ESCREVIVER - SERIA PAVOROSO SE NÃO FOSSE CÔMICO - 03 DE OUTUBRO DE 2023

 







Sempre soubemos que as histórias de terror, fantasmas, castelo abandonado, cemitério, escuridão, neblina, gemidos, gritos, ruídos indecifráveis, esses e outros pontos dariam ao texto um ar sombrio ou assustador. Com esse tempero, faz-se um texto de terror, é sabido.  

Mas um cenário desses pode servir também para um texto cômico, não acha? Para testar essa teoria, vamos colocar um protagonista num desses lugares para amedrontá-lo.

No entanto, nosso personagem cético, do tipo durão, prepotente, não acredita em nada que não seja real. Em suma, só acredita vendo.






Que Pena - Yara Mourão

 




Que Pena

Yara Mourão

 

Muito antes das oito horas eu já estava de pé. Havia tanta coisa a ser feita naquele dia de festa. Eu não costumava comemorar meu aniversário com tanta gente, mas nesse ano era diferente

Márcio e eu havíamos acabado de nos separar. Apenas cinco anos de casados, mas muito barulho por nada. A partir daí ele não aceitava o fim do relacionamento e me atormentava constantemente.

Mas eu estava decidida a superar por completo as decepções acumuladas e os sobressaltos que me davam tanta apreensão, tanto medo.

Por isso resolvi fazer minha festa de aniversário naquele fim de um longo inverno.

Sentimentos às vezes sucumbem às contingências do mal. Márcio tornou-se violento, adepto das lutas marciais sem final civilizado; trapaceava com a vida e com as pessoas, perdeu-se na internet.

Dei tempo para o azar acabar de se instalar.

Na Páscoa, apareceu em casa para me dar uma caixa de chocolates. Desconfiei. Dei tudo para o cachorro, que coitado, em poucos dias adoeceu e morreu.

Pelo Natal, Márcio me contou do presente que dera a si próprio: um revólver calibre 38 e um curso no clube de tiro.

Era de dar pena. Ele havia sido um homem gentil, um dia. Programamos até uma vida só a dois, sem filhos, para nos curtirmos mais intensamente.

De enganos em enganos, a convivência sucumbiu e abriu as portas par um infinito nada...  

 

Pois, aquele, então, era o dia do meu aniversário.

Preparei a casa, as flores, os vinhos e os doces, tudo conforme sempre gostei.

Vendo a mesa posta, lembrei dos meus trinta, quarenta anos, festivos e alegres, cheios de gente. Agora também muitos viriam.

Escolhi um vestido branco, para passar uma mensagem de paz.

Escolhi músicas clássicas, para uma sensação de leveza.

Escolhi abrir todas as janelas para entrar os aromas da vida e o suave som da noite.

Deu oito horas, a campainha soou. Desci as escadas para atender a primeira pessoa.

Abri a porta. Dois ruídos ríspidos, dois tiros certeiros.

“Ah, Márcio! Era minha festa! E você nem era meu convidado!”

Fechei os olhos.

Desde então, meu corpo jaz sobre o dele, para todo o sempre.

Que pena!


As Gêmeas Idênticas - Ledice Pereira

 


As Gêmeas Idênticas

Ledice Pereira

 

Conheci Zulmira ainda na escola. Não era uma menina fácil de se relacionar. Vivia só. Aceitava minha amizade porque, certa manhã, eu, com pena, havia me aproximado e oferecido um pedaço do meu lanche. A partir daí passou a aceitar minha companhia. Não se conformava de ter sido separada da irmã gêmea, Zaíra. A escola achava importante manter irmãs gêmeas em classes separadas para construírem suas identidades.

Elas eram fisicamente idênticas, eu ficava impressionada. A diferença estava na maneira de ser. Zaíra irradiava luz, alegria, felicidade. Estava sempre cercada de amigos.

Zulmira se apegou a mim. A única que lhe dava atenção. Era difícil arrancar-lhe um sorriso. Vivia triste, quieta, aborrecida, dizia que se sentia perseguida pelos professores.

Quando nos formamos no ensino fundamental, cada uma foi para outra escola e não a vi mais por um longo tempo.

Por acaso, nos reencontramos já adultas, numa reunião profissional, eu psicóloga, ela economista.

Tinha se tornado uma jovem bonita, embora nem sorridente, nem falante. Apesar de ter me reconhecido, tratou-me com frieza.

