De trens e Trilhos - Ises de Almeida Abrahamsohn

 




De trens e Trilhos
Ises de Almeida Abrahamsohn 

 

Adoro viajar de trem. Podem ser os trens-bala, devorando paisagens a 300 km/hora, com nossos olhos captando imagens fugidias como num filme acelerado. São os campeões, orgulhosos de seus nomes próprios: Shinkansen, TGV, Eurostar, Railjet. Lembram enormes torpedos deslizando sobre trilhos.

Porém, não me incomodo e até prefiro viajar naqueles mais lentos, regionais, de paradas frequentes. Como turista, me permitem observar os campos, os animais nas pastagens e as pessoas que entram ou saem nas estações. São os frequentados pelas famílias que repartem as merendas de sanduíches econômicos trazidos de casa e as garrafas térmicas.

Enfim, tenho atração nostálgica por esses trens anônimos que me permitem a ilusão de um tempo a se desenrolar mais vagaroso antes de chegar ao destino.

Estava sentada à janela do comboio Porto-Lisboa. Não era o mais rápido, quatro horas, mas não me importava. Queria aproveitar ao máximo o final das férias antes do longo voo de volta ao meu país. Na tarde ensolarada de maio, me encantavam os quintais das casas ao longo da via férrea com suas pequenas hortas e aglomerados de flores: rosas de todos os tons, dálias, margaridas e jasmins avançando pelas paredes e telhados. De quando em quando, um túnel sob árvores dava vez a campos de cereais ainda a crescer.

Faltava ainda cerca de uma hora até a estação de Santa Apolónia. Ouviu-se o trem subitamente desacelerar com rangidos de freios e parar. Ao lado, um campo verde a perder de vista. Os passageiros se agitavam. As pessoas perguntavam umas às outras a causa da parada; outras, mais preocupadas com o possível atraso, reclamavam da falta de informação. E ainda outras, habituadas ao trajeto, filosoficamente informavam que avarias no sistema elétrico não eram raras naquela linha. Passados uns vinte minutos, ainda não tínhamos nenhuma informação. Ouviam-se conversas aos celulares avisando do atraso na chegada. Até que um passageiro, mais irritado, resolveu sair do trem para investigar o problema técnico informado. O funcionário tentou barrar-lhe a saída, o que apenas serviu para dois jovens também descerem para os trilhos. Após uns minutos, um dos jovens, visivelmente perturbado e pálido, anunciou:

  Foi um suicídio. Estão a esperar a perícia para remover o corpo.
E ali ficamos a esperar, ouvindo as notícias fragmentadas que um ou outro que descia aos trilhos trazia.

Era jovem. Um rapaz, segundo informou o policial, não lhe vi o rosto. Não aguentaria.
Parece que este trecho é o preferido dos suicidas — disse outro.
— Parte das pernas e um bra
ço ficaram presos nas rodas traseiras. A perícia tem que recolher todos os fragmentos, informou outro, logo rechaçado com várias exclamações do tipo: “Cale-se, homem, não precisamos desses detalhes escabrosos.”
E ali ficamos cerca de três horas até os carros de polícia e ambulâncias se afastarem e o trem retomar o percurso.

Ainda gosto muito de viajar de trem. Agora, quando olho os trilhos correndo ao lado, lembro do jovem suicida. Que grau de desespero o levou a esse gesto? É a mesma pergunta que se faz ao saber sobre um suicídio, não importam as circunstâncias.

 

Caminhos e Descaminhos - Yara Mourão






Caminhos e Descaminhos

Yara Mourão



Eu já era encantada com meu professor de literatura.

Mas quando ele mostrou as duas gravuras para nosso trabalho, falando baixo com sua voz aveludada e profunda, eu acabei por me apaixonar de vez…

São duas estradas, dizia ele, que divergem na partida; escolher uma ou outra terá causado ao viajante toda a diferença, ainda que levem ao mesmo destino”.

As gravuras na parede me entravam pelos olhos e se abrigavam no meu peito. Eu contemplava a linha do trem cortando a mata na penumbra, enquanto me embalava nos sussurros que o professor entoava, à guisa de um vento que zunisse por entre as árvores do caminho.

Ele tinha os gestos de um patriarca, pausados e longos, que envolviam o olhar e o pensamento de todos, levando nossa imaginação a se perder por cenários imaginários.

