Conflito de gerações - Ises A. Abrahamsohn

 




Conflito de gerações 

Ises A. Abrahamsohn 

 

Neusa entrou no quarto e se atirou na cama. Ficou lá mesmo, largada, sem tirar os sapatos e olhando sem ver o teto. As mãos ainda tremiam depois da briga com a filha.  Não chegou a chorar, apenas os olhos úmidos das poucas lágrimas. Veio-lhe um grande cansaço. Chutou os sapatos para longe. Se pudesse chutaria também os pensamentos. Sentiu os braços e pernas amolecerem e continuou imóvel até que a escuridão invadisse o quarto. Olhou o relógio. Sete da noite. Irritou-se consigo mesma por essa lassidão. Acendeu o abajur e alcançou o copo no criado mudo. A água descendo fria na garganta a acalmou. Levantou-se sem procurar os chinelos. Devagar andou pelo corredor do pequeno apartamento até a cozinha. A porta do quarto da filha, fechada. A música escapava pela fresta da porta. Bastou para lhe amargar de novo a boca, enquanto a raiva tomava de novo conta do cérebro.

Vou ficar com dor de estômago, preciso de um antiácido. Cadê o frasco?

Achou um resto do líquido branco que misturou com água antes de tomar pelo gargalo mesmo. Sentou-se à mesa da cozinha, preparou um sanduiche de queijo e um copo de leite. Mastigava devagarinho cada bocado.

A doidivanas da filha a deixava fora de si.

Tanto esforço para dar uma boa educação e agora essa  idiota desperdiça tudo. Sim. Sou de outra geração, como ela fez questão de me dizer antes de me chamar de velha. Velha, eu ? Com quarenta e cinco anos ? Eu a criei , sozinha, sem o pai que se escafedeu quando ela tinha dois anos. Vai largar a faculdade para ir atrás do cara. Músico de talento, ela diz. Besteira. O cara só sabe é fazer essa coisa que chamam de funk. Não é música é barulho. E além disso as letras. Ela diz que são de gozação e de protesto. Eu , hein? O que ouvi só serve para abusar das mulheres. É horrível não sei como ela não percebe. O sujeito não tem onde cair morto. E não estuda música, nem nada, nem tem emprego. Ela diz que vai morar com ele. Vão viver do que ?

Neusa não percebeu quando a filha entrou na cozinha.

Já acalmou, mãe? Tem alguma coisa pra comer no jantar? Não vai fazer comida hoje? Tô vendo que tá no sanduíche. Faz mal. O Marcos é vegano, sabe. Sem leite, carne, ovos. É mais saudável. Eu vou amanhã para o ape dele. Só comida saudável. Viu. Vou fazer a mala e sair daqui. Dessa vidinha de merda. E você enchendo o saco. Ele diz que é bobagem continuar com a facul, ficar pagando sem gostar. Vou arrumar um emprego.

A garota postou-se à frente da mãe, desafiadora, encostada ao fogão. À espera. À espera da resposta que demorou a vir.

Neusa levantou-se devagar, a raiva de novo tomando conta do seu corpo. De novo as mãos tremiam e sentia uma friagem indefinida no corpo e na alma. Os olhos castanhos tomados por uma dureza que ela mesma desconhecia escrutinaram o rosto de Marlene. Sua filha . Única filha. Deu a volta à mesa até ficar frente à frente com a jovem que empalideceu. Nunca vira a mãe nesse estado.

Neusa ergueu o braço para dar a bofetada. Deu um suspiro enquanto baixava lentamente o braço e deu um passo para trás.

Vai minha filha. Vai viver a sua vida! Pode ir embora agora se quiser. Virou-se e voltou ao seu quarto.

OUTROS CARNAVAIS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 





OUTROS CARNAVAIS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

                Minha primeira experiência com o carnaval foi quando ao chegar ao Brasil em 1951, após um ano de nossa chegada teve inicio a festividade do carnaval brasileiro, eu só com seis anos e morávamos no bairro de Pinheiros, especificamente na Teodoro Sampaio não tinha a menor idéia do que acontecia, mas tenho total lembrança do movimento e a multidão que ocupavam a rua e calçadas. O sobrado tinha uma bela varanda de frente para a rua. Lembro dos corsos, chamados assim os carros sem capotas, cheio de jovens fantasiados elegantes vestidos de marinheiros, as mulheres de odaliscas ou de baianas com turbantes cheios de frutas, pulseiras e colares coloridos, todos lindos.

                A rua ficava lotada de gente a pé, todos munidos de serpentina, confete e lança perfume, que eram jogados uns nos outros e todos cantando as marginhas carnavalescas num coro só, que são cantadas até hoje nos salões. Eram românticas com letras decorosas de amor, por exemplo, Bandeira Branca e outras. Depois fiquei sabendo que a concentração acontecia na Av. Paulista onde os carros saiam dos casarões que lá existiam e desciam a Teodoro, mas interessante não ficavam a noite toda, provavelmente subiam a Av. Rebouças até voltarem para o local de origem, continuando a festa em suas casas, acho eu.

                Não me lembro de ter visto nessa época tumulto ou brigas feias, eram três dias de união e alegria independente de cor ou nível social, só os casais de namorados que o homem ficava mais atento com seu par. Gostoso, pois eu e minha família assistíamos de camarote, até participando com o tempo, jogando confete e serpentina que meu irmão comprava. Minha mãe contava que em Veneza, nossa cidade de origem era diferente daqui, constatei isso quando voltei numa época de carnaval, as fantasias eram todas originarias ou novas imitando a idade media, e jogavam água perfumada e as mascaras escondiam todo o rosto, por ser uma festa mundana, a traição acontecia, sem saber com quem, após os três dias tudo voltava normal e voltavam a assistir a missa para expiar os pecados.