Tentei me aproximar, saber um pouco de sua vida, da vida da irmã. Foi respondendo meio que automaticamente.

A irmã havia se casado cedo, nem se formara. Era uma simples dona de casa, vivia para o marido e a filha, afastara-se dela que permanecia solteira, morava só e trabalhava muito. Sua ambição era viajar pelo mundo.

Encontramo-nos outras vezes e, aos poucos, ela despiu-se daquela capa com que tentava proteger-se, abrindo-se mais sobre sua vida, suas conquistas, seus namoros.

Eu sentia que ela precisava de mim, como amiga e como profissional. Até que achei uma forma de lhe oferecer, de graça, sessões de terapia. A princípio, recusou, dando como desculpa o fato de não ter tempo.

Mais tarde, deve ter refletido e resolveu aceitar, mas se sentiria melhor pagando pelas sessões, aceitava que eu lhe desse um desconto. Concordei com as condições que ela impunha, por ter certeza de que ela precisava muito de terapia.

A ética não me permitia revelar a ninguém o que era falado ali. Mas a cada sessão eu me sentia mais incomodada e surpresa. Aos poucos, ela ia se revelando.

Pensei que os pais tivessem morrido, mas ela comentou que moravam no interior e ela mal os via.

— São uns chatos – disse um dia – só falam na Zaíra e na menina. Parecem endeusar minha irmã. Não os suporto. Detesto aquela vidinha interiorana que eles vivem. Não vou lá, até porque Zaíra vai todo fim de semana. Não gosto de encontrá-la. Vem me abraçando com aquela cara de felicidade, querendo saber o que tenho feito. Horrível!

Percebi que o caso era sério e que necessitava de acompanhamento de um psiquiatra também.

 Mas, como dizer isso a ela? Iria me odiar e talvez deixar a terapia que, afinal, estava fazendo com que ela falasse sobre todos aqueles sentimentos negativos que estavam guardados dentro de seu peito, um ódio, um sentimento de revolta, uma amargura!

Levei o caso a um psiquiatra amigo, muito profissional, em quem eu confiava cegamente.

Ele achou importante estar presente em uma das sessões.

Ela não gostou de ter um intruso ali. Tivemos que usar de muita habilidade para que ela o aceitasse e ficasse à vontade, coisa que custou um pouco a acontecer.

Após algumas sessões, ele diagnosticou, esquizofrenia. Receitou alguns medicamentos que, a princípio, ela recusou, mas, com jeito, consegui convencê-la de que a faria sentir-se melhor.

O próximo passo foi colocar Zaíra a par do que acontecia com a irmã. Afinal, ela nunca procurara saber o porquê do comportamento de Zulmira.

Zaíra chorou muito. Sentiu-se culpada pelo afastamento que sempre tiveram. Jurou que se reaproximaria. Agradeceu muito por eu ter me preocupado a ponto de fazê-la ser analisada por um psiquiatra.

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Zaíra passou a procurar a irmã periodicamente. Chamá-la para um lanche, um jantar, um fim de semana.

Zulmira parecia estar melhor. Aceitava os convites, levava um presentinho para a sobrinha. Visitava os pais mais amiúde, mostrando paciência e até sorrindo algumas vezes.

Ricardo, o cunhado, que inicialmente a tratava com certa distância, passou a ter com ela longos papos sobre economia, política, viagem. Começou a achá-la interessante. Zaíra não participava dos papos por não entender e não gostar do assunto. Preferia ver séries na TV, juntamente com a filha adolescente.

Aquela aproximação levou Zulmira a se apaixonar pelo cunhado, a ponto de passar várias noites em claro, arquitetando uma maneira de conquistá-lo.

Aquilo martelava em sua cabeça dia e noite. Uma ideia fixa que não lhe permitia mais ter a vida independente que vivera até ali.

Contava as horas para chegar o fim de semana e, mesmo sem convite, dirigia-se como um autômato para a casa da irmã. Vestia-se com roupas provocantes, tentando ser o mais interessante possível.

Ricardo sentia-se tremendamente atraído por aquela mulher tão diferente de Zaíra, que se mostrava cada vez mais distante e sem graça.

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Aquela tempestade repentina veio mesmo a calhar para Zulmira. A irmã convidou-a para pernoitar. Ela prontamente aceitou. Estava dócil. Dormiria no sofá da sala mesmo.

O barulho da chuva caindo forte, os raios e trovões que rebentavam noite adentro, encobriam qualquer ruído dentro da casa.

