Segredo
de Família
Yara
Mourão
Cinquenta
anos é muito pouco para a alma ferida.
O
tempo que corre de dia está sempre parado na hora de adormecer. Assim, Antonieta
marcava, entre sonhos e sobressaltos, sua cronologia do desespero.
Foi
um acidente, sabiam todos. Tenório Trindade morreu matado de tiro no curral de
sua fazenda. Foi uma tragédia premeditada, uma perda lamentável. O homem era
justo, esforçado. Lutara anos para ter aquelas terras fecundas e seu gado
premiado. Quando pensou em herdeiros para seus bens, escolheu a moça mais
bonita da cidade para ser sua esposa.
Tudo
começou quando o tiro do velho Alvelim, no meio da discussão, jogou por terra
anos de esforços, de benfeitorias, de felicidades.
Na
família de Antonieta, ninguém falava do ocorrido; todos se calavam quando o
assunto chegava às portas da fazenda do velho Alvelim. Ela guardava os fatos e
as dores nas profundezas de seu coração. Um coração acostumado aos revezes da
vida, ao exercício ingrato de criar, com seus filhos, um filho intruso pelo
acaso. Todo dia, ela amaldiçoava os céus por isso.
Antonieta
vivia suas emoções embalada pelos caprichos da natureza: nos invernos longos e
secos, os sentimentos como que hibernavam e ela dava rumo aos seus afazeres;
nos outonos coloridos e primaveras sossegadas, ela plantava e colhia, cuidava
da criação. Mas era quando os dias tórridos e longos chegavam, assolando a vida
com lembranças e pressentimentos, que tudo vinha assombrar Antonieta: aquele
acidente horrível com o Trindade… o desamparo da viúva às vésperas de parir um
filho… o inusitado acolhimento da criança por Antônio, seu marido, como que
para mitigar o crime cometido por seu pai.
Por
que isso foi tido como necessário naquele tempo? Eles já tinham três filhos e a
viúva de Trindade era jovem e de boas posses. À época, Antonieta sabia, ela
também se apiedara. Só anos depois, após suas cismas e desconfianças, juntando
fatos, encontros e desencontros, é que a semelhança se instalou.
Antônio
era o pai da criança.
Essa
foi a pedra que selou os lábios de Antonieta, secou seus olhos, gelou seu
coração.
Haroldo,
Simone e Lauro cresceram soltos pela fazenda, ao lado dos peões e do pequeno
Edgard. Só tardiamente frequentaram a escola do lugarejo. Os quatro estavam
sempre juntos, envolvidos na lida do campo. O trabalho era muito, mas a falta
de condições era maior. Muitas dívidas acometiam Antonieta. Também por isso ela
se maldizia e blasfemava.
Então,
houve um dia em que dois cavaleiros chegaram às portas da fazenda, buscando por
Antônio Alvelim.
Ela
recebeu-os à porta com sua habitual tristeza: “O que queriam? De onde vinham,
tão sem saber da vida dela e da morte de Antônio?” Temia que viessem cobrar dívidas não pagas e
negócios por terminar.
Os
dois homens se achegaram educadamente. Falaram que ela não temesse, não era
nada sobre dinheiro nem papéis. Era sobre gente.
Antonieta
sentiu-se levada por um pé de vento. Sua cabeça rodeou, as pernas estremeceram.
Ela intuiu. Pressentiu algo perturbador, mas se fez altiva.
Os
homens tinham um ar severo. Eles só perguntaram uma vez:
— Onde
está o filho de Trindade?
— Aqui
só estão meus quatro filhos, — disse ela. Não temos nada a ver com Trindade.
Deixem-nos em paz!
Mas
eles não se foram. Queriam o rapaz que agora, disseram, era o herdeiro da
fazenda mais rica e produtiva da região.
Antonieta
já não aspirava a mais nada. Sua propriedade estava empobrecida, não havia como
cuidar da criação, da plantação, da casa. Ela necessitava de ajuda, pois se
perdera em negócios com os bancos, em empréstimos e dívidas impagáveis. Dizia
sempre que Deus não lhe era em nada favorável…
Os
homens se foram naquela tarde. Mas disseram que voltariam, pois sabiam que o
rapaz que buscavam estava ali naquela casa
e tinham de levá-lo para sua real propriedade que a rica herança lhe
dava por direito.
Antonieta
sentiu partir-se o coração outra vez. Edgard, o filho bastardo que ela criara
como um próprio filho, seria hoje um homem rico. O que ela deveria fazer para
sanar tantos anos de um amor dúbio, de dor incontida? E sua urgência em ter um
apoio financeiro para passar por tantas necessidades, seria isso uma ajuda? Não
sabia… devia entregá-lo ao seu destino ou manter o segredo de que ele era filho
de seu marido e não de Trindade? Edgard, que ela sempre chamara de filho,
poderia ter um destino brilhante: dono de uma propriedade rica, com uma vida
sem dificuldades como a que até então ele enfrentava, e ainda dar a Antonieta o
suporte que ela necessitava.
Mas
ela sabia que, se revelasse qualquer indício de sua angústia, seria um
desastre. Edgard perderia o direito à herança, certamente. Um direito que na
verdade ele não tinha. Como ela poderia revelar um segredo guardado por anos
que a protegera de expor a vergonha por ser traída? Por esconder o
constrangimento de criar como filho aquele que não era sangue do seu sangue?
Como roubar a Edgard a chance de ter uma vida farta e produtiva, ainda que sob
o véu da inverdade? Ela conseguiria conviver com mais esse segredo?
Passaram-se
semanas. Ela mirava a estrada poeirenta com os olhos secos, vendo miragens,
sofrendo as horas.
Um
dia os homens voltaram. Ela os recebeu à porta. Perguntaram pelo filho de
Trindade. Disseram que não sairiam dali sem ele. Antonieta sorriu entre
lágrimas. Pediu que aguardassem. Chegando mais perto da cerca, chamou por
Edgard. Ele veio, altivo em seus trajes de labuta no campo.
Os
homens se entreolharam e perguntaram com voz firme:
— Quem
é você?
— Sou
Edgard, filho de D. Antonieta.
—
Você é um Trindade! Viemos te buscar para tomar posse da fazenda que seu pai
deixou para você.
— Meu
pai está morto e essa é a nossa fazenda.
— Você
tem de vir conosco, rapaz!
Edgard
passou os fortes braços pelos ombros de Antonieta e respondeu:
— Minha
mãe, meus irmãos e eu não sairemos daqui. Esse é o lugar que meu pai verdadeiro
me deixou. Aqui me criei, aqui fui feliz. Voltem para onde vieram, porque essa é a minha família e esse é o meu lugar!
Os
homens custaram a crer. Tinham certeza de que aquele era o filho de Trindade.
Mas a convicção de Edgard acabou com as dúvidas e com as certezas daqueles
homens.
Antonieta
se viu perdida num universo de sentimentos… mas então Edgard sabia de seu
segredo? Que agora trazia um resultado tão inesperado, como a gratidão de toda
a vida daquele rapaz, um menino que lhe caiu nos braços como um presságio de
infelicidade?
Antonieta
reconsiderou seu sofrimento de anos e anos e se viu imersa na paz que agora
sentia. A verdade calada no coração de Edgard foi um bálsamo para ela. Foi o
fim de um áspero amor trancafiado há décadas em seu coração. Deu graças aos
céus porque agora se dera conta de que seu segredo lhe trouxera, enfim, o
prêmio mais esperado nessa vida: o da sua reconciliação com Deus!
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