SILVIA HELENA DE ÁVILA BALARATTI - VÁRIAS HISTÓRIAS

RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS




SILVIA HELENA DE ÁVILA BALARATTI "VINHA"





APENAS ZEZINHA


Vinha cozinhar todos os domingos.  Esta foi a maneira que a família encontrou de ajudar Zezinha nos últimos tempos, afinal, foram muitos anos de dedicação.  Vira os meninos crescer, se formar, casar, esteve presente em todos os eventos importantes ocorridos na residência dos Brito Ávila, onde passou trinta e dois anos de sua vida.

Antes dessa mudança,  trabalhava de segunda a sábado junto com outras empregadas domésticas, babás, copeiras, arrumadeiras, mas raramente se dava bem com elas, exceção feita ao  jardineiro Anselmo com  trinta anos mais ou menos de serviços prestados à família. Gozava da confiança absoluta da patroa. Dona Esther geralmente dava-lhe total razão quanto aos problemas surgidos com as outras funcionárias.

Certa vez a babá adormeceu na poltrona enquanto o bebê dormia no berço. Acordou assustada com Zezinha debruçada sobre ela, deu um grito abafado para não acordar a criança e se assustou mais ainda ao ver que ela segurava uma tesoura na mão.  Apesar de muitas explicações e desculpas, tudo ficou por isto mesmo, e a moça não demorou a se demitir.

Em outra ocasião, Zezinha se ofereceu para ajudar a copeira a prender os cabelos em forma de coque na hora de servir o jantar. Então pegou a tesoura e pediu para cortar um chumaço das pontas, dizendo que o achava lindo e  iria sugerir   para  a sobrinha pintar da mesma cor. A moça  virou-se  rapidamente e Zezinha deixou a tesoura cair no chão, as duas se desentenderam, falaram alto e d. Esther foi chamado ao quarto delas pois a copeira, nova de idade e no serviço , estava nervosa, chorando assustada. Ela já tinha sido avisada dos hábitos estranhos de Zezinha que, mais que depressa, inverteu os fatos para a patroa. O jantar não podia esperar, pouco sabiam desta nova funcionária, d. Esther não quis prolongar o assunto e mais uma vez, tudo se resolveu a favor de Zezinha.

Às vezes Anselmo via Zezinha fazer coisas estranhas. Trazia um líquido escuro, embebia nele o que parecia ser  algodão , fazia montinhos, uns ela queimava, outros guardava de novo, achava esquisito tudo aquilo,  mas nunca perguntou diretamente do que se tratava.  De poucas palavras, ele também não gostava dela, conviviam bem justamente porque pouco se falavam. Ficou tão indignado uma vez que resolveu falar. Contou à patroa sobre os montinhos queimados, disse ter visto Zezinha com livros de magia negra, que ela  comentava sobre  sessões de descarrego, que debochava do emprego,  etc  e como de hábito d. Esther ficou quieta, mas inquietara-se com os fatos e  embora parecesse não ter dado  grande importância, logo depois disso Zezinha passou a  trabalhar somente aos domingos.

Certa vez, depois do jantar, d. Esther reparou no açucareiro de prata escurecido, com certeza por descuido da copeira. Às vezes sentia falta de Zezinha nestas funções. Sozinha, já tarde da noite, resolveu ela mesma ir areá-lo e aproveitar para dar uma limpada geral na bandeja também. Pegou o silvo e o pote de algodão na despensa, preparou um chá de camomila  e sentou-se na mesa da copa. Destampou o pote, enfiou a mão no fundo e sentiu uma textura diferente e viu que nem era branquinho como algodão. Ao tirar a mão  tinha entre seus dedos tufos de cabelo embaraçados. Levou um susto que a fez derrubar a xícara de chá e o pote na mesa.

Correu depressa para o quarto para contar ao marido. Juntos se lembraram das inúmeras vezes em que encontraram cabelos pelo chão dos quartos das filhas, sempre pensando que fossem dos cachorros apesar de quase não entrarem na casa, das vezes em que o ralo do banheiro das funcionárias ficou entupido,  do amor de Zezinha pelos meninos enquanto eram nenês, daí a sempre pedir para guardar um cachinho de seus cabelos de lembrança. Ficaram arrepiados ao juntar todos os fatos, todas as queixas dos vários funcionários que passaram pela casa, todas as situações sinistras que só agora faziam sentido.

E pensar que foram mais de trinta anos!






MOMENTO MÁGICO



Tem uma coisa que só acontece quando o papai fica três ou quatro dias na fazenda:  a barba dele cresce.  Pinica meu rosto quando ele me beija e abraça, dói um pouco, mas eu não ligo.

