Herança secreta - Ledice Pereira

 

Jornal Somos - Deputado Estadual faz proposta de “bolsa arma” para ...


Herança secreta

Ledice Pereira




Jurandir vivia um casamento conturbado, cheio de desconfiança. Tinha medo de que Jussara, ao saber da fortuna que ele havia herdado, começasse a exigir sua parte, pois afinal eram casados com comunhão de bens.

A obsessão tomava conta do rapaz, que tentava esconder de todos o quanto havia ficado rico. Abrira conta num banco da cidade vizinha, só para não haver possibilidade de que alguém desse com a língua nos dentes, revelando a enorme quantia em dinheiro, que havia aplicado.

Passou a viver na mentira, caindo em contradição várias vezes, fazendo com que Jussara desconfiasse de que alguma coisa estava acontecendo.

A moça, achando que havia algum rabo de saia, arrastando o rapaz para a outra cidade a toda hora, resolveu segui-lo.  

Arrumou uma arma emprestada e esperou até que ele saísse sem imaginar que corria perigo.

Ao vê-lo dirigir-se para a gerente do Banco, uma jovem bonita e elegante, não teve mais dúvida, atirou nos dois que caíram ali mesmo para espanto de todos. Chamado o resgate, constataram que a moça havia sido baleada de raspão na perna, mas o rapaz corria risco de morrer pois a bala alojara-se perto do coração.

Jussara foi levada para a delegacia, por ter sido responsável por tamanha tragédia. Amargou alguns anos na prisão pelo crime de tentativa de duplo homicídio

Jurandir, após recuperar-se tentou, em vão, diminuir a pena da mulher, oferecendo dinheiro para pagar fiança, mas ela teve que cumprir quase toda a pena, que acabou sendo abrandada por bom comportamento. Acabou sabendo da verdadeira razão do marido, vira e mexe, dirigir-se à cidade vizinha e, ao ser libertada, entrou imediatamente com um pedido de divórcio, exigindo metade do valor aplicado por Jurandir.

Se não existia confiança, não poderia haver mais casamento.



(Texto criado com algumas palavras sugeridas na Maratona Literária 2020)

LAMPEJOS DE AMOR - Sérgio Dalla Vecchia

 


→ Significado do Nome Maria - Origens, Características e Muito Mais

LAMPEJOS DE AMOR

Sérgio Dalla Vecchia


 

Amor primeiro,

Inocente como eu,

puro como ela

Maria do pomar.

 

Chama adolescente,

na força da preamar,

com paixão eloquente,

abrolhou Maria do mar.

 

Da franja dourada,

sorrisos gírios

da prosa corada,

Maria dos lírios.

 

Nos versos salientes,

olhos a expectar,

versos em luar ausente,

Maria à rezar.

 

Maria verdadeira,    

com abraço marcante,

selou com beijo velado ,

aquele amor itinerante.

 

Momentos corteses,

com Maria da nobreza.

Terminaram em meses

em frase sem sutileza.

Textos diversos - Maratona Literária 2020 - Ledice Pereira

 


Janela Vista Árvore - Foto gratuita no Pixabay


Textos diversos - Maratona Literária 2020

Ledice Pereira



Primeiro texto

 

Ao abrir a janela, encantei-me com a paisagem. O batente emoldurava qual um quadro. O verde da folhagem me encheu de esperança. Eu que chegara ali tão deprimida.

Fora Jerônimo quem me aconselhara a sair daquele burburinho da cidade grande.

Ele tinha toda a razão. Aqui encontrei a paz de que tanto precisava.

 

Segundo texto

Estava prestes a deixar o lugar onde vivera até então. Sentia a perna bambear, mas tinha que partir. O trem acabara de chegar. Tinha exatos cinco minutos para mudar o percurso de sua vida e buscar a felicidade.

Não tivera coragem de se despedir dos pais. Deixara apenas um bilhete: “amo vocês, mas vou ao encontro do meu futuro. Preciso me encontrar. Já é tempo de andar com as minhas próprias pernas. Torçam por mim! Clovis”

 

Terceiro texto – LAÇO

Eu jamais tive a intenção de quebrar aquele laço que nos unia desde a infância.

Nossos pais eram amigos e nós fomos criadas praticamente juntas. Mas Solange mudou. Ficou tão diferente que eu já não enxergava nela a amiga que fora. Tornou-se uma jovem preconceituosa, menosprezava os serviçais, maltratava os animais, procurava me humilhar, fazendo com que eu chorasse escondida.

Ela sabia do meu interesse por Claudio, até que o conquistou.

Eu só soube quando ela veio com ele trazer o convite de casamento. Ele parecia estar pouco à vontade.

Não tive forças para ir ao casamento. Arranjei como pretexto, uma gripe oportuna.

E, desde então, nosso laço se rompeu definitivamente.


Quarto texto

Tudo acontecia lentamente. Olhares breves, acenos curtos e o sol se deixando levar para trás da colina. Tudo devagar como tem que ser numa despedida.

As lágrimas rolavam sem que eu conseguisse estancá-las. Sentia-me como se arrancassem um pedaço de mim.

Ele estava indo estudar fora. Preparara-se para isso. Estudara muito. Conseguira seu objetivo. Fora aprovado no exame de admissão com louvor.

Mas e eu? O que seria de mim? Conseguiria resistir à distância que nos manteria longe durante todos aqueles anos em que ele cursaria a Universidade?

Eu temia que lá ele encontrasse alguém que me substituísse.

Eu teria que ser muito forte.

 

Quinto texto

Como acreditar num homem como ele? Saía pela tangente, tinha um olhar dissimulado que nunca fixava na gente. Não revelava o que fazia nem onde morava. Trazia a carteira sempre gorda que fazia questão de mostrar. Cobria-se de grossas correntes douradas que eu não sabia dizer se eram ou não de ouro.

Seu olhar cafajeste quase me despia, olhando-me de cima a baixo.

Causava-me medo e asco!

 

Sexto texto

Tico não era homem de muita ação. Tinha dificuldade de raciocinar rapidamente. Quem seria Fran?

Resolveu buscar ajuda no povoado. Dirigiu-se ao bar de Armando e o chamou de lado, mostrando-lhe o que achara.

