ARAUJO X MARUJO - Sérgio Dalla Vecchia




ARAUJO X MARUJO
Sérgio Dalla Vecchia


Serginho era um menino que gostava de montar e desmontar qualquer coisa, mas a preferência era montar aeromodelos.

Todo Natal, ganhava um kit com peças de planador para construir. O primeiro foi muito simples, apenas corpo, asas, estabilizador horizontal e leme, peças já estampadas em madeira balsa. Bastava recortá-las e colá-las. O passo seguinte era a decolagem. Lançava o aviãozinho com força para o ar. Ele dava uma ou duas voltas e não resistindo mais a gravidade, aterrissava.

Cada ano o kit era maior. Já era composto de varetas de madeira balsa, papel de seda japonês, cola, primer e dope. Esses dois últimos eram produtos para esticar e endurecer o papel de seda.

A montagem era acompanhada de planta com os detalhes construtivos. Demorava dias até que o modelo ficasse pronto. Chegava o grande dia, e lá ia Serginho empolgado carregando seu avião, para soltá-lo em lugar apropriado que seu pai o levasse.

A preferência era locais gramados, sem árvores, postes e outros obstáculos que pudessem colidir com o frágil aeromodelo. Tarefa difícil, pois sempre, o planador no seu suave voo, acidentalmente encontrava um desses obstáculos. De repente; SPLASH & CRASH. Ia direto para a Cucuia. As vezes pegava um vento ascendente e ia parar nos Cafundó do Judas. Era uma mão de obra danada para resgatá-lo.

Assim Serginho brincava, montando e consertando os aviões avariados. Tornou-se expert em paciência e aeromodelos.

Seu sonho era adquirir o kit de um planador top, denominado Cirrus. Economizou muito, até que conseguiu.

Não cabia em si de felicidade, quando abriu a grande caixa.

Varetas, corpo maciço de madeira balsa, nervuras, papel, pavio, chumbinhos, elástico e vários outros materiais. Realmente era montagem para um entendido.
Serginho já era um meninão.

Animado, foi passar as férias de julho na casa dos avós no interior.

Lá arranjou uma mesa e logo iniciou a montagem.

Curtia cada etapa, asas com dois metros de envergadura, o corpo esguio e maciço lixado com primor, o estabilizador horizontal, o leme, o papel esticado com duas mãos de dope, enfim era um cansativo deleite para o menino construtor.

O avião era tão sofisticado, que possuía na cauda, um pavio a ser aceso na decolagem, caso o planador pegasse uma corrente de ar quente e não quisesse descer, o pavio consumido soltava um elástico do estabilizador que faria descer. Possuía também, um compartimento no bico, onde se colocava chumbinho para equilíbrio.

Assim, após consumir a primeira semana de férias exclusivamente para a construção, aplicando conhecimentos técnicos, paciência e muito capricho, a obra de arte ficou pronta.

O planador ficou lindo, imponente nas cores azul e branco.

Serginho empolgadíssimo, escolheu o campo de aviação da cidade para soltá-lo. O campo era praticamente abandonado, portanto muito propicio para o voo inaugural.

O avô fez questão de levá-lo, reconhecendo seu árduo trabalho. Ele também, estava curioso para ver a performance do avião.

Chegou o grande momento do lançamento. O avô segurou o Cirrus com o bico ligeiramente levantado, enquanto Serginho segurando uma linha grossa engatada na fuselagem correu contra o vento até que o planador estive voando e a linha se desprendesse.

Os dois boquiabertos acompanhavam o voo suave do Cirrus naquele céu azul de pouco vento. Ele plainou por um tempo até que aterrissou sem problemas, finalizando o batismo com sucesso.

Mais confiante, Serginho aumentou o comprimento da linha para dez metros e foi para o segundo voo.

Embora o vento tivesse aumentado, como mostrava a biruta do aeroporto, Serginho não se intimidou e disparou puxando o Cirrus das mãos do avô, até que atingiu  dez metros de altura.

Iniciou o planeio uniforme, mas logo começou a sentir a força do vento, fazendo-o balançar. Fez a primeira volta, a segunda e nada de descer, pelo contrário ganhava altitude.

Serginho e avô, juntos ansiosos aguardavam a aterrissagem que não acontecia. Trocavam olhares preocupantes.