Quando ele chega, a camionete vem carregada de mexerica, abacate, laranja e banana, não se compram essas frutas em casa.  Ah! e tira leite todas as manhãs, então ninguém compra leite também.

Ele estaciona na garagem, sai do carro e abraça os seis filhos. Mas não tem jeito,  nessa hora ele é nosso, não deixamos o papai fazer mais nada, ele senta no alpendre e a gente fica ao redor dele escutando as últimas novidades da fazenda.

Depois ele cumprimenta a mamãe, vai tranquilamente descarregar o carro enquanto ela aproveita pra passar um café fresquinho.  Eles se sentam na mesa da cozinha para conversar, tomar o café e descansar um pouco.

Nós voltamos a brincar, mas eu já não brinco direito mais, fico vigiando a hora em que o papai vai tomar banho porque eu sei que antes do banho ele sempre faz a barba.  Fico espiando do quarto, escondida, ele na pia do banheiro.  Ele tira a camisa, molha o rosto e começa a ensaboar a pele com aquele pincel grosso molhado na espuma de barbear. Faz mesmo a  maior espuma.

Ele não me vê, tem horas que  acho que finge que não me vê, nunca sei, o papai é muito distraído.  Só que eu fico aflita de ver que algumas gotinhas d'água começam a pingar em sua barriga.  Vão pingando e ele não percebe, aí eu apareço para enxugar, eu tenho que ajudar, senão o papai vai ficar todo molhado.  Nessa hora, ele sempre leva um susto ao me ver e fala:

__  Ah! Você estava aí né, sua danadinha, me espiando!  E pega o pincel e esfrega a ponta do meu nariz com espuma, dando aquela bronca de brincadeira.  Nós dois caímos na risada, ele me abraça e   me suja mais um pouco de espuma. Tudo bem, vale a pena, eu adoro esse momento.






DIETAS JÁ!


     Desde que resolvi emagrecer, estou lendo tudo que posso sobre o assunto e para minha surpresa, descobri que a obesidade vem se tornando um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projeção, caso nada seja feito para refrear esta tendência, é que tenhamos em 2025, 2,3 bilhões de adultos obesos e 75 milhões de crianças com sobrepeso, de acordo com o mapa da obesidade mundial.

     O Brasil não foge à regra. Segundo a ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica), atualmente temos mais de 50% da população adulta e 15% da infantil enquadradas nesta categoria.

     A questão não é meramente estética. Afora o fato de não nos encaixarmos nos modelos magros e longilíneos, que a mídia nos impõem, o problema da obesidade é ela estar relacionada a outras enfermidades como doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer.

     No afã de resolver logo minha questão, pensei na Cirurgia Bariátrica. Ela vem sendo apontada como solução em casos de Diabetes mellitus tipo 2 e para pacientes com obesidade grau 2 também, onde não me encaixo. Mas, este procedimento, por ser bastante radical, requer cuidado especial no pós-operatório e acompanhamento psicológico durante a fase de emagrecimento.

     A mudança de comportamento verificada é um verdadeiro divisor de águas. Bem-sucedida na quase totalidade dos casos, verifica-se após a perda considerável de peso, um aumento da autoestima, uma significativa volta à interação social, maior capacidade de trabalho, entre outros inúmeros benefícios.

     Ainda na busca por um milagre, soube de uma cidadezinha na Espanha chamada Narón, situada na região da Galícia, que inovou nesse aspecto.

     Preocupada com a saúde e o bem-estar de seus 40 mil habitantes, a Prefeitura propôs uma dieta coletiva ao observar o número crescente de obesos na população. Seis entre cada dez moradores de Narón encontram-se acima do peso.

     A ideia é perder coletivamente 100 mil quilos em dois anos. A dieta engloba alimentos naturais, vários peixes (em virtude da localização geográfica) e muita atividade física. As crianças estão sendo estimuladas a ir às escolas a pé ou de bicicleta.

     Como adesão ao projeto, os restaurantes criaram cardápios saudáveis e cadeias de fast-food perderam grande parte da clientela. Os pequenos produtores de alimentos regionais aderiram também. Concordaram em mudar a rotulagem frontal dos produtos industrializados em sinal de advertência. Avisados, os compradores pensam duas vezes antes de consumir.

    Fiquei ainda mais fascinado com a "Dieta Coletiva" ao saber que ao final de dois anos de experiência, a prefeitura, que espera economizar o equivalente a 6 milhões de reais em despesas médicas, vai doar este montante em forma de alimento para ONGs locais.

