O MEDO - APREÇO À VIDA - Oswaldo Romano


GUERRA É GUERRA          

O MEDO - APREÇO À VIDA

OSWALDO ROMANO              


Por volta de 1937, quando o norte da Europa experimentava um período de calma e crescimento, a Alemanha no seu centro geográfico incomodava-se ver suas fronteiras tão apertadas.

Aconteceu que isso tudo provinha da cabeça do seu principal dirigente, um louco, apoiado pelos comparsas que unidos formavam uma enorme corrente de selecionados seguidores.

Mas na ramificação do seu povo, os anos criaram uma descendência que agredia suas origens, e resquícios de sangue que corria em suas veias comprometiam a raça superior. Queriam uma raça melhor.

 Lançando um olhar por cima, realmente suas fronteiras estavam pertos. Tinham que expandi-las.

Corria o ano de 1939. Deram inicio a sua expansão, provocaram a deplorável explosão da segunda grande guerra, crentes na vitória final.
O personagem desta história, Sr.Max, era um assentado cidadão polonês, agrônomo, ferrenho trabalhador, uma virtude de todo aquele povo. Vivia no oeste do seu país e com dignidade mantinha sua família. Além da mulher Fryda, tinha as filhas Anne e Haline. Em suas terras cultivava a beterraba, resultado de importante pesquisa do século XVII quando esse tubérculo ali era a principal matéria prima para o fabrico do açúcar.

Tudo transcorria assim quando a invasão dos nazistas naquele 1º de setembro, surgiu destruindo, saqueando, aproximando-se de suas terras. Os soviéticos que, num terrível inverno, entraram pelo norte da Polônia a fim de conter a perigosa invasão, não chegaram a tempo de salvá-los.

O exército nazista avançava como uma enorme vaga oceânica, liquidando ciganos, perseguindo seitas, embarcando judeus. Ao nosso personagem, o Sr. Max não restava outra decisão a não ser defender-se. Seguindo os milhares de compatriotas, alistou-se voluntário no exército polonês. Antes, protegendo a família mandou-a para longe do agressor. Marcaram na América do Sul, o Brasil, como a terra onde os remanescentes juntar-se-iam.

E foi nesse clima desditoso, que o Max recordando suas passagens, me contou o seguinte episódio, que reproduzo na sua essência, quando juntos bebericávamos:

No dia que se apresentou no quartel, a temperatura estava fria, alguns graus negativos, e uma das coisas que agradeceu foi receber como parte da equipagem, um par de botas forrado de lã, solado duplo, meio cano, couro de boa qualidade, excelente proteção para os seus pés, os que mais sofriam. Essas ele amou.

Tinha que lutar com bravura, lutar e lutar.

No segundo combate, pasmem, foi uma tristeza. Dizimados impiedosamente num sangrento e desigual encontro, sustentaram-se no retumbante inferno até o anoitecer. Tombavam, formando pilhas de corpos numa tétrica, escura e úmida trincheira levantada para proteção, enquanto os nazistas, com porte de superiores, e acentuado paroxismo, avançavam atropelando, ignorando aqueles desgraçados moribundos.

 No meio desse amontoado de cadáveres, ouviam-se profundos lamentos, zoadas fúnebres incorporavam-se ao matraquear da batalha, e ali derribado naquela úmida trincheira, estava nosso personagem, o corajoso voluntário Max. Só que enrustido e ainda vivo, controlando uma aflitiva tremedeira.

Tinha a cabeça e corpo jogados para baixo e as pernas esticadas para cima apoiadas no barranco. Perfeita caracterização! Ninguém diria que aquele homem fingia. Teatralizava, mais valia um ator vivo que um herói morto.

Dos soldados nazistas que marchavam à beira daquela vala, um deles, mal encarado, muito encapotado, subitamente estancou. Ali parado, com seu capacete luzindo as intermitentes explosões, olhava o Max enquanto manobrava seu fuzil.
Max queria viver. Injustiça! Injustiça, depois de passar tanto medo e perigo, tinha se aguentado até então, e agora sentia ter chegado seu fim.

Não, ele não pediria clemência para aquele impostor. O soldado então, ajoelhando-se, virou o fuzil em sua direção firmando-o com o braço. Querendo ter certeza que realmente ele estava morto, fitou-o por instantes, preparando possíveis tiros. A arma escorregou, não se firmou na mão.

Apavorado o coitado deduziu:

— Seriam os de alívio, de misericórdia? Duvido que esse tirano tenha complacência.