Armando pensava rápido. Precisavam agir imediatamente. Era amigo do delegado. Ligou para a delegacia e detalhou o que haviam encontrado.

De posse do mapa, o delegado recrutou dois policiais para chegarem ao local no barco de Tico, que se ofereceu para levá-los. Foram recebidos a bala. Tiveram que enfrentar a fúria de dois marmanjos, até que a munição dos dois acabou.

Os homens, marinheiros de primeira viagem, tiveram que se render e Fran foi libertada do cativeiro, recebendo inúmeros elogios pois graças à sua ousadia e esperteza, teve coragem de mandar numa garrafa o bilhete de socorro, conseguindo não só sua liberdade como também a prisão dos malfeitores.



Paisagem matinal - Sérgio Dalla Vecchia

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Paisagem matinal

Sérgio Dalla Vecchia

 

Algo me despertou daquele sono reparador.

Pensamentos sonolentos não conseguiam ainda identificá-lo, até que  um sutil aroma de relva mostrou-se presente. Pus-me em pé, já não tão sonolento. O olfato era meu guia na busca do agradável perfume.

As venezianas filtravam apenas os raios mais luminosos, para que no chão mostrassem em formação lado a lado, as retilíneas silhuetas simétricas.

Cheguei até a janela e com um leve toque na cremona, abri as asas da borboleta veneziana para uma decolagem rumo ao mundo original.

O espetáculo era do dia, apresentando-se garbosamente à mim, naquela manhã orvalhada na casa de praia.

A brisa sôfrega dominou meus pulmões, enquanto o oxigênio puro me fez sentir mais vivo do que nunca.

A sensação de imortalidade foi adida por uma majestosa árvore grumixama vestida de verde até o rés do chão,  que me acenava com os galhos animados ao sabor do vento.

A imagem natural invadiu meu cérebro e como um recado me induziu a aprender à viver a vida.

Vesti-me rapidamente com roupas de banho e corri para o mar.

Lá chegando já estava eterno!



(Texto criado através da imagem da janela - Maratona Literária 2020)


Oswaldo José - Fernando Braga

 

Mais importante que saber operar é saber quando não operar': as ...


Oswaldo José

Fernando Braga

 

Quarentena há quatro meses e meio! Em casa, lemos, ouvimos boa música, filmes na TV e ouvimos as notícias sobre o Covid 19 e de nossa política instável, sem rumo. Hoje detectamos o segundo lugar no mundo em número de contaminados com este vírus, cerca de 2,5 milhões de casos e mais de 106.000 óbitos pela doença. Já se fala na vacina russa, de Oxford e até de um soro de cavalo, brasileiro.

 

Lembrando-me sempre de dois grandes amigos, o Zé Osvaldo e o Oswaldo José, famosos neurocirurgiões, profissionais éticos, capacitados, acima da média, que trabalharam na mesma universidade federal, onde se formaram. Tiveram uma vida universitária bem ativa, grande produção científica, mãos cirúrgicas de primeira. Com nomes invertidos distinguiam-se em um ponto. O primeiro, era um gozador de primeira, “that liked to tease” em inglês, que não perdia a chance de inventar histórias, que os outros acreditavam, mas que não passavam de um “Primeiro de Abril”. Seus colegas, amigos e mesmo parentes ficavam desconcertados. Embora todos soubessem desta característica, sempre caiam em sua trama. Entretanto, não deixavam de admirá-lo.

 

Oswaldo José, por outro lado, muito sério, detestava gozações e era o tipo certinho, igualmente muito admirado.

Ha cerca de um mês, soubemos que José Osvaldo, mantendo seu trabalho em vários hospitais de São Paulo havia sido internado  com Corona vírus e estava em UTI, entubado e sedado. Isto muito nos entristeceu e ficamos na torcida desejando sua melhora rápida. Entramos em contato com seu filho que diariamente nos fornecia dados médicos, sem que pudéssemos visitá-lo. Eu, certamente não poderia em nenhuma hipótese tentar me aproximar, embora fosse meu desejo.

 

Há cerca de uma semana, tendo tido melhora da pneumonia, sua sedação foi suspensa, mas no dia seguinte, novamente foi entubado, traqueostomia feita devido a uma nova pneumonia por bactéria resistente hospitalar. Seu sistema circulatório, o coração de um idoso já com 80 anos entrou em falência, com a pressão mantida através de noradrenalina. Ontem pela manhã tivemos o comunicado de que sofrera uma falência geral, sobrevindo a morte, já esperada.

 

Realmente, triste a perda deste grande amigo, dedicado neurocirurgião, professor de primeira linha, alegre, brincalhão, espirituoso, que apesar de suas gozações, nunca ofendia alguém. Foi cremado na Vila Alpina, após ter ido diretamente para o cemitério, apenas com alguns familiares presentes. Ontem mesmo no final da tarde, recebi um telefonema de seu grande e inseparável amigo Oswaldo José, que me deu a triste notícia, que já conhecia. Ficamos muito chocados, ele chegou a chorar copiosamente e terminamos combinando jantarmos juntos, tão logo a fase principal da pandemia melhorasse, permitindo encontros presenciais.

 

Foi então que me lembrei, do último caso que me contou, que ficara guardado no baú de suas memórias, onde enfatizou uma grande coincidência ocorrida em sua vida.

 

Disse ele:

— Há uns 15 anos eu e minha esposa fomos a Recife, convidados para sermos padrinhos no casamento do filho do Dr. H.C.A, querido amigo e grande neurocirurgião daquele estado e do nordeste brasileiro. A cerimônia seria no sábado às 19,00 horas. Chegamos na sexta e nos hospedamos no Transamérica Prestige, bem próximo da orla na praia de Boa Viagem.

 

No sábado, tomamos um excelente desjejum e vestidos com trajes apropriados, fomos caminhar em direção à praia, apreciando o movimento e as variadas lojinhas que se encontravam no caminho. Ao passarmos por uma pequena loja de roupas infantis, minha esposa parou e mostrou-me uma roupinha de bebê muito graciosa. Uma senhora, lá dentro sentada, se aproximou e pediu que entrássemos, pois tinha muitas novidades.