Assim após várias voltas lá no alto, de repente uma rajada de vento o desequilibrou, em seguida, outra o empurrou com toda força para baixo. As asas não aguentaram a pressão e se deslocaram, fazendo o imponente Cirrus desgovernar-se e cair em parafuso.

Serginho desesperado acompanhou a queda livre sem piscar, até que sua obra de arte se espatifou no chão, enquanto o avô desesperado com as duas mãos na nuca gritou:

Chiii.., foi para o Beleléu!

A decepção foi enorme. Serginho indignado, partiu com muita raiva para o local da queda. Olhou chorando para os restos mortais do seu Cirrus, enquanto lembrava do empenho e trabalho dedicados para nada. Surtou! Pisoteou-os até não sobrar mais nada.

Após essa desilusão Serginho nunca mais montou um planador.

Mudou para nautimodelismo, pelo menos barco não voa, só afunda.



FILOSOFIA NA PRAÇA - Oswaldo U. Lopes




FILOSOFIA NA PRAÇA
Oswaldo U. Lopes


         A praça é um encanto, muitos a chamam de Praça do Colégio, porque um dos seus contornos é quase que totalmente tomado pelo muro do Colégio Rainha da Paz que fica logo ali.

         Tem nome – Praça Comendador Manuel de Melo Pimenta. O próprio nasceu na Freguesia do Luso, Bairrada, Portugal. Essa região lusa é famosa pelos leitões e pelo vinho. Lá ele é figura de relevo, tem até um pequeno museu com seus objetos e um pouco de sua história.

Nasceu em 1893 e veio para o Brasil com 14 anos. Ajudava o tio na carpintaria e cursou o Liceu de Artes e Ofícios. Fez fortuna e ajudou muito os pobres da Freguesia do Luso, por isso foi agraciado pelo Estado Português com a Comenda da Ordem da Benemerência em 1958.  Na Freguesia há também um Largo Comendador Melo Pimenta.

É curioso que tenham dado seu nome a esta encantadora praça, hoje cercada de inúmeros edifícios, de nobres e valiosos apartamentos. O bairro chama-se Vila Jatai e orgulha-se muito do nome e das ruas em volta, das quais se destacam a Realengo e Caminha Amorim de um lado, do outro a Elisa de Moraes Mendes que muitos conhecem da Praça Panamericana e não a imaginam pequena e de mão única lá para cima.

Porque deram o nome de um Comendador português a uma linda praça, num pequeno bairro na zona oeste de São Paulo, é um enigma. É verdade que por lá existem vários descendentes dos nossos bravos colonizadores, vindos de diferentes partes da pátria lusitana, muitos da Ilha da Madeira e dos Açores.

Costumo por lá caminhar e fui descobrindo seus mistérios aos poucos. O que tem de gente passeando com cachorros, é de assustar, pelo número, não pelo tamanho. São todos cães de apartamento de porte reduzido e franzino, embora por vezes ranhetas e latidores. Os donos são todos muito cuidadosos e andam com os famosos saquinhos de plástico recolhendo os dejetos dos seus estimados pets.

Em que outra praça você encontraria uma composteira (na realidade duas), com um aviso de não jogar lixo ali, que ela se destina a ser usada no jardim.

Os aparelhos destinados a ginastica estão em muito bom estado e todos funcionando, há uma tabela de basquete e ainda um pequeno cercado, com elementos destinados a diversão das crianças menores.

No largo há vários escritos e letreiros em muito bom estado, é o que chamo de Filosofia na Praça. Confesso que me encantam esses ditos simples que, no geral, traduzem a sabedoria popular. De estalo lembro de  dois locais famosos pelos ditos e que fazem parte de nossa cultura.

- Filosofia de Botequim

- Filosofia de Para-choque de caminhão.

Agora é possível adicionar mais um: Filosofia da Praça.

As de Botequim, no geral dizem respeito ao FIADO, desde as mais simples, de antigamente às rebuscadas de hoje:

- Fiado só amanhã.

 E as mais elaboradas:

- Fiado só para maiores de 90 anos, acompanhados dos pais.

Parece que esta precaução teve algum contratempo, pois já se encontra a variante:

- Fiado só para maiores de 90 anos acompanhados dos avós!

Há variações que exigem leitura cautelosa:

- Fiado dia sim dia não. Hoje não.

Há as que perderam um pouco seu objetivo:

- Fiado é igual à barba, se não cortar só cresce.

