OS ENCONTROS SECRETOS DE BRITO - Antonia Marchesin Gonçalves

 




OS ENCONTROS SECRETOS DE BRITO

Antonia Marchesin Gonçalves

 

 

             Nunca pensei em passar por essa situação, pensou Brito. Nos meus 35 anos sempre tive varias paixões, mas com o tempo diluía a paixão, acabava se tornando uma boa amizade. Mas agora está totalmente diferente. Conheci Marcela numa festa do escritório em comemoração a uma concorrência super difícil, que ganhamos e o lucro dividido para a empresa e funcionários, bilhões de dólares. Foram meses de articulações que foram gastos e desgastantes.

             Estava eu conversando com amigos quando vi entrar no salão o presidente da empresa com a esposa. Bem mais jovem que ele e linda, me impactou. Após o discurso do presidente revelando o quanto ganharíamos, como responsável pela negociação, sabia que ia me dar bem, com o bônus de direito. Naquela mesma semana me dei ao luxo de conquistar o meu sonho, comprar o chalé nas montanhas que namorava fazia meses, entrei em contato com a corretora e soube que não tinha sido vendido ainda, feliz comprei.

              Ele tinha que ser meu. Nas férias de Natal passei dois meses reformando e explorando mais o entorno, descobri um riacho natural, não muito fundo, mas o suficiente para não atravessar-lo a pé. Aí tive a idéia de fazer uma ponte rústica, com troncos de árvores e madeira que havia sobrado da casa e adornei com vegetação nas beiradas, o que complementou o visual. Na primavera voltamos ao trabalho, todos com saudades uns dos outros, felizes por voltar. Um dia depois fui chamado na presidência e lá estava ela junto ao marido, balancei, senti  meu coração batendo tão forte, que parecia que ia sair pela boca.

             Ele havia me chamado para que o novo ano da empresa, fizéssemos melhores negociações para o bem de todos. Saí da sala vermelho como um pimentão com o coração disparado, ao sair fui para minha sala sentei-me para recuperar o fôlego e em seguida entrou Cilene minha secretária, assustada com um copo de água que bebi como se tivesse vindo do deserto. Curiosa perguntou-me se eu havia sido despedido, com calma e um não, disse que estava tudo bem. Já passados alguns dias e Marcela não saia de minha cabeça. Estava quase chegando ao prédio do escritório quando na calçada dei de encontro com Marcela, tentei fingir não vê-la, mas ela veio ao meu encontro me cumprimentou e perguntou se eu estava indo para o escritório, vamos juntos pegar o elevador.

             Minhas pernas estavam bambas mal conseguia andar, chegando o elevador entramos e o perfume que emanava era divino, tenho certeza que nunca mais ia esquecê-lo. Para o meu desespero, ela passou a vir na empresa quase todos os dias, eu mal conseguia trabalhar. O envolvimento da presença dela não me deixou perceber que o presidente estava emagrecendo, meu colega me alertou.

            

             Alem de emagrecer ele parecia estar passando para ela o funcionamento da empresa. E não deu outra, uma semana depois ele reuniu todos para falar do seu afastamento por motivo de saúde grave, que Marcela tinha toda a capacidade para tomar seu lugar no comando por tempo indeterminado. Todos desejaram para que tudo corresse bem. Meses depois ele acabou falecendo, era um câncer avançado que não puderam operar, nem a quimioterapia rescindiu. Após o funeral Marcela reuniu todos em sua casa para agradecer a presença e pediu uma semana de luto e depois tudo voltaria ao normal. Pediu a colaboração de todos. Assim foi, tentei me recuperar do baque, mas ao mesmo tempo no fundo, comecei a ter esperanças de um dia conquistá-la.

             Fiz algumas sessões de terapia, para tentar dominar o amor que nutria, assim pude trabalhar com mais equilíbrio emocional, trabalhando dando o melhor para não deixar transparecer os meus sentimentos. Passou um ano e nem senti, a minha admiração por Marcela aumentava cada dia, em função dela ser realmente uma ótima profissional. Na festa do fim do ano, fizemos a confraternização e aí tive a chance de conversarmos com mais tranqüilidade, nem percebemos que passamos o tempo todo juntos, pois a conversa fluía, nem sentimos as horas.

             Comentei com ela sobre o meu chalé nas montanhas e da pequena obra da passarela que havia feito, para minha surpresa ela gostaria de conhecer, na mesma hora a convidei para passar o fim de semana. Não acreditei, ela aceitou, mas pediu para não comentar na empresa pelas normas e por sua posição, não era ético. Ansioso, marcamos na sexta em minha casa o ponto de encontro, estava frio, ela maravilhosa, calça, tênis, mantô e touca de lã na cabeça. Chegou com uma simplicidade sublime. Ao chegarmos ao chalé, achou lindo e a instalei no quarto de hospedes, fiz um pequeno almoço, tomamos um vinho para aquecer com a lareira acesa, deixou o ambiente propicio para nos descontrair, eu queria parar o tempo.

