O MUNDO DE FRANCINE - Antonia M. Gonçalves



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O MUNDO DE FRANCINE
Antonia  M. Gonçalves

A jovem Francine estava feliz com as decisões que havia tomado em sua vida. Após fazer a faculdade Santa Marcelina onde especializou-se em estilista em moda. Usava de maneira magistral sua criatividade nos projetos, a ponto que rapidamente, após fazer a pós-graduação, ser indicada pelos professores para dar consultoria para grandes marcas do mercado. Para isso não precisava trabalhar fechada em salas das empresas e sim no seu Loft com total liberdade de horários. Sendo assim, podia também praticar o seu exercício matinal preferido, andar de bicicleta. Sentia-se livre todas as manhãs com o frescor do amanhecer correndo com sua bicicleta, que revigorada o seu trabalho tinha um melhor rendimento.

Desde jovem tinha a certeza de que havia nascido para não casar. Era muito independente, achava que casamento castrava a mulher. Francine valorizava mais a carreira profissional do que a parte sentimental em sua vida. Também tinha o exemplo em casa, seus pais depois de anos de casados sempre brigavam muito, principalmente a mãe, por ter aberto mão de sua carreira para se dedicar ao lar. Isso a frustrou muito, acabaram se divorciando.

Certo dia na sua saída da manhã ela pegou a bicicleta e saiu correndo sem perceber que o pneu traseiro estava esvaziando, andou alguns quilômetros e teve que parar, pois a bike começou a trepidar.  Teve que retornar a pé para casa,  seguiu empurrando a bicicleta, até que num desnível da calçada ela tropeçou torcendo o tornozelo. Não se deixou abater, levantou e seguiu mancando. Até que  um carro a abordou. Era uma camionete preta com um rapaz com sorriso acolhedor que se ofereceu para ajudá-la levando-a para casa. Não o conhecia e respondeu que não aceitaria, pois não tinha o costume de entrar em carro de estranhos.

Apresento-me, falou o rapaz, meu nome é Guilherme sou o seu  vizinho, e estou voltando para casa posso deixá-la. Vejo que está com dois problemas, o pneu da bike e o pé que já está bem inchado. Guilherme desceu se aproximou. Desculpe-me, posso? E examinou lhe o pé.  Trata-se de uma torção precisa enfaixar pelo menos por 24 horas. Ela desdenhou fazendo uma careta. Ele explicou que era médico.  Levarei você para sua casa, disse determinado. Pegou a bici colocou na traseira da camionete,  e com Francine no colo  colocando-a no banco de trás com a perna esticada. Chegando em casa novamente no colo entraram na casa pondo-a no sofá. Perguntou onde ficava a caixa de primeiros socorros, Francine estava desconfortável. Quem ele pensa que é me dando ordens, entrando em minha casa? E, respondeu, pode ir,  eu me viro bem sozinha. Moça, seu pé esta uma pipa de inchado, vou em casa buscar umas ataduras e spray para contusões volto já.

Assim fazendo voltou rapidamente e com muito cuidado enfaixou o pé, não antes de passar o spray para dor e depois a aconselhou que tomasse um analgésico. Vou deixar o meu telefone se precisar de alguma coisa me liga. Ela constrangida com tanta atenção não teve outro jeito a não ser agradecer. No dia seguinte acordou muito melhor e devagar com cuidado foi fazer o café da manhã, quando toca a campainha e ao abrir a porta vislumbrou uma bela cesta de café da manhã e um ramalhete de flores com o cartão que dizia, “Para a bela ciclista, para a sua total recuperação” Guilherme. E o encantamento foi se materializando a medida que foram se conhecendo. Ele foi conquistando a resistente Francine a ponto dela se apaixonar. Depois  confessou que a amava há tempos, mas não tinha tido oportunidade de se aproximar,  e que o acidente foi providencial, e lógico que ele não deixou escapar. Um ano depois estavam casados e felizes.

SONHANDO ACORDADA - Ledice Pereira



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SONHANDO ACORDADA
Ledice Pereira

O que você tanto escreve, Alice?

Estou apenas fazendo uma lição, mãe.

Alice continuou escrevendo. Na verdade, todo dia escrevia algumas linhas para um vizinho. Colocava na caixa de correio da casa dele.  

É preciso que se diga que Alice, uma pré-adolescente prestes a fazer 13 anos, era dona de uma imaginação muito fértil.

Sonhadora, tinha que ser muitas vezes chamada pelos professores, pois costumava ir longe, em suas divagações.

Dava asas à imaginação e criava histórias fictícias, nas quais ela própria chegava a acreditar. Aluna de um colégio de freiras, jurava que Irmã Celestina, professora de Francês, havia se tornado freira por desilusão amorosa. Numa aula de literatura, ao ler o nome do autor, teria falado para si “Sempre te amarei”. Bastou para que Alice viajasse por uma história de amor proibido, razão da escolha da freira ao optar por seguir aquele caminho.