Com essa mania das barbas grandes e bem aparadas, perdeu um pouco sua eficiência e dá lugar a discussões acaloradas sobre o fiado e o comprimento das barbas.

Para-choque de caminhão é outra fonte inesgotável de sabedoria e filosofia popular. Quem nunca viu?

- Dirigido por mim, guiado por Deus.

- Não sou o Dono do Mundo... Sou filho do Dono.

- Mais vale chegar atrasado neste mundo do que adiantado no outro.

- Uma vantagem dos sem-teto é nunca levar desaforo pra casa.

Como dizia acima, a minha querida praça também é rica em filosofia e ditos saborosos que fazem pensar:

- O cigarro mata a todos, fumantes ou não.

- Dê valor às pequenas coisas, como seu saldo bancário.

Quem já foi jovem e teve três empregos e um Volkswagen sabe dar valor as pequenas coisas.

- Antes de ser um excelente profissional seja um bom ser humano.
Atingido em cheio. A Residência médica acelera muito, pelo treinamento em exercício, o conhecimento e a excelência profissional. O conhecimento chega antes do compadecimento.

Isso não envolve o desempenho profissional, atinge é a falta de compaixão, lá no início da carreira médica. Bons profissionais, competentes cumpridores de seus deveres, mas arrogantes.

“Si la jeunesse savais, si la vieillese pouvait”.

Isso vale para quase tudo na vida, não só a profissão médica. Temos filhos quando somos jovens e fortes, mas não temos a sabedoria para educá-los. Quem nunca ouviu que o primeiro filho (o mais velho) deveria ser de celofane para você poder jogar fora e com ele as besteiras que você fez na educação que lhe deu.

Bem já andei bastante pela praça, despeço-me do Comendador, dos amigos de quem nem sei o nome, dos vários e engraçados cachorrinhos e das composteiras.  Como diz o samba:

Até amanhã, se Deus quiser, se não chover, eu volto para te ver... Oh!  Linda Praça.




PARA QUE SERVE A TERCEIRA IDADE - OSWALDO U. LOPES





PARA QUE SERVE A TERCEIRA IDADE
OSWALDO U. LOPES


         De que vivem os bancos? Captar dinheiro pagando pouco e emprestar, cobrando muito. Quem está disposto e tem dinheiro para depositar no banco, recebendo pouco em troca? Sejamos honestos, os mais idosos têm o numerário e a característica de serem conservadores, logo colocam suas reservas no banco obtendo apenas baixa remuneração.

O Brasil tem uma fantástica concentração bancária. Instado você não vai precisar mais do que os dedos de uma mão para enumerá-los, mesmo assim vai arrolar dois estatais (Caixa e Banco do Brasil).

Então qual é o cenário? Clientes da terceira idade, relativamente ociosos que buscam segurança e vão ao banco com relativa frequência, como são tratados?

Os caixas, para dificultar assaltos, ficam nos andares superiores, o acesso se faz por escadas, às vezes um elevador, no geral um monta-carga assustador que você maneja sozinho.

Como é feita a identificação? Por biometria! Só que na terceira idade as impressões digitais já se perderam e, portanto, ela não funciona. Poderiam usar o desenho da íris, apesar da catarata, sempre presente nessa fabulosa idade, mas é provável que não gostem do custo.

Ah! Mas tem a senha! Que, no entanto, não pode ter data de aniversário, nem de forma direta nem invertida (ano, mês, dia). Números em sequencia, nem pensar. Não tente o CPF, vai dar brejo. Se a conta for conjunta (na maior parte das vezes é) o CPF do cônjuge também vai para o mesmo lugar. Só números primos (1, 2, 3, 5 ,7), não arrisque o computador do banco concluiu o curso médio suma com laude.

Não é a Glória!? Você tem que subir escada, digitar um conjunto de números difíceis de memorizar e se errar dá bloqueio na hora e haja gerente mor, diretor administrativo e os cambaus para resolver o impasse que, via de regra, só irá se liberar 24 horas depois.

Eles raramente dizem o mais simples:

- Agora só voltando amanhã. Preferem o pomposo:

- O sistema estará liberado daqui a 24 horas.

- Você quer dizer amanhã?

- É

- Mas eu preciso do dinheiro hoje?

- Lamento senhor ou senhora, mas é o sistema.