             Acabado o almoço perguntou-me sobre a tal passarela. Bem agasalhados fomos ver a minha obra. Ela se encantou por tudo, ainda a vegetação nela não estava queimada pelo frio e fazia contraste com a o tom amarelo da mata por estarem secas. Não preciso dizer que voltamos todos os fins de semana, após finalmente me declarar e ter a felicidade de saber que ela compartilhava o mesmo sentimento. Mantivemos os encontros secretos até o dia em que a pedi em casamento e fui aceito, para a nossa felicidade.                   

NUNCA TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS - Oswaldo U. Lopes

 






NUNCA TANTOS DEVERAM TANTO A TÃO POUCOS

NEVER HAVE SO MANY OWED SO MUCH TO SO FEW

Oswaldo U. Lopes

 

        Aprendemos desde cedo que a pena é mais forte do que a espada. Temos e tivemos em alguns casos dúvidas a respeito do fato e de suas consequências. Às vezes é preciso esperar um pouco para ver o fato virar realidade, mas nem sempre nossas convicções aceitam aguardar o tempo necessário para que isso ocorra.

        Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, ficou famoso por dizer e escrever: “Vencereis, mas não convencereis, tendes a força, mas não a razão”. A fala foi endereçada aos franquistas e custou-lhe o exílio em sua própria casa. Como sabemos ele morreu (1936) antes de ver o franquismo acabar, com a morte de Franco em 1975.

“Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vocês estão profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta em meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque possuis a força bruta de sobra. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir precisam de uma coisa que lhes falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-lhes que pensem na Espanha”.

        O nazismo varreu a Europa de 1939 a 1945, como sabemos com a força da espada, aqui representada pelas botas, metralhadoras e blitzkrieg (guerra – relâmpago), a rendição deles, como era de esperar foi assinada com canetas, a pena mais uma vez confrontando a espada.

        Não sei quantos repararam, mas no enterro (1965) de Winston Churchill, o caixão foi colocado sobre uma carreta que era puxada por marinheiros, segundo a tradição, porque ele foi Lorde do Almirantado.

         Na frente do cortejo, porém destacava-se uma fila de doze homens, alguns fardados, outros não, que eram pilotos sobreviventes da RAF (Royal Air Force).

Detachment of Battle of Britain Aircrews – The Royal Air Force – como era possível ler no folheto que detalhava o enterro.

        Eles haviam lutado na famosa Batalha da Inglaterra. Estavam ali homenageando o falecido que, com palavras, havia erguido o maior monumento possível aos jovens aviadores que haviam duramente combatido nos céus da Inglaterra e no canal da Mancha.

Never in the field of human conflit was so much owed, by so many to so few”.

        Estas palavras também foram imortalizadas em bronze e podem ser vistas as margens do Rio Tamisa, em Londres, no monumento erguido em homenagem aos queridos heróis da Batalha da Inglaterra.

        É um caso atípico em que, memoravelmente, a pena se juntou a espada e o resultado foi e ainda é impressionante.

       

Uma história real - Ledice Pereira

 



 

Uma história real

Ledice Pereira

(os nomes foram alterados, por razões óbvias)

 

Eu me lembro muito dela. Terezinha seria uns quinze anos mais velha do que eu. Irmã de Julieta, uma grande amiga de minha mãe. Frequentava muito nossa casa. Era baixinha, gordinha, meio infantil. O cabelo não era ralo e liso como o da irmã e o da mãe. Hoje, eu diria que ela possuía  o cabelo do tipo black power. Mas como o pai era um tipo caboclo, essa diferença entre as irmãs era aceita normalmente. Elas tinham também um irmão, Jorge, mais novo do que Terezinha que, por sinal, era um bon vivant. Não queria nada com o batente. Ao contrário de Terezinha, tinha traços da mãe, do pai e da irmã mais velha. Era bonito, simpático e galanteador e vivia cercado de jovens garotas casadoiras.

A diferença de idade entre as duas irmãs era de uns quinze anos, ou mais. Como a mãe fosse uma senhora bem mais idosa e doente, Julieta, que nunca se casou, fazia o papel maternal, cuidava, vestia, mimava, zangava e educava Terezinha.

Para mim, criança, estava tudo bem. Fui crescendo com a presença constante delas à nossa volta. Viajamos juntas, almoçávamos frequentemente na casa uma da outra. Enfim, éramos muito próximas, tanto que eu chamava Julieta de tia.

Os anos se passaram e um dia, eu adolescente, entrei na sala durante uma conversa que minha mãe tinha com uma prima. Elas comentavam que Terezinha era adotada. Aquilo caiu em mim como uma bomba. Durante vários dias e noites pensei no fato. Ao mesmo tempo, comecei a perceber e entender as diferenças, um certo atraso mental, as dificuldades que tia Julieta tinha para conduzi-la, o jeito infantil, apesar da idade. Por outro lado, notava o amor e a paciência que todos, pais e irmãos, tinham com ela.

Com trinta e poucos anos, Terezinha conheceu um rapaz por quem se apaixonou e de quem engravidou. A notícia pegou a todos de surpresa e foi difícil lidar com a situação, mas não havia o que fazer. O tal namorado, nem preciso dizer que sumiu. E Terezinha teve que levar adiante a gravidez, para a qual ela não estava nem um pouco preparada física e psicologicamente.