     A população toda está muito animada. Além de beneficiar o organismo, está fazendo bem para a alma.  Eles estão se divertindo muito com o novo modo de vida, a vigilância entre os cidadãos, a concorrência para emagrecer, o movimento que as caminhadas vêm trazendo, tudo mudou. Encontrei a solução do meu problema, vou me mudar pra Narón!!!




DÓRIS T. S. ALBERO - VÁRIAS HISTÓRIAS



RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS


DÓRIS THEREZINHA S. ALBERO




SIMONAL, O ANJO PROTETOR DOS NOSSOS FILHOS!


É com lágrimas que escrevo sobre nosso queridíssimo amigo, Simonal. Seu coração era tão grande e acolhedor que nele cabiam todos, pais e filhos, desta nossa comunidade, "Clube Alto dos Pinheiros".

Com seu jeito humilde e carinhoso, com a fala mansa, ele conseguia cuidar das suas atribuições e tomar conta de nossas crianças. Sempre de olho nelas! Para mim era a pessoa mais importante do Clube. Tentem imaginá-lo, vocês desta geração que não o conheceram.

Sua primeira atribuição, no início do clube, era vender títulos de porta em porta!

A garotada adolescente no réveillon de 1979 – 1980, resolveu homenageá-lo compondo uma canção: Taís, Neto, Ana Maria, Zé Guilherme, Miruca, Toninho, Fábio, Rico, Carlinhos, Pitti, Aninha, Carmo, Zeca, Edú, Aldo, Mônica, Martinha, Tininha, Cabral, Cabralzinho, Lea, Pat, Edenir, Lilinho, Heraldo, Rafael, Marta, Marô, Tuca, Tita, Nora e Sergio. Aí vai a música!

"Homenagem a Simonal"
Letra e música de Ernesto.


Viemos nesta data festiva
Para saudar você,
Que representa para o clube
Uma ajuda sem igual
Oh, Simonal!
Salve, o Simonal!
Amigo sensacional.
Amigo de todas as horas,
Simonal você é o maioral,
No campo, cinema ou piscina
Ele não pode faltar
Dá corpo, dá alma, dá sangue
Sem ele eu não posso ficar!

Composta para a bela festa escola de samba preparada por esta turma. Ensaiaram todo mês de dezembro na casa da Tia Silvia e Tio Zé Castilho. Lá era uma festa, sambão todos os dias!

Os instrumentos da banda eram: surdos, caixas, tamborins e pandeiros. Todos vestidos de branco e vermelho com uma bandana vermelha na testa. A porta-bandeira era a Tais Veras carregando o porta-estandarte do Clube, e o Neto era o mestre-sala, com grandes mensuras e posturas dançava com galhardia.
Logo atrás Ana Cristina Stranck Albero e Priscilla Marrone, as caçulas do grupo, entregaram um diploma e um presente ao Simonal. Todos cantando e dançando como se uma verdadeira escola de samba fosse.

Foi uma apoteose” O Clube todo vibrou, cantou e se emocionou!
O homenageado caiu em prantos, e nós também!

Lágrimas em todos os olhares. Simonal, o maioral!

Tenho certeza de que no céu os anjinhos cantando o receberam.
Vá em paz Simonal!

*Simonal foi citado também no meu primeiro livro “Memórias Sempre”, lançado em 2017 no Clube Alto dos Pinheiros.






Uma Carta Perdida


Chegando em casa depois de uma viagem prolongada, é ela é surpreendida com uma quantidade de cartas embaixo da porta.
Naturalmente, pensa ela, são contas a pagar. Uma dentre elas, chama sua atenção: um nome que não é o seu, no seu endereço, e um carimbo de urgente em vermelho.

Ela hesita. E, como é urgente, resolve abri-la, afinal é urgente.
O assunto é realmente importante, constatou ao abrir o envelope. Sente-se na obrigação de encontrar o destinatário. E ainda tem que assegurar-lhe, caso o encontre, de que não foi curiosa ao abrir o envelope, e sim solícita.

A primeira pista estava na própria carta. Realmente não foi, propriamente na carta, teve uma ideia: e se procurasse o número da casa 1170 em ruas próximas à casa dela?

Depois de muito rodar, conseguiu encontrar a tal pessoa cujo nome era igual ao da carta, que esperava pela correspondência com grande ansiedade. Explicou o acontecido e depois de tomar uma xícara de chá com bolo, sentiu que ali seria o começo de uma bela amizade.






LEMBRANÇAS DE SÃO PAULO



         Quando o meu primeiro filho, Carlos Eduardo. Estava para nascer, viemos pra São Paulo.

