— Não tem bobinhas nesta selva, não. Homem macho, mesmo, está ficando uma raridade. E você está dando mole para elaaaaaa?

Êxito absoluto! Como havia gente carente neste mundo! A correspondência ia se avolumando em sua carta postal e vovó não tinha mãos a medir.

Mas não queria ajuda, pois sabia que alguém ia acabar descobrindo sua identidade e o segredo de Poliana e de seu sucesso iriam por água abaixo…

Até que, no finalzinho da tarde, já fechando seu laptop, seu olhar congelou ao ler as palavras da última mensagem:

— Pois é, você fica fuxicando a vida dos outros e não cuida da sua, não é?

E o cafajeste continuou:

— Sabe onde seu marido estava ontem à noite, às 21 horas?

Na reunião com ex-alunos, é? KKKKKKKKKK

Vá atrás da Poliana, ela conserta tudo, menos traição de marido…

 

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Meu herói na adolescência - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


 Meu herói na adolescência

Antonia Marchesin Gonçalves

 

Quando tinha dez anos, morávamos no bairro de Pinheiros. Meu pai era empreiteiro de construção civil, fazia obras e reformas em moradias. Ele tinha uma parceria com o italiano Coronel Caramelli, a quem minha mãe apelidou de Colonelo, coronel em italiano. Colonelo morava sozinho, gozava de boa situação financeira, comprava os terrenos ou casas para construir ou reformar, e papai cuidava das obras. Ficaram amigos. Como vivia sozinho, ele passou a jantar quase todos os dias lá em casa. Após um ano, chegou ao Brasil, seu único filho, formado em Medicina na Itália, foi morar com o pai. Ambos jantavam lá em casa todos os dias.

Zarco Caramelli tinha uns vinte e oito anos, mais ou menos. Era um jovem muito simpático, vistoso, de traços muito bonitos e pele amorenada. Estava sempre sorrindo, mostrava-se muito alegre, e quando sorria ficavam expostos os dentes perfeitos.

O que o deixava mais charmoso era a grande mecha de cabelo branco que marcava a testa, liso e solto. Começou no Hospital das Clínicas em São Paulo, fazendo um ano de residência, tornando-se depois um conceituado cardiologista.

Montou seu consultório particular logo após o tempo de residência. Alugou um sobrado perto de casa e ali mesmo residia e tinha seu consultório. Dedicado, além do consultório, ainda trabalhava no Hospital das Clínicas e no Hospital Samaritano em dias alternados.

E continuou jantando com minha família.

Eu me lembro de me encantar com sua permanente alegria, bom apetite, sempre elogiando a comida da minha mãe.

À medida que eu crescia, o corpo ia ganhando contornos, os seios em crescimento, me lembro de que tinha vergonha das saliências brotando através da roupa, então andava curvada para escondê-los.

E ele me fazia encostar ereta na parede, colocava dois livros em minha cabeça e eu tinha que andar reta, equilibrando os livros.

Alguns anos depois, chegou sua mãe. Uma senhora muito exótica, usava saias longas e várias pulseiras de ouro. Ao desembarcar do navio, tinha um lenço preso com alfinetes na frente da blusa. Minha mãe, curiosa, perguntou o que era? E ela respondeu que o broche que trazia no peito era um diamante muito grande e não queria chamar atenção. Trouxe no navio também todos os móveis, obras de artes, quadros renascentistas que ocupariam as paredes inteiras das duas salas. Trouxe também as cinzas de seus pais e muitas joias. Segundo minha mãe, na guerra, o coronel, ao adentrar nas cidades e fazendas, conhecedor das obras e de seus valores, as comprava por bagatelas ou trocava por mantimentos, inclusive as joias.                          

Zarco já era famoso médico quando conheceu a futura esposa, Clarita. Ela era advogada, nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Minha admiração continuava por ele, mas nunca pensei em nenhum momento ser amor. Eu era inocente naquela época no que se referia a rapazes, não tinha nenhum interesse. Na verdade, ele era como um herói. 