 

Como neurocirurgião, logo observei que a senhora, enquanto mostrava sua coleção, apresentava uma pequena cicatriz no meio da testa e uma depressão na região temporal esquerda, o que era bem sugestivo de que havia sido operada de um aneurisma intracraniano. Perguntei a ela, mais por curiosidade, se havia sido operada de aneurisma cerebral, o que ela confirmou dizendo que havia sido operada por um grande neurocirurgião recifense, citando em seguida o seu nome: Prof. H.C.A.

 

Disse a ela que éramos de São Paulo e que estávamos em Recife para sermos um dos padrinhos no casamento de seu filho naquele sábado. Passamos a desenvolver um bom papo, onde ela não parava de elogiar o referido neurocirurgião. Também o elogiei muito!

 

Nisto ela disse: — Vocês disseram que são de São Paulo, pois há seis anos levei minha mãe para São Paulo, onde foi operada de uma placa grande na carótida, bem aqui no pescoço. Fomos a um neurocirurgião indicado pelo Dr.H.C.A.  que a operou. Vocês já ouviram falar de um tal de Dr. Oswaldo José?

 

— É claro que ouvimos e mais, a senhora se encontra bem na frente dele!!

 

— Meus Deus, não me diga que o sr. é o Dr. Oswaldo!!!

 

— Certamente que sim, e veja que bela e grande coincidência.

 

— Doutor, vou ligar já para minha mãe e dizer que o senhor está aqui na minha frente. Adorou o senhor e disse que foi muito bem tratada. Vai ficar muito feliz em conversar com o senhor! Ela está ótima e nunca mais teve aqueles problemas de enfraquecer subitamente o braço direito e atrapalhar sua fala!

 

Depois de uma conversa de 10 minutos com sua mãe, agradecemos e saímos, após termos adquirido a bela roupinha que minha mulher escolhera e ainda outra, que a senhora nos presenteou.

 

O restante deste dia foi excelente, como esperávamos. Muita alegria. Casamento animado, noiva linda, ambiente de primeira, com muita alegria. Ainda no domingo, permanecemos em Recife, almoçamos no belo apartamento de nosso anfitrião.

Realmente inesquecível!!

É de confundir - Auguste Villiers de L'Isle-Adam

O conto É DE CONFUNDIR, foi um ótima contribuição da Ises.

Esse conto faz parte do livro Contos Fantásticos do Século XIX, escolhidos por Ítalo Calvino.


Auguste Villiers de L'Isle-Adam – Wikipédia, a enciclopédia livre

O autor Auguste Villiers de L'Isle-Adam, tem uma série de contos cruéis que encostam n gênero terror.
Neste, propriamente dito - É DE CONFUNDIR - ele adota o efeito da REPETIÇÃO para realçar as cenas inquietantes. 

Gostaria que lessem atentando para as cenas orgânicas, cenário dinâmico, sinestesia, e outras ferramentas que o autor esparrama pelo texto.
Percebam como ele emprega a metáfora causando o efeito visual no leitor.

Ela já entra em ação na primeira linha, aciona o personagem narrador colocando-o em movimento, descendo apressado pela beira do rio.

"ideias pálidas e brumosas "
"o vento fustigava os chapéus"
E MUITOS OUTROS dispositivos que tornam a leitura extremamente prazerosa.

Um conto fantástico pelo gênero, e pela qualidade. 


Obrigada, Ises, eu não conhecia.