         Moramos na Rua Pedroso Alvarenga, onde nasceram Heloisa Helena e Carlos Eduardo. Ainda conto a história do nascimento da Helô mais adiante.

         Era um corredor de casas do Engenheiro Ortemblad. Eram casas modernas muito simpáticas. Todos que lá moravam eram casais jovens com crianças das mesmas idades. Éramos todos muito amigos.

         Na rua transversal à nossa morava o Mazzaropi, artista caipira de filmes memoráveis de grande sucesso. Ele gostava de brincar com as nossas crianças na calçada! Moramos três anos nessa casa. Desta vez não vou colocar o nome de todos os nossos amigos, mas eu me lembro sim!

Lembro-me de tanta coisa. Tínhamos aos sábados uma feira bem à nossa porta. Um feirante japonês de frutas, trazia o filhinho Kunyô para brincar com Carlinhos a manhã toda. Eles eram grandes amiguinhos.

         Por onde andará Kunyô? ... Acho que deve ser um médico.

         Natais, aniversários, nascimentos, batizados sempre muito comemorados. Nós sempre fomos uma família muito festeira, nada passava em branco.

         Morávamos na esquina da André Fernandes. Em frente morava minha amiga Benita La Motta, minha comadre duas vezes. Ela batizou Ana Cristina e eu José Carlos, o caçula dela.

         Na outra esquina moravam Marininha e José Roberto Freitas Azevedo, nossos grandes amigos. Estou me referindo a eles, pois farão parte de outro conto. Ele foi o meu médico, por recomendação dela, e não me arrependi!



ANGELA BARROS - VÁRIAS HISTÓRIAS


RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS

ANGELA BARROS




O MISTÉRIO NA CASA DA PRAIA


       
Marcos Pereira era um homem de cinquenta e cinco anos, escritor, divorciado, bonitão ainda, mas sem nenhum relacionamento fixo no momento, estava dando um tempo na sua vida amorosa. Seu caso com a Claudia não tinha acabado bem, não queria novamente ficar de quatro como ficou por ela, para depois escutar que seria trocado por outro.

        Pode-se dizer, estava num momento tranquilo da vida. Sem dívidas,  apartamento próprio, contrato fechado para mais dois livros, a única coisa que precisava se preocupar era com o pé de meia necessário para enfrentar a velhice sem precisar de ninguém.

        Porém, o primeiro livro estava empacado.  Há duas semanas estava em crise de abstinência criativa, a mente oca, como se ele estivesse entrado num túnel  escuro e vagasse sem rumo ao nada.

        Estava absorto em seus pensamentos quando o telefone toca. Era Jorge,  também escritor, querendo saber notícias do novo livro. Marcos conta sobre o bloqueio que o afetou, e o colega do outro lado da linha explica que esses lapsos de criatividade já ocorreram também com ele.

—   A solução, é isolamento, você precisa mudar de ares, vá para uma praia, saia da rotina dessa cidade.  Lembra do Antonio, o romancista nobre, pobre? Ele herdou da família, uma casa na praia, e está sempre a procura de alguém para alugar. Como vive sem dinheiro costuma cobrar um preço bem camarada.

        Marcos decide aceitar o conselho.


        Tudo acertado com o dono da casa para um final de semana prolongado, às quatorze horas de uma quinta-feira, ele sai de casa rumo a praia do Portinho da Arrábida, que fica dentro do Parque Nacional da Serra da Arrábida, com suas areias brancas e água do mar em tons de azul turquesa, rodeada por uma vegetação verdejante, cenário ideal para um escritor a procura de sossego.

        Já está escurecendo quando chega ao vilarejo vizinho. Como foi orientado se dirige ao Restaurante Ribeirinha do Sado, lugar simples, onde poderá pegar as chaves, comprar mantimentos e fazer as refeições, se assim desejar. É atendido por Dona Laura, dona e cozinheira do pequeno estabelecimento.

        Enquanto atende o cliente, Dona Laura, senhora na casa dos oitenta anos, um metro e cinquenta mais ou menos, toda vestida de preto, lenço na cabeça, rosto enrugado, de pálpebras tão caídas que mal dava para ver os agitados olhinhos pretos, adverte o moço a ficar hospedado na Estalagem Quinta das Torres, lá com certeza ele dormirá bem melhor, nada de mal vai lhe acontecer.

—   Por quê? - Pergunta o escritor.

