O unhudo -Oswaldo Romano



O UNHUDO
OSWALDO ROMANO
Esta é uma sinopse dos acontecimentos vividos pelas pessoas que se propuseram a desvendar a história do Unhudo.
Lição inopinada de uma misteriosa mata.

Ao findar o dia, um carinhoso olhar para o neto renova o pedido que nunca falha: — Conta uma história vô?

A origem desta, contada na cidade de Mineiros do Tietê, é narrada em várias versões pela população, ganhando até algum crédito na versão Pedra Branca- Itamoroti de minha autoria. Aqui, sinais da história.

Para tirar a dúvida alguns casais, munidos de armas e coragem, planejaram ir até sua origem, apurar a verdade.

É uma antiga história do Unhudo que vive e reina na mata sobre a Pedra Branca, uma grande montanha que tem sua base lá no baixão da serra chamada Rebenta Rabicho. A descrição dessa figura, homem ou assombração, um ser horroroso que está sempre pronto a atacar quem atrever-se a subir o local, agredir seu meio ambiente, ou apanhar suas frutas, dizem grandes, suculentas e abundantes naquela selva primitiva permeada de frondosas jabuticabeiras.

Desafiando a lenda, este grupo resolveu primeiro debater o assunto com autoridades, e depois aproveitaria um prolongado fim de semana, divertir-se-ia e desvendaria de vez tão antigo e falado mistério.

Até os colonos da região o respeitavam. Um deles, justamente o que mais comentava a excursão, de nome Geraldo, quis dissuadi-los da aventura. Soube, numa roda de violeiros, que mateiros de Santa Maria da Serra tentaram desvendar e conhecer o Unhudo, isto na década de 50, e um deles não teria voltado. Fizeram uma moda de viola. Geraldo não sabia toda, mas falava qualquer coisa assim: — Prá aquela pedra elevada, / Foram quatro vortô treis. / Falam do Unhudo e peitadas, / E das fruteras carregadas. / Por isso eu digo pro cêis, / Tem lá uma alma marvada...

Diziam até que a própria polícia havia abafado o ocorrido e nem inquérito abriram. Outros mais críticos falavam que ela abandonou a procura por falta de armas e equipamentos. Chegaram mesmo a dizer que ela era interessada naquilo!
— Interessada por quê? —Logo perguntavam.

— Porque lá soltavam o preso sem recuperação. Era dado como fugitivo e com seu sumiço não se comprometiam.

        Quanta história!

Subiram, fizeram o primeiro acampamento e depois deste em todos passaram noites assustadoras.

Pelos acontecimentos, era o espírito do Unhudo que os acompanhava.

No final da aventura descendo, no pé da montanha, o grupo se questionou:

— Afinal quem é o Unhudo para você, Vera?— A Mariana foi quem iniciou a pesquisa.

— Eu acho que é um vento, como aquele que causou aquela tropelia dos animais. Seria uma enorme bolsa cheia de ar com pressão, transparente e disforme, com ação e força para movimentar-se pela mata e impor suas ordens. O Unhudo é aquele vento não tenho dúvida. Sua força destrói inimigos.

— E para você, Aracy, quem é o Unhudo?

— A Vera está enganada. Tenho quase certeza de que está em forma de animal. Vi nos olhos daquele lagarto uma expressão humana como se já nos conhecêssemos de há muito. Ele não estava preocupado com nada mais, a não ser querer falar comigo, expor algo que o prendia ali há muito tempo. Era ele sim, vi suas enormes unhas. O lagarto é o Unhudo.

— Pita, agora você. Quem é o Unhudo?

— Por eliminação concluí que é um bruxo.

— Bruxo!

— É, naquela noite em que as vassouras deram um passeio em torno da nossa tenda, as folhas foram varridas e levadas provavelmente para seu abrigo.
— Espere, Pita, e pra que?

