O destino de Rute - Isabella Brancher




O destino de Rute

Isabella Brancher


Até que, em um dia em que finalmente Rute teve coragem de entrar na casa. “É ele mesmo.” O retrato dele estava na parede.

Dias antes dessa descoberta, Rute estava passeando pela cidade onde sua mãe havia nascido e encontrou na rua principal vários carros de polícia e uma ambulância em frente à casa amarela com 7 janelas. A casa amarela com 7 janelas havia sido tema de muitas histórias que a mãe de Rute lhe contara na sua infância. Essas narrativas despertaram nela uma curiosidade sombria, daquelas que desabrocham em um interesse, mas ao mesmo tempo mantêm uma distância, pelo medo do desconhecido. 

Os policiais e paramédicos estavam ali, pois o Comendador Freitas havia sido encontrado sem vida em seus aposentos no terceiro andar. Seu criado José, fiel mordomo de muitos anos, o havia encontrado caído sobre uma poltrona a caminho do banheiro. Rute, surpresa com a movimentação, pergunta a um dos policiais:

 — O que aconteceu? 

O homem que deveria regular em idade com sua mãe se engasga ao observar Rute; sua semelhança com Maria era surpreendente, responde após um breve silêncio:

— Você não o conhece? 

O policial pareceu estudá-la por alguns segundos antes de completar: 

— O Comendador Freitas morreu.

Comendador Freitas era um fazendeiro riquíssimo, praticamente dono da cidade. Um homem mau, sem escrúpulos, que havia trazido tristeza até para a sua família. A sua filha, Maria, que se apaixonara por Rafael, um capataz, sofreu por anos com a pressão do pai, que a submetia a todo tipo de humilhação. Várias vezes Rafael tentara interceder, mas o Comendador usava todo o seu poder para segurar seu capataz e sua filha sob seu impiedoso domínio.

Um dia, Maria, sabendo que estava grávida do capataz, fez uma pequena mala, juntou alguns objetos e umas poucas lembranças da casa e sumiu. Havia fugido por puro desespero, preferia abdicar do luxo e conforto. Não queria que seu filho crescesse e vivesse sob a influência doentia do avô.

Quando o Comendador se deu conta da ausência da filha, chamou Rafael. Ele estava nas cocheiras, mas largou imediatamente o que fazia e foi, prontamente, ver o que o patrão queria. Rafael jurou por sua mãe que não sabia do paradeiro de Maria, e não sabia mesmo, pois se a filha o tivesse informado, saberia que o pai a encontraria.

— Rafael, como você não sabe onde foi Maria? Perguntou Freitas

— Não sei mesmo; se soubesse, já teria ido buscá-la.

Um clima de tensão e revolta se instalou na sala. Rafael sentiu um frio percorrer o corpo. Conhecia o temperamento do patrão e sabia que aquela conversa não terminaria bem. A raiva do patrão percorrendo seu ventre. Ele havia crescido na fazenda. Agora, com a mãe doente, estava totalmente aprisionado, pois o Comendador, sabendo da condição da sua mãe, o mantinha ainda mais tensionado. 

A ausência de Maria ao seu lado fazia a convivência com o Comendador um martírio; os dias eram longos, e as solicitações inúmeras desgastavam Rafael ao extremo. Tanto Comendador quanto sua mãe estavam envelhecendo e, em Rafael, os cabelos grisalhos já traziam as marcas do tempo. 

Um dia, desencantando-se com a vida, tomou a decisão de terminar seu sofrimento; queria encontrar a qualquer custo uma saída razoável para a sua vida. Ainda tinha alguns anos pela frente e o que mais queria era reencontrar Maria, seu grande amor. 

Naquela manhã, após voltar da cavalgada com sua égua, decidiu que pediria demissão de seu cargo, já que agora não tinha mais sua mãe a acorrentá-lo na fazenda. Chegando à casa amarela de sete janelas, encontrou aquele movimento em frente à rua. 

Entrou e soube do acontecido. Agora estava livre, precisaria apenas ajudar a organizar as atividades da casa e dar continuidade ao pedido do Comendador de abrir a casa para visitação.

Semanas depois da morte do Comendador, Rute decide conhecer o interior da casa amarela, tão presente nas histórias que sua mãe lhe contava. O corredor estava exatamente como ela imaginara. As paredes escuras, a escadaria central, as janelas altas. Era estranho visitar pela primeira vez um lugar que parecia já habitar sua memória. Naquele dia, não precisou perguntar quem era o homem retratado. Reconheceu imediatamente os traços de sua mãe e se deu conta de que o Comendador Freitas era, na verdade, seu avô.