Zaíra parecia dormir profundamente, Ricardo levantou-se, saindo do quarto, pé ante pé, em direção à sala.

Zulmira estava acordada, vestindo apenas sua roupa íntima. Ricardo achou-a tremendamente sexy. Ela, radiante, conseguia seu intento.

Ricardo deitou-se sobre ela. Não disseram nada.

Um tiro ecoou pela sala, fazendo com que Ricardo caísse sangrando sobre o tapete. Zulmira não teve tempo de reagir, um segundo tiro acertou em cheio seu peito.

A polícia encontrou Zaíra em pé, imóvel, em estado de choque, portando na mão a arma assassina, pertencente ao marido.

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Dez anos depois, aqui estou contando esta história que marcou a todos nós.

 Hoje, atendo em meu consultório, Zaíra, que acaba de sair da prisão e a filha, ainda traumatizada com os acontecimentos passados.

Ricardo sobreviveu e ainda custa a acreditar que a ex-mulher, que ele e Zulmira subestimaram, fosse capaz de ter aquela reação. Mudou-se de cidade, onde tenta refazer a vida, apesar da deficiência provocada pelo tiro, que o obriga ao uso permanente de muletas.

AS IRMÃS GÊMEAS - Antonia Marchesin Gonçalves

 



AS IRMÃS GÊMEAS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

             Desde que me conheço por gente ouço direto, “que gracinha, lindas”, idênticas, eu e minha irmã gêmea. Isso, com o tempo, foi me martirizando, e crescia dentro de mim um inconformismo de não respeitarem minha individualidade. Ao mesmo tempo, sempre fiz de tudo para ser diferente dela, não aceitava usar roupas iguais, mesmo assim, ninguém percebia, só olhavam a semelhança física.

             Meus próprios pais não enxergavam as diferenças, isso me magoava. Até os nomes eram parecidos, Mércia e Marcia, uma vogal nos diferenciava. Que falta de imaginação, credo! Eu fui me rebelando, odiando, a toda certinha, Marcia. Foi desenvolvendo dentro de mim muita raiva dela, a ponto de odiar até o tom de sua voz. A toda certinha, me embrulhava o estômago.

             Assim, fui ficando cada vez mais diferente. À medida que crescíamos, sentia necessidade de ser o oposto. Tornei-me dissimulada, exploradora da bondade alheia, nada que eu fazia era com boas intenções, pelo contrário, sempre com má-fé. E quando ela encontrou o namorado igualzinho a ela, cara de boa índole apaixonados, se casaram. O ciúme me corroía. Meus pais, orgulhosos, comentavam, você também vai encontrar a sua metade da laranja. E, o pior é que fiquei morando sozinha com eles, pegando no meu pé.

             Aonde você vai? Volta cedo? Cuidado com esses amigos, hein! O pior, controlavam o meu gasto. Ué, precisa de dinheiro de novo? Seja como sua irmã, economize para o dia de amanhã. Que ódio! Mas, dei um jeito, e morreram no acidente com o carro. Deu tudo certo. Mas, aí chega a gravidez da santinha, aquele barrigão e paparicada por todos, inclusive pelo tonto do marido que babava de felicidade. Nunca pensei que um parto fosse tão difícil, e para a minha surpresa ela não suportou o esforço, vieram as complicações e ela faleceu.

             Acredite, foi um baque para mim, senti como uma parte de mim veio a faltar, sentimento estranho que logo passou. Agora eu sou a dona de tudo! Era assim que pensava. Foi quando o meu cunhado reivindicou a sua parte da herança em nome do meu sobrinho. Indignada, confesso que pensei em outro acidente, mas como já estavam investigando a morte dos meus pais, me detive. Tinha que pensar em outra forma de eliminá-los.

Dominada pela ganância, esqueci que ele era um excelente advogado, com muita influência entre delegados e detetives, e foi o meu erro.

             Sim, ele conseguiu comprovar que fui a autora do assassinato dos meus pais. No julgamento, o veredicto foi de culpada. A sentença, por me considerarem com distúrbio de personalidade, foi de cinquenta anos de prisão.

E, essa é a minha história. 


ESCREVIVER - AS GÊMEAS - 29 DE SETEMBRO DE 2023

 






A intriga na passagem de um personagem por uma história, é o que conta. Essa intriga (conflito), é o vai movimentar as ações e reações de cada um, no enredo. Se for um conflito descomplicado, ele não provocará ações e reações. Portanto, quanto mais difícil for o conflito, mais o enredo ficará interessante.