— Vocês já ouviram falar em cultos com rituais latentes, geralmente pregados sobre montanhas? São cultos que se realizam de várias formas chegando à exploração dos fogos-fátuos para se sustentarem.

— Você está fantasioso Pita. Isso é iniciação, esoterismo. Como você explica o fato de com tanta mata ele colher essas folhas nesse dia, e em volta da nossa tenda, hem?— Interveio Aracy.

— Ele não tinha outra escolha. Era 31 de outubro, o dia da farra dos bruxos. Só lembrei depois. E nós procuramos a melhor clareira para a montagem da barraca. Foi a melhor porque justamente é ali que ele varre e colhe seu material. Estava preparada. Montamos a barraca bem embaixo da sua árvore consagrada! Para mim o Unhudo é o bruxo com sua vassoura ruidosa e voadora!

— Tá bom Pita, agora...

— E você Carlos, o que diz?

— Estão todos enganados. Quando fui picado pela cobra e tomei aquela injeção com analgésico tive o sonho mais incrível e real da minha vida. Foi assim...
— Nossa, Carlos! Vai continue ...continue.

— Todos os bichos aos gritos e prolongados silvos, desciam correndo e atropelando-se postavam-se ao redor daquele cone giratório de pó. Ali estava o Unhudo.

— Tião, quem é o Unhudo?

— Nossos amigos estão envolvidos e confusos. Eu estive mais próximo dele. Eu vi, subi e colhi jabuticabas. Senti a morte de perto quando escorreguei e cai no precipício. Tivesse ocorrido minha morte naquele abismo, hoje eu seria mais um entre eles. Almas gente, Almas!


— Ok, vocês provaram que ele existe, se transforma, e permanentemente vigia sua sagrada montanha.

METÁFORAS - FIGURA DE LINGUAGEM

METÁFORAS

Seu texto enriquece com Metáforas.


A mais famosa figura de linguagem, a metáfora é, assim como a metonímia, uma figura de palavras - isto é, o efeito se dá pelo jogo de palavras que se faz na frase.

A metáfora consiste em retirar uma palavra de seu contexto convencional (denotativo) e transportá-la para um novo campo de significação (conotativa), por meio de uma comparação implícita, de uma similaridade existente entre as duas:



  • Buscava o coração do Brasil.
    Ora, o Brasil não possui o órgão biológico em questão. Portanto, coração significa aí o centro vital, a essência, o âmago do país.
     
  • Achamos a chave do problema.
    O problema não é nenhuma fechadura, mas para resolvê-lo (ou abri-lo) o elemento que se diz ter achado é tão necessário quanto uma chave para abrir uma porta.

    A metáfora possui algumas variações:

    Personificação Atribuição de ações, qualidades ou sentimentos próprios do ser humano a seres inanimados.
     
  • Uma noite triste.
    A noite em si é neutra no que toca a sentimentos. Somos nós que podemos lhe atribuir emoções.
     
  • furacão rugia, expressando sua fúria.
    Comparam-se aqui os sons do furacão aos rugidos de uma fera, bem como a sua intensidade à expressão de um sentimento humano ou animal, a fúria.

    Hipérbole É o exagero puro e simples.
  • Era louco por seu time.
    Com isso, quer se dizer que o sujeito gostava demasiadamente, amava seu time, a ponto de perder a razão.
     
  • Rios de lágrimas, derramei por você.
    Por mais que alguém chore, não formará sequer um riacho...

    Símbolo É a metáfora que acontece quando o nome de um ser ou coisa concreta assume um valor convencional e abstrato.
  • cruz pode enfrentar a espada.
    Não se trata, naturalmente, de usar o crucifixo como arma... Quer-se dizer, por exemplo, que a religião cristã, simbolizada pela cruz, pode enfrentar a violência, simbolizada pela espada.
     
  • "E acreditam nas flores vencendo o canhão."
    O verso de Geraldo Vandré tem sentido semelhante: as flores simbolizam a paz; o canhão, a guerra.