Bem você está questionando e na outra ponta da corda, os que pagam juros altos?

Aí o banco sai a campo e manda seus jovens agentes em busca de profissionais ou empresas que aceitem pagar juros altos e que ofereçam ótimas garantias.

Risco baixo, lucro alto e velhinhos murchos é isso aí povo idoso.

A TEORIA DA RELATIVIDADE GERAL - Oswaldo U. Lopes

Do Facebook do  Deonísio da Silva




A TEORIA DA RELATIVIDADE GERAL
Oswaldo U. Lopes


         A língua portuguesa, falada no Brasil não é para principiantes, alias há tantas coisas neste país que não são para principiantes que, muita gente acha, ele inteiro não é para principiantes. Parece que o Presidente Bolsonaro está principiando a entender isso.

Mas voltando a língua aqui falada e escrita, em que outra, “entrei bem” e “sai mal”, apesar de constituírem expressões baseadas completamente em antagônicos, significam, para o bom entendedor, a mesma coisa. No caso nem se tratam de meias palavras, elas são usadas inteiras.

         O que às vezes nos falta em clareza, sobra-nos em intuição. A teoria de Einstein sobre a relatividade geral parece de difícil entendimento, sobretudo para aqueles que, como eu, tem dificuldade para penetrar no mundo das abstrações. É aí que a língua portuguesa aqui falada, é bom enfatizar o aqui, porque a que se fala lá, nesse particular não ajuda, enfim a nossa língua esbanja intuição e mesmo abstrações subentendidas. Vejamos:

- Alegria de poste é estar no mato sem cachorro.

Esta claramente intuído o principio da relatividade. Para o que, o caçador entende como um drama, no caso do poste é um alivio.

         Quem ama o feio, bonito lhe parece. O dito pode ser interpretado de várias maneiras:

A supremacia do amor sobre a realidade das coisas.

Definido o feio, ele ganha relatividade e passa a ser bonito porque o campo gravitacional do amor supera as diferenças entre o feio e o belo.

Tudo nesta vida é passageiro, menos o condutor e o motorneiro. De novo a relatividade: o bonde, o condutor e o motorneiro são permanentes, o passageiro é, pela própria expressão, quem está de passagem, embora deva pagar para sê-lo.

Modernamente, muitos tendem a empregar a frase usando cobrador e motorneiro. Ledo engano de quem nunca viajou nos bondes abertos de antigamente. O condutor era a pessoa que, além de cobrar as passagens, tendo ampla visão do estribo e dos assentos, dava o sinal, dois toques na campainha, para que o motorneiro seguisse em frente. As paradas eram condicionadas a sinais existentes ao longo da linha, a partida dependia do sinal do condutor.

A existência de Raio que os Parta do Norte, implica que também exista Raios que os Parta do Sul, que implica magnetismo, que implica núcleo magnético da terra, que implica balanço, que implica atração do sol, que implica relatividade, que implica... E lá vamos nós.



Amor proibido - José Vicente Camargo



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Amor proibido
José Vicente Camargo


 Se nosso querer desse certo,
Se a força de vontade barreiras vencesse
Desfrutaríamos um amor carinhoso, ou agitado?

Se nosso querer desse certo,
Teríamos a paz do passo acertado, ou o desconforto do errado?

Se o nosso querer desse certo,
Conviveríamos num meio acolhedor, ou repulsivo?

Se nosso querer desse certo,
Passaríamos a velhice abraçados, ou lamentando o tempo perdido?

Se nosso querer desse certo,
O que o futuro traria, são premissas só
O importante é sentir, que a paixão conheci...



Quantos anos tenho? - José Vicente Camargo





Quantos anos tenho? 
José Vicente Camargo



Quantos anos tenho?

Tenho tantos enquanto em meu peito bater a paixão, que germinou logo no primeiro encontro. Frutificou, e sua presença me saciou os desejos, me abraçou na paz e me vislumbrou um futuro de segurança e harmonia. Anos passados são águas mortas que não mais refrescam. O importante, neste ponto da caminhada, é deixar-se levar pela correnteza do rio até o mar infinito, transformar-se em onda e retornar, quiçá, à areia da vida.

Quantos anos tenho?

Tenho tantos enquanto sofrendo, aguardo seu regresso de um dia que, sem dizer porque, partiu sem dizer pra onde. Sua presença me trará novamente a força do seguir avante, a alegria do viver.