É claro que o conflito sozinho não faz com que o todo interesse para o leitor. Mas COMO o autor vai contar essa trama, é que valoriza a narrativa.

Uma boa história deve explorar a emoção, os sentimentos, que poderá ser capturado e mostrado, através de figuras de linguagem, e todas as ferramentas possíveis literárias, guardadas na caixa de ferramentas do autor: 

  • FORMATO
  • ESTILO
  • PONTO DE VISTA DO NARRADOR
  • PONTUAÇÃO
  • FLASH BACK
  • FLUXO DE CONSCIÊNCIA
  • PLOT 

etc.

Pois bem, vamos experimentar isso? 

Temos a seguinte trama para criar uma história sobre ela:





DESABAFO DE UM RIO - LEDICE PEREIRA

 

DESABAFO DE UM RIO

LEDICE PEREIRA


E lá vem ele com sua impetuosidade!

Fico tão irritado com esse jeito impetuoso dele! Quando o encontro, sinto que a minha tranquilidade vai por água abaixo. Eu que gosto de andar perigosamente em todo meu limite, nem por isso deixando de apreciar tudo a minha volta, numa temperatura agradável, tenho que conviver com a sua lentidão e sentir o toque gelado de suas águas.

Começa que não gosto nem do nome dele, Solimões, um nome, pra mim, nada sugestivo, muito pelo contrário.

Eu sim, chamo-me Negro, com muito orgulho. E não fico anunciando aos quatro ventos que nasci na Colômbia, embora me orgulhe disso.

Solimões vive se gabando de ter origem andina e de trazer sedimentos de origem vulcânica.

Grande coisa! Quem se interessa em saber disso?

Sei que ele gostaria de se juntar a mim porque, além de pegar carona na minha rapidez, reconhece que é sem cor, sem graça e sem charme, coitado!

Fazer o quê, vamos ao enfrentamento. Não posso fugir disso.

Ele que não venha com graça, tentando misturar as nossas águas pois farei questão de mostrar toda a minha independência e superioridade. Orgulho-me de ser muito mais rápido e de formar com as areias brancas, que, por sinal, babam com a imponência da minha escuridão, um cenário pra ninguém botar defeito.

O ápice, pra mim, é quando me desprendo do Solimões e encontro o Amazonas, soberano, que me dá o devido valor e me recebe de braços abertos. Aí sim, sinto que atinjo o meu máximo esplendor. 


MÃE - Antonia Marchesin Gonçalves

 


MÃE

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Minha vida é complicada, estou lembrando a minha infância, mãe. Lembro bem do carinho que você me deu quando aos sete anos era o dia de entrar na escola, eu muito com medo do que viria, da professora.... Já os colegas, éramos amigos de bairro, a gente jogava futebol, pega-pega, esconde-esconde na rua, era muito divertido.

                Ao me abraçar você me disse: agora você é um mocinho que vai aprender a ler, procure se comportar e prestar atenção, pois escola não é para brincar. Obedeci, querida mãezinha, sempre levei os estudos a sério, você sabe disso. Lembra quando fomos de férias para Portugal, graças ao seu trabalho ajudando o papai nos éramos ricos, acabamos ficando um ano, lá também fui comportado, fiz novos amigos, inclusive conheci meus primos portugueses e todos me chamavam de brasileirinho.

                Voltamos para o Brasil, vocês assumiram de volta a padaria, você no caixa enquanto o papai fazendo pães, doces e bolos com os empregados. É, estávamos muito bem de vida. Não precisavam da minha ajuda, nem dos meus irmãos, para a lida do dia a dia. A escola era prioridade. Depois podíamos brincar e nadar no rio que cortava a cidade. Lembro que você, mesmo grávida, lá estava logo cedo no caixa para receber os fregueses que vinham comprar o pão já na primeira fornada da manhã.

                Ah, mãezinha! O cheiro dos pães e doces da padaria e da sua comida ficou em minha memória para sempre. Aí, nos meus dez anos eu, feliz, nadando com os amigos no rio, recebi a pior noticia da minha vida: “Sua mãe morreu!” . Você tinha morrido no parto do sexto filho, e ele também morreu. Esse fato foi o que mudou toda a nossa vida, minha e dos meus irmãos. A sua substituta, a madrasta era bem diferente, e sofremos muito nas mãos dela, tudo que foi construído por vocês, ela deixou se esvair, mesmo os mais velhos como eu, tínhamos que trabalhar muito e foi difícil estudar.