Tia Julieta, que era muito prática, tratou de fazer o enxoval do bebê e de organizar tudo para recebê-lo. O bebê, que nasceu com a cara da mãe, foi cercado de todos os cuidados e carinho.

Terezinha até se saiu bem na nova função dedicando-se de corpo e alma àquela criaturinha. Mas, esqueci de contar que ela que já sofria de asma, passou a ter frequentes crises que a deixavam sem ar. Quando o pequenino Thomas estava com dois anos, numa dessas crises, Terezinha veio a falecer.

Tia Julieta tinha então cinquenta e poucos anos, a mãe, oitenta e tantos e ficou com elas a tarefa de criar o sobrinho e neto.

Aproximadamente, um ano depois, numa conversa, tia Julieta deu a entender que, face à idade dela, seria bom se alguém adotasse o sobrinho. Eu que, a essa altura, já estava casada e tinha dois meninos, um de seis e outro de quatro, cheguei seriamente a pensar em adotá-lo. Conversamos muito em família, inclusive com os meninos e com nosso pediatra, tendo decidido pela adoção.

Tia Julieta veio passar um fim de semana em casa. O menino gritava por qualquer coisa. Mimado, estava tão mal acostumado que não queria comer nada, custou a dormir, teve acessos de raiva.

Se por um lado, nós ficamos temerosos de assumir aquela criança, a tia propôs de vir junto morar conosco. Não conseguiria separar-se do pequeno. E para nós, não havia a menor condição de tê-la também conosco. Seria difícil educá-lo, com as normas que eu já impunha aos meus, tendo ao lado alguém para deseducá-lo. O assunto morreu ali. Nunca mais falou-se no assunto.

Anos depois, tia Julieta faleceu, deixando a incumbência para os velhos pais. Eu soube que quem acabou cuidando do sobrinho foi Jorge, que depois de um casamento conturbado e o nascimento de um casal de gêmeos, divorciou-se.

Há pouco tempo, nas redes sociais, encontrei Thomas. Ele continua parecidíssimo com a mãe. Está formado e vive no interior. Expliquei quem eu era e contei-lhe que a tia me deu uma pulseira, pertencente a Terezinha, que deveria ficar com ele. Na verdade, eu nunca tive coragem de usar por julgar que não tinha merecimento. Ele disse que quando vier a São Paulo virá pegar essa lembrança. Não quis que eu mandasse por correio pois temia que pudesse extraviar.  

 A vida é uma jornada cheia de surpresas, desafios e provações.


 

UM SEQUESTRO QUE ACABOU DIFERENTE, DE FATO? - Oswaldo U. Lopes

 


 

Como foi o caso:

Pais: África do Sul

História: Uma adolescente de 17 anos de repente descobre que é adotada.

Resumo da ópera:

A menina chamou a atenção de uma colega por certa semelhança com os familiares dela. Levada à presença destes descobriu-se que ela era o bebê que foi sequestrado ainda na maternidade, com três dias de idade e do qual nunca mais se tivera noticias.

        Exames de DNA confirmaram que de fato ela era filha destas pessoas. A mãe que a criou foi presa e julgada por crime de sequestro e condenada a 10 anos de prisão.

         Ela sempre negou o fato e alegava que um casal havia lhe entregue o bebe e desaparecido a seguir. A acusação conseguiu reunir evidências de que ela era frequentemente vista na maternidade, na ala onde ficavam os bebes. Provou-se ainda que se tratava de uma mulher que tivera vários abortos espontâneos e que não conseguira, por isso, concluir uma gestação.  A mesma, porém, nunca revelou à menina o fato dela não ser sua mãe biológica nem sua situação que equivalia a uma adoção.

        É curioso, os psicólogos constataram que a maioria das crianças, numa certa fase da vida tem dúvidas do tipo, fui adotada ou não?

        A dúvida é devidamente esclarecida pelos pais biológicos e desaparece. Os esclarecimentos variam, mas são frequentes respostas tais como:

1 – Não me amole, tá!

2 – Vê se não me enche o saco que eu tenho mais o que fazer.

3 – Você acha que se eu fosse adotar alguém ia escolher uma pessoa que nem você?

4 – Ai meu Deus, você me inventa cada uma.

        Estas respostas carregam uma certeza e uma assertiva gestual que são suficientes para dar a criança total segurança quanto a sua origem, por mais estapafúrdio que isso possa parecer.

        No caso de se tratar de uma criança adotada, mas que não foi previamente informada desse fato, a resposta é evasiva e de gestual impreciso. Por fim acabam revelando a situação gerando desconforto e uma necessidade premente de saber quem são os pais biológicos.

        À vista disso, os mesmos psicólogos recomendam que o fato seja devidamente informado, ao interessado ou interessada, na mais tenra idade, quando estes já são capazes de compreender e entender o que é uma adoção.

        No caso relatado o que chamou a atenção do público e da imprensa foi que a adolescente em questão não se interessou pelos ditos pais biológicos e queria continuar ligada à sua mãe e pai de criação, tanto que a visitava com certa frequência na prisão, enquanto vivia com seu pai de adoção que fora inocentado das acusações de sequestro.