    Sinestesia É a figura em que se fundam as sensações visuais com auditivas, gustativas, olfativas, táteis. A figura dos sentidos.
  • doce sabor da liberdade.
    Enquanto abstração que é, a liberdade não tem sabor nem doce, nem salgado
     
  • Queria pintar a casa com uma cor quente.
    Ninguém se queimará ao encostar numa parede vermelha, no entanto, por estar associada ao fogo, a cor transmite a sensação de calor. Por isso, pode ser chamada de "cor quente".

    Catacrese É uma variedade de metáfora natural da língua, de emprego corrente, que serve para suprir a inexistência de um nome específico para determinada coisa.
  • Nariz do avião, pé da mesa, boca da noite, dente de alho, embarcar no trem, etc.


O EMBORNAL - Oswaldo Romano





PEQUENO ESPAÇO NO TEMPO
UM COMEÇO – O INÍCIO DE UMA VIDA
Oswaldo Romano                                                        
O EMBORNAL

Nasci em 4 de abril de 1928, e registrei numa autobiografia os principais fatos desde então, mas o que conto, conforme agendado, é um momento de 1935, quando fui matriculado no pré-primário. Minha apreensão foi a mesma que todo menino sente nos dias que antecedem à primeira aula. Acompanhava atento o preparativo feito com muito carinho pela minha mãe. Seu nome era Hermínia, mas todos a chamavam de Nena. Nascida e criada na colônia da fazenda, não lhe ensinaram ler ou escrever, e sim o uso da enxada. Casou-se, evoluíram, e ela se tornou uma senhora na cidade, e a melhor mãe do mundo.

— Tenho que costurar o embornal para você, disse ela. Já comprei o brim amarelo-cáqui, cor da fruta. Vai ter o tiracolo, e todas as suas coisas vão caber nele.

— Mãe, o que é tiracolo?

— Graças a Deus! Pra saber tudo filho, é que você vai indo à escola.

Iria começar a aprender o bê-á-bá. Na noite precedente fui pra cama cedo, mas como era de se esperar, não conseguia dormir. Sei lá a que hora, pensando na falada e temida dona Isaura, a professora, adormeci. Acordei com o chamado de minha mãe:

— Wado... Tá na hora, seu primeiro diiia!

Eu estava ensopado! Não era suor. Sonhei que escondido, nadava na cachoeira, lá perto da estação da minha pequena cidade natal, Mineiros do Tietê*. A água estava quentinha, quentinha. E o colchão molhado, molhado!

Como era meu primeiro dia na escola, a mijada foi perdoada. A expectativa era demais. Depois do banho, lá fui eu. Calçado cheirando à graxa, meias brancas, calção e camisa manga curta impecavelmente passados. Levava orgulhosamente a tiracolo meu embornal, o lanche embrulhado e muitas recomendações. Eram tantas que nenhuma chegou até a escola. Foram todas, não esquecidas, mas embaralhadas.

Embora menino, era moleque e atento. Aprendi a ouvir, respeitar e a me impor. Durante o recreio fiz aproximações com outros garotos, inclusive do bairro oposto, com quem tínhamos certas rivalidades. Foi quando um deles, mais metido zombou:

— Que embornal feio! Amarelo enrugado, parece...

Pra quê! Não deixei terminar. Fechei a cara. Lembrei o carinho com que a mãe o havia costurado. Levantei a cabeça aspirando, ele olhou o que eu teria visto, aproveitei e meti-lhe uma botinada na canela. É, a gente usava botina com as meias brancas. Logo no primeiro dia! Por sorte o vigilante se aproximou, e eu logo disse:
— Moço esse moleque tá me batendo!

Um ano depois, entrei para o grupo escolar. Falar sobre o primário é maçante. É aquela idade em que descobrimos que somos gente. Julgamo-nos sabidos e já envolvidos nos problemas do dia. É a época dos namoricos cheirando a leite. Quase sempre gostamos da mais bonita e sempre descobrimos que ela tem um namorado mais velho, e da classe mais adiantada. Não sobrava ninguém. E a classe do ano anterior? Nem pensar, cheiravam ainda a chupeta!