                Mas vejo que foi isso que me fez um homem forte. Conquistei muito, me tornei um vencedor. Com todos os filhos formados e minha esposa, companheira, que me ajudou muito, era batalhadora como você mãe. Mas me deixou cedo.

                  Ainda tentei um segundo matrimônio. No entanto, a minha companheira também me deixou cedo demais.

                Agora eu estou aqui com vocês, juntos todos nós para a paz eterna.

               

               

Bem que eu tentei - Ledice Pereira

 



Bem que eu tentei

Ledice Pereira

 

Tantas lembranças passando em minha mente como se fossem recortes de filmes embaralhados...

— Lembra quando seus pais me levaram para viajar com vocês? Se não fossem eles eu nem conheceria Ubatuba. Naquela época, meus pais não tinham nenhuma condição financeira. Ainda me recordo da casa com aquelas janelas enormes que davam para o mar. É como seu eu ouvisse ainda o barulho das ondas rebentando ali perto. Eu tinha um medo de que as águas invadissem a casa. Sem meus pais, eu me sentia desprotegido, por mais que seus pais tentassem suprir a falta deles.

— E naquela manhã em que você resolveu se exibir entrando mar adentro! Eu te chamava aflito e você me provocava, nadando mais e mais, deixando que a correnteza o levasse para o fundo. Senti alívio quando vi seu pai indo ao seu encontro, trazendo você, que começava a roxear, para a beira da praia. Ele estava bravo, passou-lhe um baita de um pito.

Roguei a ele que não o pusesse de castigo. Você fingindo chorar, piscou pra mim numa espécie de agradecimento. Gostava de viver perigosamente.

Foram várias as vezes em que eu tive que apartar suas brigas, ou buscar você no meio do mato de onde não conseguia sair. Sempre aprontando.

Quando se é criança, quatro anos e meio faz uma enorme diferença. Como mais velho, eu me achava na obrigação de cuidar de você. Esperava que a idade o fizesse mudar, mas você continuava a viver no limite.

Até sua mãe desistiu de você, abandonando casa, marido e filho, até morrer numa clínica psiquiátrica.

Foi demais pro seu velho pai que, alguns anos depois, também se foi.

Continuei tentando protegê-lo de você mesmo, sem sucesso. Resolvi seguir a minha vida. Casei-me e afastei-me por julgar que você seria um péssimo exemplo para meus filhos.

Você percebeu e procurou evitar de participar da nossa vida.

Hoje, arrependo-me de ter meio que te abandonado. Afinal, eu era o seu único amigo de verdade. Talvez eu tivesse evitado que hoje você estivesse aí, nesse caixão, sem ninguém mais pra chorar a sua morte. Por você ter despencado do alto daquela montanha de onde, até hoje, ninguém conseguiu sair vivo.  

O PASSADO QUASE PRESENTE - TEMA DO ENCONTRO DE 19 DE SETEMBRO DE 2023

 







Há situações em que personagens literários se confundem com pessoas que conhecemos, ou será que a vida real está sempre retratada nos livros?

É certo que a literatura copia a vida, e os sentimentos/emoções movem pessoas e personagens. Portanto as ações e reações das pessoas, e também dos personagens literários, são motivadas pelos sentimentos e emoções. OS CONFLITOS são os gatilhos que trazem à tona certas emoções, certos sentimentos: perigo, suspense, momentos em que a vida sai da rotina e requer mudança de atitude.

Uma boa história tem esses ingredientes, e podem estar no passado do personagem, no presente ou futuro.

No passado, os fatos (CONFLITOS) exigem que o personagem tome certas inciativas para consertar o passado que, de alguma forma, lhe impõe perturbações.

No presente, os fatos (CONFLITOS) estão acontecendo e provocando o personagem à tomada de reações que não são comuns no seu cotidiano.

No futuro, o que virá na vida do personagem, de alguma forma, vai provocar CONFLITOS, o que o faz reagir para mudar o destino, seja para o bem ou para o mal.

TAREFA: Trabalhar um CONTO narrado no presente, em primeira pessoa - pelo personagem protagonista. PORÉM, no desfecho a revelação. Tudo se tratava do passado do personagem que já está morto. Portanto é uma narrativa póstuma, mas isso é uma descoberta que o leitor fará nas últimas linhas de sua história.

OBS: Cuide para o conflito seja mesmo perturbador.