        Consultados os da área psicológica não se espantam e contestam que isto ocorre na maioria dos casos. Apesar dos esforços e das tentativas, a aproximação com os pais ou pai biológico não é frutífera nem duradoura.

        Explica-se, o ser humano é dentre as diferentes espécies animais uma exceção, sendo de longe, o que mais requer assistência e acompanhamento por vários e vários anos. Dependendo da cultura e costumes, isto pode ir até a adolescência ou até mais tarde.

        Durante todo este trajeto é a mãe a fonte mais firme de conhecimento e experiência no que é complementada, mas não substituída pela escola.

        Isto cria laços muito fortes e permanentes entre a figura materna e a criança seja ela adotada ou não.

        Apesar da especificidade da espécie humana, Lorenz, prêmio Nobel de Medicina 1973, por seus estudos de comportamento, conseguiu, substituir a figura da pata mãe e passou a ser seguido pelos patinhos, por ser a primeira figura que eles viam ao nascer.

        No caso em pauta não vale invocar a Síndrome de Estocolmo. Este comportamento é visto quando no caso de um sequestro, a maioria das vezes de um adulto e com longa duração, estabelece-se uma relação afetuosa entre o sequestrado e seu sequestrador ou sequestradores.

        É possível que no futuro possa-se reconhecer algum tipo de conexão entre a Síndrome de Estocolmo e a adoção, mas no momento não temos esse tipo de informação. Longos e tortuosos são os caminhos da ciência. Da psicologia, então, nem se fale.

O GUARDIÃO DA PAZ - Suzana da Cunha Lima

 


O GUARDIÃO DA PAZ

Suzana da Cunha Lima

 

Ano de 2040.

A Terra à beira de um desastre apocalíptico.  O aquecimento global derretia geleiras, aumentava enormemente o volume de água dos mares, já havia alagado quase toda a orla marítima. A camada de ozônio tinha desaparecido e os raios do sol chegavam sem filtro, com toda sua luz mortífera. Assim, não havia mais chuva nem água potável.   Os desertos cresciam assustadoramente. Em pouco tempo haveria fome, lutas por terra e água e certamente guerra.

Os humanos eram governados por um colegiado composto pelos seus principais dirigentes.  Mas ninguém queria abrir mão da energia poluidora nem de seus artefatos nucleares, pois se sentiam ameaçados agora, por países que anteriormente eram seus satélites.

Ariel de nada sabia disso.  Acabara de ganhar seu feixe de luz como o mais novo Guardião do Universo. Era uma honra e tanto para um jovem que saíra há pouco de sua adolescência cósmica. Mal sabia que ganharia uma missão espinhosa. Havia um minúsculo planeta na periferia de uma pequena galáxia que estava construindo elementos radioativos, sem possuir conhecimento adequado de como manej­á-los.  E agora, um tsunami explodira uma usina nuclear importante.  O vento radioativo estava levando uma nuvem de radiação perigosa para todo o planeta e até o eixo da Terra fora afetado, interferindo  no tempo de sua rotação e em tudo mais no perfeito e delicado equilíbrio de seu sistema e de todo o Universo.

Ariel era um Guardião jovem, e como todos os Guardiões, tinha habilidades muito especiais. Seu cérebro tinha uma capacidade quase ilimitada de guardar e processar dados e ainda de oferecer soluções e alternativas em segundos.  Só se diferenciava de uma máquina porque não era imortal.  Podia viver muito, muito tempo, porém a radiação podia desintegrá-lo para sempre. Era um investimento precioso demais para permitirem isso, daí a razão da preocupação dos Conselheiros quanto à energia atômica.

Ariel foi instruído e capacitado para esta missão. Ele ajustou o tempo para chegar ao Japão no exato momento do tsunami e da explosão. E depois avançou no futuro para o ano de 2040, quando parecia que não haveria mais condição de vida num planeta seco, estéril, esfacelado por muitas guerras sem sentido e pelas irresponsabilidades de seus dirigentes.

Ficou olhando aquela desolação, terra calcinada onde nada mais brotava e imaginou onde estariam seus habitantes.  Seu olhar de Raio X atravessou o chão e notou alguns humanos vivendo em buracos e cavernas, como animais, lutando uns contra os outros na busca desesperada por água , tentando ficar fora da tremenda radiação solar.  Não  durariam muito. As doenças, a falta de água e alimentos, a crueldade e egoísmo haveria de aniquilar todos, com muito sangue, crueldade, miséria e dor.  

Seu cérebro digeriu aqueles dados todos e chegou a conclusão de que não havia mais o que fazer. Aquele planeta não merecia misericórdia e estava pondo em risco sua galáxia.  Sabia que tinha que destruí-lo de modo a não prejudicar os outros planetas da galáxia. Não titubeou. Em muito pouco tempo a Terra foi engolida por um buraco negro e desapareceu para sempre. A lua foi junto, mas os outros planetas se reagruparam de modo harmonioso e a paz voltou a reinar na galáxia.  Paz que também custou a vida do jovem e heroico Guardião.