O amor e carinho são fundamentais nessa fase, venham de onde vierem, porque nos envolvem de bons sentimentos e amoldam nossa futura personalidade.

Nossa infância é repleta de passagens, tornando-se impossível retrata-las em uma ou duas laudas. Todavia, contando facécias em pensamento para nós mesmo, em um minuto, preencheríamos uma lauda do tamanho da nossa felicidade infantil.




Rallye Noturno - Vera Lambiasi


Rallye  Noturno
Vera Lambiasi

Saci-pererê, menino malandro, sempre fazendo estripulias.
Desvia caminhos no breu da estrada, surpreende piscando faróis cegantes e obriga conversões à esquerda impossíveis de ser obedecidas.

        Já não passamos por aqui?
Piloto pergunta ao navegador, duvidando de sua perícia em dar as coordenadas.

        Essa noite do Saci está me dando um banho!
        De poeira! Olha o rodamoinho!

        Úúúúúúú!!!!!!!!

SIMPLES INFÂNCIA - Maria Luiza C. Malina


SIMPLES INFÂNCIA
Maria Luiza C. Malina

Um Benedito e três Marias cresciam brincando no imenso e florido jardim que tinha ao fundo da casa, uma apetitosa horta de morangos e verduras, ladeada por um alto barranco.

Brincávamos naquele barranco fazendo buracos, que representavam tocas e estradinhas de acesso, o Benedito com seus caminhõezinhos e as 3 Marias com suas bonecas, que eram intercaladas de brincadeiras de pega-pega, esconde-esconde,  pular corda, peteca, bicicleta, e assim o dia passava num doce assobiar, entremeados de morangos colhidos às escondidas.

Num desses cansaços infantis, um regador solitário estava no meio do jardim, e sem qualquer dúvida bebemos a água o mais rápido possível para continuarmos nas brincadeiras, e o jardineiro, em posição patética de espantalho, nos observava incrédulo, pois sabia que havia colocado um tipo de fertilizante naquela água.

Sem entender aquela correria atrás de nós, jardineiro, empregada e mãe, ríamos porque acreditávamos que finalmente tínhamos mais companheiros para a brincadeira, quando num determinado momento, entra pelo jardim a ambulância com sua fantástica sirene, uma enfermeira desce com alguma coisa na mão e o nosso pai, com sua roupa branca roupa de médico com as mãos na cintura em posição de “o que foi que vocês aprontaram desta vez”! e minha mãe, se debulhando em lágrimas, imaginando certamente um velório, percebemos que alguma coisa estava errada, uma vez que o jardineiro tirava as mãos de dentro dos imensos bolsos de seu avental, levando-as ao rosto,  ao lado do velho regador de lata.

Sem pestanejar lá fomos nós. O motorista dirigia a toda velocidade com a sirene ligada cortando as ruas passando pelos semáforos vermelhos, vomitávamos todos os nossos pensamentos, e pela primeira vez nosso medo por um puxão de orelha, havia sido substituído pela lembrança de um corre-corre sem fim e de um tão esperado passeio de ambulância.

Até a próxima Dr. Camargo!

Sim! Houve a próxima. Anos mais tarde, fomos surpreendidas com o mesmo barulho da sirene da ambulância, andando de bicicleta pelas estreitas e perigosas ruas da cidade de Blumenau.

O motorista desceu e nos ajudou a colocar as bicicletas dentro.

Nunca mais houve a próxima!


ZEPPELIN - Barbara Blue



ZEPPELIN                                                                 
Barbara Blue

O anúncio do dirigível cruzando os céus do Brasil, mudou a rotina dos habitantes que passavam o dia olhando para os céus com sua máquinas fotográficas para eternizar o momento silencioso do seu passar.

