Giulia e Cezão - Silvia Villac

 


Giulia e Cezão

Silvia Villac

 

Se é assim que tem de ser, assim será”, Giulia pensou.

Foi atrás do manual de “aparições” para melhor se informar sobre o assunto e, após lê-lo, acabou ficando um pouco mais animadinha e conformada.

Em sua 1ª tentativa para visitar Cezão, “amarelou” e voltou atrás — não teve coragem de encará-lo e, muito menos, conversar com sua cara-metade. Foi somente na 3ª vez que ela finalmente conseguiu visitar sua casa.

Boquiaberta, olhou para todos os cantos da sala e notou tudo absolutamente idêntico ao jeito que havia arrumado, sem qualquer objeto fora do lugar. ”Ah, aí tem!” O marido, por mais que se esforçasse, não conseguia deixar a casa em ordem, o que era motivo de mais uma discussão entre o casal. “Se está assim, será que já tem uma ”piriguete” em meu lugar? Só pode!”

Essa conclusão a deixou deprimida e, em um primeiro momento, já pensou em uma “vingancinha”. Mas agora era diferente — estava lá do outro lado e pensamentos e atitudes negativas não lhe eram mais permitidos. “O que eu ganho com isso? Passei tanto tempo discutindo e levando tudo a ferro e fogo e deu no que deu! Comprei o coringa, bati as botas e o maridão continua por aqui pela terra, lindo, leve e solto.” De fato, ela se sentia com remorso por não ter aproveitado o tempo em que estiveram juntos para se divertirem mais e “baterem menos boca”.

Implicava porque o marido não fechava o box quando saía do banho, se irritava quando estavam cozinhando e ele enxugava as mãos no pano de prato ao invés da toalha, saía de si quando Cezão chegava da rua e deixava as chaves e celular em qualquer lugar sendo que existia um “vide poche” logo na entrada de casa... Enfim, puro desperdício de energia e liberação de cortisol! Ah se pudesse voltar atrás... mas não era possível e ela se sentia péssima por ter perdido tanto tempo com bobagens que só ajudaram a desgastar a relação entre eles.

Mas, na cozinha, viu que até o último pano de prato que havia deixado pendurado estava no mesmo lugar. Com um suspiro, saiu do recinto e resolveu ir para o andar de cima. Bem receosa, prendeu a respiração e adentrou ao quarto. A cama estava ainda com a colcha que ela fazia questão de pôr e tirar diariamente, sempre muito bem dobrada para não a amassar. “Nossa, se essas paredes pudessem falar, acho que nem no purgatório eu estaria!” Ao pensar nisso, chegou a corar ao relembrar algumas das noites fogosas que lá tiveram.

De repente, ouviu a porta de entrada se fechar — para não falar, bater — Cezão chegou do trabalho. Nessa hora, ela ficou apavorada e só pensava em se esconder! Mas, antes que se desse conta, o marido entra no quarto e ela, ali, congelada, não sabia o que dizer ou fazer.

Foi, então, que se deu conta de que o vivo não podia lhe ver ou ouvir. ”Que frustração!”, pensou. “Que graça tem, então, eu vir visitá-lo se ele não pode interagir comigo?”

Ele foi para o banheiro e abriu a torneira do chuveiro. Voltou para o quarto, abriu o armário e lá ficou, olhando suas roupas como se não soubesse o que vestir. Deixou as portas abertas — o que ela odiava — e foi tomar banho. Nessa hora, então, ela escolheu sua roupa completa: cueca, bermuda, uma camisa de manga curta e um par de sapatos esportivos para usar sem meias, já que fazia muito calor. E ainda fechou as portas do armário!

Cezão volta para o quarto e, em um primeiro momento, se espanta ao ver a “produção” completa sobre a cama. Depois, se senta com a toalha molhada e, antes que se irritasse mais uma vez, ela só pensa que tinha sido uma tola em se aborrecer com pequenos detalhes que não levaram a nada. Foi então que ouviu seu marido dizer: “Giulia, que falta você me faz! Acho que ficaria contente em ver que, finalmente, consigo coordenar as roupas do jeitinho que você sempre tentou me ensinar!”

Nessa hora, ela não conteve o riso e deu uma gargalhada! Apesar de estranho porque ele nem se moveu, ela chega à conclusão de que suas visitas podem ser divertidas e que pode ainda tentar remediar as pendências que ficaram.

E assim foi feito! Passou 1 mês inteiro visitando-o diariamente, separando sua roupa e fazendo uma baguncinha aqui e outra acolá. Essa atitude a libertou de suas neuroses com ordem e descobriu que Cezão havia sido sempre um marido fiel porque não havia nenhum vestígio de uma companheira “no pedaço”.

Passados esses 30 dias, seu tempo havia se esgotado e não podia mais voltar à Terra. Conformada — e satisfeita — com o que conseguira nesse período, regressou ao purgatório e iniciou uma campanha junto à coordenação para lhe ajudarem a encontrar alguém “ponta firme” para fazer companhia ao viúvo.

 

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