É de confundir
Auguste Villiers de L'Isle-Adam
⠀⠀⠀⠀⠀Numa cinza manhã de novembro, eu ia descendo pela beira do rio em passo apressado. Uma garoa fria molhava o ar. Passantes negros, abrigados em guarda-chuvas disformes, se entrecruzavam. O Sena amarelado carregava seus barcos de mercadorias parecidos com besouros. Nas pontes, o vento fustigava bruscamente os chapéus, cujos donos lutavam com o espaço para salvá-los, fazendo aqueles gestos e contorções sempre tão penosos para o artista. 
⠀⠀⠀⠀⠀Minhas ideias eram pálidas e brumosas; a preocupação de um encontro de negócios, aceito na véspera, atazanava minha imaginação. O tempo era curto: resolvi me abrigar debaixo da marquise de um portão, de onde seria mais cômodo fazer sinal para um fiacre. 
⠀⠀⠀⠀⠀Na mesma hora notei, bem ao meu lado, a entrada de um prédio quadrado, de aparência burguesa. 
⠀⠀⠀⠀⠀Ele tinha se erguido na bruma como uma aparição de pedra, e, apesar da rigidez de sua arquitetura, apesar do vapor sinistro que o envolvia, percebi de imediato um certo ar de hospitalidade que serenou meu espírito. 
⠀⠀⠀⠀⠀"Sem a menor dúvida", pensei, "as pessoas que moram aqui são gente sedentária! Essa soleira é um convite a parar! A porta não está aberta?"
⠀⠀⠀⠀⠀Então, com a maior polidez do mundo, satisfeito, chapéu na mão — até mesmo meditando em um madrigal para a dona da casa —, entrei, sorridente, e logo me deparei, no mesmo nível, com uma espécie de sala de teto envidraçado, de onde caía a luz do dia, lívida. 
⠀⠀⠀⠀⠀Nas colunas estavam pendurados roupas, cachecóis, chapéus.
⠀⠀⠀⠀⠀Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos. 
⠀⠀⠀⠀⠀Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar. 
⠀⠀⠀⠀⠀E os olhares eram sem pensamentos, os rostos eram da cor do tempo. 
⠀⠀⠀⠀⠀Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles. 
⠀⠀⠀⠀⠀E então percebi que a dona da casa, com a cortesia acolhedora com que eu estava contando, era ninguém menos do que a Morte. 
⠀⠀⠀⠀⠀Olhei para meus anfitriões. 
⠀⠀⠀⠀⠀Decerto, para escapar dos aborrecimentos da vida azucrinante, a maioria dos que ocupavam a sala tinha assassinado seus corpos, esperando, assim, um pouco mais de bem-estar. 
⠀⠀⠀⠀⠀Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, escutei o ruído surdo de um fiacre. Ele parou defronte do estabelecimento. Fiz a reflexão de que meus homens de negócios estavam esperando. Virei-me para aproveitar a boa fortuna. 
⠀⠀⠀⠀⠀De fato, o fiacre acabava de vomitar, na soleira do prédio, colegiais de pileque, que precisavam ver a Morte para acreditar nela. 
⠀⠀⠀⠀⠀Olhei para o fiacre vazio e disse ao cocheiro: 
⠀⠀⠀⠀⠀"Passage de l'Opéra!"
⠀⠀⠀⠀⠀Um pouco depois, nos bulevares, achei o tempo mais encoberto, sem nenhum horizonte. Os arbustos, vegetações esqueléticas, pareciam indicar vagamente, com a ponta dos galhos negros, alguns pedestres aos policiais ainda sonolentos. 
⠀⠀⠀⠀⠀O carro ia apressado. 
⠀⠀⠀⠀⠀Pela vidraça, os passantes me davam a impressão de água correndo.
⠀⠀⠀⠀⠀Chegando ao meu destino, pulei para a calçada e peguei a passagem, repleta de rostos preocupados. 
⠀⠀⠀⠀⠀No final do corredor, bem na minha frente, reparei na entrada de um café — desde então consumido por um famoso incêndio (pois a vida é um sonho) —, relegado ao fundo de uma espécie de galpão, debaixo de uma arcada quadrada, de sinistra aparência. Os pingos de chuva que caíam no vidro de cima escureciam mais ainda a pálida claridade do sol. 
⠀⠀⠀⠀⠀"É aqui", pensei, "que me esperam os meus homens de negócios, de copo na mão, olhos brilhantes e desafiando o Destino!"
⠀⠀⠀⠀⠀Então, virei a maçaneta da porta e me deparei, no mesmo nível, com uma sala onde a claridade do dia caía do alto, lívida, pela vidraça. 
⠀⠀⠀⠀⠀Em colunas havia roupas, cachecóis, chapéus pendurados. 
⠀⠀⠀⠀⠀Mesas de mármore estavam instaladas em todos os cantos.
⠀⠀⠀⠀⠀Vários indivíduos, de pernas esticadas, cabeça levantada, olhos fixos, jeito confiante, pareciam meditar. 
⠀⠀⠀⠀⠀E os rostos eram da cor do tempo, os olhares eram sem pensamentos. 
⠀⠀⠀⠀⠀Havia pastas abertas, papéis desdobrados perto de cada um deles. 
⠀⠀⠀⠀⠀Olhei para esses homens. 
⠀⠀⠀⠀⠀Decerto, para escapar das obsessões da insuportável consciência, a maioria dos que ocupavam a sala tinha, muito tempo antes, assassinado suas "almas", esperando assim um pouco mais de bem-estar. 
⠀⠀⠀⠀⠀Quando estava ouvindo o barulho das torneiras de cobre presas no muro e destinadas a regar diariamente aqueles restos mortais, a lembrança do ruído surdo do carro voltou ao meu espírito. 
⠀⠀⠀⠀⠀"Com toda a certeza", pensei, "aquele cocheiro deve ter sido atacado, no correr do tempo, por uma espécie de estupor, pois simplesmente me trouxe, depois de tantas circunvoluções, ao nosso ponto de partida! Todavia, confesso (caso haja um equívoco), O SEGUNDO OLHAR É MAIS SINISTRO QUE O PRIMEIRO!..."
⠀⠀⠀⠀⠀Então, em silêncio fechei a porta envidraçada e voltei para casa, firmemente decidido — desconsiderando o exemplo e pouco me importando com o que pudesse me acontecer — a nunca mais fazer negócios. 

 
Tradução de Rosa Freire D'Aguiar

PORQUE ESSE REVISIONISMO NÃO ME AGRADA - Oswaldo U. Lopes



Independência ou Morte, Pedro Américo | Historia das Artes

PORQUE ESSE REVISIONISMO NÃO ME AGRADA
Oswaldo U. Lopes


        O momento atual, por diferentes razões e motivos, deu origem a certo revisionismo histórico que visa expurgar da história e das praças, monumentos e páginas consagradas. Levado a extremos, compreensíveis eu concordo, pouco sobrará para contar ou honrar.

        Imagino que os franceses, a continuar esse padrão, terão que alterar a letra de seu famoso hino: La Marseillaise, para grande tristeza tumular de Rouget de Lisle.  Hoje em dia não é politicamente correto afirmar que o inimigo venha:

“ Egorge vols fils, vos campagnes! “ – Degolar vossos filhos e, vossas mulheres!

        Sem considerar o papel passivo das mulheres que serão degoladas e vítimas de estupro sem reação alguma. Ainda sobra o “que um sangue impuro, banhe nosso solo”. “Abreuve nos sillons”, soa pra lá do politicamente correto.

        Não bastasse a história ter transformado o famoso e formoso cavalo baio pintado por Pedro Américo em uma prosaica mula, ainda se juntou a injuria o insulto, D. Pedro, no momento do Grito, vinha de aliviar-se, pois estava com uma maldita diarreia, não teria proferido a famosa frase: “Independência ou Morte” atribuída ao Coronel Oliveira Melo já na noite do 7 de setembro, mas na cidade de São Paulo.

        Restava ao nosso querido herói nacional que gostava de ter filhos, alguns lhe atribuem à paternidade de 31 outros de 28, a autoria do hino, o notório – “Japonês tem quatro filhos... “ e uma certa notoriedade por saber latim.

        E por aí vamos, Tiradentes tinha escravos, Washington também, Jefferson nem se fale, Aristóteles, pai do nosso conceito de democracia defendia a escravidão e um papel secundário na politica para as mulheres. A escravidão no tempo de Aristóteles não era de negros, mas de prisioneiros de guerra ou de outras fontes.

        Houve, após a descoberta das Américas e em particular do Brasil, um grande movimento na Igreja Católica, para saber se os índios tinham alma! Louve-se a ação dos Jesuítas no caso. É bom acentuar o caso, porque em outras ocasiões eles foram lamentáveis.

        Aonde chegaremos? Em um ponto que todos concordaremos: a análise do texto fora do contexto é o melhor caminho para dar com as mulas n’água. Não pude resistir, olá D. Pedro, a usar as mulas em vez de burros.

        Você nega então todas estas manifestações antirracismo? Não só não nego, como apoio. Como em outras ocasiões é preciso separar o joio do trigo. Devemos combater o racismo, a diferença de trato aos gêneros e todas as formas de repressão ao ser humano, sem, no entanto, perder o bom senso. Se o perdermos corremos o risco jogar fora nossa história e seus reais ensinamentos.