“Photo tirada no momento que, Hindenburg, o dirigível monstro passava sobre a Cathedral, cujo relógio assignalava a hora de sua chegada em Curityba, 9,30 hs. da manhã, no dia 1º de dezembro de 1936, de volta de seu cruzeiro pelo sul do paiz”.

Deborah sempre ouviu histórias reticentes e a meia voz sobre este tão poderoso invento, à medida do seu crescer mais reticências, na fase adulta outras reticências um pouco mais esclarecedoras que, através de romances chorava identificando-se com os personagens, enfrentava chuvas e trovoadas, mas a filmes de guerra jamais os assistia.

Tinha uma aversão natural sobre o dirigível ao ver tanta empolgação sobre esta passagem, no entanto, o que ninguém sabia era qual o projeto secreto do Zeppelin, que pela sua facilidade em pousar em qualquer local, numa pequena base, recolhia ouro ou espécie monetária, de aliados e simpatizantes.

Com um sorriso, enigmaticamente rasgado, cortava os céus levando o poder da dor sem fronteiras.



Conto: Dama de Honra - Vera Lambiasi



Conto : Dama de Honra

Na mais tenra infância, Clarinha era sempre chamada para ser daminha em casamentos.
Encarava até bodas de prata e ouro, com caquéticos casais querendo aquecer seus votos.

Também, bonitinha engraçadinha e risonha.
        Ah ... ela vai adorar!
Agradecia sua mãe o convite.
        Não é, Maria Clara?
Quando chamada assim, pelo nome composto, Clarinha nem ousava retrucar.

E lá ia ela, boazinha.
Obediente, passava meses experimentando vestidos bufantes, anáguas, meias rendadas e sapatos de verniz. Com arquinhos nos cabelos armados, duros de laquê, era presenteada com joias de minúsculas pérolas e sentia-se satisfeita.
A cestinha de prata, foi guardada toda uma vida, mais rodada, impossível.

Clarinha nem sabia bem se gostava de ser daminha, mas na hora H, tirava de letra.
        É só ir até o altar pelo meio da igreja, e sorrir? Dá aqui logo essas alianças!

Pajens empacados, companheiras emburradas, pares afoitos que acabavam por derrubar as almofadinhas encantadas, Clarinha contornava todos os percalços.

Dona Maria Clara nunca teve a honra de cruzar a nave vestida de noiva.

        Para que tanto treinamento?

Praguejava ela, risonha e banguela!

Ciúmes - Suzana da Cunha Lima


Ciúmes
Suzana da Cunha Lima


Rubens e Marta ainda moravam na mesma casa por uma questão econômica. O juiz havia concedido separação de corpos e caberia a ele manter a casa financeiramente e a ela administrá-la. E ambos estariam livres de procurar outro (ou outra) companheiro (a),desde que não o (a) levassem para dentro da casa onde ambos ainda residiam.  Era o mesmo que estar casado, com aval para sair quando e com quem quisesse, até mesmo dormir fora ou viajar, sem dar nenhuma satisfação.  Melhor, impossível, pensou Rubens, que já fazia isso há algum tempo, motivo das constantes brigas dos dois. Parecia um bom arranjo, mas o tempo provou o contrário.

Porque Marta fiscalizava as entradas e saídas dele pela janela do seu quarto, através da veneziana. Também passava bom tempo no quarto de Rubens, remexendo gavetas e roupas, livros e papéis, sempre em busca de alguma coisa que ela não deveria saber para não se sentir infeliz.

Um dia, ela não conseguiu entrar lá, porque ele o havia trancado a chave. Ficou furiosa, chamou o chaveiro, acabou entrando.  Isso deu a Rubens o direito de reportar o caso ao juiz e ela acabou sendo duramente recriminada.

Noutra noite, sempre espiando pela veneziana reparou que o carro parado à frente da casa não era o dele. Alguém o tinha trazido e pela demora nas despedidas, era alguém muito ardoroso.