                Acreditem o que eu mais amava no carnaval eram os bolinhos fritos com uva passa dentro. Típicos de Veneza, chamados Friteles e aqui minha mãe continuou a tradição, todas as casas te recebiam com café, delicia.

               

Tem coisa mais bonita do que uma Escola de Samba? - Ledice Pereira

 




 Tem coisa mais bonita do que uma Escola de Samba?  

Ledice Pereira

 

Tenho o maior respeito e admiração pelos integrantes de uma Escola de Samba, que se dedicam de corpo e alma, durante o ano todo, a começar pelos inspirados compositores que precisam falar de um tema escolhido em forma de verso, o que não é fácil. E o pior, ou melhor, de forma que o som cative a multidão e o estribilho ressoe pela passarela.

A partir daí, começa a saga do Carnavalesco. Ir atrás do que retrata o samba com criatividade, conhecimento do assunto, pesquisa, ousadia.

O desenho das fantasias das várias alas têm que corresponder ao enredo. E cabe às costureiras torná-las visíveis, reais e fiéis ao solicitado.

E as alegorias, imaginem o que passa pela cabeça do carnavalesco na hora de criá-las. E nas mãos dos artesãos, de executá-las exatamente como foram arquitetadas?

É um trabalho de equipe, de integração, de profissionalismo e sobretudo de amor, amor à Escola, amor ao carnaval.

O trabalho do Mestre da Bateria merece nossos aplausos. Reunir os apaixonados músicos num aprendizado e treino de impecável ritmo que não pode falhar. E mais, tem que surpreender talvez com paradinhas em momentos específicos. É preciso muito ensaio e intensa dedicação de todos os integrantes.

E então entram os coreógrafos, não só da Comissão de Frente, mas de cada ala. É preciso comprometimento de todos os participantes. Não pode haver erros.

A Ala das Baianas nem se fala. Algumas com mais idade rodando suas lindas e coloridas saias, cheias de orgulho e responsabilidade.

O puxador e seus assistentes têm que cuidar da voz, que durante todo o percurso de apresentação não pode falhar. Têm que estar bem coordenados e afinados assim como Mestre Sala e Porta Bandeira, sempre dando aulas de elegância e competência.

Por último, aqueles incógnitos que dirigem ou empurram os carros alegóricos escondidos da multidão mas com o coração batendo descompassadamente, enquanto a voz ecoa no compasso do samba.

Todos numa comunhão, transparecendo alegria e orgulho de pertencer àquela escola, pela qual entregam seu tempo, seu trabalho, sem exigir nada em troca, a não ser que a escola ganhe o título de campeã. Vocês já tinham pensado nisso?   

A importância do reviver - Ledice Pereira

 

 



                                     A importância do reviver

Ledice Pereira

Ali, o tempo parece não importar. As imagens conversam entre si sem que haja defasagem.

Crianças, velhos, famílias, grupos musicais, tudo junto e misturado numa completa harmonia.

Momentos vividos que não esqueceremos jamais e cujas figuras nos ajudam a relembrar diariamente.

Uma maneira de reviver pedaços da vida. Gosto muito.

Estou falando desse painel fotográfico que se encontra à minha frente e que contém fotos das crianças, dos filhos em várias idades, do meu conjunto musical, de amigos queridos, de uma festa em que dancei ao lado de uma passista de Escola de Samba. Existe coisa melhor?   

A MÁSCARA - A FRUSTRAÇÃO - Antonia Marchesin Gonçalves

 

                           

 


A MÁSCARA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

                Gente que sucesso eu estou fazendo!

                Quem está falando, vocês perguntam?

                Sou a máscara. Nunca tive tão em alta.

                Sou de todas as cores e estampas.

                Todos não podem sair de casa sem mim.

                Tem gente que está ganhando me confeccionando.

                Já fui máscara de bandidos, para carnaval e o de

                Veneza então. Muito sofisticado, coisa de luxo mesmo.

                Mas agora estou sendo protetora da saúde das pessoas.

                Minha função é não deixar o bandido do vírus invadir,

                Os corpos humanos viventes na terra.

                Estou orgulhosa da minha missão, viu boca e nariz.








        A FRUSTRAÇÃO

 

 O sentimento que gera uma grande frustração é você fazer de tudo para

 seu ente querido, quando se descobre que esta com Alzheimer. Por doze anos cuidei de minha mãe e assisti a degradação física e mental dela.  Sentia angustia com o coração apertado, sentia a minha impotência perante tal doença.  O maior sentimento foi quando ao falecer foi a de missão cumprida, me dando paz. 


       

 

CARNAVAIS - Sérgio Dalla Vecchia

 



CARNAVAIS

Sérgio Dalla Vecchia

 

Já foram tantos!

Mas o primeiro é inesquecível.

Dias mágicos para ativar os sentidos inocentes das crianças.

Recordo-me perfeitamente da minha estreia em um clube no interior paulista.

Estava eu, molecote, fantasiado com trajes típicos do folião brasileiro; bermudas, camiseta e sandálias. Mamãe eu Quero, foi a música de abertura, na entrada triunfal daquela minha primeira matinê.

O movimento das pessoas, os varais de serpentinas coloridas e os borrifos de confetes, transmitiam o vírus da alegria. Eu estava maravilhado.

Vez ou outra sentia o aroma refrescante do lança perfume, acompanhado de gritinhos da vítima atingida.

Com samba nos pés, atento observava o passar das meninas, fadas, cinderelas, romanas e tantas outras desfilando à minha frente seguindo o ritmo da percussão.