JOE O MARUJO - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


JOE O MARUJO

Antonia Marchesin Gonçalves


 

                No século XIX o meio de transporte e trabalho era o navio à vela, que se movia com o vento a favor ou com fornalha de carvão. Eram navios de carga e também de passageiros, sendo que o Capitão e sua equipe eram lideres vindos da elite das grandes cidades da Europa. Todos tinham a equipe de trabalho braçal, os marujos. Joe era um marujo inglês apaixonado pelo seu trabalho e aventureiro, adorava conhecer outras paragens e tinha uma namorada em cada porto. Ele um rapaz de 22 anos, de família pobre e teve que trabalhar ainda criança para ajudar a família unida com quatro irmãos, ele o mais velho, mas havia estudado sabia ler e escrever. Por causa do trabalho braçal ele se tornou encorpado e bonito, moreno queimado do sol, olhos vivos cor de mel, dentes perfeitos e com sorriso encantador.

                Foi trabalhar para um navio inglês chamado Jóia da Coroa, tendo um capitão enérgico, autoritário de estatura média, gordinho e beberrão, descendente de família de Lordes. A desculpa para beber era que a esposa, o amor da sua vida tinha morrido deixando-lhe uma filha para criar, passando a viver com ele no navio. Rose era uma linda jovem de cabelos longos ruivos e olhos azuis intensos, pele de seda, tendo tido os melhores professores para sua formação. Ela pela sua formação era refinada, vestia-se com bom gosto, sempre no grito da moda, chapéus e vestidos para todas as ocasiões. Tinha-os de todas as cores, revestidos de rendas finas com babados, xales e quando saía do navio usava luvas e sombrinha, tudo comprado em Londres, Paris, Roma, etc.

                Joe era a alegria do navio, durante a viagem após o jantar, tomando sua cerveja pegava o violão, que ganhara de um professor que dizia que ele tinha o dom para música, alegrava os marujos com musicas típicas inglesas alegres e todos o acompanhavam, até o Capitão e filha do alto do convés assistiam. A primeira vez que ele viu Rose ficou hipnotizado, nunca tinha visto tamanha beleza e a partir daí as suas musicas eram dedicadas a ela, que não passou despercebido por Rose. Ela estava vestida toda de azul e branco, que fazia brilhar ainda mais seus olhos e abanava-se com o leque florido no mesmo tom do vestido, irresistível. Passou a vê-lo primeiro como simpático, depois bonito e aí percebeu que estava apaixonada, desaprovada pelo pai.

                Ele fazia de tudo para aproximar-se dela, mas com medo do pai tentava não demonstrar os sentimentos, começaram a trocar cartas de amor com ajuda do amigo confiável de Joe. Certo dia em pleno alto mar, os marujos perceberam que estava armando uma tempestade violenta, todos experientes avisaram o Capitão e seu jovem primeiro imediato que era apaixonado por Rose e tentava desmerecer Joe, dizendo que era exagero dos marujos, confiando em sua pouca experiência. Como Joe havia passado tormentas em navios anteriores, tinha muita experiência nessa situação. Desceu ao porão começou a tomar as providencias de proteção e com corda bem grossa amarrou os barris de madeira com mantimentos, ligando às colunas do porão com os nós de marinheiros bem seguros, fazendo isso não tinha riscos de rolarem de um lado para outro com perigo de desequilibrar o navio, em seguida fechou todos os compartimentos por onde pudesse entrar água e ficou no convés aguardando à hora fatídica. E ela veio. Primeiro com um grande vendaval, em seguida chuva violenta acompanhada de ondas imensas que invadiam o convés arrastando tudo, provocando um barulho assustador, inclusive quebrando o primeiro mastro.

                O Capitão bêbado não conseguia ficar em pé e seu primeiro imediato amedrontado como uma barata tonta sem tomar nenhuma atitude. Rose apavorada rezando em seu camarote. No convés marujos se revezavam para proteger os dois mastros restantes, e Joe se destacava liderando todos, sendo que o Capitão e equipe estavam totalmente perdidos sem ação. O navio às vezes adernava quase tombando, pois, o primeiro imediato que pilotava o leme não conseguia controlar como deveria. Joe percebeu e assumiu o controle do leme, ao mesmo tempo dava ordens aos marujos. Foi a hora mais longa, e todos achando que iam morrer.

Da mesma forma que veio a tempestade foi embora como mágica e até trouxe um sol salvador. Todos pulando de alegria que graças a Joe não tinham perdido nenhum homem. O marujo foi ovacionado. No dia seguinte o Capitão reuniu todos no convés e o pastor que sempre fazia parte fez a oração de agradecimento abençoando a todos e a ele mesmo que ficou o tempo todo rezando na pequena capela do navio, morrendo de medo.

                Joe foi condecorado tornando-se o primeiro imediato. O Capitão autorizou o namoro, só que pediu que esperassem chegar à Londres para realizar o casamento junto a seus parentes, que Joe se batizasse e com uma festa digna para sua Rose. Correu tudo como planejado e a partir daí nunca mais as famosas paradas nos portos.