Distraído e imprevisto, nos levava a admirar a correnteza do rio ao largo da linha do trem. Ele assinalava essa beleza dizendo: “A correnteza do rio é como o amante insensível que inverte o rumo das águas e chicoteia suas margens frágeis como se elas fossem suas tristes amadas…” E nessas metáforas inusitadas eu me perdia…

Pelo que conheço de instabilidades, achei melhor escolher a linha do trem. É mais sólida e previsível. Como um casamento. E sempre há uma parada no meio do caminho. Just in case. Porém, se eu fosse mais ousada, escolheria o rio, porque as águas, poderosas e ruidosas, têm a essência da paixão que corre sem que nada a segure.

Continuando, o professor dizia que na largura e profundidade dos rios as águas se moldavam ao leito e seguiam continuamente sem chance de retorno.

Ah! Os caminhos!

Seguiam-se os minutos, na parede, o trem não passava e o rio não fluía. E o meu trabalho não saía. Mas meu coração pulsava, meus olhos se perdiam pelo rosto, pelas mãos do professor, para sempre uma inspiração feliz e uma paixão adormecida pelos descaminhos de nossa vida literária…


AMOR DE MENTIRA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



AMOR DE MENTIRA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             Rafael, CEO de uma grande empresa multinacional, sério e muito competente, sendo bem-conceituado, solicitou para a gerente do RH que selecionasse alguém, precisava de uma ajuda no comando. Feita a seleção, após quinze dias, foi apresentado para a Mariana, que, segundo o gerente, preenchia todos os requisitos para o cargo.

             Durante o primeiro mês, Rafael se surpreendeu com a competência e presteza dela, assumindo o seu lugar e com boa vontade fazia tudo que lhes solicitavam e logo alguns meses depois tomava a frente sozinha, assim menos trabalho para ele. A partir daí, a cumplicidade profissional era evidente, tudo decidido em parceria, as responsabilidades tinham tamanha afinidade e com isso melhoravam o conceito na empresa. Sai ganhando com a aquisição, pensava Rafael.

             Com isso, passavam muitas horas juntos, até ouvia muita reclamação da esposa de que ele estava casado com a empresa e não tinha tempo para a família, gerando brigas entre o casal. Ele não se deu conta de que não era só o trabalho que o fazia ficar até tarde na empresa e sim porque gostava da companhia de Mariana. Ela, por sua vez, já percebendo que o caminho estava indo para o sentimento pessoal, começou a jogar o seu charme, tinha consciência de que ele já estava em suas mãos.

             Jogou o laço bem laçado e começaram a se encontrar fora da empresa. Sabia ela mais uma coisa, era norma de empresa a proibição de relacionamentos entre funcionários, principalmente cargos de chefia. Com isso, Rafael, já apaixonado, entrou com o pedido de divórcio, confiando na reciprocidade de sentimento por parte de Mariana. Mal sabia ele que o interesse era se tornar a CEO da empresa no lugar dele e subir na carreira mais que ele, o achando sem ambição, um banana. Era assim que o considerava.

             Montou uma estratégia para que a Diretoria do Conselho Superior ficasse sabendo que ela sofria assédio dele e se sentia pressionada. Como ele confiava nela, foi deixando tudo sob o seu controle, ela usou isso para mostrar que tinha a total competência para o cargo. Certo dia, numa reunião de diretoria, o presidente, para a surpresa de Rafael, agradeceu pelos anos de dedicação dele pela empresa e ele estava dispensado, e Mariana assumiria o seu lugar. O mundo caiu sobre ele. Saiu da sala numa total confusão mental. Esperou se recuperar e foi à sala dela pedir uma explicação. Encontrou-a arrumando suas coisas para se transferir para a sala dele, nem esperou que ele tirasse suas coisas, o olhou com o olhar não de amor como sempre, mas sim um olhar de desprezo e falou: a fila anda, querido. 

Saiu batendo a porta. 

ROMA NÃO FOI FEITA EM UM DIA - Sergio Dalla Vecchia



           


   

ROMA NÃO FOI FEITA EM UM DIA

Sergio Dalla Vecchia

 

A cliente do engenheiro contratou-o para construir uma mansão em um condomínio badalado no interior de São Paulo.