Estava nesse transe quando de súbito, o soldado deu-lhe vários e fortes tapas nos calcanhares.

O susto foi tanto que por momento o imobilizou. Do contrário teria se denunciando.
O soldado sacudiu violentamente suas pernas como querendo acordá-lo. Max manteve-se firme no controle da respiração, contida, evitando expelir o vapor do frio. Mantinha o corpo mole, quase morto. Agora o militar usando força, tentava arrancar-lhe as botas.

— Que sádico! Estúpido! Justo as botas!

Porém, nosso homem disfarçava o que podia, mas instintivamente pressionava os dedos dificultando o agressor, esperançoso de uma miraculosa desistência. Foi em vão. Sacou uma espada levando-a na sua direção. Max, olhos inertes abertos, ia gritar para apagar a dor. O brilho do metal refletiu no seu rosto O alemão foi mais rápido, usando a espada, rompeu os cadarços da bota. O soldado às queria de qualquer jeito. Foi por elas que ali parou! Max soltou os dedos que as prendiam. Nessa tentativa final, o agressor conseguiu seu intento. Continuou andando e atirando.

Triste o Max desabafou: — Foram-se minhas botas... Elas eram tão quentes!...

Ao contar, dava pena sua expressão. Se transportava.
Ambos sérios, caímos em profunda reflexão sobre a dolorosa situação vivida neste mundo, mundo muito, muito cão.

         Quando a guerra terminou Max veio para o Brasil, encontrando-se com familiares e suas filhas Anna e a Halina que depois de ter passado pelo Teatro de Balé Bolshoi, conquistou fama no Brasil com seus Spas. Hoje é nossa companheira aqui no Clube AP, conhecida como Ala. As passagens delas, desde os Campos de Concentrações aos maiores sofrimentos, foram agraciadas quando puderam de novo reunir-se no Brasil e começarem novas vidas, desprovidas de tanto medo e incertezas.

Livres montaram nova moradia, diferente da linda casa, estilo campestre que tinham na sua Polônia, mas iluminada, sem medo de reconstruir o lar, e poder ir e vir.

Tínhamos tomado uns goles. Imaginando a cena, já sentindo o álcool, ri a gosto lembrando o desfecho das botas. Ele parou num olhar perdido, indignado procurava descobrir do que eu ria. Desconfiando ensaiou um sorriso forçado, e com profunda gargalhada, disse quase gritando: Já potrzewalem tego. Logo achei que ele não gostou. Ai ele completou:— Eu precisava disso. Eu precisava me aliviar. E continuou sua gargalhada.


(SINOPSE de UM CONTO DO MEU LIVRO “CONTOS CONTIDOS”)

A ULTIMA DAS MANSÕES - Mario Tibiriçá

                                                                                                                                            
A ULTIMA  DAS MANSÕES
Mario Tibiriçá

Um  gaúcho, filho de abastado fazendeiro sul-riograndense, após a morte  dos pais e  com  problemas diversos, resolveu procurar outros ares, vindo  aportar em São Paulo   por volta de 1920.

Filho mais velho com seis irmãos menores, porem  já adultos, carregava consigo a responsabilidade sobre todos.

Em São Paulo, cidade  já  desenvolvida e cosmopolita, após alguns  dias de hotel,  resolveu ir a procura  de um bom local para toda a família.

Eis que no novo bairro da Aclimação, encontrou o que procurava  e que atendia  integralmente sua necessidade.

No lugar mais alto do bairro, em enorme terreno, estava a venda um  excelente palacete, com muitos quartos, banheiros, salas diversas, e surpresa, uma linda capela interna, com altar, bancos, e sacrário, o  que muito impressionou toda a família religiosa.

A casa com sua pomposa fachada, desde logo deixava ver  ter sido construída e habitada por fidalgos.

Apurando detalhes dos antigos proprietários, o gaúcho descobriu que efetivamente  havia sido propriedade  do Barão de São Jorge, mobiliado pelo imperador
Pedro  II, que a construiu com requintes  de sobriedade e a mansão com suas árvores centenárias,  escadas majestosas e entradas suntuosas, deixava perceber o passado do  Barão.


Houvesse  o Barão deixado herdeiros, certamente ali, naquela casa seriam contadas histórias da  realeza e do império, dos bailes e dos jantares, debaixo  dos  grandes e  vetustos lustres, testemunhas de um tempo que já passou.