               

                 


ENLACE SINESTÉSICO - Sergio Dalla Vecchia

 







ENLACE SINESTÉSICO

Sergio Dalla Vecchia

 

Era um baile de formatura, daqueles em grande salão de festas. Atmosfera branca, orquestra ao vivo com pista de dança, onde familiares conversavam alegres nas mesas lindeiras, incentivados pelo bom whisky e ritmados pelo som harmônico da música ao vivo.

O baile fluía em arco-íris, composto pelo colorido dos lindos vestidos e o do brilho laranja de alegria emanado pelos olhos dos jovens formandos.

Ao mesmo tempo, em um determinado lugar do salão, um rapaz com pensamentos amarelos em atenção procurava uma parceira para dançar, até que sintonizou no campo se visão um grupo de quatro moças descontraídas.

Atentou-se primeiro para a moça do vestido verde, quando sentiu uma certa tranquilidade de sucesso. Deslocou os olhos para o lado e deparou-se com a de azul, dos olhos da mesma cor, que lhe passaram muita confiança. Moveu a cabeça mais uma vez e apontou para a de rosa, que lhe transmitiu feminilidade e doçura.

Os predicados das jovens eram diversos e punham à prova seus pensamentos cautelosos, que poderiam facilmente se tornarem vermelhos de raiva caso não tivesse sucesso na abordagem.

Entretanto na última do grupinho, a sensação foi de atração absoluta. Seu olhar foi captado imediatamente por ela, que o devolveu na mesma intensidade, fulminante! O vestido laranja parecia sorrir, enquanto os olhares se mantinham em plena sintonia.

O rapaz flutuando no encantamento aproximou-se e lhe disse convicto:

─ Vim para dançar, aceita?

Ela sorriu vitoriosa para as amigas, enquanto uma mão forte abraçou de leve seu antebraço e a conduziu até a pista de dança.

A orquestra tocava Ray Conniff.

Logo o rigor preto do smoking encostou no receptivo laranja e se largaram pela pista afora.

Assim, o animado par dançou sem parar, evoluindo por muitas seleções, nos tons cinzas das novidades do amanhã.

A canção do flamboyant - Ises De Almeida Abrahamsohn

 



A canção do flamboyant

Ises De Almeida Abrahamsohn

 

Eram cinco e meia da tarde. O sol poente ainda iluminava o topo das árvores. A brisa fresca movia as folhas murmurando que ainda era primavera.

Nenhuma pessoa ou som. Até os pássaros tinham emudecido. Subiu as escadas devagar apreciando o silêncio. Estava no terceiro degrau quando ouviu um psiu junto ao ouvido. Parou e olhou em torno. Ninguém à vista. Deve ser o vento. Subiu mais alguns degraus e de novo, aquele chamado quase irreal, mais um roçar de seda do que voz. Não era o vento. Ficou ali, naquele minuto suspenso e esperou...

Olhe para cima, escutou. Percorreu com os olhos os ramos da enorme árvore que sombreava a escada. Por entre o verde da exuberante ramagem as primeiras flores vermelhas brilhavam iluminadas pelo sol. Eram as primeiras a desabrochar com seu colorido vermelho vivo que em algumas semanas tingiria a imensa copa.

E de novo ouviu a voz. Eu o conheço há muito tempo. Há exatos 42 anos. Vi você menino de 4 anos, depois ao aprender a nadar e o vi crescer. Algum outubro, quando tinha quinze anos, você se fantasiou de morcego.

O homem subiu os degraus e olhou a portentosa árvore. Lembrou-lhe o nome. Não era dado a lembrar nomes de árvores, mas essa era fácil, flamboyant. A mãe e a avó a cada primavera lhe apontavam a árvore florida. Flamboyant, sorriu. Extravagante, de fato merece o nome quando o vermelho incendeia a copa.

Continuou a recordar, a avó que amava plantas não estava mais com eles, mas estavam todos juntos, os pais e as duas avós na foto tirada ao pé da magnífica árvore. Depois lembrou como a noiva ficou maravilhada ao ver o esplendor da enorme copa vermelha, árvore inexistente em seu país.


Subiu ao terraço para esperar os pais. Olhou no celular. Flamboyant- Delonix regia. Poinciana é o nome nos Estados Unidos. Havia uma canção dedicada à árvore no disco que a mãe amava. Nat King Cole era o cantor. Procurou a letra: “Poinciana, your branches speak to me of love…”
https://www.youtube.com/watch?v=eXF7Fctprmg.



18 OUTUBRO – DIA DOS MÉDICOS – DIA DE SÃO LUCAS - Oswaldo U. Lopes

 


18 OUTUBRO – DIA DOS MÉDICOS – DIA DE SÃO LUCAS

Oswaldo U. Lopes

 

        Domingo 18 de outubro lá estava Jorge Antônio no Pronto Socorro do HC. Não se podia dizer que estivesse de plantão. Na sua idade, 72 anos, não dava mais plantão, estava ali porque queria, era seu vício, sua cachaça e como qualquer outro vício, era difícil de largar.

        Em tempos de COVID – 19 era até bem-vindo, sua experiência ajudava muito. Já tinham tentado tirá-lo dali sua idade o colocava no grupo de risco.