INVISIBILIDADE - Yara Mourão

 




INVISIBILIDADE

Yara Mourão

 

A aula de física no laboratório da escola geralmente era maçante e interminável. Mas naquele dia, junto com as projeções de ótica, algo pareceu muito interessante para Júlio. Havia uma ligação de fórmulas matemáticas a composições químicas, que iam num espectro da refração da luz até que uma lâmina de matéria se formasse. Essa lâmina tinha duas faces: uma positiva e outra negativa, e a capacidade de tornar invisível o que ela envolvesse na face positiva e tornasse a mostrar a realidade na sua face negativa.

Júlio projetou ao infinito o alcance dessa maravilha.

Tornar invisível algo material, sólido e depois reverter o resultado! Não era mágica, era ciência pura. Ele precisava se apoderar disso imediatamente, antes do baile de formatura.

Por algumas noites Júlio não parou nem para dormir. Leu todas as apostilas, os livros da biblioteca da escola, as anotações dos cadernos, as fórmulas e tudo o que encontrou sobre o assunto.

Tanto empenho teve sua recompensa.

Conseguiu, com suor e lágrimas, manufaturar uma película bipolar; lado A, tornava algo invisível e lado B devolvia algo á realidade. Perfeito para o uso. Perfeito para suprimir a presença de Bruno, o tal do “gatão”, como as meninas falavam. Baile sem Bruno era noite de gala! Larissa, princesa, estaria próxima dele sem a sombra incômoda do Bruno.

Chegada a data do baile, Júlio se esmerou nos preparativos, cuidando muito da aparência, do penteado; disfarçou como pode as espinhas do rosto. Tudo ótimo.

No bolso da calça, dobrada em quatro, estava a película, obra genial dele próprio, criada para o bem, mesmo que por alguns instantes pudesse causar o mal. Mas isso não estava em questão no momento. O que era importante era sumir com Bruno e ficar com Larissa. Talvez, depois, ele pudesse ganhar o Nobel de física, de química, ou seja, lá do que for...

Chegando no baile, deu de frente com a princesa, linda, um sonho de garota. Foram conversando em direção ao salão, tranquilos, até que, saindo de trás de uma mesa, surgiu Bruno.

Foi um minuto de hesitação. Mas logo Júlio tirou do bolso a película e em gestos longos, precisos, envolveu o menino que em segundos sumiu! Ninguém viu!

Assim se fez a noite mais linda da vida de Júlio, o gênio da fantástica criação daquele ano na escola!

Só que a película nunca mais se desfez...

E Júlio, coitado, identificado como assassino pseudocientífico, foi aprisionado e condenado a passar anos de sua vida num laboratório trabalhando num projeto denominado: Desconstruindo a Invisibilidade!

 

AKIRA - A robótica quase humana - Yara Mourão

 

 



AKIRA

A robótica quase humana

 

Yara Mourão

 

Era uma tarde mansa, dessas de fins de outono, quando o céu se avermelha ao ocaso e as nuvens formam, douradas, rabiscos pelo céu.

Através da janela da sala Noêmia viu chegar uma claridade difusa, indecisa. Ela estava cansada. Não tanto da lida do dia, mas do embate com as pequenas coisas que lhe causavam grandes aborrecimentos.

Ultimamente tudo se tornara um pouco estranho para ela, até o que estava habituada a fazer por anos. É que agora algo ficara muito diferente, mais complicado e sem explicação.

Felizmente Noêmia tinha dois filhos. Engenheiros, bem posicionados na vida, pais de seus quatro netos, todos menininhos. Era um entorno masculino onde ela ainda tinha seu lugar de rainha-mãe.

Os filhos já percebiam sua dificuldade de lidar com as coisas da modernidade. Como não podiam lhe oferecer uma presença constante, resolveram dar à mãe uma ajuda incontestável: arranjaram-lhe um robô doméstico! E dos bem programados, pois era “made in Japan” e atendia pelo comando de voz de seu nome: Akira!

Noêmia ficou fascinada!

— Que moderno! É só eu chamar seu nome e ele vem?

— Sim, mãe, é só chamar.

— E o que ele faz? Cozinha, lava e passa? Rega as plantas? Toca piano? Lê jornal?

— Pode até ser, mãe. Ele tem muitas habilidades: liga e desliga o que for; não esquece nada no fogo nem ferro ligado ou T.V. acesa, nem pia pingando, cachorro com fome, nada!

Era inacreditável!