A ILHA ESCURA - M.Luiza C.Malina


A ILHA ESCURA
M.Luiza C.Malina

Delicadas gaivotas contrastam o branco de suas asas sobrevoando uma ilha escura que mais se parece um monólito perdido em meio ao oceano com uma nesga água doce dourada escorrendo de uma altura de 20 metros.

Relatam os marujos que esta ilha era muito fértil,  e frequentada por piratas. Certo dia, um grupo de piratas de passagem pela ilha, ao partirem deixaram apenas um para trás, que habilmente se protegera embaixo de uma velha embarcação.

Muito tempo depois, após um grande naufrágio apenas uma linda jovem de cabelos da cor do sol, sobrevivera.  Pisava cuidadosamente nas areias macias entrando na vegetação à procura de água doce quando num repente surge um pirata. Ela impressiona-se com sua aparência de mago, numa mistura de jovem, pai e avô, que a acolhe fraternalmente.

Os anos se passam e, a cada dia  a jovem esquecia-se de si. Observava às escondidas que, aos primeiros raios de sol sobre a ilha, o pirata se mantinha em postura altiva balbuciando estranhas palavras ao sol, o mesmo acontecia ao pôr do sol e em noite de lua cheia.

Certo dia, não aguentando mais sua curiosidade, pergunta-lhe docemente o significado de suas palavras jogadas ao sol. Num relance, seu rosto se altera, levanta os braços em direção da bela jovem e com a força do tempo a transforma em uma fonte d´água doce, com todas as riquezas minerais da ilha, onde o sol acorda e dorme se banhado na cor de seus cabelos.

A próspera ilha transforma-se num monólito muito alto, escuro e de difícil acesso.  Relatam os marujos, que lá ainda vive o pirata guardião, e que com o aproximar de uma navegação ele acalma as ondas para que os aventureiros marujos possam beber da fonte dourada, e quem dela provar terá seus males curados e juventude eterna.

Sempre haverá um novo dia, basta navegar a vida!



A BRUXA DO CHORAMINGO - M.luiza C.Malina




A BRUXA DO CHORAMINGO
M.luiza  C.Malina

Certo dia, a mãe preparava o almoço enquanto seu filho pequeno choramingava puxando-a pelo avental. Em meio a tantos afazeres, para que seu filho parasse de chorar, batia nas panelas dizendo que chamaria a bruxa do choramingo para que ela o levasse. Assim foi por toda manhã, choro,  e blém, blém nas panelas e suas ameaças.
Cansada a criança se aquieta e deita-se no chão num sono angelical.
Com o silêncio esquisito pela casa, a mãe relembra o que dissera  ao filho,  corre tomando-o nos braços, e sente o calor de seu corpo ardendo em febre.
A bruxa do choramingo sai dando de costas às mães menos avisadas.


Amex - Bárbara Blue

 


AMEX
Bárbara Blue

Marion e Rashid casaram-se há alguns meses. Ambos continuavam na rotina de suas ocupações.  Sempre ansiosa à espera do retorno ao lar frequentemente surpreendido por pequenos mimos, jantar regado de um bom vinho em copos transparentes como era o relacionamento a dois.

 Marion sempre era a primeira a chegar. Percebia que alguma coisa estava diferente, mais  bem arrumada, mas como não tinha empregada,  isso a perturbava.  Porém deixava qualquer pensamento de lado e se entregava aos milhares afazeres domésticos, embora sentisse que uma sensação estranhamente provocativa a rondava.

Um desses sinais tornou-se visível, encontrou sobre a mesa da sala a foto de uma bela moça, outro dia livros com dedicatórias e envelopes sem remetente, intrigou-se com o fato, uma vez que seu marido morara no apartamento antes de se casarem.  Mas,  as camisas que estavam por passar, de repente apareceram passadas. Um arrepio tomou-lhe conta uma vez que seu marido estava viajando, e supôs que mais alguém teria a chave do apartamento. Deixou tudo em seu devido lugar e nada comentou quando do retorno de seu marido, que apenas olhou e nada disse.

Nas semanas seguintes, Marion continuou em seu dolorido silêncio observando a chegada de mais envelopes, os quais não abria, ignorando-os tanto quanto a falta de identificação até que disse para si mesma: “chega” não iria mais deixar que brincassem com seu interior, continuaria com sua indiferença silenciosa.  Então, comprava rosas a cada dois dias, bilhetes eram colocados no para-brisa do carro, que ela se escrevia...  E nada acontecia!  Ele não dava importância às pequenas coisas e nem  exigia explicações.  Até que um dia uma excelente ideia aqueceu a necessidade do não fazer nada, ultrapassou o limite do cartão de crédito com suas aventuras.