Você não sabe? A última família que se hospedou naquela casa desapareceu, não sobrou ninguém para contar a história. A polícia investigou durante semanas o sumiço da família. Na verdade, era um casal. Não conseguiram desvendar o mistério. Desde aquele dia, nem mesmo os donos apareceram por estas redondezas. Todo o vilarejo sabe que aquela casa é amaldiçoada. Por favor moço, não vá para lá.

        Pereira agradeceu os avisos da velha senhora e seguiu rumo a casa que de longe se avistava no alto do penhasco. Percorreu na semi-escuridão, uma estradinha costeira, de onde podia-se escutar o lamento das ondas batendo na encosta.

        Depois de meia hora, finalmente estava diante do velho portão de ferro, trancado por um cadeado enferrujado. Procurou no molho de chaves a que deveria abri-lo, logo na primeira tentativa o cadeado abriu. Pela frente ainda teria alguns metros para a entrada do casarão.

        Estacionou o carro, acendeu a lanterna do celular para enxergar a fechadura da porta de entrada, que ao ser aberta, rangeu na escuridão. Um forte odor de mofo entrou pelas suas narinas deixando-o zonzo. Entrou  tateando a parede a procura de um interruptor, nada. Como a bateria do celular estava quase no fim, saiu em busca de  alguma vela. Por sorte, logo encontrou um pacote delas e uma caixa de fósforo. Realmente o lugar tinha ares de solitária, deduziu pela escuridão momentânea. Subiu os degraus que levava aos quartos, percebeu a cama estava arrumada, o banheiro limpo. Graças a Deus, suspirou aliviado. Retirou da mala o pijama, jogou-se na cama, estava exausto, logo dormiu.

        No meio da noite, como naqueles pesadelos que a gente não sabe se está sonhando ou acordado, escutou passos dentro do quarto, teve a sensação de que alguém o observava, num pulo sai da cama  perguntando: Quem está aí? Não obteve resposta. Tenta enxergar através da escuridão, não consegue ver nada. Quem está aí? – pergunta aflito. Somente o silêncio está ali com ele naquele instante. Nisso uma lufada de vento gelado, num ímpeto,  abre as janelas do quarto. Ele corre, fecha de imediato as pesadas venezianas, olhando desconfiando para o ambiente. Não consegue saber o houve ali, pode ter sido um sonho. Depois de algum tempo acordado, espreitando o lugar na escuridão do quarto,  ele adormece,  um sono inquieto cheio de pesadelos.

        Desperta pela manhã com ruídos no andar de baixo da casa. Desce devagar, pé ante pé, pega um castiçal que encontra na mesa e vai em direção ao que parece ser a cozinha, abre a porta bem devagar. Marcos está temeroso do que pode encontrar, mas tem um plano, seja lá o que for, vai atacá-lo sem piedade. Quando se posiciona para dar o golpe, ouve um apavorado grito de mulher.  Ela se espanta e sai correndo para outra extremidade do ambiente.

—   Meu Deus, que é isso? O senhor está louco? Não avisaram que eu viria aqui todos os dias para preparar suas refeições e limpar a casa? Meu nome é Gertrudes.

Marcos pede desculpas para a senhora, e vai respondendo ofegante:  Não, não avisaram que a senhora estaria aqui.

        Gertrudes explica que, infelizmente não conseguiu ir no dia anterior para preparar toda a casa, conseguiu limpar apenas o quarto e o banheiro, porque nunca ia ali sozinha e o marido não pôde acompanhá-la, mas que agora ela  deixaria tudo em ordem:

— Inclusive vou ligar o painel da eletricidade que esqueci ontem, desculpa, deixei o senhor no escuro. Espero que tenha encontrado o pacote de velas que sempre deixo para emergências.

        Desculpas aceitas, e aliviado o escritor saboreia o excelente desjejum preparado por Gertrudes.  Depois de bebericar  mais uma xícara de café, pergunta sobre o sumiço da última família que tinha se hospedado no local, e se por acaso tem mais alguém trabalhando na casa.

—   Uma desgraça senhor mas, não era uma família e sim um casal muito estranho, ele muito mais velho,  parecia avô da menina. Ela era franzina, parecia uma criança. Coitada, o velho a tratava muito mal, apesar da garota fazer tudo para agradá-lo.

        Eu estava aqui trabalhando na cozinha quando sem querer a Sophia, deixou cair café quente na mão do velho. Ele levantou o braço e deu uma bofetada no rosto da menina, arremessando-a longe, coitada! Meu coração subiu até a boca, eu queria ajudar a moça. Ela pedia mil desculpas, mas o crápula não queria saber, só gritava que ela era uma desajeitada, não sabia fazer nada direito, só prestava mesmo é para abrir as pernas. Cenas como essa eu via todos os dias.