- Tudo isso, ali, no meu nariz – queixava-se aos filhos, já cansados das lamentações da mãe. Não adiantava conselho e nem mesmo a ideia de ela própria arranjar um namorado, foi aceita.  O ciúme  era um cancro que estava dando metástase em todos os aspectos de sua vida.

Cada vez mais furiosa, resolveu colocar um cadeado com corrente no portão de entrada que era bem alto - Quero ver agora você entrar, seu safado. -  E ficou de vigia na janela para saborear a hora da chegada de Rubens e ver a cara de surpresa que ele ia fazer. Nem cogitou que não podia agir desta maneira. Tinha assinado junto com o Rubens e diante de um juiz, um compromisso que  ser honrado.

Ele chegou bem tarde e já sonolento. Olhou para o cadeado atarantado, até perceber que não ia conseguir entrar em casa naquela noite. Aborrecido, levantou o olhar para janela, viu seu vulto e gritou: Você me paga, espere para ver. No dia seguinte entrou com o pedido de divórcio, foi na casa pegar suas coisas e achou que tinha saído da  vida de Marta para sempre.

Foi quando Marta surtou de vez. Arranjou um detetive para espionar Rubens e parece que o alimento de sua vida era ler os relatórios que o investigador lhe levava. E essa obsessão foi corroendo sua saúde e a tornando cada vez mais fraca e amarga.

Enquanto isso o processo de divórcio ia seguindo seu curso e ela foi chamada para as primeiras acareações. Entrou noutra paranoia ao perceber que ia ficar pior do que estava. Tinham que dividir os bens. Marta ficou histérica e percebendo que não podia reverter o quadro que ela mesma criara, resolveu se vingar pedindo uma pensão altíssima.  O juiz nem considerou seu pedido e tentou lhe dar alguns conselhos, para tentar acalmá-la.

Um dia, o investigador resolveu falar com ela pessoalmente. – D. Marta, a senhora está gastando seu dinheiro atoa.  Não vejo nada fora do comum na vida do Sr. Rubens.  Trabalha muito e almoça no escritório. Às vezes sai para tomar café numa padaria em frente com alguns clientes, geralmente homens.

Está morando num apart-hotel perto do trabalho. Fiquei amigo do porteiro e ele me garantiu que nunca viu mulher entrando lá para falar com ele, nem ele chegou lá com alguma mulher.  É uma vida bem sem graça, essa de seu marido, viu?

-Fique de olho também nos homens, ora – dizia ela – vá que ele resolveu sair do armário e arranjou algum jovenzinho para se divertir.

O investigador estacou como se tivesse recebido um soco. – Sou um profissional, minha senhora. Qualquer coisa nesse sentido já teria me chamado a atenção.  A senhora me desculpe, mas vou sair desse serviço. Estou trabalhando em pura perda e sinto-me mal em aceitar seu dinheiro. Nada acontece na vida de Sr. Rubens que mereça alguma atenção maior. Aqui está a conta, se quiser pode fazer um cheque para dois meses.

Marta quase fuzilou o homem com o olhar, fez logo os cheques e o mandou embora com um monte de impropérios.

Naquela tarde, ele foi tomar café na padaria em frente ao escritório de Rubens. Não precisou esperar muito. Daqui a pouco Rubens chega com uma bela mulher ao lado.
- Oi Siqueira, como foi a coisa lá com aquela maluca?

- Ah, Dr. Rubens, quase apanhei dela. Mas já encerrei o caso. Acho que D. Marta está cada vez mais doente e obsessiva. Dá pena, sabe?

- Que pena que nada, Sr. Siqueira A gente colhe o que planta. Obrigada por tudo, quebrou um galhão para mim. Está aqui o prometido -  e lhe entregou um envelope. - Acrescentei uma coisinha mais porque o senhor fez um trabalho excelente.

