A truta encantada - Conto de Natal - Ises de Almeida Abrahamsohn

 

 



A truta encantada - Conto de Natal


Ises de Almeida Abrahamsohn 


Todas as tardes ele caminhava pela trilha da mata até chegar à praia do lago. Em um dos ombros trazia as varas de pescar e o embornal com as iscas e anzóis.  Do outro pendia o estojo do violino. Ninguém mais conhecia aquele lago. Apenas Joaquim. A casa, o lago, a trilha ficavam a 100 km do vilarejo, este também perdido num vale esquecido da dita civilização.

O músico escolhera lá viver, isolado do mundo, há três anos. Foi sua resposta ao destino ou, quem sabe, à cruel divindade que lhe roubara a mulher e o filho num acidente de automóvel.  Só restara ao violinista a companhia do fiel instrumento e o canto dos pássaros. Acostumara-se à solidão que se impusera, acreditando que a música e a meditação o reconciliariam com seus semelhantes.

 Gostava do silêncio no entorno do lago enquanto esperava algum peixinho desavisado morder a isca e proporcionar-lhe o almoço do dia seguinte. Um ou outro pássaro ainda cantava à tardinha antes de se recolher. O músico começava então a tocar para as águas mansas do lago e para as árvores que o vento fazia sussurrar. Sempre começava tocando Schubert. A melodia da canção “A truta”, die Forelle.  Fechava os olhos e via a truta, alegre, saltitando ao nadar entre as pedras de algum riacho gelado. E assim também aconteceu naquele dia de dezembro, antevéspera de Natal.

Ao terminar a melodia, abriu os olhos e viu a linha de pesca ser levada para o meio do lago.  Devagar enrolou a carretilha. Era um peixe grande. Estranhou mesmo, porque naquele lago só pescava lambaris. Quando puxou o peixe para fora viu as pintas e as escamas coloridas. Ora, pensou, é uma truta. Nunca vi trutas neste lago.

Delicadamente retirou o anzol. Estava indeciso sobre o que fazer com o peixe, que parecia fêmea carregada de ovos. Devia jogar de volta na água. Foi quando a truta lhe falou com sua voz de truta:

Vamos, Joaquim, me devolva para a água, amanhã é véspera de Natal. Assim, daqui a um ano haverá muitas outras trutas neste lago que você poderá chamar com a sua música.  O que vai fazer neste Natal? Mais um Natal sozinho? Você também tem que voltar a viver.

Joaquim, assustado, jogou a truta na água. “Devo estar ficando maluco. Peixes não falam. E trutas, então, por que falariam?” Catou as linhas, anzóis e o violino e retomou rápido a trilha de volta para casa. Era quase Natal. Tinha esquecido. Mas o Júlio, que lhe trazia as encomendas do empório da vila, havia comentado há uma semana. Era uma boa pessoa, esse Júlio, mantinha com dificuldade a família, mulher e um casal de filhos. A truta perguntou, o que faria no Natal?  Seria igual aos anteriores?  Não, não!  O estranho peixe falante tinha razão. Voltar a viver. Precisava voltar a viver. Ver gente, crianças, se alegrar com a felicidade alheia...

Ligou para o empório. O Júlio ainda estava por lá.
— Que é que manda, seu Joaquim? Quer um panetone para o Natal? Ainda estamos entregando amanhã cedo.

Mas, Joaquim não queria apenas um panetone. Convidou Júlio e a família para passarem o Natal com ele e para ele trazer tudo o que mais gostassem para comer e beber e brinquedos e doces para as crianças.  Júlio, espantadíssimo, perguntou se ele estava se sentindo bem? Ao que Joaquim respondeu:

 Estou ótimo, Júlio. Será por minha conta. Você vai ver. Traga seu violão e juntos, com o meu violino, tocaremos muita música alegre. Só não traga nenhum peixe para a ceia de Natal!

 

modelo de ROTEIRO DE TEATRO - OLHOS ABERTOS E AMOR NO CORAÇÃO

 

 

 


 

 

PEÇA DE TEATRO

 

OLHOS ABERTOS E AMOR NO CORAÇÃO

 

Roteiro: Gustavo Gonçalves e Maria das Graças Rojas Soto

 

 

 

Personagens: Felipe, Isabela e Camila

 

Cena 1 – Casa do Felipe

 

(Felipe é um jovem adulto de classe média que perdeu seu emprego durante a pandemia e passou por algumas dificuldades financeiras nos últimos meses. Recentemente conseguiu uma vaga como vendedor em um supermercado e está dando melhor de si para se mostrar produtivo em sua nova oportunidade.)

 

A cena começa com Felipe acordando para um novo dia. O despertador toca alto e ele com muito sono e um semblante desanimado o desliga, ele para por um instante e como se se lembrasse do motivo de estar acordado sua expressão fica feliz imediatamente, em um gesto de gratidão por mais um dia.

 

Segue uma sequência de takes bem curtos: ele lavando o rosto, tomando café da manhã, escovando os dentes e pegando um ônibus no ponto de ônibus.

 

 

Cena 2 Mercado

 

(Já no seu trabalho ele aparece atendendo algumas pessoas, entre elas Isabela. Os dois conversam brevemente):

 

Isabela – Felipe! Como as coisas estão caras, meu Deus! Que feijão de ouro é esse???

 

Felipe – Pandemia, Isa! O que a gente vê é o feijão, mas se você parar pra pensar, tudo na nossa vida está interligado... com este vírus muita gente adoeceu, alguns se foram, outros precisaram ficar reclusos em casa, a forma de trabalho mudou em todo lugar, de locomoção também... até chegar a esta prateleira esse feijão foi grão que teve que ser semeado, colhido, ensacado, transportado, embalado, ... Muitas pessoas e situações estiveram envolvidas nesse processo. Como tudo ficou complicado para todo mundo, muita coisa se reflete nos preços...