A atmosfera do salão estava ótima, até que do nada, recebi uma golfada de confetes no rosto!

Quando abri os olhos, deparei com uma piratinha de sorriso maroto olhando para trás e dançando à toda energia.

Foi o empurrão providencial que eu carecia para destravar minha coragem!

Destemido corri atrás da agressora. Logo alcancei-a, dei o troco, segurei-a firme pelas mãos e só consegui libertá-la na Quarta Feira de Cinzas.

Ah, que saudades dos puros tempos!

 

 

 

CRÔNICA DA IMPOTÊNCIA DA VIDA DIANTE DA DOENÇA - Antonia Marchesin Gonçalves

 



CRÔNICA DA IMPOTÊNCIA DA VIDA DIANTE DA DOENÇA

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

        No mundo de hoje estamos afinal em 2020, lutando com um vírus criado, em minha opinião, em laboratório, mesmo por descuido, que o extermínio é tão grande, que podemos equiparar a uma terceira guerra mundial. Países do mundo inteiro lutando para encontrar a cura, mas o mais importante é quem será o primeiro descobrir a vacina para tentar imunizar o maior número possível de seres humanos do planeta. Sendo feita ás pressas, vergonhosamente disputadas pelas grandes potências mundiais, ou destruindo as mesmas para surgirem outras mais perigosas, tanto quanto.

        Após o susto inicial atônita assisto o pânico generalizado, a falta de escrúpulos usados pelas disputas políticas, sem que, em nenhum momento pensassem na humanidade, sem dó nem piedade. Quantas doenças até hoje por interesses financeiros de muitos, não foram encontradas as curas, com tanto dinheiro usado nessa disputa. Como por exemplo, HIV, esclerose múltipla, câncer, Alzheimer, etc.. Todas elas, o paciente ou morre ou definha anos a fio. Os familiares impotentes usando todos os recursos, até os que não possuem, se sujeitando ao atendimento num total descaso, ou convênios que se paga por anos e ao precisar de uma opinião mais confiável, paga-se o especialista particular.

        A experiência que tive nesta parte é a mais frustrante, no meu caso, pai morreu de câncer e mãe com Alzheimer vivendo ela por doze anos sofridos, até se tornar um ser vegetativo, ligada em tubos. Diagnosticada com a doença, trouxe minha mãe para minha casa, eu na época com três filhos e marido, além de todo o trabalho que isso acarreta.

Certo dia eu acompanhava meu marido num evento, quando minha filha liga desesperada, estava levando minha mãe ao hospital de emergência, pois ela estava sufocando pelo refluxo do mingau oferecido pela acompanhante.  Chegando à emergência a médica me pergunta se eu queria que ela fosse entubada e que na opinião dela era contra. Espantada perguntei se era para deixar morrer sufocada? Decidi usar todos os recursos. Durante as visitas na UTI, os plantonistas diziam que ela não iria voltar a respirar sozinha mais. Após dois meses saiu do hospital respirando sozinha e andando. Durante os doze anos todos os recursos foram usados, de acompanhantes malucas, até musicoterapia. Até o último ano de vida após onze anos, aí sim ficou dependente de maquinários, ou seja, tubo de alimentação direto no estomago e oxigenação direto na garganta.

        O meu sofrimento como filha do meio, sem parentes no Brasil, foi pesado. Apesar de tudo não me abstive dessa missão. Confesso que foi muitas vezes angustiante ter que tomar sozinha as decisões, mas tenho a alegria da consciência leve e a felicidade de saber que durante esse período, os meus filhos amaram ter a nona deles em casa, apesar de ter mudado toda a rotina, tiveram que deixar de receber amigos à noite, pois se ela acordasse gritaria a noite toda.

Mas agradeço a acompanhante que ficou onze anos e meio conosco, e minha empregada e a faxineira, foram todas, os meus braços direito e esquerdo, tornando minha casa, apesar de tudo, uma família feliz.

               

A polêmica (Conto) - Artur Azevedo



O Romualdo tinha perdido, havia já dois ou três meses, o seu lugar de redator numa folha diária; estava sem ganhar vintém, vivendo sabe Deus com que dificuldades, a maldizer o instante em que, levado por uma quimera da juventude, se lembrara de abraçar uma carreira tão incerta e precária como a do jornalismo.

Felizmente era solteiro, e o dono da "pensão" onde ele morava fornecia-lhe casa e comida a crédito, em atenção aos belos tempos em que nele tivera o mais pontual dos locatários.

Cansado de oferecer em pura perda os seus serviços literários a quanto jornal havia então no Rio de Janeiro, o Romualdo lembrou-se, um dia, de procurar ocupação no comércio, abandonando para sempre as suas veleidades de escritor público, os seus desejos de consideração e renome.

Para isso, foi ter com um negociante rico, por nome Caldas, que tinha sido seu condiscípulo no

Colégio Vitório, a quem jamais ocupara, embora ele o tratasse com muita amizade e o tuteasse, quando raras vezes se encontravam na rua.

O negociante ouviu-o, e disse-lhe:

- Tratarei mais tarde de arranjar um emprego que te sirva; por enquanto preciso da tua pena.

Sim, da tua pena. Apareceste ao pintar! Foste a sopa que me caiu no mel! Quando entraste por aquela porta, estava eu a matutar, sem saber a quem me dirigisse para prestar-me o serviço que te vou pedir. Confesso que não me tinha lembrado de ti... perdoa...

- Estou às tuas ordens.

- Preciso publicar amanhã, impreterivelmente, no Jornal do Comércio, um artigo contra o

Saraiva.

- Que Saraiva?

- O da rua Direita.

