Crer ou não crer, eis a questão! - Ledice Pereira

 

 


 

Crer ou não crer, eis a questão!

Ledice Pereira

 

Aquela menininha de olhinhos vivos cor de jabuticaba estava sempre atenta. Tinha a esperteza de uma criança mais velha. Nem parecia ter apenas nove anos.

Os pais, ambos professores, levavam uma vida sem extravagância, mas estavam sempre presentes, procurando passar valores para os pequenos.

Corria o mês de novembro e os dias, para Mirella, pareciam não passar. Aguardava ansiosamente a chegada do Natal, quando iria ganhar a bicicleta dos seus sonhos.

Murilo, seu irmãozinho, ainda não entendia muito essa coisa de presente, de Papai Noel, de Natal. Tinha apenas quatro anos. Os pais haviam decidido comprar um jipe com o qual o menino se encantara na loja de brinquedos.

Mirella costumava falar sozinha no quarto que dividia com o irmão. Olhando para sua janela, ficava matutando sobre essa história muito mal contada de Papai Noel.

Como pode um velho gordo abrir e passar por essa janela sem fazer barulho como vai conseguir carregar a minha bicicleta e o carrinho do Murilinho será que a gente tem que deixar a janela aberta será que ele tem ajudante eu nunca soube que ele tinha ajudante ele anda naquele negócio puxado por aqueles bichos como é mesmo o nome...

Tanto remexeu dentro de casa que acabou achando, no quarto da Edileusa, a moça que cuidava dela e do irmão quando os pais não estavam, a embalagem que parecia trazer o que tanto desejava, tinha todo o jeito de ser sua ambicionada bicicleta. Um misto de alegria e decepção tomou conta dela.  Era tudo uma grande mentira. O tal velhinho era uma invenção. Não trazia nada. Seus pais é que tinham comprado o seu presente. Ah, e aquele outro devia ser o jipe do irmão. E agora? Pensou em sair gritando aos quatro ventos a sua descoberta mas achou melhor ficar quietinha.

Coitados o papai e a mamãe trabalham tanto sempre se queixam de que tudo está caro mas gastaram dinheiro pra comprar nossos presentes não vou contar que descobri eles ficariam muito tristes...

Nos dias que se seguiram, os pais perceberam que Mirella estava muito quieta e pensativa. Estranharam. Ela era sempre tão falante e inquieta. Alguma coisa estaria tramando.

Na escola, com a ajuda da professora Giselle para quem contou seu plano, a menina juntou os amiguinhos e sugeriu que juntassem brinquedos, com os quais já não se divertiam mais para distribuir às crianças pobres da região.

Sua descoberta a fizera entender que essas crianças, cujos pais não tinham dinheiro suficiente, não receberiam nenhum presente por ocasião do Natal e isso não seria justo.

Embora não tivessem ideia do que teria levado a filha àquela iniciativa, os pais ficaram orgulhosos. 

Na noite de Natal, ao lado dos pais, tios e avós, as crianças ficaram muito contentes ao receber os presentes do “Papai Noel”.

Um burburinho na casa ao lado chamou a atenção da curiosa. Correu para a porta e ainda pôde ver o bom velhinho dando adeus às crianças em polvorosa. Essa cena fez a cabeça da menina dar um nó:

Entendi tudo errado não é que o danado do ‘homi’ existe...

A máscara da homem aranha. - Ises A. Abrahamsohn

 


A máscara da homem aranha.

Ises A. Abrahamsohn

 

Lúcia não via a hora de voltar às aulas presenciais. Era professora por vocação. Amava ver aquelas crianças, suas crianças, progredirem a cada dia. Nos meses anteriores a situação tinha melhorado, mas os alunos vinham a intervalos e muitos pais nem levavam os filhos. Difícil acompanhar o aproveitamento dos alunos.

Enfim naquela segunda feira a escola voltaria a funcionar normalmente. Ou quase, porque os alunos ainda deveriam vir com máscaras para proteção de si mesmos e dos colegas e professores.