 

Isabela – É, tem razão, na verdade, é em tudo mesmo! Quem ia à escola teve que parar de ir, os pais tiveram que achar formas diferentes de cuidar e trabalhar ao mesmo tempo. Se inventou por todo lugar, aula pelo computador, pela TV, trabalho remoto... Mudaram também as formas de convivência em casa, quem se via pouco passou a ficar muito tempo junto, pra algumas pessoas isso fez bem, pra outras tornou a convivência insuportável. Quem diria, hein??? Uma reviravolta causada por algo tão microscópico que sequer vemos!!!

 

Felipe – Incrível, né? Mas foi o que aconteceu. Agora vamos ter que ficar bem espertos e aprender algo com tudo isso. Não é possível passar por tanto sofrimento, tanta transformação  e não mudar nada na gente, e a gente não mudar nada no mundo. Agora é a hora: olhos abertos e amor no coração!

 

Isabela – Mas filosofou bonito, hein rapaz! Uhuuu mudanças da pandemia...

 

Felipe – Ah, para, Isa, hora de ir p casa que Clarinha te espera.

 

 

 

Cena 3 – Casa da Isabela

 

(Isabela é uma mulher jovem que precisou mudar de rotina para se adaptar aos desafios da pandemia. Tem uma filha ainda criança, Maria Clara, que está atualmente estudando em casa. Isabela divide seu tempo entre seu trabalho remoto, os afazeres domésticos e ajudando sua filha nas aulas online. Isabela chega do mercado e passa direto para a cozinha):

 

Isabela – Tudo bem aí, Clarinha?

 

Maria Clara (ao longe, em off) – Tudo bem mamãe, estamos aprendendo sobre vírus hoje com a professora.

 

Isabela – Isso vem muito a calhar, filha, presta atenção e depois ensina a mamãe! Qualquer dúvida, dá um grito!

 

(Na cozinha Isabela lembra e fala consigo mesma):

 

Isabela - Ei, tá na hora! Eu tava quase esquecendo da reunião!

 

Acessa o celular e conversa com sua colega de trabalho por videochamada enquanto lava a louça que ficou da manhã

 

 

Cena 4 – Reunião online

 

(Do outro lado da câmera aparece Camila, a cientista, que está de jardineira, boné, um pouco descabelada e com umas plantas nas mãos):

 

Camila – Oi Isa! Como você tá? Desculpa não poder conversar com calma com você, esta pandemia deixou este espaço uma loucura!

 

Isabela – Sei o que é isso, mas é bem rápido, só pra acertar uns detalhes sobre a palestra que você vai dar lá na empresa; agora que as atividades estão voltando a ser presenciais achei importante. A coisa por lá vai ser híbrida, ou seja, vamos ter pouca gente no auditório e muita gente online te acompanhando.

 

Camila – Ótimo! Sabe, Isa, eu fiquei muito feliz com seu convite, por ver vocês se interessarem por meio ambiente e desenvolvimento sustentável

 

Isabela – Camila! Você é a melhor pessoa para este momento. Estamos todos pensando no futuro, em como fazer para ter um mundo mais saudável. Esta pandemia esparramou na nossa cara que estamos fazendo tudo do jeito errado, mesmo querendo muito acertar! A gente precisa aprender alguma coisa com tudo isto! Se continuarmos com essa nossa relação de só querer tirar coisas da natureza sem nos importarmos em como o ambiente reage a isso, esta pandemia pode não ser a última...

 

 

 

Camila – É... tudo isto tem sido tão ruim... não é possível que vamos sair disto fazendo tudo do mesmo jeito que sempre fizemos...

 

  Isa – Engraçado... Logo cedo ouvi uma coisa bem parecida...

a vida precisa ficar melhor p todos.

 

Camila - E por falar em vida... Ei! Vamos fazer um piquenique pra comemorar seu aniversário na próxima semana? Eu não esqueci desta vez, tá vendo???

 

Isabela – Eitaaa e não é que lembrou mesmo??? O mundo de ponta cabeça, a gente sem se ver parece que faz séculos e você tira isso da cartola?!

 

Camila – Tô louca, mas não desalmada, amiga, continuo amando muito meus amigos. Tô morrendo de saudade de você e do Felipe, a gente não se vê faz quanto tempo? Um ano e meio??

 

Isabela – Por aí... tempos duros estes, mas a gente tá conseguindo, não é? Com paciência e persistência as coisas vão melhorando.

 

Camila – Então, tá vendo??? Nada melhor do que celebrar a vida!

 

 

Cena 5 – Piquenique

 

(Camila, Isabela e Felipe aparecem distantes entre si, cada um em cima de sua toalha, comendo e bebendo alguma coisa, felizes e conversando):

 

Camila – Felipe, você já tomou todas as doses da vacina, então?

 

Felipe – Sim, tomei faz umas duas semanas.

 

Isabela – Ai, que coisa boa... todo mundo vacinado então, eu nem me lembrava mais como era sentir um ventinho no rosto, conversar com amigos... Antes parecia tão fácil! Uma coisa é verdade, as pequenas coisas são muito mais valiosas agora, não é?

 

Camila – Demais, tava com saudade até da risada estranha do Felipe (todos riem)

 

Isabela – Mas como será que vai ser agora daqui pra frente, hein, gente?

 

Camila – Olha, isso aí a gente não consegue saber nem pela faculdade, nem pela bola de cristal, mas acho que muito vai depender da gente, de todos nós, humanos, da nossa vontade de fazer diferente... muitas coisas já aprendemos neste período ingrato: a natureza é nossa amiga e precisamos ter carinho e cuidado por ela, as pessoas nos fazem muita falta então precisamos cuidar mais das nossas relações. Não tem preço um dia de sol como hoje, tendo em volta pessoas que amamos, jogando conversa fora e comemorando que Aqui Estamos!