- O João Fernandes Saraiva?

- Esse mesmo.

- E queres tu que seja eu quem escreva esse artigo?

- Sim. Ganharás uns cobres que não te farão mal algum.

A essa palavra "cobres", o Romualdo teve um estremeção de alegria; mas caiu em si:

- Desculpa, Caldas; bem sabes que o Saraiva é, como tu, meu amigo... como tu, foi meu companheiro de colégio...

- Quando conheceres a questão que vai ser o assunto desse artigo, não te recusarás a escrevêlo, porque não admito que sejas mais amigo dele do que meu. Demais, nota uma coisa: não quero insultá-lo, não quero dizer nada que o fira na sua honra, quero tratá-lo com luva de pelica.

Sou eu o primeiro a lastimar que uma questão de dinheiro destruísse a nossa velha amizade.

Escreves o artigo?

- Mas...

- Não há mas nem meio mas! O Saraiva nunca saberá que foi escrito por ti.

- Tenho escrúpulos...

- Deixa lá os teus escrúpulos, e ouve de que se trata. Presta-me toda a atenção.

E o Caldas expôs longamente ao Romualdo a queixa que tinha do Saraiva. Tratava-se de uma pequena questão comercial, de um capricho tolo que só poderia irritar, um contra o outro, dois amigos que não conhecessem o que a vida tem de áspero e difícil O artigo seria um desabafo menos do brio que da vaidade, e, escrevendo-o, qualquer pena hábil poderia, efetivamente, evitar uma injúria grave.

O Romualdo, que há muito tempo não pegava numa nota de cinco mil-réis, e apanhara, na véspera, uma descompostura de lavadeira, cedeu, afinal, às tentadoras instâncias do amigo, e no próprio escritório deste redigiu o artigo, que satisfez plenamente.

- Muito bem! - exclamou o Caldas, depois de três leituras consecutivas.

- Se eu soubesse escrever, escreveria isto mesmo! Apanhaste perfeitamente a questão!

E, depois de um passeio â burra, meteu um envelope na mão de Romualdo, dizendo-lhe:

- Aparece-me daqui a dias: vou procurar o emprego que desejas. - A época é difícil, mas há de se arranjar.

O Romualdo saiu, e, ao dobrar a primeira esquina, abriu sofregamente o envelope: havia dentro uma nota de cem mil-réis! Exultou! Parecia-lhe ter tirado a sorte grande!

Na manhã seguinte, o ex-jornalista pediu ao dono da "pensão" que lhe emprestasse o Jornal do

Comércio, e viu a sua prosa "Eu e o sr. João Fernandes Saraiva" assinada pelo Caldas; sentiu alguma coisa que se assemelhava ao remorso, o mal-estar que acomete o espírito e se reflete no corpo do homem todas as vezes que este pratica um ato inconfessável, e aquilo era uma quase traição. Entretanto almoçou com apetite.

À sobremesa entrou na sala de jantar um menino, que lhe trazia uma carta em cujo sobrescrito se lia a palavra "urgente".

Ele abriu-a e leu:

"Romualdo. - Preciso falar-lhe com a maior urgência. Peço-lhe que dê um pulo ao nosso escritório hoje mesmo, logo que possa. Recado do - João Fernandes Saraiva."

Este bilhete inquietou o ex-jornalista.

Com certeza, pensou ele, o Saraiva soube que fui eu o autor do artigo! Naturalmente alguém me viu entrar em casa do Caldas, demorar-me no escritório... desconfiou da coisa e foi dizer-lhe...

Mas para que me chamará ele?

O seu desejo era não acudir ao chamado; alegar que estava doente, ou não alegar coisa alguma, e lá não ir; mas o menino de pé, junto à mesa do almoço, esperava a resposta... Era impossível fugir!

- Diga ao seu patrão que daqui a pouco lá estarei.

O menino foi-se.

O Romualdo acabou a sobremesa, tomou o café, saiu, e dirigiu-se ao escritório do Saraiva, receoso de que este o recebesse com duas pedras na mão.

Foi o contrário. O amigo recebeu-o de braços abertos, dizendo-lhe:

- Obrigado por teres vindo! Estava com medo de que o pequeno não te encontrasse! Vem cá!

E levou-o para um compartimento reservado.

- Leste o jornal do Comércio de hoje?

- Não - mentiu prontamente o Romualdo. - Raramente leio o Jornal do Comércio.

- Aqui o tens; vê que descompostura me passou o Caldas!

O Romualdo fingiu que leu.

- Isso que aí está é uma borracheira, mas não é escrito por ele! - bradou o Saraiva. - Aquilo é uma besta que não sabe pegar na pena senão para assinar o nome!

- O artigo não está mau... Tem até estilo...

- Preciso responder!

- Eu, no teu caso, não respondia...

- Assim não penso. Preciso responder amanhã mesmo no próprio Jornal ao Comércio e, se te chamei, foi para pedir-te que escrevas a resposta.

- Eu?...

- Tu, sim! Eu podia escrever mas... que queres?... Estou fora de mim!...

- Bem sabes - gaguejou o Romualdo - que sou amigo do Caldas. Não me fica bem...

- Não te fica bem, por quê? Ele com certeza não é mais teu amigo que eu! Depois, não é intenção minha injuriá-lo; quero apenas dar-lhe o troco!

No íntimo o Romualdo estava satisfeito, por ver naquele segundo artigo um meio de atenuar, ou, se quiserem, de equilibrar o seu remorso.

Ainda mastigou umas escusas, mas o outro insistiu:

- Por amor de Deus não te recuses a este obséquio tão natural num homem que vive da pena!