TERAPIA - Sérgio Dalla Vecchia





Deitado na rede by Domenico Lafasciano & Neto Lourenço Pezzuti ...



TERAPIA
Sérgio Dalla Vecchia


Discreta psicóloga,
Prisioneira comportada.
Duas colunas a agarram.
Na nascente a do mais,
No poente a do menos.
Quando o paciente se deita,
Ela dana a balançar,
Para lá, para cá!
Com força embalar.
Ansiedade vem,
Ansiedade vai,
problemas aparecem,
no vaivém pendular.
Soluções acontecem
no balanço do pensar,
cadência esmorece,
para lá, para cá...
até o nem lá, nem cá!
Paciente espairece
e  feliz,
à rede muito  agradece!



A incrível história de Píndaro, e a disfemia. - Fernando Braga



Colégio Arquidiocesano, 1939 – SAMPA HISTÓRICA

A incrível história de Píndaro, e a disfemia.
Fernando Braga


Píndaro, aos seis anos entrou para o jardim da infância, no período da tarde, naquela pequena cidade do interior. Seu pai era delegado de polícia e sua mãe, do lar. Desde bem pequeno, os pais haviam notado que ele era canhoto, chutava as bolas com o pé esquerdo, comia segurando o garfo, atirava pedras, penteava o cabelo com a mão esquerda.   No jardim da infância, ouviam historinhas infantis e todos tinham um caderno, lápis preto, conjunto de lápis de cor, aprendiam a desenhar, pintar figuras e iniciavam o conhecimento das letras minúsculas e maiúsculas do alfabeto, a unir consoantes e vogais para formarem palavras simples como pato, sapo, casa... Era um início de alfabetização.

 Quando começaram a pintar, escrever, Píndaro o fazia com a mão esquerda e a professora ao notar isto, pediu que usasse a mão direita. Falava a todos que o certo era escrever com a mão direita e não ia admitir o uso da esquerda.

— Viu, meu querido Píndaro! Com a mão direita!!!

Como várias vezes passava a usar a mão esquerda, a professora chegou a prendê-la com uma cordinha à sua coxa esquerda.

 Ele obedecia, mas sua dificuldade era intensa e as letras saiam como garranchos. Quando fazia a lição em casa, a professora pediu à mãe que ficasse de olho, para que ele não escrevesse com a esquerda. Os pais, obedeciam a orientação!

Após um ano no jardim de infância, entrou para o primeiro ano do grupo escolar, o que só podia ser feito quando as crianças já tivessem sete anos completos,  sua estatura física era um pouco maior que a das demais crianças, da mesma idade.

 Nessa fase havia somente professoras, incluindo a diretora. Também elas, não admitiam que canhotos escrevessem com a mão esquerda e, algumas, chegavam a bater na mão do aluno com a régua, quando estavam usando a mão esquerda. Na época, era este um procedimento, quase geral na cidade.

Com sete anos e meio, Píndaro começou a apresentar   mudanças em seu comportamento. Tornou-se nervoso, ansioso, tenso, indeciso, recalcado, brigando facilmente com os colegas, respondão nas aulas e ao lado disto, começou a gaguejar, tartamudear. Com a piora da gagueira, passou a falar pouco, detestando ao ser chamado à frente da classe, para expor algo ou escrever na lousa. Seus pais ficaram preocupados vendo a mudança do filho e a gagueira, procurando ajudá-lo em casa, tratando-o o melhor possível, mais atenção em relação aos dois irmãos.   

As crianças, colegas da escola, passaram a lhe colocar apelidos como breque agarrado, vaivém, deixa que eu chuto, mudinho, motor enguiçado, cuspidinha,  e por aí vai. Ele não gostava, mas quanto mais reagia, mais eles o gozavam. O apelido de breque agarrado logo era conhecido em toda a escola.

Píndaro, passou a reagir, usar palavras feias, os piores palavrões conhecidos e quando os gritava para os colegas, geralmente gaguejava menos.

Ele detestava, principalmente quando os maiores, de anos mais adiantados, passavam também a gozá-lo no recreio. Queixava-se ao pai e algumas vezes fingia estar doente para faltar à escola. Os pais notavam que ele tinha algum problema psicológico!

Naquela época, na cidade, não havia foniatra ou psicólogo infantil, havia poucos médicos que diziam aos país, que diariamente, precisavam exercitá-lo a falar em voz alta, colocando algumas pedrinhas em sua boca durante os exercícios, como fizera Demóstenes, o maior orador grego, que um dia havia sido gago.

 Píndaro, tinha porte mais avantajado que os demais, falava pouco, mas os palavrões saiam de sua boca, a toda hora. Em casa, usava muito o Vai tomar no banho, mesmo para o irmão, irmã e primos. Um dia sua mãe o chamou e disse:
— Filho, não fale “vai tomar no banho”. Fale apenas, ” vai tomar banho”. Ele não entendeu bem, mas assim tentou proceder.

Certa feita, a mãe pediu que fosse até o bar próximo e pedisse duas guaranás e mandasse colocar na conta. Foi ensaiando pela rua para falar rápido, sem gaguejar. La chegando, ao ser atendido, o balconista perguntou o que queria. Disse bem rápido, sem gaguejar:  — Duas guaranás! O balconista perguntou, ”Antártica ou da Brahma?”. Sua fala enroscou e bravo fendeu o atendente com um palavrão e saiu correndo. O atendente ficou parado, sem entender.

Não havia um dia que não brigasse, quase sempre após o chamarem de “breque agarrado”, e interessante é que   nas brigas, mesmo com alguns colegas maiores, quase sempre levava vantagem. Aprendeu que quando a briga estava para começar, ficava parado, com os braços abaixados encarando o adversário, olhando bem em seus olhos e então, subitamente abaixava a cabeça e o corpo, o que era automaticamente, em instinto de defesa, seguido pelo adversário. Era quando ele desferia de lado, um soco forte e certeiro na parte lateral da cabeça, sobre a orelha do oponente, que o tonteava e muitas vezes o desequilibrava, caindo ao solo.  Aí, já era meia luta ganha!