 

Isabela - Como me disse um sábio uma vez: Olho aberto e amor no coração! (piscando para Felipe)

 

(A cena termina com todos rindo).

PRETINHO e MARRONZINHO - Yara Mourão

 






PRETINHO e MARRONZINHO

Yara Mourão

 

Eles ficavam ali, lado a lado, na prateleira do armário. Não era um lugar nobre, exclusivo; havia calçados de todo tipo ali: sandálias, tênis, botas, tudo misturado. Mas esses dois eram geralmente colocados lado a lado, o que possibilitava uma troca de impressões contínua.

Assim, Marronzinho e Pretinho iam levando suas vidas de pedestres já bem condicionadas e sempre conseguiam trocar experiências.

Toda manhã, Marronzinho falava:

— Mais um dia de caminhada, Pretinho! Lá vou eu por essas calçadas esburacadas tentando me desviar de poças e dejetos, pois nossa dona parece que anda dormindo e eu é que sofro!

— Mas você ainda tem sorte, dizia Pretinho. Sua armadura é bem resistente, seu salto é forte e mais perto do chão. O meu salto fica a 10 centímetros do chão e com todo esse invólucro de verniz sofro mais ainda!

Assim, os dois tinham suas vidas à mercê da própria dona, que trabalhava de dia e ia para as baladas à noite.

O Marronzinho era para o dia. Sua dona caminhava quase um quilômetro até o trabalho. O Pretinho era para a noite, as festas, o teatro, os bailes.

— Sabe, Pretinho, você é que é feliz. Quando chego aqui, no fim do dia, é quando você está acordando, e logo sairá, todo brilhando, para lugares bonitos, de piso lisinho, seco e perfumado!

— Na verdade, Marronzinho, as festas são belas, mas não são interessantes. Você é que pode observar pessoas inteligentes nas reuniões de trabalho quando, por debaixo das mesas, você tem a companhia de vários iguais e não se sente comparado com outros, como acontece comigo.

— Isso é verdade. Ficar ali no escritório me parece um bom lugar. Não preciso andar muito, todos respeitam meu espaço, quase não reparam em mim. Me sinto útil, sabia? Trabalho tanto quanto nossa dona e não causo nenhum desconforto a ela.

— Que inveja, Marronzinho! Já eu, dou toda a minha elegância a ela e, quando é o fim da noite, ela me atira longe e diz: “Ai, que alívio! ” É muita ingratidão!

— É mesmo, Pretinho? E eu que queria trocar de lugar com você… Acho melhor me conformar com essa vida sem glamour. Pelo menos, nossa dona me conserva, entra ano e sai ano, sem se preocupar com a moda.

— Já, comigo, a moda é uma ameaça constante. Ela exige que eu seja ou mais alto, ou mais baixo, ou dourado, ou vermelho… Sabe, Marronzinho, invejo sua utilidade e lamento minha sina; sei que logo serei substituído por outro mais novo!

— Entretanto, Pretinho, você sempre terá sido um sapato de 10 centímetros de verniz, coisa fina e insubstituível.

— Você também tem uma história preciosa, Marronzinho: batalhador e vencedor da vida de todo dia. Somos, na verdade, o bom e o belo de ser quem somos. Agora vamos dormir que amanhã tem mais. Talvez algo novo, ou tudo de novo, não importa. O importante é caminhar.

 

 

 




NÓS NOS PÉS DA SANTA

Oswaldo U. Lopes

 


       É comum que escutemos “aos pés da Santa”, mas no caso em questão, se trata de nós os pequenos sapatos de D. Isabel, rainha de Portugal e Santa.

       Vale dizer que não éramos tão pequenos assim, em medidas de hoje valíamos um 38, embora não largo, mas fino. Aonde pisávamos, fazia-se um pouco de mistério, realeza, majestade e o melhor, santidade. Santa ela era e como tal passou a história de Portugal.

Seu marido o Rei D. Dinis é conhecido como o primeiro rei de Portugal alfabetizado e do qual ainda existem trechos de poemas e até pedaços de papel com sua escrita, Os seus Cantares de Amigo, tipo de poema medieval, passaram a historia e nela ficou incorporado.

       Tinham lá suas diferenças, El-rei não gostava que sua Santa esposa fosse levar pão aos pobres, por várias razões, entre as quais a segurança e a mistura com gente desconhecida eram primordiais. Ela gostava de fazer isso, porque lhe dava alegria ao coração e a punha em contato com os mais necessitados.

E assim foi, era um dia frio de janeiro, o sol brilhava, mas não esquentava. Dona Isabel saiu com o avental carregado de pães e com o destino certo dos que mais precisavam. D. Dinis que andava cismado apareceu-lhe no caminho.

— Que levas aí, o minha gentil senhora.

— São flores, meu gentil senhor.

— Em janeiro? É um mês em que não há flores.

Nós lá embaixo aguardávamos o que ia acontecer. Por enquanto caiam, vindas de cima, migalhas de pão. Com medo estávamos a pensar como aquilo ia acabar. O presságio não era bom, quase funesto.

Foi então que a Rainha Isabel, abiu o avental e de lá caíram flores e mais flores que quase nos cobriram por completo.

Dera-se o milagre dos pães que viram flores. Todos os que estavam em volta entenderam. Flores em janeiro, em pleno inverno. D. Dinis também percebeu o milagre, ajoelhou-se e beijou com referência a borda do avental da Santa Isabel.

       Passaram todos a História de Portugal, lá no começo de sua formação, os pães que viraram flores e a benção de Santa Isabel para todo povo português, necessitado e faminto.