         Tinham tentado delicadamente, ele só levantou o olhar e o interlocutor mandou-se antes de ser atingido por algum objeto que estivesse ao alcance da sua mão. Tinham tentado mais incisivamente, até muito, com pouco resultado, ou seja, muito pouco haviam conseguido.

        Ficou pensando em São Lucas, era médico, São Paulo assim o tratava, desde tempos imemoriais sua figura era associada a um boi (ele até sabia que para os outros três a associação era com leão, águia e anjo). Pensava-se que como o boi ou o touro fosse o animal por excelência dos sacrifícios mais elevados e ele era o evangelista que melhor narrara a crucificação de Cristo, assim ficara associado. Outros viam na figura do touro, a menção ao Templo. O evangelho de Lucas começa e acaba no Recinto Sagrado de Jerusalém.

        Era de longe o mais literário e bem escrito dos evangelhos, Lucas fez uso do grego de uma forma poética e prazerosa de ler. Como é que diziam “de médico e louco todo mundo tem um pouco”, Lucas tinha de poeta, para ele, de médico e poeta tinha muito.

        Até que agora o PS andava mais calmo, parecia que o número de casos da pandemia ia aos poucos arrefecendo. Será? Perguntava-se.  Para ele, no entanto, enquanto houvesse casos eles importavam mais do que o número.

        Isso levou seu pensamento para André, jovem engenheiro eletricista que como ele não se entregou e dava um duro danado para manter o serviço elétrico do Hospital funcionando. Os primeiros sintomas apareceram no sábado, e no domingo fora trazido ao PS.

        Febre alta, falta de ar, consciência fraca, 10 na escala de Glasgow. Fizeram o que de melhor podiam: oxigênio, cortisona, anticoagulantes, antibióticos e antivirais. Apesar do cuidado, acabaram tendo que entubá-lo depois de três horas, e ligaram um respirador. Fora parar numa UTI com apenas quatro leitos, para um atendimento super especial e era lá que Jorge Antônio ia frequentemente vê-lo.

        Levantou-se e foi. Entrando na pequena enfermaria, no silêncio escuro que podia sentir, viu um vulto negro perto da cama de André. O vulto carregava algo na mão que podia ser uma vassoura. Uma auxiliar, alguém da limpeza?

        Atento aproximou-se do leito do jovem. Imediatamente percebeu que o respirador estava desligado. Pela cor de André viu que fazia pouco tempo, rapidamente ligou de novo o aparelho e viu as cores se recuperarem.

        Ficou ali parado, olhando os registros de batimentos cardíacos, respiração e temperatura. As coisas andavam melhor do que era de se esperar. Pensativo tentava entender que era o vulto que desligara o aparelho. Ocorreu-lhe que de fato a vassoura bem podia ser um alfanje.

        Nunca vira assim de perto sua mais tenaz inimiga, seria a morte que por ali andara? Séptico guardou para si aqueles pensamentos e na memória aquela figura negra com a gadanha, lembrando o arcano 13 do Tarô.

        Era até curioso sua intimidade e seu conhecimento sobre a morte, a grande rival do médico. Dentre suas conhecidas qualidades estava a sua incrível capacidade de recuperar pacientes em condições ditas desesperadoras, tinha até gente que dizia ter ele um acordo com a parca. Se ele se empenhava muito ela postergava o carregamento.

        Ele ignorava essas brincadeiras, mas a superara inúmeras vezes. Mistério ou não, calava-se. Mas, aquela fora a primeira vez em que julgara tê-la visto de verdade.

        Quando voltou mais tarde, André estava bem melhor e já não tinha o respirador. Ficou pensando que sua adversária era dura, mas honesta.

        Quando derrotada, retirava-se e evitava a goleada. Afinal não ia levar um moço valente daqueles no dia dele, São Lucas.


EL PRESO NUMERO NUEVE – UMA CANÇÃO MACHISTA? - Oswaldo U. Lopes

 



EL PRESO NUMERO NUEVE – UMA CANÇÃO MACHISTA?

Oswaldo U. Lopes

 

        A resposta simples a esta pergunta é: sem dúvida.

        Como sabemos, porém, na vida as respostas mais simples, são as que pouco adiante levam.

        Essa canção mexicana ficou famosa interpretada pela cantora folclórica americana Joan Baez. Filha de um físico e matemático mexicano que imigrou para os USA muito jovem, ela além de uma linda voz, tem uma clara pronuncia espanhola o que é muito raro entre músicos americanos.

        Definir Joan Baez como cantora folclórica é quase um insulto à sua longa e maravilhosa carreira. Fez parte do movimento de contracultura dos anos 60, pacifista, escreveu e cantou diversas e notáveis canções de protesto. Teve um longo caso amoroso com Bob Dylan que terminou em separação ruidosa. Em função desse romance compôs uma esplêndida canção: Diamonds & Rust.

        Bem, por que uma ardorosa cantora feminista e pacifista gravaria uma canção tão machista? Vai ver que ela não é tão machista assim, ou pelo menos tem um alto valor no cancioneiro mexicano.