Eram 25 na classe do quarto ano do fundamental. Ao fazer a chamada, Lúcia verificou que ali estavam todos menos um. Repetiu o nome:

Roberto, Roberto.... Agora lembro... Garoto inteligente, mas metido a valentão.... Vou ver após a aula.

Olhou aqueles olhos cheios de expectativas, por cima das máscaras. Máscaras de todo tipo e cor. A maioria de confecção caseira, coloridas, algumas com figuras de super-heróis. Impressionante com os pequenos se adaptam ... E entendem que é importante. Há 2 anos se alguém me descrevesse um cenário semelhante eu teria dito que era ficção científica!

Depois da aula, Lucia foi saber na diretoria o que tinha acontecido com Roberto. Voltou a se lembrar do menino. Era o garoto que adorava o homem aranha. Antes da pandemia, durante o recreio, colocava uma máscara do herói e se exibia escalando o muro e as árvores do pátio da escola.

A diretora iria ligar para a casa do aluno. Mais tarde, Lúcia olhou a mensagem no celular: Pai do menino não quer que ele use máscara. Virá amanhã à escola. Problemas à vista. Vamos nos preparar.

No dia seguinte, Lucia se deparou com Roberto e o pai à porta da escola. O garoto murmurou um “bom dia fessora” tímido ao lado do pai que mais parecia um boxeador prestes a entrar no rinque. Nem deu bom dia e vociferou:

Meu filho não vai usar essa p.... dessa máscara. Não serve para nós. E vocês vão ter que engolir ele assim mesmo. Nós, na nossa família, não caímos nessas bobagens de vacina e máscara pra cá e pra lá. É coisa de maricas. Desse governador metido a besta!

Lúcia, boquiaberta decidiu não retrucar ao boquirroto. Olhou o menino que, meio encolhido atrás do pai, arrumou coragem para dizer:

Mas pai, eu quero vir pra escola. Não aguento mais ficar em casa. Não vou conseguir passar de ano.

Com máscara não vem, pirralho! Pode esquecer!

 Lúcia olhou diretamente para o menino, ignorando o truculento:

Roberto, você é a pessoa mais importante aqui. Pode vir como quiser. Nós daremos um jeito.

O homem pareceu decepcionado por Lúcia não ter retrucado. Estava ansioso por um confronto. Virou-lhe as costas e saiu pelo corredor puxando o filho.

No dia seguinte, Lúcia se perguntou se Roberto afinal viria ou não. Foi o último a chegar e, felizmente, veio trazido pela mãe. Ambos sem máscara. Lúcia, nervosa, esperando uma possível agressão ignorou-a e fez sinal para o garoto entrar. Fechou a porta com firmeza e entregou ao menino uma linda máscara novinha estampada com o homem aranha.

É um trato entre nós, Roberto. Você vai ganhar duas. Você coloca ao entrar e devolve no fim das aulas. Eu cuido de lavar a máscara. Mas lembre-se, isso é um trato apenas entre nós. Assim você poderá voltar para a escola, encontrar seus colegas e continuar a estudar.

CONTO DE NATAL - ATÉ 28 DE OUTUBRO

 






O NATAL VEM CHEGANDO
O ESPÍRITO DE NATAL NOS ENLAÇA





Mande seu conto de Natal.


O texto para a revista tem prazo fechado. Mande até dia 28 de outubro para o e-mail: oficinadetextosescreviver@gmail.com

O melhor deles será publicado na revista do Clube. 
Todos serão publicados no blog.



A MELHOR HISTÓRIA EM 30 DIAS

 



A MELHOR HISTÓRIA EM 30 DIAS 

Convocação geral para os alunos desta oficina


 Desafio: criar um romance curtinho, uma escrita mais longa que o tradicional conto, com mais vertentes, com mais conflitos.


Você tem apenas 30 dias.

O prazo: 10 de Novembro de 21.

Prepare seu texto, estruture sua história

Investigue, pesquise, namore sua história, e só envie no dia 10.


OBS.:

O tema, não há nenhuma exigência.

O tamanho do texto, não há nenhuma exigência


Todas as histórias que chegarem no e-mail e-mail abaixo na data do dia 10 de novembro, serão considerados válidos para o "concurso" de MELHOR HISTÓRIA EM 30 DIAS. Todas serão lidas, analisadas e comentadas:

E-mail para envio: oficinadetextosescreviver@gmail.com


A melhor história será premiada.