O engenheiro, feliz pelo bom contrato, com entusiasmo deu início às obras. Plantas em mãos, cronograma a cumprir e mãos à obra!

Acontece que, no decorrer da construção, a cliente, do nada, mudava a concepção do projeto. Derruba aqui, acrescenta ali, eu quero assim, sou a dona e pronto! Não me importo com seus argumentos, dizia para o engenheiro. No entanto, todas essas alterações influenciaram no cronograma, fazendo com que ele não pudesse ser cumprido como o esperado.

Mesmo assim, o resignado profissional foi levando a convivência até o limite de sua ética. Até que certo dia, ao ser cobrado pelo atraso do cronograma pelas tantas modificações, perdeu a paciência e convicto, retrucou para a cliente:

— Senhora, até Roma não foi construída em um dia e o dono da obra era nada mais nada menos do que o imperador. E a senhora, quem pensa que é?

Virou as costas e saiu deixando um enganoso bom negócio para trás.

Virão outros melhores, pensou com seus botões.

 


CIO DA POESIA - Sergio Dalla Vecchia

 



 CIO DA POESIA

(Homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade)

 

Ao ar letras flutuam

Palavras as atraem

Versos se alinham

 

Rimas encandecem

Pipocam hormônios

Estrofes   florescem

 

Fecundada a poesia

Gestação com amor

Nasce um trovador!

 

 

Sergio Dalla Vecchia

ÓCIO - Sergio Dalla Vecchia

  



ÓCIO

Sergio Dalla Vecchia

 

Certo domingo acinzentado, vez ou outra soprava um vento frio que ratificava o final de outono.

Desfrutando um lapso de individualidade, lá estava eu acomodado na cadeira de praia, sem nenhum dos familiares fugidos dos vinte e dois graus Celsius.

As ondas assediadas pelo vento explodiam uma após outra bem à minha frente, separadas somente por uma pequena faixa de areia. Não eram grandes, mas suficientes para abraçarem minha ociosidade.

Empolgado pela coreografia das pessoas que desfilavam pela pequena faixa de praia, invoquei abracadabra e me transformei em uma câmera fotográfica.

Ajustei-me na posição automática de velocidade, diafragma, luz, etc.

O primeiro clic registrou a adolescência na forma de três biquínis coloridos andando descontraídos em risadinhas e trejeitos típicos.

O segundo disparo marcou um casal, ela aquecendo-se envolvida pelos próprios braços e ele com as mãos para trás, pensando já na segunda-feira.

O terceiro notou duas senhoras em prosa tão animada que não estavam nem aí com a temperatura, o assunto era quente.

O quarto se compadeceu da expressão desolada do vendedor de sorvetes, empurrando o carrinho pesado de mercadoria, que não seria vendida.

Continuei clicando as mais diversas impressões até que culminou com a passagem de um senhor alto e longilíneo. Desfilava em marcha batida, passos largos, braços soltos, olhar altivo e protegido com um belo chapéu panamá. Era o retrato do sucesso, resolvido e independente!

E, com o impacto da última imagem, terminei meus registros e voltei a ser eu mesmo.

Levantei-me, calcei as sandálias e parti para casa, marchando em passos largos, braços soltos, altivo e protegido pelo meu inseparável boné.

Assim, continuarei seguindo a marcha vitoriosa almejando a troca do meu querido boné por um panamá, era só o que me faltava!

 

Por aí. - Oswaldo U. Lopes

 



Por aí.

Oswaldo U. Lopes

 

         Regina estava fazendo o que mais gosta, guiando o carro, por aí, meio sem destino e ouvindo música popular brasileira antiga. Sem destino, ficava mais no inconsciente, gostava de guiar carro por aí, mesmo sabendo que ia para casa da filha. Música popular brasileira antiga era mais correta. Tinha dezenas de pendrives perfeitamente identificados que acoplava ao rádio do carro.

Um pequenino grão de areia.

Que era um pobre sonhador.

Olhou no céu, viu uma estrela.

Imaginou coisas de amor.

       Essa fazia parte do lote marcha rancho, como Bandeira Branca e tantas outras cuja história estava ligada ao Desfile das Grandes Sociedades. Tivera oportunidade de assistir a esse tipo de desfile no Rio de Janeiro, quando eles aconteciam na Av. Getúlio Vargas. Candelária numa ponta e o imponente Ministério da Guerra na outra.