Desta forma, com duas taças três garrafas de vinho e um tabuleiro de xadrez, colocaram tudo em seu devido lugar. Trocaram a chave do apartamento, e descobrindo as provocadoras  deixaram-nas enfurecidas pelo silêncio e pela bela e sorridente vida que levavam a dois.

Só Deus sabe o que acontece entre quatro paredes! Mas foi.

RETIDÃO E CONSTRANGIMENTO - Mario Tibiriçá



RETIDÃO  E CONSTRANGIMENTO
Mario Tibiriçá


Tenho um velho tio, irmão de minha mãe, Luciano, a quem  chamamos de Lula, possuidor de um humor  ranzinza, que nos seus  oitenta e tantos anos, pode lhe parecer  razoável  mas que para  nós sobrinhos e  mesmo para  terceiros é absolutamente insuportável. Solteirão, nunca quis casar, apegado a  crendices populares, sempre foi  irascível mas  jamais deixou de trabalhar, seja em contabilidade, ou  em qualquer outra atividade, sempre demonstrando um caráter firme, honestidade a toda prova  e responsabilidade. Funcionário, depois gerente, depois  diretor durante mais de  cinquenta anos,  do Complexo Industrial Comercial,  Assunção Produtos  Especiais Ltda, transformou  a Empresa  em sua família.

Eis que, para surpresa de muitos e tristeza de alguns, a diretoria do Complexo, já toda envelhecida  também resolveu  encerrar suas atividades, vendendo  a fábrica, equipamentos e “know how” para terceiros.                                                                                                                                                                               Tio Lula  perdeu o local para onde ia todos os dias e algumas noites, seja o escritório central, porém  nesses dias  terríveis foi  agraciado com  um diploma de “honra ao mérito”  e  com   a alegria de ser contemplado, com um apartamento para seu uso exclusivo.

Ora, Tio Lula jamais fôra homem dado a decorações mobiliárias e coisas, assim  estava apenas preocupado com seu bem estar e principalmente com seu descanso. 

Com o fechamento da Empresa, perderam os sobrinhos, o contato com o velho tio, reatado há algumas semanas pelo recebimento através  do correio, de um pequena carta, que trouxe junto,   uma foto colorida na qual  se pode perceber nitidamente o caráter, o gênio, e a tristeza do velho senhor. Os tons claros de alguns dos móveis,  demonstram  a esperança de dias alegres e contrastam com os pesados e  escuros   acolchoados cabendo notar  os móveis   também escuros, colocados   desordenadamente  no possível   espaço, com mesas redondas  e de trabalho, distribuídas sem  método e sem  ordem, tal  como  a cama atropelando o sofá  .

 Diríamos que a rigidez  do temperamento dele,  espelha tal desordem, porque no seu pensamento a preocupação com ordem  harmoniosa  de móveis é nula.                                      

Na carta que mandou , tio Lula relata seu terrível desapontamento e tristeza, pelo constrangimento que passou, quando quis oferecer  ao ex-presidente da empresa e outro diretor seu  ex-companheiro, com respectivas esposas, um coquetel de agradecimento e comemoração  pelo bom êxito da venda da empresa.

— Teu bom gosto azeda a bebida e  estraga os salgadinhos - disse Ferraz o ex-presidente sorrindo - muito obrigado, mas fica para outra oportunidade.

— Não te  metas  em experiências desconhecidas, pois o local não  prenuncia alegrias, muito  obrigado - disse  o outro.

Talvez tal experiência tenha realmente abalado o velho tio Lula na oportunidade, visto seu temperamento fechado, austero e rígido.


Ontem recebemos um telegrama informando   seu falecimento.


Encontro - Vera Lambiasi


Encontro
Vera Lambiasi


Maria Madalena vivia em Varallo Pombia, província de Novara, no norte da Italia.
Morava em um sobrado secular, onde, no térreo, funcionava sua loja de santinhos e quinquilharias.

Tinha lá seus sessenta e poucos anos e já enviuvara de Giuseppe há dez.
Seus filhos casaram e mudaram para as redondezas, vicino, vicino ...

Mas havia o filho bastardo de Giuseppe, perdido desde antes do casamento deles.
O falecido marido se engraçara com uma dançarina espanhola em sua adolescência, e a tal moça, grávida e desamparada, fora escorraçada da cidade pela conservadora família Montecatini.