CAPRICHE PARA QUE SEJA A SUA.


RASPAS DO BAÚ - OSWALDO ROMANO



Tivemos grande alegria em visitar nosso amigo Romano, há alguns dias. Fomos em 3 casais:

ANA MARUGGI COM OLAVO

SUZANA CUNHA LIMA COM LUIZ

ANTONIA MARCHESIN COM ROBERTO

Fez muito bem para nós, e também para ele. Foi como se estivéssemos no evento de lançamento do seu livro RASPAS DO BAÚ.

Para quem não sabe o Romano tem passado por algumas cirurgias, e isso o tem mantido em casa. 

Tomamos um bom champanhe antes de fazer um tour pela casa dele. Uma bela e moderna construção no bairro de Pinheiros. Depois, nos esperava uma mesa repleta de variados sanduíches e vinhos especiais.

Passamos alegres momentos com ele, e com a Cecília. Agradecemos a acolhida.

Temos algumas fotos que postarei ao final, e tenho algumas considerações sobre o livro que postarei mais adiante. 

Mas, antes, tenho aqui o texto que ele quer que vocês conheçam sobre como ele recebeu as homenagens dos amigos do EscreViver, pois assim como livro dele é embebido de gratidão e fé, aqui ele não poupa os amigos desse carinho:










E aqui temos algumas fotos do nosso encontro









E sobre o RASPAS DO BAÚ...

Ele deixou na sala do curso um exemplar para os colegas.

Aqui reproduzo o prefácio que, com prazer fiz para esse livro:

PREFÁCIO

Acompanho com prazer o crescimento literário do Oswaldo Romano, e confesso enorme surpresa quando me deparei com a qualidade deste “Almanaque” de histórias em variados gêneros.

Entre um episódio e outro, parece que fugimos da tradicional leitura, pois nos dá a impressão de estarmos imersos em um comportado fluxo de pensamentos e sentimentos.

A obra lembra um folhetim, um mix de gêneros e estilos, para refletir, rir, emocionar e degustar. O conteúdo é recheado de cartas, credos, contos, crônicas e cartões de aniversários, política, declaração de amor aos lugares e às pessoas, perdões e lembranças. Realmente, textos que parecem terem sido raspados do fundo baú.

Este material literário vai revelar o lado manso do coração do filho Wado, e do avô que ele se tornou. O lado criativo do homem trabalhador incansável que prova para si e para os outros do que ele sempre foi capaz. O lado religioso, a fé, e a força que ele tira de dentro para vencer sempre, haja vista o projeto empreendedor que seu lado empresarial mostra logo na abertura do livro.

Romano é um escritor cheio de poesia, aplicador de boas metáforas que encantam os parágrafos. Há muita saudade nas entrelinhas. Há muito carinho com as palavras. Há muito respeito com tempo. Há tanta gratidão dentro desta obra!

É tão bom lembrar, não é? Dá uma extensão de vida”.

Este livro é uma reconciliação com o passado, com a sua própria história, com a família, com os amigos, com as coisas, e com o país.

Não deixe de ler, estou certa de que haverá encantamento no seu coração. E para rir, visite a história do defunto Teodoro, e os amigos que tentam enterrá-lo.

Suspense, ele faz, e faz bem. Veja o conto “Quem roubou a loja”. É um texto curioso com um falso desfecho, pois o real desfecho ele só nos apresenta muitas páginas depois. Trata-se de uma história policial cheia de meandros, que vale a pena saborear.

Há outros contos engraçados que quebram o emotivo, reflexivos que ensinam a explorar sentimento... Mas o que marca nesta obra, o que realmente fica para o leitor, é a força do trabalho que ele empenhou a vida toda, a dedicação empurrada pela necessidade e pelos valores familiares, o desejo de comungar com as pessoas, e com o tempo.  

Raspas do baú vai surpreender você também.

 

 

Ana Maruggi

Coordenadora de Escrita Criativa

 



De música e cores - Ises A. Abrahamsohn.