       Parou de pensar por aí, ia acabar revelando a idade. Devia ser um cuidadoso ajuntamento dos dois x nos cromossomas, dava uma mistura ótima, muito bonita, mas que se recusava a entregar a idade até para a polícia. Quantas vezes dissera a idade, quando inquerida, na base dos trinta e poucos, sessenta e poucos e por aí ia.

 

Passaram anos, muitos anos.

Ela no céu, ele no mar.

Dizem que nunca o pobrezinho,

Pode com ela se encontrar.

 

Adorava essa música e conhecia os autores de cor e salteado:

Marino Pinto e Paulo Soledade.

Paulo era dado nos fichários e currículos como aviador. Ele de fato era, mas voara na PAN AIR, daí chamá-lo de comandante, no mínimo, era mais justo. Fazia parte de um grupo de boêmios que incluía Sergio Porto, o famoso Stanislaw Ponte Preta, dos FBAPA (Festival de Besteira que Assola o País), Carlos Niemeyer, Pignatari e outros que se auto chamavam “Clube dos Cafajestes”. Era difícil associar Cafajestes com Pequeno Grão de Areia, mas era como queriam ser conhecidos em Copacabana e adjacências.

Há pouco tempo descobrira que no Havaí, na universidade local, os caras calcularam quantos grãos de areia havia na terra. Esse interesse devia ser porque, em qualquer direção que você andasse, no Havaí, você encontrava areia. Bem, lá vai: haveria na terra 7,5 quintilhões de grãos de areia. Não dá nem para imaginar, isso é 7,5 × 10 ^18 zeros. E as estrelas, então, quem calculou foram os da Universidade de Cambridge e o número é ainda maior: 1 × 10 ^22 zeros.

Com tantos grãos de areia e tantas estrelas no mar, nossa história ganha outro contorno. Era difícil mesmo o grão de areia com a estrela se encontrar, mas a estrela-do-mar continua com sua origem misteriosa.

Se houve ou se não houve,

Alguma coisa entre eles dois

Ninguém soube até hoje explicar

Mas a verdade é que depois, muito depois

Apareceu a estrela-do-mar.

 

 

 

 

Sodaroman - Sérgio Dalla Vecchia

 


Sodaroman

Sérgio Dalla Vecchia

 

Os casais formados por pessoas que passaram a maior parte de suas vidas intrinsicamente, não deveriam absorver, ao meu entender, o título de eternos namorados. Esse substantivo se adapta muito bem aos principiantes, que se alimentam exclusivamente do amor virgem, de quem nada conhece, mas sonham embevecidos pelo porvir. Isso é lindo!  Entretanto, para nós veteranos pode ser considerado até como um não reconhecimento das nossas proezas.

Logo, o dia dos namorados tradicional não deveria ser comemorado por tais casais.

Esses vencedores, conseguiram sobreviver aos contraditórios da vida por anos a fio, até agora no limiar das suas existências, equilibrando-se sabe Deus como, na gangorra da vida.

Para esses, o doze de junho careceria ser trocado, de dia dos namorados para dia dos sodaroman!

Mas que palavra estranha é essa sodaroman, o leitor curioso poderá perguntar?

Simples, nada mais é que a palavra namorados às avessas e representa fielmente toda a trajetória de vida do casal.

(Só Dá Romance), o ce inseri apenas como sílaba figurante.

Assim para comemorar o dia dos sodaroman, seria gratificante que cada casal criasse seu romance de forma retroativa, repassando toda a vida em comum e decerto capítulos não faltarão!

Que não esqueçam dos filhos, das lágrimas, das conquistas e das tantas outras cenas marcantes, romanceando-as de agora para outrora até culminar no inesquecível primeiro beijo.

Ah! Momentos mais intensos e apaixonantes foram muitos, bem lá no começo do fim!

Feliz dia dos sodaroman a todos os casais veteranos!