Maria Madalena, católica devota, nunca mais tinha pensado na traição do, então namorado, Giuseppe. Até que apareceu na soleira de sua venda um rapaz que era o próprio retrato de seu finado cônjuge.

        Buongiorno! Mas que es questo fantasma?

        Buenos dias, minha senhora, venho a procura de Giuseppe Montecatini, meu pai!
        Deus seja louvado! Se é dinheiro que quer, pode ir passando fora! Seu pai já morreu!

        Não, senhora, com todo respeito, gostaria de conhecer meus irmãos.

        Nem brinca, espanholzinho, eles nem sabem que você existe!

Mas o tempo atropelou a mamma, e lá estavam seus três filhos estupefatos, escutando a ofensa que ela dirigia a um estranho.

Não tão estranho ... Pablo parecia-se também com seus irmãos, uma dessas molecagens do destino. Todos homens altos, morenos e de olhos azuis.

Depois do susto, tudo foi explicado e aceito, não havia mais razões para mentiras.

A mãe de Pablo falecera há um ano, deixando-lhe toda a história de sua origem como testamento. Além de uma boa fortuna, fruto de seu duro trabalho como renomada artista de dança flamenca.

O entendimento entre irmãos foi imediato.

Pablo mudou-se para Borgo Ticino, ali mesmo no Piemonte, e associou-se a família na empresa de engenharia civil.

A mamma, Maria Madalena, já conformada, não se aguentava de felicidade em ver a família crescendo. Pablo casou-se com uma sobrinha italiana puríssima, e engrossaram a grande mesa de macarronada dos domingos.

        Mangia che te fa bene, Pablito!


caixadeferramentas28 Iara - Juro que vi.mp4

O Boto (HD) - Série ''Juro que vi''

Matinta Perera (HD) - Série "Juro que vi"

Saci - Série " Juro que vi"

O Curupira ( HD) - Série Juro que vi

A Mula Sem Cabeça

A lenda do amor eterno - Suzana da Cunha Lima



A LENDA DO AMOR ETERNO
 Suzana da Cunha Lima


 Diz a lenda que o Absoluto reinava no mundo escuro do sem-fim.  Mais além, já nas fímbrias deste espaço infinito, surgia o Universo, com seus planetas e estrelas e todos os corpos celestes.  O Absoluto tinha dois Filhos, Zairo e Zoé, encarregados de dar as características masculinas e femininas aos seres vivos que povoavam o mundo das leis universais, ou seja, o Universo.

Um dia, Zairo recusou-se a esta tarefa e foi imediatamente sugado para dentro de um dos inúmeros buracos negros do mundo do sem-fim.  Zoé ficou com a tarefa dele junto com a sua, assim, apelou para o Grande Magma, que habitava um destes buracos.   O grande Magma foi breve e sucinto: você tem que conceder a imortalidade a alguém ou a alguma coisa ou criar alguma que a mereça.  É assim que o Poder se perpetua. Mas você tem apenas o tempo de três pulsões para isso. Isto significava três semanas terrestres.

E antes que Zoé pudesse falar alguma coisa, desapareceu.  Zoé percebeu que devia partir para o Universo, ciente de que, ao atravessar a Grande Margem Negra, não havia mais volta.  Foi o que fez, com muita coragem, pois sabia que devia encontrar a Fenda do Tempo e através de muitos passados e futuros, chegar ao luminoso Universo dos corpos siderais. E depois encontrar um planeta habitado para checar as qualidades e defeitos de seus habitantes e ver quem merecia ganhar o dom da imortalidade.

Ela escolheu um planeta de cor azul, que possuía um satélite, mas Zoé percebeu que nesta lua havia somente espíritos sem luz.  Então rumou aleatoriamente para o principal, aterrissando num campo louro, de trigo maduro. Lá ficou algum tempo, observando o trabalho e a vida simples nos campos. Depois percorreu fábricas, escritórios, escolas, teatros, indústrias, casas suntuosas, choupanas, prisões, abrigos e tudo mais que caracterizava aquela sociedade naquele tempo histórico.  E percebeu que os humanos estavam acorrentados a muitos entes maléficos: a Inveja, o Ciúme, a Ingratidão, a Crueldade, a Impaciência, o Preconceito. E não se apercebiam disso.