O seu primeiro filho também se chamou Zarco. Aos dois aninhos, era loiro, já tinha, ele também, a mesma mecha branca na frente da cabeça. 

O famoso Dr. Zarco trabalhava nos melhores hospitais, e tinha entre sua clientela personalidades famosas, e a elite italiana, que atendia no próprio consultório.  Agora no bairro de Higienópolis.

Conheci num almoço na casa dele o escritor Jorge Amado e sua esposa Zelia, também escritora.

Zarco e Clarita tiveram três filhos homens. Eu os vi nascer e ajudei a cuidar do Zarquinho por um tempo.

O dia mais triste na minha vida foi quando, eu já casada e com um filho, e veio a notícia da morte de Zarco e de um dos filhos. Estavam numa viagem de férias, a família toda ia para Pelotas. No trajeto, sofreram um acidente gravíssimo. Os dois que estavam na frente morreram. A mãe e os dois filhos, que estavam no banco traseiro, sobreviveram. Os meninos se tornaram médicos também.

Durante muitos anos, eu sonhei com eles sempre vivos e bonitos que eram, meu subconsciente negava a verdade.

 

Vidas da Minha Vida - Yara Mourão

 




Vidas da Minha Vida

Yara Mourão

 

Muito recentemente minha vida se voltou para uma estrada ainda não percorrida; aquela que leva ao pódio das premiações tardias.

Porém os caminhos podem sempre ser interessantes e trazerem surpresas, que acabam por fazer grande diferença durante o percurso.

Assim tem sido esses últimos tempos aqui no clube Pinheiros, onde participo de um encontro semanal com pessoas de além-mar, ou do interior, cheias de histórias, conhecimentos e sabedorias.

Eu fico a digerir as experiências alheias, mas na verdade me encanto com as características pessoais de cada pessoa.

Há, particularmente, uma luz que enfeita muito meu olhar ao longo desse percurso: é a alegria fácil que jorra dessas pessoas grisalhas quando comentam um livro, um conto que escreveram, um filme que assistiram ou viagens que fizeram. E também quando falam de suas reminiscências, sempre sem rancores ou remorsos. É lindo quando falam de seus companheiros e companheiras com um carinho de dar inveja.

Levo sempre pra casa a impressão de estar mais viva. É muito importante para mim desfrutar da presença dessas pessoas, e até da jovenzinha que enfeita nosso grupo.

E há o café, os bolos, os espumantes, numa comemoração gratuita do estar junto, de ser parte dessa comunidade real e abstrata, que envolve e encanta meu percurso.

A VIDA QUERENDO PREGAR UMA PEÇA - Ledice Pereira

 




A VIDA QUERENDO PREGAR UMA PEÇA

Ledice Pereira

 

Depois que ficara viúva, há cinco meses, era a primeira vez que Irene saía sozinha com vontade de pegar um cinema.

Foram anos de dedicação a Alberto. O AVC o deixara numa cadeira de rodas por longos cinco anos.

A princípio, ela tentou cuidar dele sem ajuda de ninguém, apesar da discordância dos filhos. Ao final de um ano, estava totalmente debilitada e teve que aceitar dividir os cuidados com um cuidador.

Durante esse tempo, não tinha coragem de deixá-lo para passear. Saia apenas para o estritamente necessário.

Aquela manhã acordou com vontade de encerrar o luto. Deixou a roupa preta de lado, vestiu um conjunto rosa que estava um pouco largo, passou uma base e um blush no rosto abatido e saiu, deixando o apartamento desarrumado e a louça do café na pia. Estava na hora de pensar em si.

Dirigiu-se ao shopping onde poderia almoçar, olhar umas lojas, pois nem sabia quais eram as tendências atuais e depois escolheria um entre os tantos filmes em cartaz. Há quantos anos não entrava num cinema!

Sentou-se no restaurante, escolhia o que comeria, quando ouviu aquela voz: “Não acredito ser mesmo você!”

Reconheceria em qualquer lugar do mundo aquele timbre, aquela entonação.