Ela se divertiu um tempo dando ordens ao Akira. E ele cumpria tudo, até respondia o que ela perguntava. Na verdade, conversavam bastante.

Noêmia se habituou à presença de Akira, à sua voz rouca, ao seu silencioso caminhar pela casa, checando tudo: cada aposento, cada armário, cada eletrodoméstico. Até a temperatura do chuveiro ele acertava. Navegar no celular era com ele mesmo. Tudo sem mexer um dedo sequer!

O tempo foi passando...

Noêmia apagou velinhas nos últimos seis anos com Akira ao seu lado. Ela já se habituara a ser conduzida e acalentada por ele; já repartia com ele seu resto de lembranças, as memórias embaçadas. Já não ousava ser gente sem Akira ao seu lado.

Um dia Noêmia se esqueceu de ser quem era... saiu de casa, foi-se pela rua barulhenta, virou à esquerda, depois à direita, não importava. Foi-se no vácuo da vida que lhe foi mansamente roubada por Akira.

Talvez um robô quase humano seja, na verdade, um acelerador de Alzheimer para uma humanidade enferma, já quase terminal.

 

FÉRIAS DE VERÃO - Antonia Marchesin Gonçalves

 

                            


FÉRIAS DE VERÃO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Quando meus filhos eram pré-adolescentes, tínhamos apartamento na praia da Enseada no Guarujá, naquele tempo as férias de verão eram de Janeiro a Fevereiro, as aulas começavam em Março. Após o natal e fim de ano após passarmos em São Paulo com a família, começo de Janeiro já íamos para a praia, foi uma época em que meus filhos aproveitaram muito, fizeram muitos amigos que continuam se encontrando até hoje.

                O meu apartamento era o centro de encontro e também na praia todos se concentravam no meu guarda sol, eu a única adulta ouvindo todas as conversas e historias das aventuras amorosas. O engraçado é que eles não tinham nenhum constrangimento em contar detalhes como, fiquei com fulana foi duro aguentar o bafo, ou o cara não sabia beijar, quase engolia minha língua... E, eram risadas, brincadeiras e piadas.

                À noite iam todos para a sorveteria Brunella e voltavam de madrugada, a pé, sozinhos, numa alegria só!

Mas, lógico que rolava a cervejinha escondido, eu sentia o cheiro quando chegavam e dava a bronca para saberem que eu estava de olho. Os pais desciam na sexta à noite e passavam o fim de semana, aí já não rolava muita conversa. Já na segunda voltavam todos para meu guarda sol. Com o tempo certas mães começaram a reclamar com ciúmes de seus filhos comigo, a ponto de uma delas que era do prédio vizinho chegar com as mãos na cintura e em voz alta falar: “porque todos ficam só aqui, eu não mordo sabiam? ”

Pegou na mão de filha e a levou para o seu lado, todos se olharam, e adolescentes não se controlam, começaram a rir.

Tinha na praia a moça dos sanduíches naturais e outra que fazia deliciosos pasteis e salgadinhos, eu não ligava que eles comessem na praia e fechava as contas nos fins de semana, quando com os maridos tomávamos as caipirinhas e cerveja. Certa época meu marido encontrou um pequeno barril de cinco litros de cerveja com a torneira, levava na praia e mais um motivo para a vizinhança adulta ficar por perto.

 

Foram alguns anos de férias divertidas, inclusive em Julho mais tranquilas por ser frio, meu filho não abria mão de surfar no mar, até hoje pratica. Justamente por surfar ele nos convenceu comprar o terreno na praia de Iporanga também no Guarujá. Levamos dois anos para construir a casa no pico do morro, com uma vista incrível e acabamos vendendo o apartamento. Na casa, diferente do apê, os amigos acabavam se hospedando, depois o filho com a esposa e as filhas com os respectivos maridos, e até o primeiro neto curtimos muito, todos juntos, fim de semana e férias.

                À medida que se envolviam, com o trabalho e a vida de casados passaram a frequentar menos e até que vinham nos fins de ano assistir os fogos de artifício, pular as sete ondas e continuar a festejar no terraço na piscina. Com o passar do tempo a casa pouco usada e com a manutenção altíssima, condomínio e gasto com caseiros sempre problemáticos resolvemos vender.

                Foi muito bom enquanto durou e tenho a certeza de que foram anos marcantes para meus filhos, com muitas boas recordações.