Um Senhor Natal - Adriana Frosoni

 




Um Senhor Natal

Adriana Frosoni

 

José Natal voltava de mais uma caminhada matinal, a passos lentos. Ele era um solitário, não por opção. Seus dias, preenchidos por leituras e cuidados com o jardim, começaram a parecer mais longos. A solidão torturava-o. Sentia a distância dos filhos, que se casaram, mudaram de cidade, e até de país. Pesava-lhe também o falecimento da esposa e de alguns amigos. Entretanto, a chegada dos feriados do final do ano agravava essa sensação.

A comemoração do Natal era especialmente difícil para ele, pois além de ser uma data cheia de significados, coincidia com seu aniversário. O vazio que sentia neste dia, que deveria ser cheio de amor e celebração, tornava-se ainda mais áspero.

Porém, naquele final de ano, José decidiu que não iria enfrentar mais uma Noite Feliz triste e solitária. Em um momento de impulso, tomou uma decisão inusitada: ligou para uma agência que trabalhava com personagens para eventos, inclusive com o tradicional Papai Noel, e pediu algo diferente. Em vez de contratar o Bom Velhinho, ele queria “alugar uma família” para a noite de Natal. A atendente ficou surpresa com o pedido, porém, resolveu levar o caso para o gerente e juntos perceberam que poderia haver ali uma boa oportunidade de negócio. Aceitaram o pedido.

José Natal preparou tudo como se fosse para seus verdadeiros familiares e quando chegou a noite do dia vinte e quatro de dezembro, uma família fictícia, composta por um casal, duas crianças e até uma simpática avó, chegou à porta dele. A casa transformou-se com as risadas e as conversas.

Ele voltou a experimentar a alegria do Natal. Havia sinceridade e gratidão nos abraços que recebeu das crianças, que não esperavam receber presentes. E o calor que sentiu no coração ao fazer uma ceia rodeado de vozes e alegria, foi muito reconfortante também.

Embora soubesse que aquela família não era real que a noite chegaria ao fim, José se entregou à alegria e à companhia encontradas de maneira inusitada. Aquela experiência iluminou sua noite, e provou que mesmo no fim da estrada, a solidão não precisava ser o único caminho.

Peça Teatral - Silvia Villac

 




Peça Teatral

Silvia Villac



1ºAto

 

Ele, com um ar pensativo, se recosta no espaldar da cadeira e percebe-se que entra em devaneio.

 

─ Sr. Bruck, chama Nair, pela 3ª vez. O senhor está me ouvindo?

 

 Que bobagem é essa, Nair? Claro que estou lhe ouvindo! E vou entrar porque esse calor, a essa hora da manhã, já está insuportável!

 

Arrastando de novo seu velho chinelo de couro, adentra à casa e caminha para a biblioteca. Com um jeito afoito, vai direto para a estante de livros e para em frente à sua coleção de clássicos. Retira alguns livros para poder alcançar o que está atrás deles – 1 caixa de madeira, já bem antiga.

 

Com dificuldade, e sempre arrastando seus pés, ele a pega e alcança uma cadeira para se sentar.

 

─ Como faz tempo que não venho me deixar assombrar pelo passado, ele diz em voz alta. Cuidadosamente, levanta a tampa e o 1ºobjeto que avista é o retrato de uma mulher.

 

─ Minha Maggie querida! Como você sempre foi tão linda e pura e se deixou bandear para o outro lado? Por que não se abriu comigo e me pediu conselhos? Nossa vida poderia ter sido tão diferente, falou ele novamente em voz alta.

 

Deixando de lado a foto, havia outros documentos que ele foi separando cuidadosamente, até encontrar uma carta endereçada a ele, escrita por sua amada.

 

O Sr. Bruck ficou um tempo segurando aquele envelope, de modo pensativo, como se não tivesse muita certeza se ia querer reler o conteúdo.

 

Berlim Ocidental, 02 de agosto de 1973

“Meu Bruck querido,

Você deve estar estranhando receber essa carta minha, mas foi a maneira que consegui me expor e lhe contar sobre sua verdadeira Maggie.

Eu, de fato, sou uma colaboradora da Alemanha Oriental. Acredito no comunismo e creio que esse regime igualitário, onde todos têm a mesma oportunidade, é o que deve reinar na nossa Alemanha.

Infelizmente, por muita sorte, não fui pega por um agente do lado ocidental e o Partido achou por bem me despachar para o outro lado do muro, uma vez que minha identidade pode ter sido comprometida.

Sinto muito por seu desapontamento. Eu continuo a lhe amar, mas minhas obrigações e convicções com o Partido falam mais alto.

Sua sempre,

Maggie”

 

 

2ºAto

 

Em Berlim Oriental, passados já 3 meses, Maggie está alojada em um minúsculo apartamento, muito pouco arejado e o aspecto decadente do lugar é visível. Sempre na ativa, ela não se preocupa muito com o local, visto que passa a maior parte do tempo trabalhando em prol do Partido.

 

─ “Você é uma pessoa imprescindível para todos nós”, dizia seu superior algumas vezes. E ela, sempre convicta, se sentia orgulhosa por estar sendo valorizada.

 

“Há dias essa náusea não passa”, ela fala para si mesma. “Será que tem a ver com essa falta de ar circulando?”, ela continua. Sempre muito ocupada e com pouco tempo para se preocupar com si mesma, os dias vão passando até que em uma noite, ela acorda ofegante, transpirando com o sonho que teve, e senta-se na cama.