12/06/2025

 

 

 

 

EMOÇÃO - Antonia Marchesin Gonçalves

  


EMOÇÃO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

         Minha cidade Jesolo, província de Veneza, Itália. Fui com o um propósito de levar meus livros bilíngues para os meus parentes. Aproveitei para visitar também a Biblioteca da cidade para deixar os dois livros para consulta rotativa. E, para a minha surpresa, pediram mais dois exemplares que fariam parte do acervo da Biblioteca como escritora 

ESMERALDO (PELÉ) - Sérgio Dalla Vecchia

 



ESMERALDO (PELÉ)

Sérgio Dalla Vecchia

 

Esmeraldo era um menino diferenciado. Tomava conta de carros no largo Santa Cecília, em São Paulo. Lá, além da Igreja, havia uma boa loja de tecidos denominada Padrão Chique.

Ele, como outros tantos meninos negros na época, levava o apelido de Pelé. Privilégio daqueles que poderiam ser comparados ao famoso jogador de futebol chamado Edson, mundialmente conhecido e que eternizou seu cognome Pelé.

Esmeraldo, irei retratá-lo doravante de Pelé, enxergava todas as pessoas com a mesma cor. Igual para igual, sem restrições. Respeitava e recebia em troca o respeito.

Assim, com sua simpatia impar e um sorriso da maior boa-fé, conquistou o carinho das pessoas da praça.

Lavava carros, carregava sacolas e distribuía gentilezas, sempre com o sorriso largo que o caracterizava.

Certo dia, a dona da loja de tecidos, habituada aos predicados do menino, achou por bem o convidar para trabalhar na loja.

Pelé já não lavava mais carros, era um ótimo ajudante de serviços gerais.

Passaram-se anos, mas por motivos comerciais a loja de tecidos acabou cerrando as portas. O menino cresceu e já era di maior.

Meire, a dona da loja, preocupada com o futuro do Pelé, fez alguns contatos e conseguiu um emprego em um posto de saúde, onde ele lá trabalhou até se aposentar.

Nesse ínterim aconteceu o casamento dele com Dina e tiveram dois filhos.

Com sacrifício, um formou-se engenheiro civil e o outro seguiu no mercado de trabalho.

Aconteceu que Luiz, primo da Meire, possuía uma construtora e, por conviver com o histórico de Pelé, estendeu a mão contratando seu filho engenheiro. Onde trabalhou durante anos até sair para montar uma pequena empreiteira de obras.

Uma das características peculiares do Pelé foi o reconhecimento das ajudas que recebeu durante seu desenvolvimento como pessoa.

A forma mais carinhosa que encontrou foi levando chocolates para os membros da família na Páscoa e no Natal por anos a fio.

Pelo destino, quase todos da família nos trocaram pelo plano espiritual.

Atualmente, Pelé mora em Atibaia e mantém uma lanchonete com um dos filhos. O outro engenheiro continua firme com sua empreiteira em São Paulo.

Assim, por ser minha esposa um membro da família e eu o conhecer desde o tempo de namoro, temos a regalia de continuar recebendo-o em nosso lar ainda hoje.

Adoçando nossas vidas com chocolates e nos alegrando com seu sorriso despretensioso.

Testemunho essa história viva de superação de quem nada buscava, apenas rasgou seu coração puro para o Universo, que prontamente reagiu, dando-lhe as oportunidades necessárias nos momentos certos.

 

 

 

 

 

DETETIVE APOSENTADO - Antonia Marchesin Gonçalves

 



DETETIVE APOSENTADO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             Silvio estava inconformado por ter que se aposentar, mesmo após quarenta e cinco anos de intensas atividades.

          Recém-aposentado, decidiu mudar-se para a sua casinha na praia de São Vicente. Recentemente, perdera a esposa após longo tratamento de câncer, tinha certeza de que lá teria qualidade de vida.

           Após um mês da mudança, já estava ambientado na cidade e se aventurava a algumas caminhadas na orla. O sol ofuscava sua vista, para evitar isso, além dos óculos, ele usava o chapéu de palha importado do Caribe. 

         Nesse dia, percebeu que no final da rua havia um grupo de jovens dos seus dezoito anos, rindo muito e brincando entre eles com tapinhas nas cabeças. Eram seis garotos. Ao passar pela calçada, começaram as gozações. Vizinho novo, diziam e um deles pegou o chapéu e, debochando, punha na sua cabeça:

— Oi, fico bem de chapéu de velho?