        Até que um dia, encontrei a menina na cozinha já com tudo pronto para o café da manhã. Achei estranho aquilo. Ela disse que eu não precisaria ficar na casa, ela faria tudo sozinha, queria agradar seu marido. Então, fui embora.

        Quando cheguei aqui no dia seguinte, encontrei o velho morto no chão. Sophia, estava sentada ao lado do corpo em estado catatônico. Acredite senhor, o desgraçado merecia morrer. Corri e chamei meu marido para ver a cena. Olhamos em volta e achamos um vidro com veneno de rato vazio. Concluímos que cansada dos maus tratos a menina resolveu dar cabo da vida do homem que tanto a infernizava.

        Como diz o ditado popular senhor: “Deus escreve certo por linhas tortas”. Eu e meu marido não fomos abençoados com um filho, por isso, vendo aquela jovem tão frágil caída no chão daquele jeito, meu coração ficou apertado, despertou dentro de mim um amor até então desconhecido, o amor de mãe. Abracei Sophia com carinho, ela se aninhou nos meus braços soluçando, parecia um bebê buscando colo.  Meu marido quando entrou viu aquela cena, entendeu tudo, sem falar uma palavra, removeu o corpo, limpou o local e disse: Tire a menina daqui, fique com ela até escurecer, volto mais tarde para buscá-las, não deixe ninguém saber o que está acontecendo aqui.

        Depois disso, retiramos da casa tudo que pertencia ao velho e destruímos. Sophia, traumatizada pelo que tinha feito permanece até hoje alheia a tudo, sua mente apagou completamente aquele dia fatídico. Desde então o destino nos encheu de felicidade, nos deu uma filha.

        Porém, Sophia precisa viver escondida de todos. O senhor notou alguma coisa estranha durante a noite? Apesar dos meus esforços para controlar todos os passos dela, ela costuma sair da nossa casa durante a noite e vem até aqui.


        Esse desfecho que você vai pode imaginar, ele pode ter muitos tentáculos:

… Sophia e Marcos se apaixonam e ele finalmente escreve um romance como nunca escreveu.

Ou,

… Sophia ainda torturada por tudo que havia acontecido,  quando se depara com Marcos na casa, ela também o mata.


Ou,

… Marcos escreve seu bestseller contando a história de Sophia.

Ou,

… Marcos descobre que quem matou o velho foi Gertrudes para ter finalmente a filha que sempre sonhou…
       


       




         A FÉ QUE CURA!
    

        Naquela noite de sexta-feira, véspera de feriado prolongado, cansado depois de uma semana exaustiva, Carlos tinha fome apenas de umas horas flutuando nas nuvens, refastelando-se na varanda do apartamento, de frente para o mar de Ipanema, tomando uma taça de Barolo tinto, tranquilamente. 
       
        No dia seguinte, logo cedo, viajaria para Angra dos Reis. Lá estava ancorado seu novo tesouro, a lancha de trinta pés, adquirida com o bônus por ter ultrapassado a meta do mês no hospital onde trabalhava.

Mas, agora ele estava  sentado na primeira fileira do auditório a espera da palestrante do dia, Dra. Lucila Papadopoulos.

Carlos conheceu Lucila no último congresso de cardiologia em Curitiba. A cardiologista, religiosa fervorosa, trazia em seu discurso um horizonte sem precedentes para o mundo médico, uma janela  para cura dos males do corpo através da fé numa época em que a tecnologia é mais importante do que olhar e escutar os males que afligem pacientes.

O doutor, até aquele dia da palestra, cético no que diz respeito a religião, não acreditava na cura pela fé. Eu disse, não acreditava! Porque naquele dia, aquela médica, de uma maneira que até agora ele não sabe explicar, conseguiu que ele abrisse os olhos para a possibilidades de lidar com pacientes em situações limite de vida e morte, cuja sentença era apenas esperar a hora final.

Dra. Lucila, com a calma das pessoas que sabem que a fé move montanhas, relatava alguns casos de pacientes que passaram por situações de extrema debilidade nas quais a medicina não conseguia um diagnóstico que levasse a cura, seja porque o vírus ou bactéria eram resistentes aos medicamentos ou os exames não detectavam nada de anormal, o que fazia com que o paciente sofresse em cima de um leito de hospital.

Nesses casos, a cardiologista aconselhava aos familiares: rezem, tenham fé, tudo é possível para o Deus Pai Todo Poderoso! Todos nós temos nosso anjo da guarda disponível vinte e quatro horas por dia, só para nos escutar e atender aos nossos pedidos.