 

─ “Não é possível”, ela se diz. “Não pode ser verdade!” Porém, no fundo, ela sente que não há outra explicação plausível. Ela está grávida, longe de seu amado Bruck, e terá que arcar com as consequências da escolha feita. E, nesse quesito em especial, não poderia nem contar com a ajuda do Partido porque sempre há prioridades como já ouvira diversas vezes. “─ Mesmo porque, afinal de contas, gravidez não é doença!”

 

Dimitri nasceu no outono de 1974 e era um típico alemão: tez clara, olhos azuis e 3,900 kg de pura saúde!

 

─ “Meu garoto lindo! Como você é parecido com papai!”, ela sempre se dizia.      ─ “Bruck ficaria encantado se soubesse e pudesse vê-lo!”. Mas ela sabia que isso jamais ocorreria porque nunca mais teria permissão para atravessar para Berlim Ocidental.

 

Os anos foram se passando e o menino, já adolescente, não se “encaixava” muito dentro dos preceitos comunistas e mãe e filho discutiam às vezes devido à diferença de crenças. De fato, a própria Maggie já não acreditava mais tanto nos valores e regras do Partido, mas não ousava discordar do regime para evitar problemas.

 

A grande chance para uma mudança chega em 1989, quando finalmente o maldito muro vem abaixo. Dimitri estava entre os que ajudaram a demolir essa cerca que dividia as duas Alemanhas e foi com um misto de alívio e alegria que Maggie testemunhou esse fato histórico.

 

─ “Já se passou tanto tempo”, ela se diz. “O que será que ele faz agora? Será que continua a lecionar? Qual seria a reação se eu aparecesse agora, com seu filho adolescente?”

 

Há muito ela havia se arrependido da decisão tomada há quase 17 anos, mas nunca conseguira achar uma solução porque se sentia muito só e desamparada, sem coragem de tentar voltar atrás, principalmente depois que soube que estava grávida. Tinha se desencantado com o Partido, mas fora fraca e não conseguira mudar o rumo da história.

 

─ “O momento é agora”, disse em voz alta. “Nada mais nos prende desse lado da Alemanha”. E, determinada, aguarda a volta do filho para lhe comunicar que irão morar do outro lado.

 

 

 

 

Peça teatral em 3 atos - A Verdade, a primeira vítima - Ises de Almeida Abrahamsohn

 




A Verdade, a primeira vítima

Peça teatral em 3 atos

Ises de Almeida Abrahamsohn 



Personagens (4)

Personagem: Miklos Kovacs, idoso 102 anos, húngaro, de óculos, sentado em poltrona velha de vime na varanda de casa modesta de alvenaria tomando chá de uma caneca de louça branca com um gato no colo. Ao lado, em uma mesinha, um livro e uma lente. Tem dificuldade de escutar e fala com sotaque acentuado.

Personagem: Nair: mulher, vizinha de Miklos, cerca de 50 anos, costuma ajudar o vizinho fazendo alguma limpeza e cuidando da roupa e alimentação.

Personagem: Tereza, filha de Nair, jovem estudante de jornalismo (22 anos).


Personagem: Gabor: colega de Tereza, último ano do mesmo curso, (24 anos).

 

ATO 1

Cena 1

Nair debruçada na mureta que divide sua casa e a casa de Miklos, fala em voz bem alta.

Nair: Seu Miklos, bom dia. Minha filha Tereza é aluna de jornalismo. Ela quer entrevistar o senhor.

Miklos: Como, Nair? Fala mais alto!


Nair: É a Tereza, minha filha. Ela telefonou. Quer entrevistar o senhor para um programa de televisão.


Miklos: Não gosto de jornalistas. E ela é muito pequena, tem só dez anos.

Nair: Seu Miklos, isso faz tempo. Ela agora tem 22 anos. A entrevista é sobre sua vida, na cidade onde morou na Hungria.

Miklos: essa cidade não existe mais. O que adianta alguém saber dessa cidade agora. O que passou, passou! Estou com 102 anos.

 

Nair:  pois é por isso que ela quer saber sua história. O senhor estava lá em 1942, quando a Alemanha invadiu a Hungria, não é? Viveu a segunda guerra lá.

 

Miklos: Tá vendo? Não sabem direito história. A invasão foi em 44, mas desde 38 o governo era aliado dos nazis. Não quero falar sobre isso.

Nair: Mas o senhor estava lá, não é? Devia ter uns vinte anos.  Deve saber o que aconteceu. Mas ela não está interessada nisso. Quer saber o que houve na sua cidade.

Miklos: Eu consegui sair da Hungria em 40. Aí eu não estava mais na minha cidade. Estava em Budapest. Eu era da resistência. Saí fugindo pela Ucrânia. Quando a guerra terminou fui de navio de Odessa até Gênova e de lá para o Brasil. Não sei o que se passou depois que saí.

Nair: Eu acho que é isso aí que ela quer saber. Como foi trabalhar na resistência naquele tempo.

 

Miklos: não gosto de falar sobre esse tempo. Mas sou dos poucos que ainda vivem para contar. Ela vai colocar a entrevista num jornal? Na televisão não quero.

Nair: Não sei direito. Mas ela me falou que seria no meio de um artigo para jovens. A ideia é mostrar pessoas que mesmo naqueles tempos difíceis pensavam com as próprias cabeças.

Miklos: está bem. Aceito falar com ela, mas antes quero ver o que vai sair publicado. Sabe, eu fui ator de teatro lá, e aqui trabalhei em propaganda, agora chamam de marketing. Então, eu entendo alguma coisa de comunicação.

Nair: que bom! Vou logo ligar para ela. Que papeis o senhor fazia no teatro?

Miklos: a gente fazia muita comédia. Para adultos e crianças. Eu saí em 40.  Mas em 43 o governo fechou o teatro. Os do governo não gostavam das peças que ridicularizavam o governo e então fechavam e prendiam o pessoal. Vou mostrar as fotos e uns poucos recortes de jornais que tenho de antes de 40. O pessoal não brincava. Apontava os corruptos, os venais, os mulherengos...Era divertido.