- Não vejo como vou dar a imortalidade a alguém neste planeta, ninguém merece e não tenho muito tempo. Já se passaram dois pulsões – pensou.  Mas resolveu tentar a sorte acima dos oceanos, observando a vida nos grandes navios. E foi assim que chegou no exato momento de um grande naufrágio, o imponente transatlântico afundando devido a uma onda gigante.  E dentro daquele horror, a água impetuosa levando tudo e todos, viu, com surpresa e alegria, a presença dos delicados entes da solidariedade, compaixão, disponibilidade, amor e amizade, se movendo com delicadeza, ajudando, consolando, salvando vidas. Ah, isso só pode ser amor, pensou.  Isso merece, mais do que os humanos, este sentimento merece.

Assim, resolveu conceder a imortalidade ao AMOR.  Porém Zoé não sabia que havia muitos amores aqui na terra.  O Amor Materno depressa se apoderou do dom da imortalidade.  Esta é a razão de o amor materno não morrer nunca, ser a maior certeza, atravessar os tempos, vencer todas as dificuldades,  e ir  além da vida,  até a eternidade.

Quanto aos outros amores, são infinitos, enquanto duram.

O unhudo -Oswaldo Romano



O UNHUDO
OSWALDO ROMANO
Esta é uma sinopse dos acontecimentos vividos pelas pessoas que se propuseram a desvendar a história do Unhudo.
Lição inopinada de uma misteriosa mata.

Ao findar o dia, um carinhoso olhar para o neto renova o pedido que nunca falha: — Conta uma história vô?

A origem desta, contada na cidade de Mineiros do Tietê, é narrada em várias versões pela população, ganhando até algum crédito na versão Pedra Branca- Itamoroti de minha autoria. Aqui, sinais da história.

Para tirar a dúvida alguns casais, munidos de armas e coragem, planejaram ir até sua origem, apurar a verdade.

É uma antiga história do Unhudo que vive e reina na mata sobre a Pedra Branca, uma grande montanha que tem sua base lá no baixão da serra chamada Rebenta Rabicho. A descrição dessa figura, homem ou assombração, um ser horroroso que está sempre pronto a atacar quem atrever-se a subir o local, agredir seu meio ambiente, ou apanhar suas frutas, dizem grandes, suculentas e abundantes naquela selva primitiva permeada de frondosas jabuticabeiras.

Desafiando a lenda, este grupo resolveu primeiro debater o assunto com autoridades, e depois aproveitaria um prolongado fim de semana, divertir-se-ia e desvendaria de vez tão antigo e falado mistério.

Até os colonos da região o respeitavam. Um deles, justamente o que mais comentava a excursão, de nome Geraldo, quis dissuadi-los da aventura. Soube, numa roda de violeiros, que mateiros de Santa Maria da Serra tentaram desvendar e conhecer o Unhudo, isto na década de 50, e um deles não teria voltado. Fizeram uma moda de viola. Geraldo não sabia toda, mas falava qualquer coisa assim: — Prá aquela pedra elevada, / Foram quatro vortô treis. / Falam do Unhudo e peitadas, / E das fruteras carregadas. / Por isso eu digo pro cêis, / Tem lá uma alma marvada...

Diziam até que a própria polícia havia abafado o ocorrido e nem inquérito abriram. Outros mais críticos falavam que ela abandonou a procura por falta de armas e equipamentos. Chegaram mesmo a dizer que ela era interessada naquilo!
— Interessada por quê? —Logo perguntavam.

— Porque lá soltavam o preso sem recuperação. Era dado como fugitivo e com seu sumiço não se comprometiam.

        Quanta história!

Subiram, fizeram o primeiro acampamento e depois deste em todos passaram noites assustadoras.

Pelos acontecimentos, era o espírito do Unhudo que os acompanhava.

No final da aventura descendo, no pé da montanha, o grupo se questionou:

— Afinal quem é o Unhudo para você, Vera?— A Mariana foi quem iniciou a pesquisa.

— Eu acho que é um vento, como aquele que causou aquela tropelia dos animais. Seria uma enorme bolsa cheia de ar com pressão, transparente e disforme, com ação e força para movimentar-se pela mata e impor suas ordens. O Unhudo é aquele vento não tenho dúvida. Sua força destrói inimigos.

— E para você, Aracy, quem é o Unhudo?

— A Vera está enganada. Tenho quase certeza de que está em forma de animal. Vi nos olhos daquele lagarto uma expressão humana como se já nos conhecêssemos de há muito. Ele não estava preocupado com nada mais, a não ser querer falar comigo, expor algo que o prendia ali há muito tempo. Era ele sim, vi suas enormes unhas. O lagarto é o Unhudo.