 


De música e cores

Ises A. Abrahamsohn.

 

Leonora se espantava com aquele filho. Desde  os 18 meses de idade era um experimentador de sons. Batia com a mão nos objetos e parecia deliciar-se com o som de uma colher em uma lata vazia, ou em um bloco de madeira ou ao bater o chocalho num copo de vidro. Acho que vai ser músico, pensava a mãe. Agora com cinco anos seus brinquedos favoritos eram instrumentos musicais. Para desespero dos irmãos alternava entre tambores, latas, dois velhos apitos e uma clarineta de brinquedo. Verdadeira tempestade sonora varria a casa. A cacofonia infiltrava-se por baixo das portas fechadas deixando todos na casa irritados.  O potencial músico chamava-se Sérgio.

Ele parecia não perceber a comoção que causava. Dizia que precisava testar as cores dos sons. Ninguém entendia muito bem o que queria dizer. Os pais o levaram a uma escola de iniciação musical. A ideia era que lá ele pudesse dar vazão à sua curiosidade musical e praticar à vontade longe de casa. O menino ficou encantado. Fez questão de levar seu caderno de desenho e lápis de cor. A mãe não entendia a razão. E ele explicou.

Há sons que são azuis, outros amarelos e outros vermelhos ou roxos. Por isso eu preciso testar os sons . A mãe achou muito estranho e falou com a professora de música que ficou entusiasmada.

Talvez ele realmente consiga ver cores ao ouvir sons. Se for verdade, é um dom maravilhoso. Grandes músicos como Scriabin e Schönberg tinham essa capacidade. E pintores como Kandinsky também. São sinestésicos. Eu não sei se seu filho vai ser músico. Com o tempo veremos.

Sérgio foi crescendo e continuou a produzir sons. Sons associados a cores. Ganhou um violão aos oito anos, mas esse só dedilhava em casa. Na verdade, o que o entusiasmava era a bateria. A mãe do menino conseguiu inscreve-lo no projeto Guri.  Lá ele poderia aprender a tocar bateria. E Sérgio era rápido no aprendizado. Era uma aula um tanto estranha. Quando o professor corrigia algum toque ou andamento errados Sérgio retrucava:

Certo, professor, aqui eu preciso um verde e no terceiro compasso preciso mais vermelho. Por sorte o mestre tinha a mente muito aberta e sabia que o rapaz tinha a tal sinestesia para cores.

Sérgio cresceu e devia agora completar seus estudos na escola de música. Prestou o exame e foi muito bem. O problema surgiu na aula do professor de harmonia, Eurípedes. O professor pediu para o rapaz marcar os acordes das escalas na partitura. Tarefa feita, Eurípedes olhou espantado aquela folha marcada por um arco-íris de cores. Do violeta escuro passando pelo azul, vermelho, verde até o amarelo claro e cinza. Achou que Sérgio estava se divertindo às suas custas e bagunçando a aula. Ao ser repreendido, explicou que era pelas cores e suas nuances que enxergava os sons. O professor respondeu que sim, conhecia sinestesia, mas nunca tinha visto coisa igual. De qualquer modo Sérgio teria que se adaptar à notação musical padrão. Os colegas ficaram espantados. Alguns com inveja, outros achavam que ele era um gozador e mentiroso e uns dois apenas admiraram a sua capacidade. Entre eles, Renata que tocava saxofone e aparecia de vez em quando para tocar com os bateristas. Todos os rapazes queriam namorar a bela Renata. Ela, porém, não queria saber de nenhum. Até que escutou de um dos colegas a história das cores e sons acontecida com Sérgio. Depois da aula ela esperou o rapaz.

Ouvi que você ouve sons que têm cores. É verdade?

Ao ouvir a resposta afirmativa a garota ficou entusiasmada.

Queria lhe dizer, que sei exatamente o que você sente. Comigo acontece o mesmo. Já tentei explicar melhor para as pessoas, mas todas acham muito exótico ou que estou inventando. Mas aqui na escola de música gente como nós precisa se adaptar ao método clássico de ensino. Na verdade, o que importa é aprender a tocar bem.