 

Cena 2

Metade do palco onde está a varanda escurece. Fica o canto à direita iluminado, onde se vê agora Nair falando ao telefone.

Nair: Oi, Tereza! Consegui convencer o homem a falar com você!

Tempo de espera da resposta de Tereza


Nair respondendo: Não. Ele não falou nada dos amigos daquele tempo. Só falou que tinha sido ator.

Tempo de espera da resposta de Tereza

 

Nair: Sei que o que interessa a você é sobre o que ele fez na resistência e o que aconteceu com o grupo dele, mas você mesma vai ter que tirar isso dele.  Quando você quer vir ?

Tempo de espera da resposta de Tereza

 

Nair: amanhã à tarde está bem. Vou fazer um bolo e chá, ele gosta. Vai facilitar a conversa. Você vem sozinha?

Tempo de espera da resposta de Tereza

 

Nair: já sei. É o seu colega que sabe falar húngaro. Boa ideia, talvez facilite.

Fim do primeiro ato



Segundo ato

Na pequena sala da casa de Miklos. Este está sentado à mesa simples de fórmica com uma bengala apoiada ao lado, quando entram Nair, e a filha Tereza acompanhada de um homem jovem.

Nair falando bem alto:

Seu Miklos, aqui estão eles:  minha filha Tereza e seu colega da faculdade.


Miklos: O que Dona Nair? Quem é esse homem? A senhora me falou que vinha sua filha Tereza. Pode mandar embora. Não quero mais gente aqui.

 

Tereza: Seu Miklos, não fique bravo. Foi para ajudar. Trouxe meu colega Gabor porque ele fala húngaro e pode facilitar na entrevista.

 

Miklos, irritado, se levanta com auxílio da bengala: não quero falar húngaro. Estou no Brasil há mais de cinquenta anos. Falo português! Entendeu! Não quero ouvir húngaro, ver húngaro, falar húngaro! Sou brasileiro! Despache o seu amigo, colega, sei lá o que ele é!

Nair: Seu Miklos, se acalme. Coitado do rapaz. Ele teve boa vontade em vir até aqui. O senhor sabe como aqui fica longe da cidade. Difícil de chegar. Foi para ajudar a Tereza. Ele é colega da faculdade. Vou servir o chá e um pedaço de bolo e vai ajudar na entrevista.

Miklos: Tá bem, dona Nair. Desculpe. Bocs, Bocs. Ele pode ficar. Vamos ao bolo, que é o que interessa agora.

Nair serve o bolo e o chá.

Miklos, visivelmente mais calmo: Dona Nair, esse seu bolo de fubá está divino. Vamos lá. Agora estou de barriga cheia pronto para a entrevista. O que você quer saber, moça Tereza?

 

Tereza: Vou ligar o gravador, seu Miklos. Fica mais fácil. Se o senhor quiser, pode depois ouvir tudo e, se quiser tirar uma parte, a gente apaga.

Miklos: Tá bom, senhorita Tereza. Posso chamá-la assim? Na Hungria era assim. Senhora e senhorita.

Tereza: pode me chamar apenas de Tereza, seu Miklos. E quero apresentar meu colega que vai ajudar. Ele tem mais experiência de entrevistas do que eu. Este é o Gabor.
Gabor se levanta da ponta da mesa e chega de pé, perto de Miklos, estendendo a mão.

 

Gabor: Prazer em conhece-lo, seu Miklos. Eu me chamo Gabor. Gabor Nagy. Já nasci no Brasil. Meu pai veio em 1956 quando Stalin invadiu.

 

O velho Miklos desconfiado escrutina com atenção o rosto do rapaz:

 

Miklos: Conheci um Nagy naqueles tempos. É um sobrenome comum. E você vai saber daqui a pouco porque eu não gosto do sobrenome Nagy. Vamos começar logo essa entrevista.

 

Tereza, falando alto: Quando o senhor entrou para a resistência contra o nazismo? E por quê?


Miklos: Eu nasci em 1922. Quando eu era bem jovem. Desde os meus 12 ou 13 anos na Hungria, nós já sabíamos bem o que estava acontecendo na Alemanha com os nazistas no poder. Minha família era luterana, mas tínhamos tios e tias casados com judeus. Meu pai era advogado e dava aulas na universidade e minha mãe era professora de crianças na escola do bairro.

 

Tereza: Então, o senhor cresceu numa família culta. É isso?

Miklos: Sim. Em casa, havia muitos livros e jornais. Toda noite escutávamos as notícias pelo rádio. Em casa se falava alemão, além do húngaro, e na escola eu aprendia também francês. E se discutia sobre o que era certo e o que estava errado.

 

Tereza: E aí? O que vocês escutavam?


Miklos: Nas r
ádios da Alemanha e da Áustria ouvíamos as propagandas dos nazis e os discursos de ódio e as leis antissemitas.  Nas rádios clandestinas e francesas, ouvíamos as notícias sobre prisões de opositores que sumiam e das medidas contra professores e funcionários que eram despedidos e alunos que eram barrados nas universidades. 
E em 36 aconteceu a noite dos cristais em várias cidades alemãs, com quebra das lojas judaicas, agressões, humilhações e fogueiras dos livros considerados anti-regime.

 

Tereza: E na Hungria? O que se passava?

Miklos: A Hungria era um país, na época, menos importante para Hitler. Na Hungria, havia uma mistura de povos de várias origens e religiões e um grupo grande de romani ou ciganos. Os dirigentes morriam de medo de serem invadidos pelos alemães. E queriam a posse de terras invadidas na Romenia, e na Tchecoslováquia.  Houve um aumento muito grande do nacionalismo.