             Pela sua experiência, Silvio viu se tratar de marginais delinquentes. Lançou a mão na tentativa de tomar de volta seu chapéu.  Foi aí que começaram a passar de uma mão para outra, na brincadeira de “bobinho”. Ele está no meio tentando pegar o chapéu, todos rindo. Irritado, tentou dar um soco no que estava mais perto, foi em vão. Sentiu-se humilhado e furioso, partiu pra cima dos outros, foi aí que começaram os pontapés, tapas na cabeça. Muitas risadas; olha o velhinho querendo reagir, diziam. Foi quando levou um pontapé no estômago e desmaiou.

             Quando acordou, um vizinho que tudo assistiu chamou a polícia. Sentiu-se revoltado, os policiais contaram que não conseguiam domar essa pequena gangue e que tinham a proteção do chefe do morro.  Viu seu chapéu no chão, ainda bem que não estragou, “vou acabar com eles, isso não vai ficar assim” — pensou.

            Nos dias seguintes, Silvio chamou o seu parceiro da polícia João, que também estava recém-aposentado e contou o caso. Juntos, resolveram que iriam dar uma lição nos marginais.

             Lógico que eles, os marginais, demoraram um tempo para voltar na sua rua. Silvio descobriu que eles atuavam nas vizinhanças por diversão e também para pequenos furtos, como dinheiro e relógios, sempre de idosos. Silvio e João convocaram a nova geração de policiais detetives da ativa, seus amigos e armaram um plano. Os dois seriam a isca e ao serem abordados com a escuta, chamariam seus colegas de folga.

               Assim foi. Num final da tarde, caminhavam pela orla quando viram o bando, os mesmos seis.

             Ao passarem, foram abordados e as mesmas brincadeiras com as agressividades, Silvio deu o alarme na escuta e mais quatro amigos vieram de imediato. Deram a maior surra nos delinquentes. Apavorados, prometeram não mais voltar. Finalmente, Silvio e João puderam gozar de suas aposentadorias em paz.

            

 

            

            

Lembranças da Escola. - Sérgio Dalla Vecchia

 



Lembranças da Escola.

Sérgio Dalla Vecchia

 

Grupo Escolar Érico de Abreu Sodré, inaugurado há duas quadras da nossa casa na Rua Luiz Góes. Ano esse que coincidiu com a idade apta para se ingressar na Escola Primária na época.

Pérsio e eu somos irmãos gêmeos univitelinos, portanto, juntos fomos matriculados naquele Grupo novinho em folha.

A emoção foi grande para os nossos poucos sete anos.

Primeiro contato com os colegas, a professora Alcione, a cartilha de alfabetização Caminho Suave, a merenda e tantas outras novidades. Enfim, um novo mundo surgiu!

Nesse período de adaptação, algumas crianças sentiram o impacto do inusitado, disciplina, ordem e tarefas a se cumprir. Daí surgiam choros, birras e outras manifestações. Assim, aflorou no meu irmão uma reação de insegurança. Ele não conteve a emoção e a descarregou nas próprias calças. Era cocô mesmo!

A diretora atenciosa tomou as providências e nós fomos para casa! Pérsio, envergonhado, cabisbaixo, me segurou e, de mãos dadas, lá fomos nós para os braços seguros da Mamãe Yvette. Os dois choravam, ele pelo cocô e eu por solidariedade, mas nada que um abraço caloroso de mãe e um bom banho não curasse.

Eu me senti um herói pela segurança que lhe ofereci, escoltando-o pela Rua Acarapé.

Esse fato ocorreu só uma vez, pois ele logo entendeu a nova vida e a aceitou tranquilamente.

Assim, tudo se acomodou e o aprendizado ia muito bem, éramos bons alunos.

Vieram as esperadas férias de julho e a família foi para a fazenda do vô Chico, no município de Ibitinga.

Era só alegria, passeios a cavalo, mergulhos no poção, ordenha das vacas, leite purinho na hora, laranjas no pé e gomos de cana-de-açúcar para mascar.

Tudo ótimo, mas acabaram-se as férias.

Saída de madrugada, vô Chico e vó Maria emocionados no portão nos acenando, e o Ford 51 partiu para a jornada de quase seis horas, com direito à estrada de terra e suas sequelas.

Enfim, São Paulo!

Jururus, seguimos para a Escola logo no dia seguinte. Flashes das férias ainda pipocavam nossas mentes.

Ocorreu que, no auge da aula, uma angústia incontrolável me envolveu e cresceu a cada segundo até extravasar em lágrimas.

