Diferentes pontos de vista
Yara Mourão
Laura
Há muito o cotidiano lhe causava estranheza. Não era algo em particular, mas uma sensação contínua de “déjà vu”; os mesmos tons e os mesmos sons do dia, da noite, da vida insossa e congelada.
Não houve muitos planos nem cálculos rabiscados numa folha de papel. Houve uma certeza de partir, deixar para trás tudo o que não fosse ela mesma, suas mágoas, seus anseios.
Laura partiu de madrugada para não fazer alarde; com um destino incerto, para longe de casa, de Henrique, de anos de uma clausura interior.
Ninguém para se despedir; ninguém para encontrar. Só ela. Ela só.
Henrique
Henrique, da janela, viu os passos do adeus. Laura, assim silenciosa, partia sem volta; ele bem o sabia.
Apesar de buscar pistas e provas, sem nunca encontrar nada, ele tinha certeza de que ela o traía. Certamente havia um amor escondido que a levava para longe dele.
Tantos foram os momentos desperdiçados, as emoções abortadas, tudo de que se compõe uma traição amorosa. Agora ele tinha certeza. Ela partia para os braços de outro alguém, no meio da noite, noite estranhamente gêmea de sua alma infeliz.
Dona Clarinha
Mãe não dorme quando o filho chama, e também não dorme quando o filho não chama. E dona Clarinha sabia que sua filha estava no limiar do bom senso, do autodomínio, cheia de mágoas que a sufocavam há tempos.
Por isso ligou para ela naquela madrugada quente, sentindo o que toda mãe sente longe do filho: que ele está precisando de cuidado, de socorro, da sua presença. Por isso ligou para ela.
Mas nem sempre os filhos respondem às mães.
Cremilda
O que não apareceu nas mensagens do celular deixou Cremilda muito ansiosa. Laura andava lacônica. Não era o melhor perfil de sua amiga. Devia haver algo que só poderia ser dito pessoalmente.
Pelo que sabia, Laura tinha saúde frágil, lutava contra repetidas infecções.
Nessa noite, Cremilda acordou sobressaltada: e se Laura estivesse com uma doença incurável? Teria tido um diagnóstico maligno?
Sentiu uma urgência em estar com a amiga, ainda que fosse de madrugada.
Levantou-se, correu à janela e viu Laura saindo para um táxi. “Meu Deus!”, pensou. “Estaria indo para o hospital?” Sem pestanejar, desceu rápido à rua para falar com a amiga.
Hilário
Hilário era um taxista da madrugada. Adorava trabalhar nos horários improváveis. Conversador, gostava de falar durante o trabalho, fazendo perguntas aos passageiros, pois isso o tornava, depois, um grande contador de casos.
Nessa madrugada, indo pegar uma passageira para o aeroporto, costurou os detalhes de uma cena para formar sua próxima história.
Enquanto Laura se dirigia para o carro, percebeu um homem na janela com os olhos voltados para a mulher. “Amantes!”, pensou. E ela saindo entre culpada e aliviada, enquanto reparou uma pessoa correndo em direção a ela. “É a esposa traída!” concluiu.
E, convicto de que teria uma bela história para contar no dia seguinte, entrou no carro e acelerou para o aeroporto.
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