Quantos anos tenho?

Tenho tantos enquanto nos meus sonhos ecoarem as vozes e trepidarem as imagens queridas daquele tempo:

Dos meus pais, avô, irmãos Roberto, Zezé, primos Paulo, Mimi, amigos de aventuras e juras de amor...

Onde estão todos eles?

Estão todos no fruto da paixão da árvore que em mim brotou, aguardando o amor que arrependido, de saudades voltou...



O ursinho que foi para o Beleléu. - Fernando Braga


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O ursinho que foi para o Beleléu.
Fernando Braga


No dia de Natal, Pedrinho, de quatro anos, levantou-se bem cedo e, imediatamente dirigiu-se para a cozinha, onde sobre o fogão de lenha encontrou vários presentes que o Papai Noel deixou durante noite, por ter tido bom comportamento naquele ano. Muito alegre, desembrulhando afoitamente um por um, era uma surpresa após a outra, correspondendo aos pedidos feitos  em uma cartinha, que sua mãe ao seu lado escrevera, para o chamado bom velhinho.

Bem embaixo, no chão, estava um embrulho bem maior, era quase de seu tamanho,  para o qual Pedrinho ficou olhando, com medo de abri-lo. Correu ao quarto dos pais, num pulo subiu na cama, muito contente, gritando, disse que o Papai Noel deixou  muitos presentes para ele. Os pais abraçaram-no e o acompanharam até a cozinha. No meio daquela confusão, de papeis e fitas esparramados pelo chão, foi mostrando um por um, dos presentes. Então, parou e perguntou se aquele embrulho grande também era para ele? Certamente, disse a mãe, se está junto, foi o Papai Noel quem deixou. Pode abri-lo.

Soltando as fitas coloridas e  rasgando o papel branco expôs um ursinho azul, de pelúcia, quase do seu tamanho. Abraçou e beijou aquele presente e não mais quis largá-lo. A mãe sabia que era presente do vovô.

Desde aquele dia, tornou-se seu grande amiguinho, falava com ele, chamando-o de Pimpão. Quando voltava da escola, o que primeiro fazia era abraçá-lo.

O  ursinho estava sempre presente quando almoçava, assistia a televisão e à noite, dormiam bem abraçados. Não gostava que alguém pegasse seu amigão.

Uma vez por semana, ia com a empregada brincar no parque, cheio de árvores frondosas, pequena lagoa com patinhos e bancos.

Um dia, neste mesmo lugar, trouxe o ursinho,  e a empregada portava uma bola na mão esquerda. Logo após chegarem, a empregada incitou-o ao jogo de  bola, bem perto do banco onde estavam. Pedrinho deixou o ursinho para guardar o lugar.

Após uns quinze minutos de correria atrás da bola, voltaram ao banco:

- Onde foi parar o Pimpão?

Olharam em todas as direções, correram pra lá, pra cá e nem sinal dele. Pedrinho começou a gritar pelo nome de seu amiguinho e depois caiu no choro. O tempo corria e ele não desistia e não queria voltar para casa sem encontrá-lo. Com respostas negativas após perguntar a muitas pessoas, se tinham visto alguém carregando um ursinho azul. A empregada enfatizou:

- Ele foi pro Beleléu! Vamos voltar para casa.

- O que é Beleléu? Arguiu o menino.

- É um lugar muito, muito distante que ninguém sabe onde fica!

- Mas ele não anda!

-Pois ele foi voando!

- Voando? Nunca vi ele voar?

- Vamos para casa, já é tarde, sua mãe está esperando.

- E se ele voltar e não me encontrar, não vou vê-lo nunca mais?!

- Ele certamente vai voltar para a sua casa. Vamos embora.

Chegando em casa foi aquela choradeira:

- Mãe, o Pimpão foi para o Beleléu! Será que ele volta pra casa?

- Se não voltar, vamos conseguir outro igualzinho pra você!

- Mãe, não, não e não, eu quero o meu Pimpão! Não existe nada igual!

Desde esse dia, ficava ao portão perguntando aos que passavam, se não tinham visto o seu ursinho azul. Perguntava repetidas vezes para o guarda noturno, para o gari, para os passantes.