Tereza: Mas teve um governo que fez aliança com os nazistas, não é?

 

Miklos: Pois é. O tal do Horthy. Ele era um almirante, uma espécie de regente na Hungria. Ele e os amigos achavam que, se fizessem um pacto, poderiam depois negociar vantagens com o governo do Hitler e tomar posse das terras invadidas. Era violentamente antissemita e extremista.

 

Tereza: Pois é!  Mas quero saber quando o senhor entrou para a resistência.

Miklos: Foi em 38. Eu tinha 16 anos. Meu pai tinha sido impedido de advogar e minha mãe foi despedida da escola,. Eram considerados da oposição e falavam contra o governo e os nazistas. Venderam o que tinham e foram morar num sítio no interior. Eu já vivia a maior parte do tempo com o grupo da resistência, mudando de casa e fazendo pequenas tarefas. Recados, distribuindo panfletos, etc. Depois, a gente passou a ajudar o pessoal a fugir de trem ou pelas fronteiras.

 

Tereza: E não tinha medo de ser apanhado?

Miklos: O grupo era muito jovem. A gente não acreditava que iria ser apanhado. Eu fiquei por lá até 40, 1940, até a Hungria se aliar ao eixo. Aí havia verdadeira caçada de jovens para o exército que estavam preparando para junto com os alemães invadir a Iugoslávia e a Rússia.

 

Tereza: E quando saiu e por que?

Miklos: o cerco foi se fechando sobre nós e os outros grupos de resistentes. Quando apanhados eram espancados, às vezes, até morrer. Então, uma tarde, lembro até hoje, um companheiro entrou correndo e avisou para sumirmos dali. Alguém tinha delatado. Cada um já tinha programado uma rota de fuga.

 

Tereza: E quem era o delator?

 

Miklos: Aí é que está. Naquela hora ninguém sabia e não importava. Eu fugi de trem e fui pela rota que eu conhecia e que a gente usava para tirar as pessoas da Hungria. Eu consegui atravessar a Romênia e entrei na Rússia. Fiquei em Odessa até o final da guerra. Um do grupo, também veio alguns dias depois. Ele sabia quem era o delator do grupo. Era um que era meu maior amigo. Fiquei arrasado.

Tereza: E quem era ele? Qual o nome?

 

Miklos: Não quero falar sobre isso. O que interessa? Era um traidor.

 

Tereza: Era o tal Nagy, que o senhor falou no começo?

 

Miklos: Pois é isso. Se quer saber mesmo, o nome era Andras Nagy! Traidor! Não sei que fim levou e não quero saber.

 

O colega de Tereza, Gabor, que tinha se mantido calado até então, sentado, de repente se levanta pálido.

 

Gabor: Meu avô se chamava Andras Nagy! E ele não era traidor!

 

Miklos tenta se se levantar, apoplético, com a ajuda da bengala, com raiva e grita:


Miklos: Fora daqui.  El innen! Seu átkozott   avô, seu maldito avô, era meu maior amigo. Traidor.  Causou a morte de muitos outros resistentes. E prenderam os infelizes do grupo que a gente ia levar para fora do pais. Devem ter morrido todos nas câmaras de gás.  Só sobrou eu e o Bence.

Miklos continua:

Dona Nair, tira esse pessoal daqui. Não quero mais saber de entrevista, coisa nenhuma. Fora.

Nair tenta acalmar o velho:

 Calma, seu Miklós. A Tereza não sabia de nada do rapaz. Nem podia saber. E o rapaz também não tinha ideia de coisa alguma. Acalme-se. O rapaz quer falar alguma coisa. Escuta ele... Tome o seu chá. Vai acalmá-lo.

Miklos: Vocês mulheres com seus chás. Para qualquer desgraça lá vem o chá. Vou tomar. Tá me dando uma dor no peito. Ai.... Vou tomar...

Nair se vira para o rapaz:


Então, moço: Garbo. Grabo, seja quem você é. Fala!  Ele vai escutar você, até porque não vai conseguir levantar sozinho da cadeira do jeito que está.

Gabor fica de pé e encara Miklos e com voz emocionada começa a falar

Eu ainda conheci meu avô Andras. A gente chamava ele de vô André. Eu gostava muito dele. Tinha um jeito triste e à noite às vezes gritava em húngaro. Eu não sabia o que significava. Quando fiquei maior ele explicou:  Ne ölj  meg. Não me matem! Tinha pesadelos terriveis. Ele foi preso, torturado e sofreu muito.

 

Miklos agora um pouco mais calmo, olhava as próprias mãos.

 

Miklos: A gente achou que ele tinha se passado para o lado dos nazis para conseguir tirar a irmã e a mãe do país.

 

Gabor: Ele conseguiu fugir para Itália e depois para a Suécia. Voltou para a Hungria em 1945 e casou. Ele, com minha avó e meu pai ainda criança fugiram da Hungria em 1956 na revolução contra os soviéticos.
Vieram para o Brasil de navio, de Gênova. Meu pai casou no Brasil com uma húngara, Ilka, que faleceu ainda jovem. Depois já com 50 anos casou com minha mãe, que é brasileira, filha de portugueses.
 
Miklos: Como eu vou saber que ele não inventou essa história de que foi preso e torturado ?

Gabor: O senhor pode acreditar ou não! Mas eu vi o corpo dele e as cicatrizes profundas. E ele mancava de uma das pernas. Era uma fratura que sofreu na prisão e infeccionou. Ele tinha uma caixa com cartas que tinha escrito para os antigos amigos e todas voltaram ao remetente.

Miklos agora calmo e meio envergonhado:

Miklos: Tá bem, rapaz. Vou lhe dar um crédito. Quero acreditar em você.