— Pita, agora você. Quem é o Unhudo?

— Por eliminação concluí que é um bruxo.

— Bruxo!

— É, naquela noite em que as vassouras deram um passeio em torno da nossa tenda, as folhas foram varridas e levadas provavelmente para seu abrigo.
— Espere, Pita, e pra que?

— Vocês já ouviram falar em cultos com rituais latentes, geralmente pregados sobre montanhas? São cultos que se realizam de várias formas chegando à exploração dos fogos-fátuos para se sustentarem.

— Você está fantasioso Pita. Isso é iniciação, esoterismo. Como você explica o fato de com tanta mata ele colher essas folhas nesse dia, e em volta da nossa tenda, hem?— Interveio Aracy.

— Ele não tinha outra escolha. Era 31 de outubro, o dia da farra dos bruxos. Só lembrei depois. E nós procuramos a melhor clareira para a montagem da barraca. Foi a melhor porque justamente é ali que ele varre e colhe seu material. Estava preparada. Montamos a barraca bem embaixo da sua árvore consagrada! Para mim o Unhudo é o bruxo com sua vassoura ruidosa e voadora!

— Tá bom Pita, agora...

— E você Carlos, o que diz?

— Estão todos enganados. Quando fui picado pela cobra e tomei aquela injeção com analgésico tive o sonho mais incrível e real da minha vida. Foi assim...
— Nossa, Carlos! Vai continue ...continue.

— Todos os bichos aos gritos e prolongados silvos, desciam correndo e atropelando-se postavam-se ao redor daquele cone giratório de pó. Ali estava o Unhudo.

— Tião, quem é o Unhudo?

— Nossos amigos estão envolvidos e confusos. Eu estive mais próximo dele. Eu vi, subi e colhi jabuticabas. Senti a morte de perto quando escorreguei e cai no precipício. Tivesse ocorrido minha morte naquele abismo, hoje eu seria mais um entre eles. Almas gente, Almas!


— Ok, vocês provaram que ele existe, se transforma, e permanentemente vigia sua sagrada montanha.

METÁFORAS - FIGURA DE LINGUAGEM

METÁFORAS

Seu texto enriquece com Metáforas.


A mais famosa figura de linguagem, a metáfora é, assim como a metonímia, uma figura de palavras - isto é, o efeito se dá pelo jogo de palavras que se faz na frase.

A metáfora consiste em retirar uma palavra de seu contexto convencional (denotativo) e transportá-la para um novo campo de significação (conotativa), por meio de uma comparação implícita, de uma similaridade existente entre as duas:



  • Buscava o coração do Brasil.
    Ora, o Brasil não possui o órgão biológico em questão. Portanto, coração significa aí o centro vital, a essência, o âmago do país.
     
  • Achamos a chave do problema.
    O problema não é nenhuma fechadura, mas para resolvê-lo (ou abri-lo) o elemento que se diz ter achado é tão necessário quanto uma chave para abrir uma porta.

    A metáfora possui algumas variações:

    Personificação Atribuição de ações, qualidades ou sentimentos próprios do ser humano a seres inanimados.
     
  • Uma noite triste.
    A noite em si é neutra no que toca a sentimentos. Somos nós que podemos lhe atribuir emoções.
     
  • furacão rugia, expressando sua fúria.
    Comparam-se aqui os sons do furacão aos rugidos de uma fera, bem como a sua intensidade à expressão de um sentimento humano ou animal, a fúria.

    Hipérbole É o exagero puro e simples.
  • Era louco por seu time.
    Com isso, quer se dizer que o sujeito gostava demasiadamente, amava seu time, a ponto de perder a razão.
     
  • Rios de lágrimas, derramei por você.
    Por mais que alguém chore, não formará sequer um riacho...

    Símbolo É a metáfora que acontece quando o nome de um ser ou coisa concreta assume um valor convencional e abstrato.
  • cruz pode enfrentar a espada.
    Não se trata, naturalmente, de usar o crucifixo como arma... Quer-se dizer, por exemplo, que a religião cristã, simbolizada pela cruz, pode enfrentar a violência, simbolizada pela espada.
     
  • "E acreditam nas flores vencendo o canhão."
    O verso de Geraldo Vandré tem sentido semelhante: as flores simbolizam a paz; o canhão, a guerra.

