A cor do céu
Carla Di Sessa
Quando Cecília começou a chorar, uma atendente se aproximou e perguntou se ela não gostaria de tomar um chá, um café ou água. Enxugando as lágrimas do rosto, Cecília sorriu e perguntou:
— Você não teria nada, assim, como vodca, uísque ou um Lexotan?
A atendente riu, dizendo:
— Vai passar, vai passar, ela vai se recuperar.
Cecília ouviu aquelas palavras como se fossem vento dissipando nuvens negras de tempestade.
E escolheu acreditar nelas com todas as forças.
Aquela terça-feira havia começado como todas as outras: primeiro a checagem da lição de casa com Isabel, depois a aula de natação, banho e almoço. Cecília checou o relógio e avisou Isabel:
— Ainda dá para você brincar um pouco antes de ir para a escola.
— Então vou até a casa da Mari devolver o estojo que ela me emprestou — disse Isabel.
Mari morava do outro lado da rua e as duas meninas sempre brincavam juntas.
Isabel saiu e Cecília começou a checar a despensa e a geladeira para fazer uma lista de supermercado. Seu celular tocou e ela foi até o quarto para atender.
Há mais de quatro horas, Cecilia estava sentada em uma cadeira dura e desconfortável no corredor de um hospital. Quando indagadas, as assistentes na recepção só diziam que ainda não havia nada a informar e por isso Cecília se dirigiu àquele corredor e sentou-se ali. Ele terminava em duas portas e, acima delas, o luminoso indicava: Centro Cirúrgico.
Cecília ouviu o barulho da freada enquanto ainda estava no celular. Desligou às pressas e olhou pela janela. Um grupo de pessoas começava a se juntar na rua. Um carro estava parado, um homem, provavelmente o motorista, estava em pé, muito agitado, falando e gesticulando, mas Cecília não conseguia entender as palavras. De repente seu coração se apertou: Isabel!
Do momento em que chegou ao hospital em diante, o tempo havia perdido sua lógica e significado. Uma eternidade havia se passado desde que entrara aos gritos na ala de Emergências.
Sentada na cadeira dura do corredor inóspito, Cecília revivia o pesadelo: o barulho da freada, o baque surdo, os gritos. Depois, a urgência para chegar ao hospital, seu coração aos saltos, as meias de Isabel manchadas de sangue. A correria no setor de emergência, o barulho da maca rolando pelo corredor e as perguntas sem fim no setor de internações.
Cecília correu para a rua, sentindo uma mão de ferro apertando seu pescoço, a respiração travada, o coração aos pulos. Isabel!
Alguém havia chamado uma ambulância.
— Você é a mãe? Venha conosco, por favor.
Finalmente as portas do Centro Cirúrgico se abriram e a equipe médica apareceu. Um deles foi até ela e informou: estava tudo bem, haviam operado o braço esquerdo e o pé direito, a menina passava bem, mas, por precaução, ficaria na UTI até o dia seguinte. Não havia hemorragias incontroláveis, órgãos perfurados, massa encefálica perdida e mais tudo o que a imaginação e aflição de Cecilia haviam imaginado.
A atendente voltou com um chá e disse:
— Viu? As coisas vão melhorar. Por enquanto só posso te oferecer um chá. A vodca, o uísque e o Lexotan vão ter que esperar.
Cecília sorriu um pouco e agradeceu.
Olhou pela janela e o céu de outono estava azul, sem nuvem alguma. Bom presságio, pensou Cecília, bom presságio.
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