Envergonhado diante dos colegas, debrucei-me sobre a carteira escolar. Surgiram soluços e logo a professora me acudiu, dirigindo-me à diretoria.

Serenado com as palavras carinhosas da diretora, fui contendo o choro até que ela, em momento propício me indagou:

— Por que você está tão triste, Sérgio? Pode desabafar comigo, querido!

Ainda melancólico, encarei, foquei firme os olhos dela, criei coragem e lasquei o verbo:

— Saudades de Ibitinga!

Lá se foram os gêmeos de mãos dadas outra vez para casa.

Pelo menos dessa vez, sem cocô, somente lágrimas.

 

 

 

Cheiros de São Paulo - Sergio Dalla Vecchia

 


Cheiros de São Paulo

Sergio Dalla Vecchia

 

Na minha longa trajetória de engenheiro civil de infraestrutura, oportunidades não me faltaram para conhecer diversos lugares, pitorescos às vezes e nem tanto em outras.

Minha área de atuação era na cidade de São Paulo e municípios adjacentes.

Por tanto dirigir o automóvel pelas ruas e avenidas, meus sentidos se acostumaram e gravaram determinados aromas, odores, cenas características de locais, sensações prazerosas e tantas outras nuances da terra de Piratininga.

O cheiro, decerto, locai, mesmo antes de lá chegar, meu GPS humano informava as coordenadas, era meu Waze.

Descrevo abaixo algumas sensações captadas pelos meus cinco sentidos que me tocaram:

Quando chegava a São Paulo pela rodovia Castelo Branco, já na confluência do Rio Tiete com o rio Pinheiros (Cebolão), já salivava com os cheiros adocicados de uma fábrica de aromatizantes naquela região, ora cereja, ora uva, morango e tantos outros sabores.

Na construção da av. Escola Politécnica, o aroma dos panetones ao forno na fábrica ali instalada na época melhorava em muito o meu humor.

Na zona Leste, em São Miguel, durante a construção de um coletor de esgotos, o trajeto passava defronte a uma pequena fábrica de biscoitos champanhe. Ali, o aroma dos farináceos rodando pelas esteiras pós-fornada me seduzia.

Convidado pelo proprietário da fábrica, tive o prazer de degustar alguns desses biscoitos quentinhos retirados na hora. Inesquecível!

Já na zona Oeste, em Itapevi, tive o privilégio de ir à inauguração da Casa Suíça da Wickbold. Lá presenciei a extrema qualidade dos bolos, acompanhando a produção e degustando fartamente cada produto, hipnotizado pelo cheiro dos fornados quentinhos.

Na zona sul, existia uma fábrica de pães da Pullman, de longe eu a identificava. Que delícia!

Não poderia esquecer das cores e perfumes das orquídeas, mantidas em luz, temperatura e umidade ideais, nos orquidários do Parque do Estado, onde peixes coloridos desfilavam em pequenos canais de pedra, completando o cenário paradisíaco. E, na área ao lado, o canto dos pássaros e os urros das feras do Jardim Zoológico descerraram as cortinas do palco.

Não citei o mau cheiro dos rios Pinheiros e Tiete, pois notei, presentemente, evidências de revitalização, como dragagem do leito, paisagismo das margens, construção de usinas de tratamento de esgotos, efluentes e outras medidas oportunas.

Assim, finalizo este texto revigorado pelo oxigênio das Matas do Horto Florestal na zona Norte!

Sou otimista, ainda teremos uma São Paulo de rios piscosos, despoluída e repleta de cheiros agradáveis.

Difícil, mas não impossível!

 

 

 

 

Filía, a formiguinha corajosa - Adriana Frosoni

 


Filía, a formiguinha corajosa

Adriana Frosoni

 

Num jardim cheio de folhas, flores e cheirinhos gostosos, vivia uma formiga muito especial: Filía. Ela era uma formiga batedora, aquela que ia à frente procurar comida para todo o formigueiro. E olha... isso não era tarefa para qualquer uma! Filía tinha um faro afiado, patinhas rápidas e um coração do tamanho do mundo.

Ela adorava explorar. Enquanto suas amigas formigas preferiam ficar perto de casa, Filía queria ver o que havia além das pedras, além da cerca, além do mundo que conhecia.