Começaram a namorar. A conversa dos dois músicos soava muito estranha para outros ouvidos. Assim como:

Aquele acorde azul de sol com sétima maior  poderia soar vermelho se a gente substituísse por um acorde de sol com baixo em si, não acha?

Sérgio embevecido deu-lhe um beijo carinhoso, um beijo musical com todas as cores do arco-íris.

FAZENDA DOS SONHOS - Antonia Marchesin Gonçalves

 




FAZENDA DOS SONHOS

Antonia Marchesin Gonçalves 

               

Marcelo e Olivia quando casaram tinham o sonho de viver e criar os filhos que tivessem em um sítio que fosse fora da cidade. Para isso se dedicaram ao máximo ao trabalho, economizaram o suficiente para alcançar esse sonho. Não precisaram fazer grandes esforços, sendo que os dois com boa formação acadêmica eram excelentes profissionais e bem remunerados. Após dois anos de casados decidiram que já era hora de serem pais e foram à procura de um sítio, não muito longe da cidade, mas que tivesse espaço e características de sítio.                 Encontraram não um sítio, mas uma fazenda abandonada, até as cercas rompidas. As fotos pela internet eram bem nítidas. O que chamou a atenção do casal foi um relógio antigo de ferro em frente da casa. Pela internet tudo fácil e rápido. Se muniram do endereço e lá foram eles, a propriedade ficava a uma hora da cidade. Indo pela estrada, pararam em um restaurante para tomar um café e ao descerem foram despertados pelo cheiro que vinha da famosa torta de maçã esfriando na janela, entraram com água na boca. Talvez a torta fosse a única coisa atraente nesse restaurante. O lugar era tosco, antigo, de pouca iluminação, mesmo assim aparentava limpeza. Até a garçonete parecia ser do tempo da inauguração. Perguntaram sobre a fazenda, porque estava à venda, e ficaram sabendo que o único herdeiro, já idoso, morava numa casa de repouso e não tinha mais condição de administrar a propriedade, foi então que decidiu vendê-la. Marcelo e Olivia ficaram curiosos. Uma fazenda que vinha de pai para filhos, que já possuí a sua própria história, que a história morreria naquela geração, mas que poderia continuar com os filhos que gerariam. Parecia um bom presságio.                  Ao chegarem viram que realmente seria muito trabalhoso torná-la habitável. Ao entrarem a porta rangeu forte, causando arrepios. Marcelo comentou: Primeira coisa, temos que lubrificar essa porta. A casa estava toda mobiliada, o que poderia ser bom. Os móveis estavam protegidos da poeira, cobertos com lençóis brancos, naquele momento transferindo uma imagem fantasmagórica. Estranharam as chaves modernas de automóvel do ano, na mesinha de madeira ao lado da porta, não tinham visto carro algum. À medida que andavam, as tábuas rangiam provocando desconforto nem Olívia que sempre foi temerosa com temas sobrenaturais. Seguindo pelo corredor da área íntima, os quartos estavam com as portas abertas, exceto um. A chave e a cor da porta eram diferentes das outras, o que os deixou curiosos. Marcelo pôs a mão na maçaneta, e Olivia com voz de temor, pediu para não abrir, ele brincou: Você tem medo do que? Acha que vai ter um corpo dentro do armário, sua tonta?                 Abriram a porta devagar, e para surpresa de ambos, não era um quarto de dormir, mas sim um escritório antigo com uma janela envidraçada atrás de uma escrivaninha e uma máquina de escrever dos anos sessenta. Uma folha de papel ainda no carro da máquina, chamou a atenção deles. Aproximaram-se curiosos, queriam ver se havia algo datilografado nele. Porém, nesse momento o tempo fechou lá fora, e foi escurecendo rápido demais. Os trovões eram ensurdecedores. Os relâmpagos riscaram o céu depois de chuparem atingindo árvores perto dali. Rapidamente o interior da casa ficou às escuras. O casal foi pego de surpresa.  Marcelo tateou aqui e ali em busca de um interruptor, ou de algo que indicasse um lampião, ou lamparina, mas não encontrou nada. Pensou na lanterna do celular, mas teve medo de ficar sem bateria. Sem outro meio, optou pelo celular, clareou o ambiente.                 Nesse exato instante, Marcelo ea esposa viram-se aterrorizados. Havia um vulto sentado diante da máquina de escrever.  O vulto datilografava muito rapidamente. Olivia gritou e recuou alguns passos. Marcelo não. Apesar de muito apavorado, chegou mais perto para ler o que estava sendo escrito, e para a sua surpresa dizia: Não comprem, essa fazenda. Ela me pertence, e abaixo havia uma marca que simbolizava um sinal de cruz. Marcelo agarrou a mão da esposa e puxou-a com força para fora da casa. “Vamos embora daqui, Olivia!”. Saíram correndo, diretamente para o carro. Alguns minutos de estrada, já estavam no asfalto. A chuva havia amainado e Olivia ainda com o coração disparado quase saindo pela boca, deu a última olhada comum adeus pelo vidro do carro molhado.                  Resolveram adiar o projeto dos sonhos por mais um tempo.    