Levantou os olhos e deu com ele à sua frente. Mário estava ali. Em carne e osso. Ela mal podia acreditar. A idade não havia judiado dele.

Não conseguiu emitir nenhum som.  Sentia, apenas, seu coração bater fortemente. Tentou dominar a emoção, falar naturalmente.

Ele, percebendo sua dificuldade, tentou deixá-la `vontade, pedindo licença para sentar-se ali.

— Está aguardando alguém – perguntou.

Ela poderia ter dito que sim, mas resolveu enfrentar aquela situação com coragem. Afinal, enfrentara situações bem mais difíceis ultimamente.

Mário havia sido seu grande amor de juventude. Mas era tão assediado por todas as garotas da região o que o fazia sentir-se o gostosão do pedaço. Um namorador inveterado.

Ela lhe dera várias oportunidades, quando ele vinha humildemente pedir-lhe perdão, jurando que andaria na linha. Mas não houve jeito. Foram inúmeras as traições.

Certo dia, ela colocou um fim à história dos dois e terminou definitivamente aquele namoro conturbado, embora ele tivesse insistido algumas vezes para que reatassem.

Irene permaneceu irredutível. Tocou a vida para frente. Começou a trabalhar e conheceu Alberto que logo a conquistou com sua gentileza, atenção, cavalheirismo, fidelidade.

Irene sentiu-se amada e com ele construiu uma vida plena de amor e de respeito.

Às vezes, seu subconsciente pregava-lhe uma peça. A imagem de Mário vinha-lhe à mente para a desequilibrar.

Aquele encontro foi demais para ela. Desistiu de entrar no cinema, voltando mais cedo para casa. Precisou abrir uma garrafa de vinho para tentar digerir aquele encontro. Conseguiu dormir já era madrugada.

Ela sabia que não poderia cair na tentação de retornar àquela relação. A vida lhe ensinara que o pau que nasce torto, morre torto.

Resolveu continuar tomando as rédeas de sua vida. O passado ficara para trás há muito tempo.

 

Minha avó materna — Uma Vovó Raiz. - Silvia Villac

 




Minha avó materna — Uma Vovó Raiz.

Silvia Villac

 

A vida lhe deu vários golpes, mas ela nunca perdeu o entusiasmo e a alegria! Sempre pensava: “hoje está ruim, mas amanhã já vai melhorar”. E nos contava que, como em sua época não existiam psicólogos, quando no sufoco, ia até a esquina, conversava e desabafava com si própria e voltava para casa mais calma. Sempre achei muita graça nisso.

 

Se ela vivesse nos tempos atuais, com certeza seria uma grande influencer, com milhões de seguidores no Instagram! Quando saíamos com ela para ir até um supermercado, pertinho da casa, ela era cumprimentada ao menos por uns 5 indivíduos e as pessoas ainda perguntavam: “Dona Conceição, essa é sua neta mais velha ou a do meio?” Alegre, comunicativa, com aquela gargalhada contagiante que fazia todo mundo rir quando contava seus “causos” de Avaré, cidade onde nasceu e cresceu, ela foi um exemplo para seus 3 netos.

 

Vovó ficou viúva após 5 anos de casada — os médicos fizeram uma “barbeiragem” e tanto e cortaram a aorta de meu avô. A última vez que viu seu marido foi naquela cena horripilante dele se esvaindo em sangue na sala de cirurgia.

 

Mamãe tinha apenas 3 anos e vovó se viu obrigada a voltar a morar na casa de seu pai, onde havia inúmeras tias solteironas para cuidar da pequena, para ela trabalhar fora e ajudar no sustento da casa.

 

Mais tarde — não sei quanto tempo depois – ela voltou a se casar com um solteirão de Descalvado, que era o único varão no meio de 5 irmãs, sendo que apenas uma delas era casada.

 

Ele era um homem boníssimo, que se deixava mandar pela vovó e jamais se intrometeu. Não falava mal de ninguém e só saía do sério quando o Palmeiras perdia ou quando o assunto era políticos – sempre dizia “tenho ódio de políticos” porque era um homem corretíssimo!