Gabor se afasta um pouco e diz:


— Tereza, vamos embora. Quero voltar com a caixa das cartas para ele ver que não estou inventando. Aí você pode terminar a entrevista.

Gabor para Miklos: Vou voltar, seu Miklos! Vai ver que é tudo verdade! Vou trazer a caixa de cartas que Vô André deixou. Ele era contador e viveu até os 94 anos. Ele viveu os últimos anos em nossa casa e nós guardamos essa caixa. Ninguém na família fala húngaro, mas ficou como lembrança.

 

Terceiro e último ato

Dois dias depois.

Cenário. Dona Nair com telefone na mão falando da cerca para Miklos sentado na varanda.

 

Nair: Seu Miklos, o rapaz que veio com Tereza anteontem quer saber se pode vir amanhã à tarde para mostrar as cartas do avô.  A Tereza vem junto.


Miklos: N
ão sei não se quero ver o sujeito de novo. O avô era um traidor, traiu o nosso grupo. Eu não tenho nada a falar com ele.

 

Nair: Seu Miklos, ele parece um bom rapaz! Ele quer limpar a barra do avô. Se ele fosse um qualquer não tava nem aí.

 

Miklos:  Tá bom, tá bom, dona Nair. Você tem razão. Deixa ele vir. Você vai trazer aquele seu bolinho de fubá? Quando como o seu bolo eu fico mais feliz! Miklos dá uma risada. Esqueço as desgraças e a dor na perna!

 

Dia seguinte:

Cenário. Iluminação na sala da casa de Miklos.  Nair serve uma fatia de bolo ao Miklos que tem uma caneca de chá ao lado.
Chegam Tereza e Gabor. Ambos desejam boa tarde a Miklos.

Miklos: Ah! Chegaram enfim! Tereza, vou escutar o jovem aí só porque a Nair pediu e você é quem trouxe ele aqui.

Gabor: Seu Miklos, eu não sei o que tem nessas cartas, mas já percebi que em seis delas tem o seu nome no envelope. Separei das outras endereçadas a outras pessoas que talvez o senhor conheça. Aqui estão.

Gabor coloca as cartas na mesa, em frente a Miklos.

 

Miklos: Dona Nair, me ajuda. Traz a lente que eu uso para ler e puxa a lâmpada para perto da mesa.

Nair puxa um abajur de pé para perto da mesa e traz a lente de aumento.

Miklos: Vamos ver agora o que o Andras escreveu para mim. As cartas foram todas devolvidas ao remetente. Tem uma carta aqui bem antiga de setembro de 1940, postada em Trieste na Itália. Essa ele enviou para o endereço de posta restante que só ele conhecia. Eu já tinha escapado fazia um mês.  As outras foram enviadas depois de 1945, da Suécia e da Bélgica e estão carimbadas pelo correio da Hungria que devolveu ao remetente.

Miklos: Vou começar pela primeira

Miklos começa a ler silenciosamente:

Sua fisionomia vai se alterando. Dá um murro na mesa.
Miklos gritando:

 

Que covardes! Filhos da puta! Desculpe dona Nair e Tereza.


Miklos afasta a lente e começa a chorar.

Miklos: Não consigo mais ler! Dona Nair me traz um copo d´água...
Ainda com a voz embargada continua:

 

Miklos: Os policiais o agarraram quando foi se encontrar com um companheiro no parque Városliget.
Exclama: O que fizeram com meu melhor amigo! Como o torturaram!  Não vou traduzir essa parte para vocês.
Depois ele pede perdão por não ter aguentado a tortura e indicado nossos nomes.

 

Gabor: Tá vendo seu Miklos? Meu avô não era o traidor frio que o senhor pensava. Ninguém consegue resistir à tortura. E ele escreveu para explicar.
Ele escreve como conseguiu escapar?

Miklos: Pelo que entendi não tinham celas especiais e eram presos na prisão comum que estava lotada.  Então, muito ferido, foi jogado numa cela coletiva onde havia gente presa durante a noite por bebedeira e pequenos roubos. O guarda da cela era simpatizante nosso e quando soltaram a turma, o Andras assinou com outro nome e saiu junto. Estava ainda muito machucado mas conseguiu escapar para o interior até se recuperar e de lá foi para a fronteira da Iugoslávia com a Itália, e atravessou para Trieste.

 

Gabor: Pois é mesmo o que ele contava. Que escapou para a Itália e depois para a Suécia. O que dizem as outras cartas?

 

Miklos: As outras são depois do fim da guerra. Ele queria me localizar. Mas eu já estava a caminho do Brasil e ninguém saberia meu novo endereço. Da minha família ninguém sobrou em Budapest e na Hungria. Meus pais não voltaram à capital e morreram no interior. Três primos recrutados sumiram na Rússia.

Gabor: Mas o senhor poderia traduzir para mim? A gente pode ligar o gravador.

Miklos: Sim, mas noutro dia. Hoje vamos comemorar. Reencontrei meu amigo a quem eu injustamente acusei e afastei. Em tempos de guerra a gente não pode acreditar no que ouve. Dona Nair: traz a champanhe!

 

Nair: Mas seu Miklos, não tem champanhe na sua casa e nem na minha. Como é que a gente vai arrumar champanhe assim?

Tereza: A gente vai buscar no mercado, mãe. Vamos comemorar. Alguma coisa deve ter. Champagne ou sidra não tem importância.

Cena final: na mesma sala iluminada. Miklos parece bem mais empertigado e coloca o braço ao redor dos ombros de Gabor. Todos empunham uma taça com bebida borbulhante.

Miklos:  à Amizade! Ao Gabor, meu novo jovem amigo! 

Música alegre

 

FIM