 

MEMÓRIA DE AMOR - Antonia Marchesin Gonçalves

 




MEMÓRIA DE AMOR

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Após alguns anos tive a coragem de voltar ao nosso restaurante naquela estrada. Entrei devagar observando nossos resquícios que ficaram por ali. Escolhi a mesma mesa. A garçonete me reconheceu, educadamente me cumprimentou.

— Vai querer o mesmo de sempre?

                Aceitei o café, e vieram as lembranças.

Eu, datilografando naquela máquina antiga da empresa, quando conheci você Alfredo, meu chefe. Foi amor à primeira vista. Eu o vi através da janela envidraçada da sua sala, um homem marcante. Bem diferente de quando nos despedimos pelo vidro do carro, naquele dia de chuva, onde ficaram abandonadas as chaves no banco.

Como me lembro... Às sextas-feiras íamos ver o pôr-do-sol com o nosso carro.  Ali tínhamos a liberdade de extravasar nossa paixão.

Este restaurante me traz nossa história. Quanta saudade! Ainda mais quando olho para o relógio antigo no poste de ferro.  Meu Deus, que coincidência! Ele marca exatamente o horário de seu falecimento.

Queda Livre - Sergio Dalla Vecchia

 



Queda Livre

Sergio Dalla Vecchia

 

 

A pluma a navegar

Nas ondas do vento

Parece mais levitar

Brincando no tempo.

 

Faz na queda livre

Uma vivência oscilar

de leste para oeste

Com o sul a nortear.

 

O chão se aproxima

Pena torna a flutuar

Com sopro para cima

Não quer o rés tocar.

 

Desarranjo pendular

Tempero para amor

Assim há de perdurar

No incerto despudor.

O IDIOTA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



O IDIOTA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Como não tenho o dom de criar textos engraçados, esquento a massa cerebral ao máximo, mas caio em contos pé no chão, em que a realidade pode se misturar à ficção, e ser engraçado fica longe. Admiro quem em tudo, transforma em piada, às vezes até de mau gosto, mas é um dom. Por isso transcrevo um episódio de Gandhi, que admiro muito. O episódio é chamado:  Idiota.

                Quando Gandhi estudava Direito, na Universidade de Londres, tinha um professor chamado Peters que não gostava dele, mas Gandhi não baixava a cabeça. Um dia, o professor estava comendo no refeitório, sentado frente a frente a Gandhi. O professor disse-lhe: senhor Gandhi, você sabe que um porco e um pássaro não comem juntos? Ok, professor, já estou voando: disse Gandhi e foi para outra mesa.

                O professor chateado resolveu vingar-se no próximo exame. Mas Gandhi respondeu brilhantemente a todas as perguntas. Então, resolveu fazer-lhe a seguinte pergunta: senhor Gandhi, indo o senhor por uma rua e encontrando uma bolsa, abre-a e encontra a Sabedoria e um pacote com muito dinheiro, com qual deles ficava? Gandhi respondeu, com o dinheiro, professor.

                Ah, pois eu, no seu lugar, senhor Gandhi, ficaria com a sabedoria. Tem razão, professor cada um escolhe ficar com o que não tem.