A vida ali era tão misteriosa que ela mesma, pensou em entrar para o convento, por pouco tempo, diga-se de passagem.

Voltando às cartas...

Na década de 1960, quando os pais de Alice resolveram mudar de residência, procuraram uma rua em que houvesse muitas casas, nenhum prédio.

A menina adorou a casa nova e logo quis explorar a região. Descobriu onde ficava a padaria,  farmácia,  açougue. Identificou moradores, suas opções de terem cachorro ou gato, avistou gaiolas, aprisionando pássaros, que imaginou abrir para libertá-los.

Como tinha facilidade de se comunicar, em poucos dias sabia tudo sobre todos.
O que mais lhe chamou a atenção foi um rapaz que morava na casa vizinha. 

Devia ter por volta de 17 ou 18 anos. Pareceu-lhe esquisito. Achou-o solitário e passou a observá-lo.

Pensou que poderia alegrar os dias do pobre coitado. Passou a escrever-lhe cartas anônimas.

O jovem gostou da brincadeira e respondia-lhe as missivas, deixando respostas na sua própria caixa de correspondência.

Logo, estava perdida e platonicamente apaixonada. A troca de correspondência durou uns oito meses. A menina aguardava as cartas ansiosamente, e as colocava no bolso para ler no silêncio de seu quarto, onde deixava a imaginação correr solta.

O rapaz não era nenhum ermitão. Apenas se divertia com aquilo que imaginava ser fruto da curiosidade de alguma garota imatura. Apesar da aparência, ele tinha 23 anos e frequentava a Universidade onde se apaixonou por uma colega de turma com quem iniciou um namoro.

Certa noite de sábado, Alice ouviu vozes na casa ao lado, olhou pela janela de seu quarto, percebendo que havia alguma comemoração. Aguçou os ouvidos até que a ficha caiu.

O vizinho beijava uma linda jovem e oficializava o seu noivado.

Os pais não entenderam a razão daqueles olhos vermelhos e inchados. Nem puderam evitar que a filha sofresse sua primeira decepção amorosa.

No dia seguinte, Alice, que não levava desaforo pra casa, deixou seu último bilhete para o traidor:

Caro ermitão, cansei de tentar ajudá-lo a sair desse casulo. Espero que, daqui pra frente, consiga andar com suas próprias pernas. Pra mim chega. C’est fini.”

ALICE, A PEQUENA INVESTIGADORA - Antonia M. Gonçalves


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ALICE, A PEQUENA INVESTIGADORA
Antonia M. Gonçalves

Desde pequenina Alice tinha os olhinhos muito espertos, conseguia perceber todos os movimentos a sua volta, e  a qualquer ruído ela virava a cabecinha na direção certa, diziam seus pais.

A medida que crescia ela desenvolvia os outros sentidos com muita rapidez e inteligência, o que preocupava os pais, tinham medo que ela tivesse problemas, dissabores na vida,  com sua perspicácia apurada.

Moravam em um condomínio de casas de médio padrão onde quase todos se conheciam. Uma das casas estava a venda, e Alice torcia para quem a comprasse tivesse filhos.  Quando a venda foi realizada, Alice foi  foi perguntar para o corretor de imóvel quem era a família que a comprara. São estrangeiros, árabes provavelmente, não falam bem o português e as mulheres todas usam o lenço na cabeça e algumas têm até o rosto todo coberto. Isso só aguçou mais a curiosidade de Alice. Como pode alguém ficar com o rosto coberto? Isso é pra lá de estranho  pensou.

Leitor contumaz de livros de espionagem, detetives e investigações,  sua imaginação começou correr solta. Preciso investigar essa família – pensava sem parar.  Voltando da escola tentava espreitar a casa dos estrangeiros, fingia que estava levando o Clark para passear e tentava chegar mais perto possível. Não via movimento no quintal e nem de crianças brincando. Com tantas mulheres deve ter crianças ai dentro pensava. Depois cogitou de a noite sair às escondidas para chegar mais perto sem ser notada. Na primeira oportunidade, enquanto todos dormiam,  pé ante pé saiu, ela abriu a porta e foi com cuidado para o quinta. Acendeu a lanterna do celular, e seguiu sorrateira.  Mas esqueceu-se do guarda noturno, que fazia a ronda do condomínio, ele a viu e se aproximou perguntando:  Alice o que esta fazendo aqui a essa hora, menina?. Levou um belo susto, quando se recuperou arranjou logo uma desculpa, como algo que havia perdido. Deu boa noite, e voltou para casa altamente frustrada.