Jogava bem futebol e basquete nos campinhos do grupo. Durante o quarto ano, no período da tarde, fez simultaneamente a admissão, preparatória para o ginásio, com ótima professora. Sua família havia decidido colocá-lo interno no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, regido pelos irmãos maristas (IM), onde havia uma prova no começo do ano, para analisar o nível do aluno, para poder ser aceito.

 Quase na época de ir para o colégio, seu pai lhe disse:

— Filhinho querido, você vai ser interno em um colégio de padres e vai ter que se comportar bem. Nada de palavrões e brigas. Ao invés de palavrões, vou lhe ensinar uma coisa interessante. Se estiver nervoso, ao invés de falar estes palavrões que está acostumado e que vão ser recriminados, use outras palavras que parecem xingamentos, mas não são. Assim, o pai lhe ensinou a falar chichisbéu, que significa galanteador, morígero, uma pessoa honesta, bardo, um trovador, X.P.T.O, que é abreviação de cristo e significa ungido, messias, e é utilizada para designar qualquer coisa muito boa, magnífica, grande feito. Estas palavras ditas agressivamente, quem as ouve e não as conhece, interpretam como xingamento. O menino sorriu e prometeu praticá-las.

No quarto ano primário, certo dia a professora teve que se ausentar alguns minutos da sala e pediu que se mantivessem em silêncio. Ele se sentava nas primeiras carteiras. Foi quando ouviu uma vozinha vinda lá de trás: “Breque agarraaado!”.  Píndaro, não deu atenção. Quando ouviu pela segunda vez, levantou-se, olhou para trás e disse gaguejando:

— Quem é o bardo, morígero, XPTO que me chamou deste nojento apelido? Se levante, se for homem! Ninguém se manifestou! Sentou-se e em seguida ouviu várias vozes:” Breque agarraaado!” .

Voltou a levantar-se e disse:  “Amanhã, vou trazer meu estilingue e no recreio, quero acertar uma pedrada no peito de quem assim me chamar!

Vocês são todos uns morígeros e XPTO! Quando falava estas últimas palavras a professora entrou e percebendo a situação, disse a Píndaro:

— Vamos já para a diretoria! Aqui não é lugar de falar palavrões.

Na diretoria, jurou não ter dito nenhum palavrão e repetiu as palavras ditas. Ninguém sabia o significado e tiveram que consultar o dicionário. Ele voltou para a sala, com a professora abraçando-o.

 “Valeu!”. Pensou ele. Graças a meu pai.

Foi aprovado em sexto lugar entre mais de cem concorrentes, apto para frequentar o ginasial do famoso colégio Arquidiocesano, localizado na Vila Mariana.

 No começo do ano letivo, o pai o trouxe para São Paulo, com todo o enxoval solicitado, juntamente com a linda fardinha azul que o colégio exigia, para ser usada em festividades e desfiles. Ficou orgulhoso ao vestir sua farda! Sentiu-se importante como um soldado.

Quando seu pai o deixou no colégio, sentiu-se quase desesperado, inseguro, acabrunhado, sabendo que ia ter dificuldade com sua gagueira.

Já interno, nos primeiros 15 dias, sentia saudade de casa e à noite já deitado, chorava baixinho até se acostumar!   

O colégio era bem grande, vários andares com cerca de 350 alunos internos, fora os semi-internos, distribuídos em divisões separadas: os menores, submédios, médios e maiores, conforme o tamanho e ano letivo em que estavam. Lá, tinha também o curso científico.

Na primeira série do ginásio, foi para a divisão dos submédios, onde havia um grande salão de estudos, um grande pátio fora do prédio principal, com campo futebol, de vôlei, basquete e em uma parte coberta com mesas de pingue-pongue, duas mesas de sinuca e os banheiros. Local onde passavam os recreios. Cada divisão era regida por dois maristas. As salas de aula, com cerca de 40 alunos cada, ficavam no primeiro e segundo andares.

A capela era grande e bonita, com missas diárias às 7 horas da manhã e uma notável gruta no grande pátio de entrada, parecida à de Lourdes, entre duas escadarias curvas do térreo ao primeiro andar.

A gagueira de Píndaro, logo chamou a atenção dos colegas e professores. Os maristas não admitiam qualquer gozação. O regime era um tanto militar. Nas filas, ninguém podia falar, comer ou mesmo rir. Qualquer deslize, o aluno era colocado no toco, de pé, olhando para a parede e muitas vezes tinham que decorar poesias como o I. Juca Pirama, Canção do exílio, Cântico do calvário...

Para atender os alunos do colégio, havia um médico e um psicólogo. Frequentemente, crianças afastadas dos pais, podiam ter problemas.

O regente da divisão, vendo a gagueira de Píndaro, logo o enviou ao psicólogo. Após algumas sessões, a conclusão foi de que era um canhoto contrariado, por ter sido obrigado a escrever com a mão direita, o que não era mais admitido em sinistros! Pelo menos na cidade de São Paulo.

O psicólogo chamou aos pais, quando após um   mês, vieram do interior para visitá-lo.

Explicou a eles que temos dois hemisférios cerebrais e  dominância de um deles. Nos destros, o hemisfério dominante é sempre o esquerdo, que contém os centros da fala, da escrita. Nos canhotos o hemisfério dominante tende a ser o direito, o contrário. Uma criança canhota, obrigada a escrever com a mão direita, pode desenvolver   gagueira.

No canhoto, o uso da esquerda faz parte de sua natureza e não é um costume ou hábito que tenha adquirido.

Não existe treinamento algum que a faça mudar.

Se obrigarmos uma criança usar a mão menos hábil na realização das tarefas, os resultados podem ser frustrantes para ela, tornando-se tímida, insegura, esgotada, em desvantagem, resultando transtornos como a gagueira e a dislexia. O canhoto já tem uma preocupação, em se adaptar em um mundo feito, onde a grande maioria é destra. Nos casos de pai, mãe ou ambos gagos, pode haver um fator genético associado, que varia de 5 a 15%, mas não era o caso do Píndaro.

Avisem isto em sua cidade para as professoras que assim agem, que nenhuma criança deve ser corrigida, envergonhada, por causa da mão que escreve. Isto provoca uma disfemia, gagueira!