Por coincidência, o filho de um dos garis que recolhiam o lixo também da casa de Pedrinho, estava com o um ursinho azul que não lhe pertencia. Não é um ursinho comum, em geral são branquinhos ou marrons:  

Quando o homem viu o filho com aquele brinquedo, imediatamente lembrou do menino que sempre lhe perguntava sobre um tal ursinho azul:

- Quem te deu este ursinho?

- Encontrei no parque, abandonado! Trouxe para mim.

O lixeiro, é claro, duvidou do filho e percebeu logo, que o brinquedo pertencia àquela criança, daquela casa, de uma das ruas onde coletava o lixo, pois várias vezes viu o garoto agarrado àquele ursinho azul.

Dias após, pegou o ursinho e colocou-o na porta daquela casa e após tocar a campainha saiu depressa.

A empregada abrindo a porta deparou com surpresa.  Ficou muito feliz.

Pegou o ursinho, colocou-o em cima da cama dele, com um bilhete:

- Meu amigo do peito, voltei de Beleléu, onde fui dar uma volta. Senti enorme saudade sua! E voltei!

Não dá nem para comentar a alegria de Pedrinho, ao ver de volta seu Pimpão.


Que pouco caso! - Ledice de Sá Pereira






Que pouco caso!
Ledice de Sá Pereira


Ir à agência do Banco do Brasil sempre significou para mim um sacrifício.

Dessa vez, eu precisava resolver um assunto e, para isso, tinha que ir lá ao vivo e a cores.

Enchi-me de coragem e fui enfrentar a fila dos velhinhos.
Já repararam que essa fila não anda?

Em primeiro lugar, tive que enfrentar a porta giratória. Tentei uma vez, fui brecada. Recuei.

O segurança, com aquela cara de desconfiança, arreganhando os dentes, perguntou:

A senhora tem celular?

Tirei o celular da bolsa. Coloquei no recipiente que o homenzinho me indicou, dirigindo-me novamente à porta.

Ouvi de novo aquela campainha desagradável que me barrava a entrada.

Dei dois passos para traz, olhando pro dito cujo que continuava com aquela cara de fuinha.

 A senhora tem chaves?

Procurei minhas chaves. Nunca encontro rapidamente nada que procuro, dentro da bolsa. Juro que tento colocar cada coisa num lugar apropriado. Mas quando fico nervosa não acho nada.

Ah, aqui estão as chaves eu disse, tentando sorrir mas com vontade de voar no pescoço do tal sujeito.

Bem, acho que agora vou...

Pi pi pi pi... e a desgraçada da campainha tocou feito doida, impedindo minha passagem.

 O que pode ser agora? Despejei tudo que havia dentro da bolsa para que o simpático” segurança verificasse que eu não estava portando nenhuma pistola dentro da minha minúscula bolsinha a tiracolo, cheia de bolsinhos.

A senhora tem moedas num desses bolsinhos?

Encontrei duas míseras moedas de cinquenta centavos que mostrei a ele, com cara de poucos amigos.

Finalmente, consegui passar pela maldita porta.

A fila dos velhinhos dava voltas. Três caixas atendiam o resto da população.

A nós, da terceira idade, apenas uma moça que parecia estar ali, fazendo grande favor, indo e vindo, calmamente, de lá pra cá e de cá pra lá.

Meus pés começaram a doer. Apenas quatro cadeiras acomodavam a turma de “melhor” idade. À minha frente contei mais cinco idosos sofredores. Eu precisava fazer alguma coisa.

As pessoas reclamavam umas com as outras, mas os atendentes pareciam não estar nem ali.

Não tive dúvidas. Fingi ter um desmaio. Caí feito um saco de batatas.

Correria geral. Eu espiava pelo canto dos olhos.

Levantaram-me, puseram-me sentada numa cadeira em frente ao gerente. Deram-me água. Perguntaram se eu estava melhor.

Queixei-me ao gerente. Que estavam nos fazendo de idiotas. Difícil entrar, difícil ser atendidos.

Eu, que na verdade, tinha que efetuar um simples pagamento, aproveitei para dizer que tinha tido a ideia de fazer a portabilidade do meu VGBL, que estava no Bradesco, com valor aproximado de R$800.000,00, mas em face do descaso, acabara de desistir. Nem deixei o gerente argumentar. Levantei e o deixei falando sozinho.

Saí, batendo o pé, de cabeça erguida e ainda encarei o segurança com cara de poucos amigos. Tinha me vingado!