- Fico muito agradecido, Dr. Rubens.  Que o senhor encontre a felicidade e esqueça logo este capítulo tão atribulado de sua vida. – respondeu o detetive alegre com o que viu dentro do envelope. Rubens pegou o braço da moça dizendo alegre:

- Vamos dar uma gorjetinha também para o porteiro daquele prédio, querida.

Atravessaram a rua rindo, enquanto Sr. Siqueira meditava filosoficamente sobre sua profissão que só lidava com separações e divórcios e, portanto muitas mágoas represadas, muito ódio, onde, um dia, só existia amor e confiança.



AMOR DE JOSÉS - Maria Luiza C.Malina



AMOR DE JOSÉS                                     
Maria Luiza C.Malina

- Ah! Estes Josés! Sempre com muitas surpresas! – diziam seus amigos, já sem muita surpresa pelos acontecidos, os apelidaram de Josés.

Era uma vez, dois irmãos absolutamente iguais, com apenas 11 meses de diferença, que com o decorrer dos anos se tornavam cada vez mais, um só.

Não sem tempo, um deles conheceu uma bela e recatada jovem, que sempre o acompanhava com o olhar discreto atrás de uma cortina da janela com o parapeito voltado para a rua.
Com o passar dos dias tornaram-se bons amigos, sem que um não se preocupasse com detalhes de suas famílias. Certo dia, ele com compromisso especial em outra cidade, ausenta – se por um longo período e, sem saber, a jovem que também teria que sair da cidade, não lhe contara nada com receio de perder esta amizade tão especial.

Seu irmão sabendo de tudo e a pedido do irmão, toma seu lugar e passa a assediar a jovem daquela casa, acreditando ser a mesma! Foi um amor fulminante, que passados 2 meses casaram-se em segredo, ela levando em sua bagagem a crista da virgindade e ele o tormento da traição ao irmão.

Devido à distância das cidades, pouca era a comunicação. Passados dois anos, José viajante retorna e procura por seu outro José, que descobre que havia se casado com a moça daquela casa.

- Mas como,  se fui eu quem me casei com ela ! – exclama José viajante,  e vai à procura de seu irmão que lhe pede perdão pelo ocorrido.

 Sua viagem inesperada e longa, era pelo compromisso que ele teria que assumir com a moça, com quem também se casara em segredo.

Quando se perguntaram – “com quem você se casou?” - surgem sorrindo as duas irmãs idênticas com seus bebês ao colo!

Os dois se abraçam e descobrem que a vida havia pregado uma peça aos dois Josés.



TUMULTOS DE ADOLESCENTE - Mario Tibiriçá


 
                     

  
TUMULTOS DE ADOLESCENTE
Mario Tibiriçá

A Europa  e mundo, conflagrados  pela segunda guerra mundial, nos pegou em plena adolescência, aos 13 anos, em 1944, e é claro  que interferiu de alguma maneira em nossa formação. Tudo se  referia a guerra, assim como jornais, escola, racionamento de gasolina, brincadeiras etc . As amizades com estrangeiros, especialmente alemães, italianos e japoneses eram controladas e mal vistas.

Embora jovens, acompanhávamos diariamente pelos jornais , os mapas do desenvolvimento da guerra, especialmente após o dia ¨D¨  6 de junho de 44 quando os aliados invadiram a  Europa  conflagrada. Mas tudo isso não impedia nossas brincadeiras, nossas festinhas inocentes, nosso futebol de botão e de campo, nossas bicicletas, nossas bolinhas de gude, pião, gibis, álbuns de figurinhas e interesse inicial  e especial  pelas meninas, sendo que estas não tomavam   o menor conhecimento do nosso ardoroso  interesse.

Os treinamentos de  blackout, com apagar das luzes da casa, por vezes tumultuavam nossos planos, mas para nós a novidade era divertida, pois  sempre  fazíamos planos para assustar vizinhos e amigos durante os tais blecautes, fingindo morcegos.