— Meus queridos pais, analisando as provas feitas pelo Píndaro ele nos pareceu muito, muito bom mesmo em todas as matérias, principalmente em português. Deve ser tido ótimos professores.

Peço a vocês, para eu ter a colaboração de uma fonoaudióloga capacitada, que conheço, para iniciarmos um tratamento em seu filho, tentando eliminar a gagueira. Evidentemente, isto vai custar uma soma de dinheiro, mas certamente vai compensar. O pai disse que era delegado, vivia de seu ordenado que não era muito, mas faria um grande sacrifício, se não fosse muito dinheiro. Tudo foi acertado!

O psicólogo, ainda disse que fariam duas sessões por semana, com exercícios para o relaxamento dos lábios, da língua, melhora da tensão muscular, coibir os sentimentos de medo, ansiedade, timidez, com pausas na fala, para ela ficar automática. Ainda, que pediria aos irmãos, para que o colocasse no orfeão da escola, cantar em coro, que poderia melhorar sua fluência. Seria interessante também que aprendesse violão, para cantar. Falar é diferente de cantar, inclusive pelas áreas ativadas pelo cérebro.

O lado direito é mais musical, o esquerdo é a fala.


Os gagos podem cantar normalmente, enfatizou. Quando sozinhos, não travam tanto a fala, mas piora quando fala com alguém que o deixa tenso, com ansiedade.

 No final da conversa, disse que os irmãos em de sua divisão, tinham observado que jogava muito bem futebol, o que seria um handicap positivo para ele.

— Os canhotos podem ser melhores nos esportes, confirmou.

Durante as férias escolares, em julho e quase três meses em dezembro, vocês irão aprender como proceder; vamos ensinar-lhes tudo. Evitar criticá-lo quando gaguejar ou completar suas frases. Quando apresentar dificuldade, não o interromper, animá-lo a terminar a frase. Começar uma frase e pedir que continue.  Não   deixar qualquer familiar lhe dar apelidos, gozá-lo.

Vai fazer exercícios de sopros, encher bexigas, balões, assoprar velas. Ler em voz alta e outras coisas mais! Trabalhar a respiração diafragmática. Acreditamos que em dois anos ou pouco mais, tenhamos um excelente resultado.  Agora, vão despedir-se dele e feliz regresso à sua cidade.

Os pais saíram muito satisfeitos, confiantes.

Píndaro começou o tratamento, terapia vocal, entrou para o orfeão do colégio, do qual fazia parte alunos dos diferentes anos e divisões e passou a ter aulas de violão. Autorizaram-no a escrever com a mão que lhe aprouvesse! Acabou se tornando ambidestro! O colégio lhes proporcionava tudo.

O ensino era excelente, aprendiam também o latim, francês na primeira e segunda séries e inglês a partir da terceira. Durante o dia, tinham o período das aulas, de estudo e recreios, com a prática de esportes. Píndaro, Na segunda série, já fazia parte do time principal dos submédios. Tudo o que treinasse, jogava bem, incluindo a sinuca. Tinha facilidade para os esportes, os quais adorava e fazia amigos facilmente.

No futebol, corria muito, driblava bem, dava passos precisos e seu chute com a canhota era forte e certeiro. Não perdia um pênalti e o goleiro sempre pulava do lado oposto àquele que a bola entrava. Apesar da gagueira, com a qual ninguém mexia, era querido e admirado por seus colegas. Evitava falar palavrões e quando os usava eram aqueles ensinados pelo pai, e outros, que encontrou no dicionário: gárrulo, facundo, debicador, deífico, donoso, dadaísta, nefelibata, etc. Além de estudar bem as matérias, sempre estava lendo um ou dois livros, retirados da grande biblioteca.

No recreio, frequentemente, se isolava em um canto para ler em voz alta, onde também cantava canções próprias da época. Seu pai lhe comprou um violão. Gostava muito de ouvir Nelson Gonçalves com aquele vozeirão lindo, pronunciando bem as letras da música. Adorava cantar Bohemia! Soube que o Nelson era gago, o que ninguém percebia quando cantava!

O professor de Música, contratado, que conduzia o orfeão do colégio ao receber Píndaro, fazendo o teste para ver se era apto, ficou entusiasmado com seu ouvido musical e ainda, com o timbre diferente de sua voz. Cantando, realmente quase não gaguejava. Várias músicas lhes foram ensinadas dentre elas Rosa, de Pitanguinha, No Rancho Fundo de Ari Barroso, o Velho realejo.

Logo Píndaro, estava cantando, sem gaguejar.

Este orfeão, sempre se apresentava em festividades   comemorativas da escola. No dia 6 de junho, na comemoração do dia do Padre Champagnat, o fundador dos irmãos maristas na França, havia festa o dia todo.

À noite no amplo teatro, o orfeão se apresentou e Píndaro, pela primeira vez, sozinho ao microfone, cantou “O velho realejo” com excelente voz, sem desafinar: -Naquele bairro afastado... Onde criança vivias...A remoer melodias...De uma ternura sem par! ...E daí vai.

 Foi muito ovacionado.

Ele realmente tinha dom! Foi adquirindo uma autoconfiança que o ajudava muito em tudo, principalmente com sua gagueira!

Tornou-se o primeiro aluno da classe por suas notas excelentes, sempre classificado como primeiro ou segundo da classe. Chamava a atenção do professor e dos seus colegas, como escrevia bem redações de português. Usava muitas figuras de linguagem, parecendo que teria futuro, se um dia viesse a ser escritor.

Ficou na divisão dos submédios dois anos. Na terceira séria, com 14 anos, foi para os médios, onde o campo de futebol era maior, com medidas profissionais. Os futebolistas que já o conheciam por suas qualidades neste esporte, ficaram empolgados. Na ocasião, com apenas 14 anos, estava com 1,75 metros, era forte, musculoso, pois também fazia barra fixa.

Nas férias, quando ia para o interior, todos notavam seu desenvolvimento físico e que sua gagueira, ainda ligeiramente presente, havia melhorado muito. Todos queriam sua companhia e os tios diziam que era o sobrinho preferido, principalmente um deles, que também adorava cantar ao violão! No clube, nos rachas, era sempre o primeiro a ser escolhido, mas também jogava basquete e nadava. Ia ao clube todas as tardes, e à noite, ao cinema ou jogar sinuca com os amigos. Tinha namoradinhas, assistia, com os primos e amigos, “o footing”, vendo as mulheres desfilando na rua principal, após a saída do cinema nas terças e quintas e após a missa das 10 horas aos domingos.