Enquanto aguardava a chegada da palestrante, os pensamentos do jovem são levados para o dia em que estava no consultório da cardiologista, tendo ao lado a esposa grávida de oito meses, recebera a notícia de que o filho, ansiosamente aguardado tinha má formação no coração e precisaria ser operado ainda no útero, caso contrário não sobreviveria.

O casal entrou em pânico, perdeu o chão. Era como se um abismo se abrisse diante deles. Não, aquilo não podia estar acontecendo! Por quê? Por quê isso estava acontecendo com eles? Foram dias difíceis para o futuro pai e para a mãe que precisou ficar em repouso absoluto.

Nos dias que antecederam a cirurgia, Carlos, recebeu  apoio da colega e o conselho: reze e peça para Ele guiar minhas mãos quando eu estiver no centro cirúrgico, você verá que tudo dará certo.

E assim o pai aflito, todos os dias quando chegava no hospital para trabalhar, a primeira coisa que fazia era ajoelhar-se na capela e orar por sua pequena família. No inicio sem crer muito no que estava fazendo. Mas, com o passar dos dias, algo dentro dele mudou. Uma força tomou conta do seu ser. Ali, sozinho, no dia da cirurgia do filho, ajoelhado aos pés do altar, sentiu um manto de luz azul cobrir seu corpo, e teve a certeza de que seus pedidos seriam atendidos.

Ainda compenetrado em seus pensamentos, de repente escuta: “Papai, papai!” Levanta o olhar e vê o filho correndo em sua direção. A mãe, sem conseguir segurar o filho, vem logo atrás.  Mas, ele já está nos braços do pai. Lágrimas correm dos seus olhos ao ver a cena.

—   Desculpe, querido. Eu não poderia deixar de vir hoje para agradecer mais uma vez à mulher que salvou nosso filho.



       


        APRENDIZ DE FADA
      


        Era férias de verão, o sol caia lentamente para sua jornada ao outro lado do mundo quando Aninha e sua família, entre brincadeiras e bate papo animado, depois de um dia festivo na casa da vovó Dinda, voltavam para o sitio numa pequena cidade de Colinas do Sul, na Chapada dos Veadeiros.

        A menina, apaixonada por cavalos se distrai com um do outro lado da cerca que, de cabeça baixa, devora um bocado de grama. Quando Ana dá por si, olha em volta, não vê ninguém. Desesperada abre o berreiro chamando pelos pais e irmãos, nada. Corre na esperança de alcançá-los, não consegue e ainda por cima se depara com uma bifurcação na estrada de terra. Descobre-se perdida. Exausta cai sentada. As lágrimas escorrem no seu rostinho apavorado da garota.

        De repente, escuta uma vozinha suave e baixinha chamando o seu nome. Olha para um lado, nada. Olha para o outro, nada. Sente um ventinho sobre sua cabeça, levanta os olhos e vê um bichinho  parecido com uma borboleta. Com as mãos sujas pelo barro da estrada esfrega os olhos ainda molhados para enxergar melhor. Tenta em vão afugentar o bichinho:

— Sai borboleta!

Dá um pulo, corre afugentando o bicho que não se abala e continua balançando as asinhas.

—   Sai, sai borboleta!

—   Eu não sou uma borboleta! – sorri o bichinho.

—   Socorro, socorro, grita! - Ana arregala os olhos, esfrega-os novamente,  então vê uma menina mais ou menos da sua idade, sete anos, bem pequenininha que caberia na palma da  mão, com olhos que variam de cor,  uma hora azul como a água de uma piscina, depois verde como uma esmeralda pura. O vestidinho é branco, nas costas duas asas multicoloridas, iguaizinhas a de uma borboleta, como a de Sininho do Peter Pan. Do seu corpo liberam raios luminosos que trazem alegria e encantamento por onde passa.

—   Não tenha medo, estou aqui para ajudar você a encontrar o caminho de casa. Sou uma fada protetora de crianças. Ainda estou em  treinamento, isso é verdade,  mas já consigo fazer pequenas magias, como me teletransportar para qualquer lugar e voar na velocidade da luz. Logo, vou conseguir me transformar em qualquer bichinho ou até ficar igualzinha a você. Sempre que uma criança precisa de ajuda para qualquer coisa eu venho do bosque encantado, um espaço paralelo.

—   Por favor, me leve para casa! – chora Aninha.

—   Claro, é pra já! Siga-me.

