De peito aberto - Carla Di Sessa

 


De peito aberto

Carla Di Sessa


Germano ia ser operado, uma cirurgia de coração com o tórax aberto.

Bianca trabalhava para Germano e Juliana há anos. Quando ele deu a notícia, não pôde evitar e pensou: que coração? Aquilo não tinha coração; agir daquela maneira com a esposa, todo mundo sabia e comentava, só Cecília permanecia na ignorância. Diz o ditado: a ignorância é uma bênção. Bênção, uma ova. A fofoca rolando solta e o ignorante em questão com nariz de palhaço. Mas, aqui se faz, aqui se paga, e o desgraçado ia para a mesa de operação. Imagino que deva estar apavorado e, com a culpa pesando nos ombros, devia estar imaginando se havia chegado ou não a sua hora de acertar as contas com Deus…


Juliana andava sem parar, indo e vindo pelo estacionamento do prédio onde ela e Germano tinham um escritório de advocacia. Permanecia alheia aos olhares curiosos enquanto os saltos de seus sapatos batiam no chão de cimento, marcando a sua aflição.  Germano ia ser operado, e agora? Meu Deus, e agora? E se ele morresse? Com que cara iria ao velório e ao enterro? Com cara de quem é a outra, lógico, todo mundo já sabia. Até Cecília, com aquela placidez, devia saber que Germano não era lá muito cuidadoso e devia ter deixado escapar alguma coisa aqui e ali. 


Sentiu o medo apertar o coração e gelar suas mãos. E o que iria fazer com todo aquele amor se ele não estivesse mais ali? Fechou os olhos e pediu: “Meu Deus, protege, cuida, acompanha!”


Cecília recebeu a notícia e se levantou para preparar bebidas para os dois. Ficou em dúvida entre vinho ou uísque e achou que a situação estava mais para um uísque. Germano continuou a falar, explicando o procedimento, os preparos, a data e o pós-operatório. Estava nervoso, torcendo as mãos. Bem-feito! Ela pensou, sentindo um certo prazer em ver o estado dele. Então parou e pensou o impensável: tomara que morra! As pedras de gelo caíram, fazendo barulho nos copos. Seria uma solução, não seria? Haveria o velório, o enterro, muitas lágrimas, de alívio ou de tristeza, tanto faz, e depois ela se veria livre desse aborrecimento. Ela entregou a bebida para Germano e tomou um gole da sua. Seria perfeito. Mas vaso ruim não quebra, pensou, já meio arrependida. Não queria que seus filhos perdessem o pai, não queria uma mudança desse calibre na sua vida. É preciso enfrentar certas ondas para a embarcação continuar no seu rumo. Suspirou e tomou um bom gole do seu uísque.


Germano saiu do consultório do médico um tanto abalado. Seu coração nunca havia sido assim uma maravilha, mas cirurgia? De peito aberto? O médico havia afirmado que “uma cirurgia assim, hoje em dia, era consideravelmente segura devido aos avanços da medicina moderna”. Tá bom, vai nessa, pensou Germano. Mas não tinha escolha; se não operasse, ia ser Game Over, como dizem os adolescentes. Pensou em Juliana, tão suave e sensível; ela ia arregalar os olhos e se fazer de durona, mas ele sabia que, por dentro, estaria sendo engolida por um turbilhão. Tão valente!  Já Cecília iria imediatamente começar a organizar as coisas, assegurando que ele fizesse tudo direito, providenciando para que tudo fluísse com precisão. Sempre podia contar com ela em momentos assim, uma rocha.  Mas, em outros momentos, ele bem que gostaria que ela fosse menos rocha.


Bianca desligou o telefone e continuou o seu trabalho. Enfim, a operação havia sido um sucesso e o safado estaria de volta em algumas semanas. 


Juliana desligou o telefone e agradeceu baixinho: “Meu Deus, obrigada, obrigada!”


Cecília ouviu o médico dar a boa notícia, tendo sido abraçada pelos filhos, que comemoravam o sucesso da cirurgia. Tudo estava sob controle, como ela gostava.


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