Tu estás desempregado, precisas ganhar alguma coisa...

O Romualdo cedeu a este último argumento, e, depois de convenientemente instruído pelo

Saraiva sobre a resposta que devia dar, pegou na pena e escreveu ali mesmo o artigo.

Reproduziu-se então a cena da véspera, com mudança apenas de um personagem. O Saraiva, depois de ler e reler o artigo, exclamou: - Bravo! Não podia sair melhor! - e, tirando da algibeira um maço de dinheiro, escolheu uma nota de duzentos mil-réis e entregou-a ao prosador.

- Oh! Isto é muito, Saraiva!

- Qual muito! Estás a tocar leques por bandurra: é justo que te pague bem!

- Obrigado, mas olha: recomendo-te que mandes copiar o artigo, porque no jornal pode haver alguém que conheça a minha letra.

- Copiá-lo-ei eu mesmo.

- Adeus.

- Adeus. Se o Caldas treplicar, aparece-me!

- Está dito.

No dia seguinte, o Caldas entrou muito cedo no quarto do Romualdo, com o jornal do Comércio na mão.

- O bruto replicou! Vais escrever-me a tréplica!

E batendo com as costas da mão no jornal:

- Isto não é dele... Aquilo é incapaz de traçar duas linhas sem quatro asneiras... mas ainda assim, quem escreveu por ele está longe deter o teu estilo, a tua graça... Anda! Escreve!...

E o Romualdo escreveu...

Durante um mês teve ele a habilidade de alimentar a polêmica, provocando a réplica, para que não estancasse tão cedo a fonte de receita que encontrara. Para isso fazia insinuações vagas, mas pérfidas, e depois, em conversa ora com um ora com outro, era o primeiro a aconselhar a retaliação e o esforço.

Tanto o Caldas como o Saraiva se mostraram cada vez mais generosos, e o Romualdo nunca em dias de sua vida se viu com tanto dinheiro. Ambos os contendores lhe diziam: - Escreve!

Escreve! Eu quero ser o último!

Por fim, vendo que a questão se eternizava, e de um momento para o outro a sua duplicidade podia ser descoberta, o Romualdo foi gradualmente adoçando o tom dos artigos, fazendo, por sua própria conta, concessões recíprocas, lembrando a velha amizade, e com tanto engenho se houve, que os dois contendores se reconciliaram, acabando amigos e arrependidos de terem dito um ao outro coisas desagradáveis em letra de forma.

E o público admirou essa polêmica, em que dois homens discutiam com estilos tão semelhantes que o próprio estilo pareceu harmonizá-los.

O Caldas cumpriu a sua promessa: o Romualdo pouco depois entrou para o comércio, onde ainda hoje se acha, completamente esquecido do tempo que perdeu no jornalismo

Dinheiro fácil - Ises de Almeida Abrahamsohn

 



Dinheiro fácil

Ises de Almeida Abrahamsohn

 

Reinaldo estava atolado em dívidas e à beira da falência. Era gerente de uma locadora de automóveis cujo razoável lucro não era suficiente para seus hábitos. Tudo havia começado quando, há três anos, se tornou amigo de dois clientes ricos e passou a frequentar rodas de pôquer com altas apostas, restaurantes e vinhos caros, prostitutas de luxo e hospedagem em hotéis idem. E, naturalmente, haviam as despesas normais da família que incluía Márcia e os filhos Pedro e Luciano. Márcia trabalhava e contribuía, mas o que tirava no escritório de advocacia não era suficiente. Antes das novas amizades do marido, o casal ganhava o suficiente para ter um bom padrão de vida. Reinaldo sempre se sentiu atraído por luxo. Bem lá no fundo reconhecia que, ao se casar com Márcia, um fator tinha pesado bastante. O sogro, dono de um famoso escritório de advocacia, era muito rico. Riquíssimo e avarento na opinião de Reinaldo. O velho fazia questão de repetir que os filhos, Márcia e o irmão, tinham que trabalhar e fazer o próprio pé de meia. Dinheiro demais empobrece a alma, dizia o velho. Algum dia vocês e meus netos vão herdar minha fortuna, mas ainda tem tempo. Márcia nunca fora acostumada a luxos e não sentia falta do dinheiro do pai.

Reinaldo, desesperado por dinheiro vivo, sabia que não adiantaria pedir ao sogro. O sovina ia querer saber os motivos do empréstimo e investigaria a situação da locadora se ele inventasse uma possível expansão do negócio. Já havia pensado e repensado em vários estratagemas para arrancar o dinheiro do velho. Nenhum daria certo. Estava no escritório tarde da noite verificando apólices de seguro quando tocou o telefone. Era um dos malditos agiotas. O cara já tinha ligado no dia anterior. Queria pelo menos parte do empréstimo, trezentos mil para ser exato. Agora ameaçava executar a dívida tomando a loja. Seria o fim de tudo, pensou. Da loja, do casamento, e ainda ficaria devendo na rua da amargura.

Foi quando lhe veio a ideia de como poderia extrair grana do sogro e resolver todos os problemas. Um falso sequestro. Genial, pensou. O velhote não iria se negar a pagar o resgate de um neto. Ficou pensando, qual dos dois meninos. Acabou optando por Luciano que tinha cinco anos. O outro, de oito, seria mais difícil. Precisava achar alguém disposto a capturar o menino  e mantê-lo escondido até o pagamento do resgate. Era uma chateação inevitável mas tinha que ser. Lembrou do Carlão da oficina de conserto dos automóveis que sempre se queixava da falta de grana e de como a mulher o atazanava para comprar um apartamentinho. Sim, o Carlão era o cara certo. Podiam ficar com o garoto uns dias na casa em que moravam num bairro distante no Embu. Pediria resgate de dois milhões e aí se livraria da maior parte das dívidas. Pensou até em pedir mais, mas quantias muito maiores o sogro teria dificuldade em mobilizar rapidamente. Dois milhas é café pequeno para ele.