Até que, em um dia em que finalmente Rute teve coragem de entrar na casa. “É ele mesmo.” O retrato dele estava na parede.

Dias antes dessa descoberta, Rute estava passeando pela cidade onde sua mãe havia nascido e encontrou na rua principal vários carros de polícia e uma ambulância em frente à casa amarela com 7 janelas. A casa amarela com 7 janelas havia sido tema de muitas histórias que a mãe de Rute lhe contara na sua infância. Essas narrativas despertaram nela uma curiosidade sombria, daquelas que desabrocham em um interesse, mas ao mesmo tempo mantêm uma distância, pelo medo do desconhecido. 

Os policiais e paramédicos estavam ali, pois o Comendador Freitas havia sido encontrado sem vida em seus aposentos no terceiro andar. Seu criado José, fiel mordomo de muitos anos, o havia encontrado caído sobre uma poltrona a caminho do banheiro. Rute, surpresa com a movimentação, pergunta a um dos policiais:

 — O que aconteceu? 

O homem que deveria regular em idade com sua mãe se engasga ao observar Rute; sua semelhança com Maria era surpreendente, responde após um breve silêncio:

— Você não o conhece? 

O policial pareceu estudá-la por alguns segundos antes de completar: 

— O comendador Freitas morreu.

Comendador Freitas era um fazendeiro riquíssimo, praticamente dono da cidade. Um homem mau, sem escrúpulos, que havia trazido tristeza até para a sua família. A sua filha, Maria, que se apaixonara por Rafael, um capataz, sofreu por anos com a pressão do pai, que a submetia a todo tipo de humilhação. Várias vezes Rafael tentara interceder, mas o Comendador usava todo o seu poder para segurar seu capataz e sua filha sob seu impiedoso domínio.

Um dia, Maria, sabendo que estava grávida do capataz, fez uma pequena mala, juntou alguns objetos e umas poucas lembranças da casa e sumiu. Havia fugido por puro desespero, preferia abdicar do luxo e conforto. Não queria que seu filho crescesse e vivesse sob a influência doentia do avô.

Quando o Comendador se deu conta da ausência da filha, chamou Rafael. Ele estava nas cocheiras, mas largou imediatamente o que fazia e foi, prontamente, ver o que o patrão queria. Rafael jurou por sua mãe que não sabia do paradeiro de Maria, e não sabia mesmo, pois se a filha o tivesse informado, saberia que o pai a encontraria.

— Rafael, como você não sabe onde foi Maria? Perguntou Freitas

— Não sei mesmo; se soubesse, já teria ido buscá-la.

Um clima de tensão e revolta se instalou na sala. Rafael sentiu um frio percorrer o corpo. Conhecia o temperamento do patrão e sabia que aquela conversa não terminaria bem. A raiva do patrão percorrendo seu ventre. Ele havia crescido na fazenda. Agora, com a mãe doente, estava totalmente aprisionado, pois o Comendador, sabendo da condição da sua mãe, o mantinha ainda mais tensionado. 

A ausência de Maria ao seu lado fazia a convivência com o Comendador um martírio; os dias eram longos, e as solicitações inúmeras desgastavam Rafael ao extremo. Tanto Comendador quanto sua mãe estavam envelhecendo e, em Rafael, os cabelos grisalhos já traziam as marcas do tempo. 

Um dia, desencantando-se com a vida, tomou a decisão de terminar seu sofrimento; queria encontrar a qualquer custo uma saída razoável para a sua vida. Ainda tinha alguns anos pela frente e o que mais queria era reencontrar Maria, seu grande amor. 

Naquela manhã, após voltar da cavalgada com sua égua, decidiu que pediria demissão de seu cargo, já que agora não tinha mais sua mãe a acorrentá-lo na fazenda. Chegando à casa amarela de sete janelas, encontrou aquele movimento em frente à rua. 

Entrou e soube do acontecido. Agora estava livre, precisaria apenas ajudar a organizar as atividades da casa e dar continuidade ao pedido do Comendador de abrir a casa para visitação.

Semanas depois da morte do Comendador, Rute decide conhecer o interior da casa amarela, tão presente nas histórias que sua mãe lhe contava. O corredor estava exatamente como ela imaginara. As paredes escuras, a escadaria central, as janelas altas. Era estranho visitar pela primeira vez um lugar que parecia já habitar sua memória. Naquele dia, não precisou perguntar quem era o homem retratado. Reconheceu imediatamente os traços de sua mãe e se deu conta de que o Comendador Freitas era, na verdade, seu avô.


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