Lembro-me especialmente, que  junto com os amigos Biriba, Nerço e  Demar , nos vestíamos de  fantasmas e no blecaute quando tudo estava apagado,  aparecer de surpresa  na casa de nosso amigo  Chancudo, ( tinha esse apelido por não tirar as chancas, hoje  chamadas de chuteiras), e pregarmos um grande susto, inclusive em toda a família dele. Riamos a valer.

Ao lado  destas brincadeiras e jogos, tínhamos a escola que nos tomava praticamente o dia todo, eis que havia muita lição de casa.  No  colégio surgia um outro grupo, fazendo  artes e criando problemas. Meus comandados, Chico, os irmãos Gutierrez, mexicanos terríveis e eu, fazíamos  tudo para perturbar a ordem e bagunçar a     Congregação  dos Irmãos Maristas, Ordem religiosa  fundada  há  mais de 150 anos pelo padre Chanpagnhat, e que dirigia o Colégio Nossa Senhora do Carmo. O tempo todo tais meninos, quais monstros extra- terrestres, no imaginário de cada um,   tinha objetivo principal  de desmoralizar os Irmãos Maristas.

Lembro-me até, quando os irmãos Gutierrez, cujo pai possuía cavalos de corrida no jóquei, levaram purgante de cavalos ao colégio. Tivemos ( eu tive ) a brilhante ideia de colocar o purgante na comida dos religiosos. O  resultado foi fantástico, oito dias sem aula. Três Irmãos Maristas hospitalizados, dez dias de suspensão para mim, sabido chefe da quadrilha, ameaçado de expulsão do colégio e vergonha máxima para minha família.

Eu realmente fui um aluno relapso, encrenqueiro, brigão e sem quaisquer  resquícios de responsabilidade. Apesar das repreensões em casa, surras e castigos só fui reconhecer a educação, a conciliação e a responsabilidade muito mais tarde.
As férias eram  passadas no  sítio de minha querida avó materna, uma senhora  notável pela cultura e sabedoria, que muito  ajudou-me com   problemas que eu enfrentava. Vovó ensinou-me no seu sítio,  o respeito aos bichos, a criar galinhas, a montar a cavalo, a cuidar de cães, coelhos, arvores e frutos.

Ensinou-me, sobretudo o respeito às coisas da vida.  Lembro-me  sempre com carinho quando nos apanhou, os primos e eu, em gloriosa e coletiva masturbação dentro do  bambuzal. Foram brandas repreensões e enormes noções de responsabilidade, inclusive quanto ao que fazíamos, foi uma mulher inesquecível.

Minha indisciplina contumaz era proveniente  de eu ter deixado claro aos meus  pais, especialmente meu pai, que jamais estudaria com aquela  congregação, cheia de anacronismos, sem didática e sem estrutura para ensinar.

Foram dias negros  de repetente  indisciplinado, mas que valeram de ensinamento e tenacidade para construir uma vida melhor. Cabe dizer que após o primeiro ano de ginásio, jamais fui reprovado em qualquer outro curso.

                     

Dama de Honra - Vera Lambiasi


Dama de Honra
Vera Lambiasi


Na minha mais tenra infância sempre era chamada para ser daminha em casamentos.

Também, bonitinha, engraçadinha e risonha.

        Ah, ela vai adorar!
Agradecia mamãe o convite.

        Não é, Vera Lúcia?
Quando me chamava assim, pelo nome composto, nem ousava retrucar.

E lá ia eu, boazinha.
Obediente, passava meses experimentando vestidos bufantes, anáguas, meias rendadas, sapatos de verniz, arquinhos nos penteados cheios de laquê e joias de pérolas minúsculas.

A cestinha de prata, tenho até hoje guardada, mais rodada, impossível!

Na hora H, nem sei se gostava ou não, mas tirava de letra.


        É só ir até o altar pelo meio da igreja, bem devagarinho, e sorrir? Daqui logo essas alianças!