    Sinestesia É a figura em que se fundam as sensações visuais com auditivas, gustativas, olfativas, táteis. A figura dos sentidos.
  • doce sabor da liberdade.
    Enquanto abstração que é, a liberdade não tem sabor nem doce, nem salgado
     
  • Queria pintar a casa com uma cor quente.
    Ninguém se queimará ao encostar numa parede vermelha, no entanto, por estar associada ao fogo, a cor transmite a sensação de calor. Por isso, pode ser chamada de "cor quente".

    Catacrese É uma variedade de metáfora natural da língua, de emprego corrente, que serve para suprir a inexistência de um nome específico para determinada coisa.
  • Nariz do avião, pé da mesa, boca da noite, dente de alho, embarcar no trem, etc.


O EMBORNAL - Oswaldo Romano





PEQUENO ESPAÇO NO TEMPO
UM COMEÇO – O INÍCIO DE UMA VIDA
Oswaldo Romano                                                        
O EMBORNAL

Nasci em 4 de abril de 1928, e registrei numa autobiografia os principais fatos desde então, mas o que conto, conforme agendado, é um momento de 1935, quando fui matriculado no pré-primário. Minha apreensão foi a mesma que todo menino sente nos dias que antecedem à primeira aula. Acompanhava atento o preparativo feito com muito carinho pela minha mãe. Seu nome era Hermínia, mas todos a chamavam de Nena. Nascida e criada na colônia da fazenda, não lhe ensinaram ler ou escrever, e sim o uso da enxada. Casou-se, evoluíram, e ela se tornou uma senhora na cidade, e a melhor mãe do mundo.

— Tenho que costurar o embornal para você, disse ela. Já comprei o brim amarelo-cáqui, cor da fruta. Vai ter o tiracolo, e todas as suas coisas vão caber nele.

— Mãe, o que é tiracolo?

— Graças a Deus! Pra saber tudo filho, é que você vai indo à escola.

Iria começar a aprender o bê-á-bá. Na noite precedente fui pra cama cedo, mas como era de se esperar, não conseguia dormir. Sei lá a que hora, pensando na falada e temida dona Isaura, a professora, adormeci. Acordei com o chamado de minha mãe:

— Wado... Tá na hora, seu primeiro diiia!

Eu estava ensopado! Não era suor. Sonhei que escondido, nadava na cachoeira, lá perto da estação da minha pequena cidade natal, Mineiros do Tietê*. A água estava quentinha, quentinha. E o colchão molhado, molhado!

Como era meu primeiro dia na escola, a mijada foi perdoada. A expectativa era demais. Depois do banho, lá fui eu. Calçado cheirando à graxa, meias brancas, calção e camisa manga curta impecavelmente passados. Levava orgulhosamente a tiracolo meu embornal, o lanche embrulhado e muitas recomendações. Eram tantas que nenhuma chegou até a escola. Foram todas, não esquecidas, mas embaralhadas.

Embora menino, era moleque e atento. Aprendi a ouvir, respeitar e a me impor. Durante o recreio fiz aproximações com outros garotos, inclusive do bairro oposto, com quem tínhamos certas rivalidades. Foi quando um deles, mais metido zombou:

— Que embornal feio! Amarelo enrugado, parece...

Pra quê! Não deixei terminar. Fechei a cara. Lembrei o carinho com que a mãe o havia costurado. Levantei a cabeça aspirando, ele olhou o que eu teria visto, aproveitei e meti-lhe uma botinada na canela. É, a gente usava botina com as meias brancas. Logo no primeiro dia! Por sorte o vigilante se aproximou, e eu logo disse:
— Moço esse moleque tá me batendo!

Um ano depois, entrei para o grupo escolar. Falar sobre o primário é maçante. É aquela idade em que descobrimos que somos gente. Julgamo-nos sabidos e já envolvidos nos problemas do dia. É a época dos namoricos cheirando a leite. Quase sempre gostamos da mais bonita e sempre descobrimos que ela tem um namorado mais velho, e da classe mais adiantada. Não sobrava ninguém. E a classe do ano anterior? Nem pensar, cheiravam ainda a chupeta!

O amor e carinho são fundamentais nessa fase, venham de onde vierem, porque nos envolvem de bons sentimentos e amoldam nossa futura personalidade.

Nossa infância é repleta de passagens, tornando-se impossível retrata-las em uma ou duas laudas. Todavia, contando facécias em pensamento para nós mesmo, em um minuto, preencheríamos uma lauda do tamanho da nossa felicidade infantil.