Dia seguinte, foi procurar o Carlão. O rapaz estava hesitante. Ofereceu dar cem mil pelo serviço. Era grana suficiente para comprar o sonhado apê da Lindalva, ou pelo menos para a entrada. Não haveria risco, assegurou Reinaldo. Você fala para ela que é o filho de um amigo, a mãe está muito doente e a criança não tem com quem ficar. O menino vai ficar no máximo uns dois , talvez três dias com vocês.

Finalmente acertaram o plano. Carlão pegaria Luciano quando estivesse indo para a aula de natação. Todas as terças feiras por volta das três da tarde o garoto e a babá caminhavam até a escolinha que ficava a alguns quarteirões da casa.

No dia combinado lá estavam os dois, Reinaldo na direção e Carlão ao lado, no Fiat verde do mecânico à espera de Luciano e da babá. A combinação era que Reinaldo, vestido com um macacão escuro e usando uma balaclava apenas guiaria o carro sem abrir a boca. Carlão pegaria o garoto dizendo para a babá que era o novo motorista da avó e que ia levar Luciano para passar a tarde na casa dela. Reinaldo ficaria no carro esperando numa rua lateral. Quando chegassem perto da casa do mecânico, este sairia com o menino e Reinaldo voltaria com o carro para a oficina.

O esquema funcionou com alguns percalços. Antes que a babá conseguisse ligar pelo celular para casa, o rapaz pegou o garoto pela mão com a promessa de que iriam ao zoológico com a avó. Caminharam rápido. O Carlão puxando o garoto pela mão. Ao dobrarem a esquina levantou o garoto e carregou-o no colo até o carro. Rápido, cara, que a babá tá vindo atrás. O carro arrancou e na rua seguinte misturou-se ao tráfego. No banco de trás, Carlão repetia ao garoto que logo chegariam à casa da avó. Mas o garoto estava desconfiado, perguntou por que o motorista tinha aquela máscara preta e disse que queria ir para casa. Carlão deu-lhe um copo com coca cola e um saquinho de batata frita. Luciano adormeceu ao comer as primeiras chips. Ao avistar a casa, Reinaldo parou o carro e Carlão carregou o garoto adormecido até a entrada.

A mulher estranhou. Quem é esse garoto ? Por que está dormindo assim?

Carlão repetiu a mentira combinada para Lindalva, que não pareceu convencida. Ajeitaram o menino no pequeno sofá em frente à televisão. A mulher insistiu:

Carlão, essa história está mal contada. Que amigo é esse? As roupas dele são de marca. Que eu saiba você não tem amigos ricos. O que acontece ?

Depois de outras perguntas que Carlão não conseguia responder, finalmente cedeu e desembuchou.

Lindalva, aguenta aí . Você não quer o apartamento? É a nossa chance. Só temos que ficar com o garoto por alguns dias. O cara vai pagar cem mil.

A mulher retrucou nervosa:   Isso é crime , Carlão. Não vai dar certo vamos sair dessa. Esquece o apê. Liga para a casa do cara e fala que você vai levar o garoto lá e que o trato tá desfeito. Mas Carlão não queria saber e ameaçou. O menino vai ficar por bem ou por mal. Vou pegar essa grana fácil.

Lindalva perdeu a paciência e avançou sobre o marido para arrancar-lhe  o celular e descobrir a última chamada . O homem, possesso, revidou um safanão que a atirou ao chão. Curvou-se sobre ela: E vai ter mais, Lindalva. Cala a boca senão vai levar mais porrada. Não vou desistir agora.

A mulher levantou a custo e, com a boca sangrando, cambaleou até o banheiro. Trancou, lavou o rosto e ficou sentada até Carlão parar de esmurrar a porta e ela se acalmar. Vai ver ele tem mesmo razão . Pode dar certo. Vou cuidar bem do menino. É a nossa chance de sair desse buraco aqui longe de tudo. Sempre sonhei com um apartamento meu perto de condução e comércio. Não aguento mais pegar dois ônibus e trem para trabalhar. Qualquer coisa eu aviso a polícia e tiro o corpo fora. Que se dane o Carlão.

Quando Lindalva abriu a porta, o marido já tinha saído. Na sala o garoto ainda dormia pesadamente. Coitado, quando acordar vai ser um Deus nos acuda. Nem o nome dele eu sei. E quando acordar vai ser de noite. É capaz de eu estar sozinha. O Carlão vai ficar na oficina até bem mais tarde. Bem do jeito dele, deixar o problema para eu resolver. Quando o menino acordar vai estar com fome. Preciso fazer alguma coisa para ele. É filho de gente rica... Que será que ele come? Eu tenho arroz e feijão. E também tem ovo. Vai ser isso. Meus sobrinhos adoram arroz com ovo. Acho que toda criança gosta.  E não tenho mais nada. E vai tomar água. Limonada ainda dá pra fazer. Mas suco, esquece. Não posso sair e deixar ele sozinho.

Às seis da tarde Luciano ainda dormia. Lindalva nervosa andava de um aposento para outro da minúscula casa. A cada minuto olhava a sala. Limpou duas vezes o chão já limpo dos dois quartos, e arrumou a cozinha. O arroz e feijão estavam sobre o fogão e na mesa um prato para o menino. Pensou em ligar a TV. Não posso fazer barulho, pensou. E se os pais já tiverem avisado a polícia ? Vai sair no noticiário das seis.