Meu tio Milton - Ledice Pereira




Meu tio Milton

Ledice Pereira

 

Eu achava meu tio Milton o máximo, divertido, alegre, cheio de ideias, sempre de bom humor. Nunca dizia para eu esperar um pouco, como meu pai sempre fazia.

Não, tio Milton era o cara que eu queria ser quando crescesse. Inventava brincadeiras, contava histórias, brincava como se fosse criança.

Quando ele se mudou para o Japão, fiquei muito triste. Sentia sua falta. Vivia perguntando pra minha mãe quando ele iria voltar. Ela comunicava-se com o irmão sempre que podia e ficava sabendo das novidades que despois nos contava. Ele estava desenvolvendo, junto com gente de todas as partes do mundo, ligadas à tecnologia de ponta, um tecido que permitia que as pessoas se tornassem invisíveis. Isso me deixava encafifado e curioso. Naquela época, eu não sabia muito bem o que ele fazia.

— Eu adoraria ficar invisível, às vezes – eu pensava – principalmente, quando meus pais insistiam para eu fazer alguma coisa que eu não queria, como arrumar minha cama, ou lavar o prato e o copo que eu tinha usado.

O tempo foi passando, eu e meu irmão já não sentíamos tanta falta de nosso tio. Tínhamos feito amizade com vários frequentadores do clube e participávamos dos campeonatos de vôlei e futebol.

Mamãe nos deu a notícia que ele estava voltando.

Hoje sei que aqui ele trabalhava no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Que tinha sido escolhido, entre vários colegas, para participar desse estudo, por ser considerado acima da média, sendo dedicado ao trabalho e determinado em suas pesquisas. Isso aumentava minha admiração por ele. Fiquei excitado para reencontrá-lo. Saber o que aconteceu nesses cinco anos fora daqui. Devia ter muito que contar.

No dia marcado fomos ao aeroporto esperá-lo, portando faixas escritas em letras garrafais: Bem-Vindo, querido tio!

Nada dele aparecer. Estávamos um tanto decepcionados e cansados, quando algo chamou nossa atenção, uma mala que se deslocava sozinha, vindo em nossa direção. Um misto de medo e curiosidade tomou conta de nós. Eis que vimos a cabeça do tio. Não víamos o corpo dele. Ao nos aproximarmos, descobrimos que ele estava envolvido por um tecido que o encobria, segurando a mala, dando-nos a ideia de que ela vinha sozinha, permitindo que víssemos apenas o ambiente do aeroporto. Muito estranho!

Quando ele jogou ao chão o tal tecido, demos com ele inteiro, sorridente, tão alegre como nos lembrávamos, um pouco grisalho e mais gordinho, mas tão querido. Deu-nos aquele abraço que só ele sabia dar, cheio de carinho.

Não largamos mais dele. Teve que contar e recontar todas as histórias e descobertas que havia experimentado naqueles longos cinco anos de Japão. O dia foi pequeno para que ele respondesse a todas as nossas perguntas. Minha mãe teve que interferir para que o deixássemos descansar depois de tantas horas de viagem.

Na manhã seguinte, como ele não se levantava, arrisquei entrar no quarto e não vi ninguém. Eu ainda o procurei embaixo da cama e no banheiro. Nada!

Só depois descobri que ele havia se coberto com o tecido da invisibilidade. Esse era o meu tio. O cara que eu continuava admirando e querendo ser como ele.

  

ESCREVIVER - A CURIOSA INVISIBILIDADE 12/09/2023










Já pensaram na hipótese de se poder ficar invisível? Harry Potter ganhou a capa da invisibilidade.



O cinema produziu, no ano 2000, o filme O HOMEM INVISÍVEL.




E, atualmente, muito se fala em invisibilidade.








Clique aqui para ver o vídeo: A INVISIBILIDADE DOS CHINESES


Criação de personagem inquieto, ousado, oportunista, que de tudo faz para ser mais esperto que os outros. 

Como seria ele? 

Quais seriam os traços psicológicos deste protagonista?

Quem seria ele?

Em que época ele vive?

Após terem assistido ao vídeo onde um chinês mostra o manto da invisibilidade, material amplamente divulgado pela internet, vamos fazer com que este protagonista criado hoje, use, de alguma maneira, o manto da invisibilidade para se dar bem.

Faça com que o enredo tenha velocidade, dinâmica. 

Insira figuras de linguagem no texto.

Surpreenda-nos com o desfecho de seu conto. 

Será que o protagonista vai se dar bem mesmo?

Será que há mesmo a possibilidade de se tornar invisível?