        A história do preso número nove é simples e direta. Mineiro (pueble na letra) ia do trabalho para sua humilde casa quando viu sua mulher nos braços do seu mais caro amigo. Matou os dois.

        Condenado à morte por fuzilamento conversa com o padre do presidio e não mostra nenhum arrependimento: Y se vuelvo a nacer, Yo los vuelvo a matar.

        A letra é contundente: Padre no me arrepiendo Ni me da miedo la eternidad.

         A história do México não é simples como bem sabem os jovens alunos das escolas locais. Teve de tudo: domínio Asteca, invasão espanhola, vice-reinado, império, reis franceses, república etc.

        Quem imagina que a presença francesa teve pouca influência, não foi comprar pão numa padaria mexicana, e elas existem por todo lado. Apanhe uma grande cesta e coloque ali o legitimo pão francês, brioches, croissants e os mais diferentes e saborosos bolos.

        Quem já ouviu um conjunto Mariachi sabe o quanto eles são representantes da cultura local, o que muitos não sabem é que a palavra vem do francês mariage. Alguns dizem que no inicio eles tocavam nos casamentos e assim ficaram conhecidos.

        Bem, e o preso número nove? È um típico caso de crime de honra como são conhecidos os assassinatos de mulher traidora.  Quem acha que só tem no México nunca ouviu Cabocla Tereza de João Pacifico.

        É bom enfatizar que o preso número nove, vai ser fuzilado pelo crime cometido. Nem sempre isso acontece, há pouco houve um ruidoso caso que chegou ao Supremo Tribunal de uma absolvição de crime de honra.

        Misturado tudo, o preso número nove é uma canção típica mexicana que contem todos os elementos esperados num caso de honra, mas tem justiça feita, embora não exaltada na letra. Acredito que Joan Baez emprestou sua linda voz a esta musica para honrar suas origens latinas e o fez de modo brilhante, pois a converteu num estrondoso sucesso.

        É não há história simples, sempre corre muita água rio abaixo e fogo morro acima, o mundo gira e nóis roda. Roda de não o entender ou de querê-lo muito simples, e isso ele não é.



El Preso Numero Nueve

Joan Baez

 

El preso numero nueve ya lo van a confesar

Esta encerrado en la celda con el cura del penal

Y antes del amanecer la vida le han de quitar

Porque mató a su mujer y a un amigo desleal

Dice así al confesar

Los maté si señor

Y si vuelvo a nacer

Yo los vuelvo a matar

Padre no me arrepiento

Ni me da miedo la eternidad

Yo se que allá en el cielo

El ser supremo nos juzgará

Voy a seguir sus pasos

Voy a buscarla hasta el más alla

Ay

El preso numero nueve era un hombre muy cabal

Iba en la noche del pueble muy contento en su jacal

Pero al mirar a su amor en brazos de su rival

Ardió en el pecho el rencor y no se pudo aguantar

Al sonar el clarín se formo el pelotón

Iban al paredón solo alcanzo a decir

Padre no me arrepiento ni me da miedo la eternidad

Yo se que allá en el cielo el ser supremo nos juzgará

Voy a seguir sus pasos voy a buscarla hasta el más alla

Ay

 

 


No começo, só havia o TEMPO - Suzana da Cunha Lima

 





No começo, só havia o TEMPO

Suzana da Cunha Lima

 

No começo só havia o Tempo, Cronos.  Ele preenchia todos os espaços, era único e onipotente.  Mas Cronos se sentia miseravelmente só, pois não tinha ninguém com quem partilhar tanto Poder e Grandeza. Então chorou, e as lágrimas do tempo são caudalosas, de tal maneira que alcançou Geia, uma bola de fogo que por ali passava meio perdida, e apagou seu fogo. O fogo transformou-se em nuvens e as nuvens produziram água, e Geia se transformou num pequeno e viçoso planeta. Cronos se encantou com esta habilidade de Geia e tomou-a como esposa.

Tiveram muitos filhos, mas Cronos, enciumado, os devorou todos. Até que Geia, revoltada, guardou seu último filho a quem chamou de Zeus e ordenou que ele acabasse com Cronos, para que suas crias vingassem.

Zeus não teve coragem de matar seu pai, apenas transferiu seu poder de matar para os humanos, que muitas vezes matam o tempo, mas não têm o poder de ressuscitá-lo ou guardá-lo para si mesmos. Como se matam entre si, mesmo sabendo que a morte não os devolve, como o tempo perdido também não volta mais.

Mas, apesar de tudo, as pequenas formas de vida que criavam não iam para frente, morriam todos.  Pensaram que era uma maldição de Cronos, mas Zeus reparou que faltava outro elemento essencial à vida: O AR. Sozinho ele não tinha o poder de criá-lo, então casou-se com Juno, uma bela estrela, que lhe deu o primeiro filho Eólio, o ar que anda.  Sua missão era colocar ar no planeta e, fazê-lo se movimentar para que houvessem sempre nuvens e elas pudessem criar a água, nem sempre em harmonia, como sabemos.

Assim aquele pequeno planeta azul foi criado com os quatro elementos essenciais à vida: terra, água, ar e fogo. Mas até hoje guarda o carma da violência, ciúme e traição com que foi criado.