Diante da bifurcação da estrada a fada segue firme para a do lado direito, certa de que logo estará deixando Ana em casa sã e salva.
Só que, como está demorando muito para chegar, Aninha acha estranho, nunca demorou tanto tempo da casa da sua avó até a sua, mas, mesmo assim, continua seguindo a fadinha. Andaram tanto que meninha já caminhava já com certa dificuldade, e a fadinha voava lépida sobre a garota. Depois de um tempo Ana se queixa, suas perninhas não aguentam mais dar nem um passo, de tão cansada.

—   Fadinha, não aguento mais. Você tem certeza de que sabe como encontrar minha casa?
—   Sei sim! Oh, não! Minhas antenas enlouqueceram, estão apontando para todos os lados. Estou ficando tonta.

Plaft! A fada cai na cabeça na menina, e apaga.
       
       
       

ANA MARIA PINTO - VÁRIAS HISTÓRIAS

RECORDANDO ANTIGOS TEXTOS


ANA MARIA PINTO




A VIDA TECE O SEU FIO


Eles se conheceram numa festa junina, bem popular e a empatia foi imediata. Eram muito jovens e indecisos. Ela de família de classe média alta, ele bem modesto filho de trabalhadores braçais.

Continuaram a se encontrar com grande preocupação por parte da família dela. Antes de ela entrar para a faculdade, como a coisa continuava,  resolveram mandá-la para os Estados Unidos torcendo para que com a separação tudo ficasse em nada.

Ficou mais de um ano por lá,  conheceu muita gente, teve, inclusive bastantes pretendentes, mas nada disso a fez desistir do seu jovem amigo.

Ela resolveu seguir a carreira cinematográfica, tornou-se produtora de filmes e fez muito sucesso não só no Brasil como no exterior.

Passaram-se vários anos  e num encontro de pessoal de cinema ela reencontra o seu grande amor que era... Nem mais nem menos que o diretor da Paramount filmes.






O espelho de duas faces


Como eu ansiava por sossego!

Não ter que fazer nada para ninguém, não ter obrigações, como eu queria que chegasse esse tempo!

Até que meus filhos cresceram, saíram de casa, e o meu marido partiu para ter outra vida diferente.

Que maravilha!!!! Os primeiros dias foram maravilhosos, havia tempo de sobra para tudo. Mas aos poucos as desvantagens foram aparecendo: excesso  de compras e inevitável desperdício de gêneros, pois estava habituada à casa cheia de gente, nada saía do lugar. Qualquer coisa que ficasse  esquecida, ficaria esquecida mesmo, sempre na mesma cadeira. E o silêncio? Não havia barulho nem cobranças, nem pedidos daquele sorvete, bolo, ou aquele prato caprichado.

E agora não tinha mais que me preocupar com as saídas à noite, deixando a luz acesa para saber se tinham chegado ou não. Não tinha que me preocupar  com os namoros, nem com as brigas. Não tinha que me preocupar com nada.

Decididamente era outra fase da vida para a qual é preciso preparo e uma boa cabeça para administrar. Tem suas vantagens, mas como tudo na vida, também tem a sua parte ruim.

Para vencer, há que ter bom senso e certo espirito de humor.







A ANSIEDADE NÃO É BOA MESTRA




Há muito tempo que ela esperava ser adotada. Mas estava muito difícil, já tinha passado da idade ideal, pais adotivos buscam um bebê que não tivesse referências anteriores.

Isso não acontecia com ela: tinha bem presente o que tinha sofrido quando começou a entender as coisas e a ver que além da miséria em que seus pais viviam, era um ambiente muito ruim com muitas desavenças e brigas que a deixavam quase em estado de choque. As pessoas acham que crianças não entendem o que se passa à sua volta, mas elas não só entendem como têm muita sensibilidade para avaliar a situação.
Tinha sido retirada da convivência com os pais e estava morando num abrigo da Prefeitura e esperando pela adoção.

A vida não era ruim lá, mas a espera é que tornava as coisas piores: a ansiedade era terrível e ela ainda não sabia lidar com isso.

Até que um dia veio para o abrigo um professor novo, com quem ela se identificou imediatamente, parecendo que o conhecia desde sempre. Ele se interessou pela menina e começou a dar-lhe uma atenção especial e, em breve, ficaram grandes amigos.

O professor conseguiu que a menina não ficasse tão presa à ideia da adoção, que deixasse tudo fluir, tendo em mente que o que tem que acontecer acontece independente da nossa vontade. Não mandamos nas nossas vidas, elas são determinadas por vários fatores, que nem sempre sabemos quais são.

Assim a menina seguiu a sua vida, mais feliz, menos ansiosa e quando menos esperava o professor e a esposa se dispuseram a ficar com ela e fazer a adoção.