 

Voltando ao assunto vovó, ela tinha uma empregada que começou a trabalhar na casa antes de mamãe se casar. Portanto, nossa Lourdes foi meio que também nossa babá. Nós 3 íamos para a vovó na sexta-feira à noite e meus pais só nos buscavam no início da noite de domingo.  Quando vovó se aposentou, Lourdes já dominava a casa e ela só comunicava que as crianças iam chegar e queriam comer determinada comida. Às vezes, era um almoço no meio da semana e a empregada argumentava ser dia de faxina, ao que vovó respondia que deixasse a casa suja porque Zezé (minha mãe) e as crianças eram prioridades.

 

Vovó era zero vaidosa e, muitas vezes, saía com a meia de seda desfiada. Quando mamãe comentava, ela respondia que provavelmente havia acabado de acontecer. Ela sempre foi muito gorda, usava uma cinta ortopédica sob medida na barriga porque tinha hérnias no abdômen e, para os dias de gala, vestia sempre o mesmo vestido preto com pois branco. As fotos dos eventos comprovam isso. Nos almoços de domingo em sua casa, papai sempre erguia um copo e dizia “Saúde, sogra”! Às vezes, bebericava um golinho de cerveja, mas costumava dizer que Deus era sábio e que, se não fosse por seu fígado…

 

Ela foi tão querida por nós, netos, que todos os dias nós 3 telefonávamos para conversar com ela pelo simples fato de acharmos prazeroso. De fato, até hoje, sempre que vem o assunto vovó, é possível sentir o amor imenso que ainda nutrimos por ela. Foi uma pessoa à frente de seu tempo, com visão para o futuro e gostava de falar umas bobagens, para horror de mamãe, que sempre foi extremamente pudica. Um exemplo típico: quando ouvia a frase “fulano fez mal para a sicrana”, ela soltava uma gargalhada e dizia “mal, nada, fez é muito bem!”

 

Em 1986, aos 79 anos, foi descoberto um câncer no fígado e o Professor Daher Cutait apenas abriu e fechou o abdômen porque não havia nada que pudesse ser feito. Como funcionária pública aposentada, ela não tinha recursos para “bancar” uma cirurgia com o mestre dos mestres, mas vovó era tão cativante e carismática que o Professor disse que não havia nada a agradecer porque ele se sentia honrado em tratar de uma pessoa tão especial! Isso até hoje me comove porque demonstra o carinho e apreço de um profissional brilhante dedicado à medicina.

 

Era carnaval e resolvemos voltar para São Paulo para ir vê-la. Afinal de contas, não havia telefone em minha casa de Atibaia e eu estava muito incomodada com sua saúde. Lembro de perguntar como estava e ela me respondeu, erguendo os braços e olhando para cima que não aguentava mais porque fazia 2 dias que não dormia, só vomitando. Naquele momento, compreendi que o fim estava próximo e que ela queria descansar. Foi levada para o hospital, induziram-na ao coma e ela faleceu 24 horas depois.

 

Foi uma tristeza e uma dor infinita para mamãe, papai, vovô e seus 3 netos. Lembro da sensação de vazio e o quanto eu havia perdido com sua partida. Para mim, é como se minha mãe tivesse morrido, de tão dolorido que essa morte foi. Afinal, vovó foi a 1ª pessoa realmente querida e amada que fora embora da minha vida. Só quando mamãe faleceu 4 anos depois é que soube que, por mais que amasse vovó, a tristeza de perder uma mãe é ainda maior.

 

Hoje restam as lembranças, sempre alegres e divertidas, daquela que foi uma pessoa importantíssima na minha vida. Só tenho amor, gratidão e me considero uma felizarda por ter uma vovó tão presente, durante mais de 30 anos.

 

P.S.: A Lourdes, após o falecimento de minha avó, voltou a morar com a família em Botucatu. Minha irmã e eu fomos vê-la algumas vezes. Também deixou muita saudade e, sempre que lembro dela, fico feliz por poder ajudá-la no final de sua vida, retribuindo um pouco de todo o amor e atenção que ela nos dedicou.