Decidiu-se por ligar o rádio baixinho na cozinha. Estava na hora da benção das seis. Ficou mexendo na sintonia do velho rádio da cozinha. Era um hábito seu mesmo agora que tinha celular. Todas as tardes, ao fazer o jantar, ligava na hora da ave-maria. Ficou mexendo na sintonia procurando notícias. Escutou até as sete, o cardápio habitual de crimes da grande cidade , mas nada de sequestros. A polícia mantinha segredo até resolver os casos. É isso, pensou Lindalva.

Ouviu um gemido vindo da sala. O menino acordava. Mexia a cabeça e resmungava algo que ela não conseguia entender. Até que abriu bem os olhos e gritou pela mãe. E pelo pai e por alguém chamado Célia. Devia ser a irmã ou talvez babá, pensou. Levantou dum pulo e gritou que queria ir para casa e queria ir ao banheiro. Lindalva pegou–o pela mão para mostrar o banheiro, mas o garoto se assustou, deu-lhe  um pontapé e saiu correndo. Logo em frente era o banheiro. O garoto fechou a porta e ela ouviu a descarga. Tentou abrir, mas o menino fazia força contra a porta e gritava que queria sair e ver a mãe e o pai. A mulher não sabia o que fazer. Sorte que a porta não tem chave por dentro, pensou. Decidiu deixar o garoto lá mesmo até ele cansar de gritar. Ela teria mesmo de trancá-lo em algum lugar. Não tinha forças para ficar lutando com o menino. E ele podia  se machucar e, se escapasse para fora da casa, era um breu em volta até uns 500 metros onde tinha o primeiro poste de luz. Ficou ali agarrada ao trinco enquanto o menino gritava e chorava. Finalmente, rouco, parou e pediu para sair. Quero telefonar para minha mãe. Cadê seu celular ? Tô com fome. Quem é você?

Ainda tentou dar uns socos e pontapés em Lindalva, mas ela lhe prometeu que, se parasse, poderia comer e depois ligar para a mãe. Luciano desconfiado resolveu seguir até a cozinha. Comeu arroz com ovo frito e bebeu água.

Ao terminar de comer o menino voltou à carga. Queria telefonar. Lindalva disse que não tinha telefone, o marido tinha levado, mas o esperto garoto logo rebateu que era mentira. Tentava gritar mas, de tão rouco  só saiam uns grunhidos. Corria pela casa tentando achar uma saída. Todas as portas estavam trancadas. Para alcançar os trincos das  venezianas das janelas, empurrou uma cadeira e passou a esmurrar as janelas. Lindalva falava que não tinha ninguém lá fora para ouvir e já tinha desistido de correr e de tentar conter o garoto. Alguma hora há de cansar e parar.

De fato, foi o que ocorreu. Quando seu marido chegar vou pegar o telefone e falar com minha mãe e meu pai, avisou Luciano, ao se atirar no pequeno sofá da sala. Estou com sede. Você não tem Toddy aí? Essa hora eu sempre tomo um copo e vejo desenho na TV antes de dormir. E estou com frio. Lindalva disse que tudo bem. Não tinha Toddy mas tinha chocolate, que era a mesma coisa, e ia preparar o leite para ele. Pegou um cobertor e ligou a televisão. Com o barulho da TV, o menino não a ouviria falar ao telefone. Avisou que iria ao banheiro.

Lá dentro, Lindalva pegou o aparelho na bolsa pendurada atrás da porta e ligou o chuveiro. Carlão demorou para atender. A mulher insistiu que o plano não ia dar certo. Não conseguia controlar o menino e se ele saísse correndo pelos ermos, aí é que a coisa complicava. O marido retrucou que agora tinham que prosseguir. Pense no apê, Lindalva.... Para acalmá-la falou que ia conseguir  algum calmante com o pai do garoto, e então seria mais fácil controlar a fera. Te ligo daqui a pouco. Fica fria aí! Daqui pouco levo o remédio.

Ao sair do banheiro, a moça viu com alívio que  Luciano tinha adormecido. Baixou um pouco o volume da TV e foi sentar na cozinha. Depois de meia hora ligou para o marido. E aí, Carlão , conseguiu o remédio?

Mas o mecânico não tinha o remédio e estava nervoso ao telefone. A mulher sabia que quando ele começava a gaguejar era porque estava realmente fora do controle. Tinha ligado para o pai do menino que ficou histérico com a ligação e desligou o telefone antes que ele pudesse falar. Disse que não podia ter contato, que a polícia podia  verificar as chamadas e chegar ao Carlão e tudo estaria perdido. Tinha enviado um WhatsApp para Reinaldo explicando a urgência do calmante, mas este não respondeu e bloqueou o número. 

Lindalva do outro lado estava cada vez mais nervosa. Chega, Carlão. Vamos devolver o menino. Você vem cá e levamos ele de carro. Deixamos em frente da casa dele e sumimos. Você sabe onde é! Já foi levar algum carro na casa deles.   

Mas Carlão não queria ouvir falar. Chegou em casa passada meia noite e sem o calmante. Lindalva estava fora de si. Colocaram o garoto num colchonete no quartinho ao lado do quarto do casal e bloquearam porta. Ela pegou o celular para ligar para a polícia, mas o marido deu-lhe mais uns safanões e se apossou do aparelho. Disse que se o menino acordasse ia amordaçá-lo e de manhã iria conseguir a p....  do calmante. Lindalva exausta deitou na cama do casal. O marido ficou vigiando. De olhos fechados, com o lábio sangrando e o rosto inchado ela pensava em como sair dessa sem que o garoto sofresse mais. Adormeceu por algumas horas. Quando acordou percebeu que o marido tinha saído com o carro. Entreabriu a porta do quartinho. O menino dormia. Eram cinco da manhã. Começava a clarear.