Certo dia, bem cedinho, Filía sentiu um cheiro diferente no ar… doce e delicioso. Era um pêssego maduro caído no quintal do vizinho. Só que o pêssego estava longe, muito longe. Mesmo assim, Filía nem pensou duas vezes. Saiu em disparada, deixando seu caminho marcado com feromônio — um perfume mágico que as outras formigas entendem como um “siga por aqui!”

Quando Filía chegou ao pêssego, ficou com os olhinhos brilhando. Era enorme, dourado e suculento. Ela deu uma pequena mordida e quase dançou de alegria!

Mas… quando tentou voltar para casa… cadê o caminho?

Uma criança havia pisado, sem querer, justo em cima do seu rastro! O cheirinho que mostrava o caminho de volta havia sumido completamente.

Filía ficou parada, com as anteninhas tremendo. Estava sozinha. Muito longe de casa. E pela primeira vez… teve medo.

Então, ela lembrou-se da voz de sua mãe:

— Filía, ser corajosa não é não sentir medo. É seguir em frente mesmo assim!

E foi aí que Filía teve uma ideia brilhante: se ela não podia voltar, que tal chamar as amigas até lá?

Então ela começou a andar em círculos, soltando um aroma — diferente do primeiro — que significava:

“Venham! Achei um tesouro! Estou aqui!”

E não é que funcionou?

Logo, uma linha de formiguinhas apareceu! Vieram seguindo o cheiro da Filía e, juntas, carregaram pedaços do pêssego de volta para casa.

Nesse dia, Filía virou heroína. Mas ela não ficou parada para ouvir os elogios. No dia seguinte, antes mesmo do sol acordar, lá foi ela de novo:

Nariz empinado, o passo apressado e um sorrisinho de conquista escondido.

Afinal, ser batedora é isso: ter coragem de ir aonde ninguém foi — e nunca esquecer o caminho de casa, nem os conselhos da mamãe.




Cabelos perfumados - Ledice Pereira

 




Cabelos perfumados

Ledice Pereira


 

Aquele cheiro de cabelo lavado invadia o ambiente. Tudo ali cheirava a xampu. Mas, onde andaria Gabriela? Procuraram por todos os cantos. Vasculharam cada centímetro do quintal, do ateliê, que ficava no fundo, das ruas de terra, adjacentes. Nada.

Há alguns dias, Gabi não respondia aos chamados telefônicas da família. Estavam todos preocupados. Os rastros de pé molhado indicavam que ela havia saído do banho em direção à porta que ficara semiaberta.

Todos se perguntavam aflitos o que teria acontecido. Cada grupo saiu para uma direção à procura de sinais que levassem a alguma direção.

Aquele perfume os levaria a algum lugar.

A família se perguntava por que não tinha impedido a jovem de se enfiar naquele fim de mundo cercada de floresta por todos os lados.

Os cheiros de mato se misturavam. Eucaliptos, Pinheiros, Manacás, Bromélias, Capim Cidreira, tudo fazia com que os cães farejadores pudessem se perder na procura daquele perfume molhado dos cabelos de Gabi.

Estavam a perder a esperança quando deram com aquela figura que vinha trôpega em sentido contrário. Não se parecia com a jovem cheia de vida que todos conheciam. Ao vê-los, deixou-se cair sem sentidos.

No hospital, para onde a levaram, passou por exames. Havia marcas de amarras em seus punhos, seu corpo estava marcado por picadas de insetos, os cabelos estavam emaranhados, embora ainda exalassem aquele perfume adocicado que direcionaram os cães, e as roupas rasgadas revelavam sinais de agressão. Teriam que aguardar que ela saísse do coma para se inteirar do acontecido.

Só sabiam que não permitiriam mais que ela vivesse ali isolada.

 

 

 

 

Cheiros e Lembranças

 

Ainda hoje posso sentir aquele gosto amanhecido de pãozinho francês, que me remete aos momentos de infância passados na casa dos meus avós.

Fecho os olhos umedecidos pela saudade e enxergo a figura do meu avô, lépido e baixinho, preparando com amor o lanche da tarde.

Era ele que passava o café que perfumava o ambiente atravessando o cômodo e atraindo-nos para a cozinha.

Como esquecer aqueles momentos tão simples, tão sinceros?

Saudade de uma infância com cheiro de carinho.