Quando na quarta série ginasial, vieram buscá-lo no colégio porque seu avô materno, com 65 anos havia falecido no interior. Este avô, que viera da Ilha da Madeira no final do século XIX, mesmo sem instrução, mas devotado trabalhador da roça, havia, conseguindo após anos, comprar fazenda, onde plantou o café, o chamado “ouro verde”.  Mais 10 anos estava rico, tendo construído excelente casa, comprado casas bem localizadas na cidade e fazendas umas próximas, outras distantes, na barranca do Rio Tiete. Deixou muita coisa para suas cinco filhas e três filhos, quase todos casados e com filhos. Com a herança da mulher, o pai de Píndaro deixou a delegacia, tornou-se fazendeiro de café, além de ficar com a metade de uma grande casa comercial, de secos e molhados, localizada na rua principal da cidade.

Voltando ao Píndaro, na quarta série ginasial, prestigiado pelos colegas, além da autoconfiança, tornara-se expansivo, sem qualquer complexo, timidez.   Nada restara de sua gagueira, graças ao psicólogo e sua foniatra.

Passou a adorar falar em público, tinha boa retórica, com uma gesticulação manual própria, que ninguém sabia onde conseguira aprender. Era dom!

Houve uma grande festividade no final do ano, no término da quarta série, no encerramento do ano letivo do ginásio! No dia seguinte seria a festa do científico. Eram muitos pais e parentes presentes. Todos os alunos fardados!

No amplo auditório, primeiro houve a apresentação do coro, do qual Píndaro fazia parte há quatro anos. Em seguida, a distribuição das medalhas pelo Reitor, àqueles com melhores desempenhos nas notas das 9 matérias do quarto ano. Os alunos premiados eram chamados na frente do palco e o reitor, ele próprio, colocava as diferentes medalhas de ouro, prata e bronze em seus peitos, citando as matérias em que haviam sido os primeiros, segundos ou terceiros colocados. Pareciam heróis de guerra!

Os pais ficavam sentados nas primeiras fileiras levantando-se, quando seu filho era chamado para subir no palco. Durante a premiação, um silêncio absoluto!
Píndaro foi chamado, seus pais se levantaram. Foram colocadas, três medalhas de ouro, duas de prata e duas de bronze. A plateia se levantou para aplaudi-lo, seus pais choravam. O pai falou baixo no ouvido de sua mulher: — Esse é meu filho! Eu sabia que me daria orgulho!

Em seguida, a entrega dos diplomas de término do ginásio e finalmente, o discurso do orador da turma, escolhido pelos próprios colegas do quarto ano.

O orador escolhido, quem foi? ... Píndaro!

No palco, peito cheio de medalhas, subiu no pequeno púlpito, ajeitou o microfone próximo à boca, com voz firme, pausada, gestos manuais precisos, deu início ao seu discurso. Cumprimentou inicialmente todas as senhoras e senhores presentes, pais, parentes, amigos dos formandos. Em seguida, referiu-se aos componentes da mesa diretora, composta pelo reitor, o capacitado maestro, os vários irmãos maristas presentes, fazendo referência especial ao já envelhecido irmão marista, com o apelido de Carrasquinho, que diariamente, há anos, tocava órgão na igreja, durante as missas.

Continuou falando da convivência com seus professores   irmãos maristas, grandes educadores, plenos de conhecimentos e, que seguiam religiosamente o que foi determinado pelo venerando Padre Champagnat, ao criar  a ordem dos Irmãos Maristas, com a função precípua de educar os jovens.

 Dirigiu a palavra a seus colegas, lindas palavras, envolventes, entusiasmadas, denotando a felicidade de nascerem em nosso gigantesco país, que ansiosamente aguardava pelo nosso futuro brilhante e, que cada um cumprisse com o seu dever. Gozando, citou o nome de alguns colegas, que junto com ele, faziam parte do time principal de futebol e, que embora fossem os campeões do torneio Interescolar, levaram a lavada recente de 4 a 1, dos reservas do time do Santos.

 Após muitas outras considerações, inclusive filosóficas, chegando ao final disse:
— Está guardada no baú de meu imo, a primeira vez, que pisei no pátio central deste colégio, com a visão da gruta da N.S de Lourdes em minha frente! O meu primeiro contato com os irmãos maristas, com meus colegas de divisão, a sala onde tive a primeira aula, a primeira missa, a visão do pátio da divisão dos submédios!

 Fez uma pausa e em seguida enfatizou o temor, o medo que sentiu, ao ficar só, sem sua família quando aqui me largaram e se despediram. Eu era pequeno, inseguro, nervoso e mais que tudo,  um gago, bem gago!

Graças à convivência com os irmãos maristas, com meus verdadeiros colegas e amigos e, principalmente, à ajuda do meu donoso psicólogo Eustáquio e à deífica foniatra Claudia, consegui me livrar da incômoda, insólita, prejudicial, inaceitável gagueira.

Disse que naquela exata ocasião se sentiu acabu..acrabu...aaacrabru, com dificuldade em falar esta palavra, como se tivesse voltado sua gagueira.. Parou um pouco e em seguida substituiu a palavra que queria falar por, abatido, prostrado, magoado por trazer em sua alma, aquele deprimente apelido que trazia de sua cidade “Breque agarrado”.  

Sorrindo, mostrando confiança, disse que felizmente, em pouco tempo sentiu-se normal, e que gostaria que os presentes, compreendessem que, às vezes, a língua emperra e não conseguimos falar a palavra acabrunhado! Acabrunhado! As palmas vieram em seguida.  

Terminou com um agradecimento especial a todos os pais presentes, que, sem dúvida fizeram sacrifício, trabalharam arduamente, para que seus filhos pudessem frequentar tão bom colégio. Olhando em direção a seus pais, colocando sua mão direita sobre o lado esquerdo do peito, enfatizou:

Um enorme e caloroso beijo em seus corações! Muito obrigado!

Foi o último dia a permanecer no Colégio Arquidiocesano de São Paulo.