Lindalva aprontou leite com chocolate para quando ele acordasse. Ela mesma tomou café e um pedaço de pão. Teria que agir rápido. Acordou o garoto que logo começou a chorar. Luciano, vou levar você para casa. Mas você precisa ajudar. O Carlão levou o carro, é muito cedo, então a gente vai ter de ir na bicicleta até a estação de trem. O garoto parou de chorar para dizer que não sabia andar de bicicleta, mas a moça explicou que ele iria sentado no cano e que precisava ficar bem quieto para ela poder guiar. Fazia frio e Lindalva fez o garoto vestir um velho casaco seu. Depois dos primeiros quinze minutos sentado no cano duro da bicicleta e passada a novidade o menino começou a reclamar e a choramingar. Estavam quase chegando na estação quando apareceu um carro da polícia. De dentro saíram dois policiais, um homem e uma mulher ambos  de arma em punho. Largue a criança, gritou um. Senão vou atirar. Lindalva, aterrorizada parou e empurrou Luciano na direção do policial. Só depois, percebeu Carlão algemado no banco de trás. Gaguejando disse que estava levando o garoto para casa. Que não tinha nada a ver com o caso. Que era  mulher do Carlão e que ele apareceu com a criança para ela cuidar e quando quis telefonar tinha apanhado e mostrou o rosto  inchado e marcado. Algemada, Lindalva foi empurrada para o banco de trás do carro.  A policial com o garoto assustado no colo sentou entre os dois. Vamos para a delegacia, avisou ela e não quero conversa aqui no carro. Na delegacia, esperavam a mãe e o tio do menino para levar o garoto para a casa da avó. Ali Lindalva acabou escutando como a polícia tinha chegado ao Carlão. Alguém tinha anotado a placa do carro e ligado para a polícia. Um garçom de um bar próximo desconfiou do fiat parado com motor ligado cujo motorista rapidamente cobriu o rosto quando um homem carregando um menino entrou no carro que partiu a toda velocidade.

Antes de ser empurrada para um quartinho sem janela, Lindalva ainda gritou para  mãe do garoto. Eu cuidei bem  do Luciano. Estava trazendo ele de volta.... Depois ficou lá, isolada, sem saber mais o que acontecia. Cansada, sentou no chão apoiada na parede e começou a rezar. Tinha que provar que não tinha nada a ver com o sequestro. Se não era cadeia na certa.

Fora do quartinho, na delegacia os policiais combinavam com o avô do menino como pegar Reinaldo em flagrante. O avô tinha recebido na noite anterior um bilhete com o pedido de resgate e as instruções onde entregar encontrar o neto e depositar o dinheiro. Como Reinaldo saíra cedo de casa, fingindo-se de desesperado, nem atinava que Luciano àquela hora já estava são e salvo na casa da avó.

Lá pelas cinco da tarde soou o telefone. Era Reinaldo. Queria combinar o lugar da troca. A sacola com dinheiro pelo neto. Marcou encontro na estradinha escura que levava à casa de Carlão, perto de uma construção abandonada. Ficaria num carro sem placa, o velho atirava a sacola e ele, depois de conferir o dinheiro, avisaria o Carlão para deixar o garoto em algum ponto da cidade e ligar para a mãe com a localização.

Tudo perfeito. Não podia dar errado. E sem polícia. O velho não ia arriscar meter a polícia no meio.

       Onze da noite, Reinaldo ansioso esperava no carro, luzes apagadas. Até agora tudo certo. Tinha ligado há duas horas para o Carlão. Sim, ele estava com o menino. Perguntou se dormia. Claro. Tive que arrumar um calmante pro seu filho. Cê acha que ele ia ficar quietinho? Foi sacanagem você não ter arrumado. Tive que sair pedindo por aí. Dei metade do comprimido de dormir da minha irmã e ele dormiu na hora. Escuta aqui! Eu quero a minha parte amanhã mesmo, em dinheiro. Nada de banco.

       Pouco depois Reinaldo viu o carro do sogro se aproximando. Farol baixo como combinado. O sogro saiu do carro e gritou Cadê o menino?

  Joga o dinheiro,  e vai embora. O menino tá bem, gritou Reinaldo disfarçando a voz abafada pela balaclava. Pouco depois o saco de dinheiro aterrissou no meio da estrada.

Ao ver o carro sumir na escuridão, Reinaldo, moveu a lanterna pelas moitas próximas. Nada, silêncio absoluto. Abriu a porta do carro e andou os poucos passos que o separavam do sucesso. Ofegava e sentia o barulho do próprio coração quando se abaixou para agarrar o saco com a grana. Pesado...tinha os dois milhões ali. Sua salvação. O velho nem regateou. Beleza, foi fácil, congratulou-se. Ergueu-se com o saco e virou-se para voltar ao carro.

Não chegou até a porta. Quatro intensos fachos de luz e o grito de “Pare ou leva chumbo” o imobilizaram. Não parou. Apertou o saco contra a barriga e correu. Ainda ouviu um segundo “Pare” antes de cair com a dor da primeira bala na panturrilha. A segunda atingiu o tórax. Caiu de lado. Não conseguia mais respirar, a dor era intensa. Ainda teve força para se virar. Sentiu a chuva fina molhar o rosto antes de morrer.

Epílogo: Carlão foi condenado a cinco anos em regime fechado. Lindalva pegou um ano em regime aberto e se separou do marido. Vive com a irmã e continua a sonhar com um apartamento só para ela.