O professor, furioso, escreveu na prova “IDIOTA” e entregou-lhe.

                Gandhi recebeu a prova, leu e disse:  Professor o senhor assinou a prova, mas não deu a nota!

O XAROPE MILAGROSO - Antonia Marchesin Gonçalvs

 



O XAROPE MILAGROSO

Antonia Marchesin Gonçalvs

 

 

                Desde criança Joana demonstrava impaciência. As mamadas eram difíceis, não tinha paciência de esperar o seio, berrava como um bezerro desmamado. Foi preciso introduzir rapidamente a mamadeira na vida alimentar dela, e só com mamadeira que resolveu. Em termos... Pois, com o início da alimentação sólida ela voltou a ter compulsão e as colheradas tinham que ser seguidas, sem dar tempo de esfriar. A solução era já levar a comida morna senão o prato ia para o chão, tamanha impaciência.

Sua mãe, coitada, associava ao gênio difícil se desdobrando ao máximo que podia, quando crescer vai melhorar, pensava. Já o pai era a favor de umas boas lambadas com a vara de marmelo para curá-la da impaciência.

                Mas não, Joana é sinônimo de problemas, na escola começou a demonstrar impaciência com tudo durante as aulas. Levantava-se e ia embora se os professores fossem calmos demais para dar as aulas, tamborilando os dedos da mão na carteira, balançava as pernas o tempo todo, irritando a todos. Começava aí a via sacra da mãe dela. Toda semana era chamada pelo orientador, sendo aconselhada a procurar um especialista.

E ela foi até no melhor boticário do lugar, pois ela ouviu uma vizinha comentar sobre o xarope do farmacêutico Thomas, dizendo ela ser milagroso, mas tão milagroso que até curou seu marido um mentiroso contumaz.

Foi aí que Neuza, mãe de Joana, contou o seu problema ao farmacêutico. Thomas com toda a calma falou que estudaria o problema e faria a receita de acordo com a patologia de Joana. Dois dias depois telefonou avisando que estava pronto o xarope. Importante, disse ele, tomar apenas uma colher três vezes ao dia, não mais.

Uma semana depois, Neuza voltou à farmácia, estava desesperada. Contou que quando ela percebeu o efeito positivo do xarope, que o remédio acalmava Joana, animou-se, e deu-lhe o dobro da dose.

O efeito foi de tirar o fôlego, Dr. Thomas! No começo ela levantava da cama sem pôr os pés no chão, o que já era incompreensível. Mas, depois, ao invés de andar, para nosso espanto, ela flutuava entre os cômodos da casa.  A coisa foi tão surreal, mas tão assustadora, que tive que acorrentá-la para não sair voando para o quintal! Ah, isso é muito triste. O que eu faço agora?

                O farmacêutico deu-lhe uma baita bronca. Preciso trabalhar um antídoto, dona Neuza, disse ele com dedo em riste.  Isso não será possível do dia para a noite. E, vai lhe sair muito caro...

A louca ou um olhar diferente - Ises A. Abrahamsohn




A louca ou um olhar diferente

Ises A. Abrahamsohn

 

Os artistas da trupe de comediantes tinham se apresentado todos os dias da semana nas cidades do Norte. Hoje era domingo, dia do Senhor. No sábado a peça foi encenada em Lamego. Grande sucesso. O prefeito, entusiasmado, convidara todos para um lauto almoço na sua quinta. Agora, empanturrados, os atores roncavam à sombra do pequeno olival. Porém nem todos dormiam. Antônio tinha percebido durante o almoço os olhares interessados que as jovens e, principalmente  Carolina, filha do prefeito lhe lançavam. Belíssima rapariga aliás. Alta, braços e pernas torneados, pele alvíssima, cabelos negros e olhos de um azul profundo herdados de algum celta que se estabeleceu no norte de Portugal. Não desgrudava os olhos de Antônio. Também...  Não era de se estranhar. O jovem ator de aspecto cigano  chamara a atenção de todos, homens e mulheres  durante o espetáculo. Rosto afilado, de tez morena, cabelos revoltos  presos na nuca por um despreocupado cordão negro. Porém o que atraía as pessoas eram os expressivos olhos castanhos que desprendiam chispas verdes a depender do interesse do ator. Antônio deitara-se afastado dos demais protegendo o rosto por um enorme chapéu de palha. Estava acordado e percebeu Carolina atrás  de uma árvore a espreitá-lo. Resolveu ignorá-la e continuou com o rosto coberto fingindo dormir. A jovem se aproximou e ao inclinar-se  falou baixinho:

Venha comigo que lhe farei uma surpresa.

