As amigas
Ises de Almeida Abrahamsohn
Foram os cães e o motor de um carro que a despertaram. Inusitado, àquela hora da madrugada de quarta-feira, pensou Cremilda. As noites eram calmas naquela viela de sobradinhos idênticos para onde se mudara há um ano e meio. Levantou-se e olhou pelas frestas da veneziana. A luz crua do sensor de presença iluminava um táxi e sua amiga Laura arrastando uma pesada mala. Cremilda, aflita, desceu de roupão e a chamou do portão:
— Laura, querida, o que houve? O que aconteceu? Espere que eu te ajudo… Posso ir com você! Mas ficou sem resposta enquanto Laura entrou na traseira do carro, sem sequer acenar.
Olhou para cima e, na semiobscuridade, viu Henrique, imóvel, debruçado na janela, observando a cena. Nem uma palavra ou gesto de mão que denotasse seu espírito. Permanecia ali, petrificado, enquanto o carro desaparecia da vista. Cremilda olhou algumas vezes para a janela na esperança de que ele se manifestasse. Nada! A luz do sensor se apagou e ele permanecia ali, apenas a brasa acesa do cigarro denotando a presença.
Nunca soube que ele fumasse, pensou enquanto subia as escadas de volta ao quarto de dormir. Também não havia esperado que Laura se decidisse a abandonar Henrique tão cedo. E ainda assim, sem avisá-la. Mas não ficou surpresa. Apenas magoada por ela não ter avisado e não ter se despedido. Talvez um impulso. Depois de ontem…
Tinha uma boa ideia de onde poderia encontrá-la e, certamente, ela enviaria logo uma mensagem. Já tinham conversado sobre a possibilidade de morarem juntas. Porém, Laura hesitava em abandonar o marido de sete anos. Afinal, se davam bem. Ele era educado, afável e, segundo Laura, viviam agora um casamento morno. A admiração que sentira por ele desapareceu com o tempo, assim como deixaram de compartilhar interesses e objetivos. Laura era arquiteta, gostava de viajar, conhecer o mundo e pessoas. E gostava e entendia de música clássica, sempre assistindo a concertos e recitais.
Henrique, entretanto, aos poucos foi se acomodando a uma vida rotineira e confortável, sem se animar a viajar mais longe que algumas centenas de quilômetros no próprio país. Não gostava de música clássica e, pior, segundo Laura, seu gosto musical era deplorável.
Cremilda lembrou quando elas se encontraram pela primeira vez. Laura foi visitá-la assim que viu o caminhão de mudança descarregar no sobrado em frente ao seu. Ofereceu-se logo para ajudar na instalação na nova residência. Fora simpatia à primeira vista. Cremilda era violoncelista na orquestra sinfônica e havia viajado por vários países a trabalho ou como solista. Tinham tantos interesses em comum! Passaram a se ver frequentemente quando Laura, após o trabalho, passava para um café e um papo. A amizade foi ficando mais estreita. Com o tempo e algumas observações de Laura, ficou clara a monotonia da sua vida com o marido. De fato, ao ser convidada para jantar na casa por Laura, percebeu que Henrique simplesmente não tinha assunto para conversa. Era absolutamente focado em seu trabalho na área de informática, e os seus divertimentos eram futebol e assistir a filmes policiais americanos ou shows de música sertaneja na televisão.
Cremilda compreendeu a atração que sua própria vida e atividades tinham para Laura. Lentamente surgiu um afeto crescente por essa mulher de 30 anos, oito anos mais jovem que ela. Sim, Laura ansiava por uma relação verdadeiramente compartilhada, mas não tinha coragem de se separar e viver a própria vida.
Cremilda havia tido uma intensa paixão por Joana, um misto de sexo e amizade, que durara dos vinte aos vinte e sete anos. Terminaram há dez anos; ela sofreu demais com a separação e demorou a se recompor. Desde então não tivera ninguém. Agora, encontrara Laura. Não era uma paixonite. Tinha verdadeiro afeto pela amiga, talvez alguma pena e o desejo de que fosse feliz. E, sim, reconhecia sentir-se atraída pelo rosto juvenil, pelo sorriso franco e pela energia que se desprendia do corpo flexível e ágil. Mas e Laura, o que sentiria?
Ao falar de si mesma, Cremilda contara da sua intensa ligação com Joana. Laura a escutou com curiosidade e depois a abraçou com carinho. Um carinho de amigas… Cremilda não sentiu mais que isso na reação da amiga. Talvez com o tempo, pensou…
E o tempo passou rápido. Seis meses durante os quais Cremilda e Laura se encontraram frequentemente para longas conversas e idas a concertos e passeios.
O marido, este devia estar enciumado, porque passou a ignorá-la, não respondia à mínima cortesia e desviava o andar na calçada.
A música agora deixara de ser o primeiro amor de Cremilda. Ansiava pelo encontro com Laura, pelas conversas, pela jovialidade e pelos abraços carinhosos e beijinhos a cada despedida. A imagem da jovem amiga aparecia-lhe enquanto tocava seu instrumento em devaneios sobre carícias mútuas a serem trocadas. Seus companheiros de orquestra sentiam que andava mais distraída e, às vezes, sorria sem razão aparente.
Cremilda decidiu dar o primeiro passo. Era uma tarde de terça-feira quando Laura bateu à porta para o costumeiro papo e café após chegar do escritório de arquitetura. Ansiosa, Cremilda sentia coração bater aceleradamente. Depois de alguma conversa, Cremilda propôs a Laura morarem juntas. Delicadamente, contou o amor e amizade que sentia por ela e ficou esperando a reação. Laura apenas a abraçou, dizendo:
— Eu suspeitava, eu suspeitava, minha querida amiga. Por que tudo na vida tem que ser tão difícil?
E levantou-se com um breve:
― Ainda nos falamos!
Na mesma noite, madrugada de quarta-feira, à uma da manhã, Laura abandonou o marido, carregando sozinha a enorme mala. O destino era o aeroporto. A passagem era para Paris, onde viveria os próximos três anos trabalhando na restauração de esculturas.
Enviou uma mensagem para Cremilda, agradecendo a amizade, mas que não se sentia à altura para corresponder.
Cremilda e Laura nunca mais se encontraram.
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