Antônio, curioso seguiu a rapariga até o galpão de madeira. Ao ser aberta a pesada porta, Antônio na semiobscuridade, pôde ver os fardos de feno e ferramentas do celeiro. Viu quando ela baixou a tramela de madeira trancando a porta do lado de dentro.

O rapaz permaneceu parado olhando em volta, à espera, ainda curioso do que ela iria lhe mostrar. Carolina colou seu corpo ao de Antônio e começou a beijá-lo freneticamente. Os braços dela apertavam-lhe as costas descendo até as nádegas. Surpreendido,  o rapaz de um repelão se soltou e recuou alguns metros.  A moça o alcançou e empurrou-o até ele cair sobre um monte de feno. Levantando o vestido de verão lançou-se sobre Antônio puxando a calça para baixo. Carolina era uma pessoa vigorosa, quase da sua altura e forte, mais forte ainda tomada pela paixão. Antônio deu-lhe um safanão empurrando-a para o lado.

Pare com isso, menina. Não estou para isso.

A garota o olhou sem compreender. Nunca lhe acontecera antes. Nunca fora rejeitada pelos rapazes do lugar. Aproximou-se de novo. Antônio a  empurrou com força até ela cair de costas, imóvel.  O rapaz tentava abrir a tranca para escapar e ouviu o ruído atrás de si. Carolina empunhava uma pesada pá para golpeá-lo. Acertou a madeira da porta enquanto Antônio esbaforido corria em busca de socorro. Chegou até a cozinha da casa senhorial. Os empregados logo entenderam.

É  louca  a menina, comentaram. Já aconteceu antes. Tão linda. Não pode ver homem jovem que ataca. Já lá vamos para conte-la e dar lhe um calmante.


PORTA - Sergio Dalla Vecchia

 



PORTA

Sergio Dalla Vecchia

 

P ara

O lhar

R ude

T enho

A mor

 

Quando combinei letras da palavra porta, a inspiração surgiu do reconhecimento da professora Alcione.

No comando de uma escola noturna para alfabetização de adultos, ela jamais perdeu a paciência, por mais rudimentares fossem os olhares e atos daqueles alunos carentes do saber.

O amor prevalecia sempre.

Paciência, paciência ...

Com essa didática divina, ela conseguiu o milagre de extrair das entranhas desses maduros arrojados um largo sorriso, latente por toda uma vida.

Felississimos conquistaram nada mais nada menos que a chave da imensa porta da literatura.

A Cartomante | Análise Literária - Brasil Escola



Machado de Assis

A CARTOMANTE

HAMLET observa a Horácio que há mais causas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.

- Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade.

- Errou! interrompeu Camilo, rindo.

- Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...

Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois.

- Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.

- Onde é a casa?

- Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.

Camilo riu outra vez:

- Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.

Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.

Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.

Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.

Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.

- O senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor. Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.

Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.

Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; - ela mal, - ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.

Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.

Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.

Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: - a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.

Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.

- Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...

Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tomar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.

No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.

- Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, - repetia ele com os olhos no papel.

Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.

Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, - o que era ainda pior, - eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.

"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."

Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.

Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:

- Anda! Agora! Empurra! Vá! Vá!

Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?

Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.

A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:

- Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...

Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.

- E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...

- A mim e a ela, explicou vivamente ele.

A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.

- As cartas dizem-me...

Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.

- A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.

Esta levantou-se, rindo.

- Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...

E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.

- Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?

- Pergunte ao seu coração, respondeu ela.

Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.

- Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...

A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.

Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.

- Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.

E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer causa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e continuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação:

- Vá, vá, ragazzo inflamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.

Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.

- Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?

Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: - ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.