Preciso saber o horário do guarda assim poderei investigar sossegada. E assim o fez, aproveitou a ausência dele e voltou à sua atividade investigativa.  Sabia que as janelas da sala eram suficientemente grandes e baixas, o que facilitaria enxergar o que acontecia lá dentro. Foi aí que pode ver vários homens reunidos sentados em tapetes. São tão pobres que não podem comprar cadeiras? – pensou enquanto observava que usavam turbantes e havia uma espécie de jarra com uma mangueira comprida em que eles levavam à boca e depois soltavam uma fumaça estranha Que chá estranho! Pensou. Mas não viu nenhuma mulher. Deslizou devagar para a outra janela que dava para outro cômodo da casa.  As mulheres todas juntas a porta fechada. Será estão presas? Questionou. Não parece, parecem  tranquilas conversando. Ponderou. Elas usavam a mesma jarra com mangueira igual dos homens. Podem ser usuários de drogas, farei uma denúncia na polícia. E assim o fez. Acreditou que tivesse salvado o condomínio de pessoas perigosas e estranhas. Mal sabia ela que a polícia chegando na casa não viu nada anormal ou irregular. E  fazendo as investigações chegaram ao telefone de sua casa, foram falar com os pais de Alice que surpresos negaram qualquer denúncia, mas como conheciam a filha, chamaram-na para que contasse o que havia feito. Confessando,  ela foi obrigada pelos pais e policiais, como castigo, estudar tudo sobre os costumes árabes e também se retratar perante os vizinhos pedindo desculpas pelo constrangimento que os havia feito passar.

Eles foram muito educados e ensinaram a ela que aquela jarra chamava-se Narguilé e era um tipo de fumo tradicional árabe, convidaram Alice e família para um jantar árabe muito gostoso e as moças mais jovens se apresentaram com a dança do ventre.

Alice aprendeu a lição, nunca mais tirar conclusões precipitadas sem antes se informar com precisão de tudo.

AUTORES DO ESCREVIVER BRILHARAM NA BIENAL



PARABÉNS, AUTORES!!!
PARABÉNS, LEDICE
PARABÉNS, ANGELA
PARABÉNS, ROMANO




A Bienal esteve lotada neste 2018. Centenas de estandes, milhares de visitantes, e autores.

Abaixo algumas fotos dos ilustres autores e colegas de turma que os visitaram. 

O EscreViver do Clube Alto dos Pinheiros estava lá brilhantemente representado pelos nossos queridos:


Oswaldo Romano, autografando o livro PEDRA BRANCA. 


Ledice Pereira, autografando o livro AGORA EU CONTO.


Angela de Barros, autografando o livro O QUE TRAGO DENTRO DE MIM.

Maria Luiza C. Malina, levou sua obra A TOCA DO URSO. 























A dama de branco - Fernando Braga



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A dama de branco
Fernando Braga

       Valério quando jovem, empreendera uma viagem à Europa e em Paris encontrou-se com uma amiguinha, que lá estava há seis meses, para estudar o idioma. Ela levou-o a conhecer os principais pontos turísticos e em um domingo, para assistir a uma missa negra, presente em poucas cidades do mundo. Aceitou por curiosidade.

        No momento da consagração do Cramunhão (demônio), Valério ouviu em seu cérebro, uma voz sussurrando que fizesse um pedido, que seria atendido. Não acreditava nestas “bobagens”, mas assim mesmo, pediu para ficar rico. E, não é que aconteceu!

       Logo após retornar a São Paulo, encontrou uma garota, que por ele se apaixonou, cuja maior qualidade era ser filha de um milionário, de milhões e milhões.  Foram morar em uma mansão, passou a trabalhar com o sogrinho querido, com uma retirada mensal assaz satisfatória.

       Nunca relacionou sua sorte com aquele encontro com o tal do Cramunha, com o qual sem saber, havia feito um pacto.

       O tempo passou, ele agora com sessenta anos, tinha a vida que pediu a Deus. Dinheiro, saúde, amigos, viagens para cá e para lá e até alguns encontros fortuitos, dos quais a mulher jamais suspeitara.

       Recentemente, passara a ter sonhos diferentes, onde via os números 7 e 3 passando, voando em sua frente e   às vezes, ao longe, uma voz cavernosa que repetia estes números e ainda, estranhamente, dizia:     Você agora é meu! Meu! Meu!...

       No começo acordava e se esquecia, mas depois, como havia sempre uma repetição destes sonhos, passou a achar estranho. Uma preocupação se instalou. Por que aqueles números? Porque aquela voz sempre dizendo a mesma coisa? Não comentava com ninguém, podiam achar que estavisse ficando doido!

       Procurou uma vidente conhecida, para que interpretasse os sonhos repetitivos. Ela lhe disse que 7 e 3 eram números místicos, conhecidos desde a antiguidade. Ficou tensa após ter relatado o episódio, agora bem distante, relacionado com aquela missa negra.

       Pouco tempo depois, dentro de uma noite fria de julho, associada a uma forte tempestade com raios e trovões, acordou sentindo muita dor do lado direito do abdômen,  cólicas cada vez mais fortes que desciam em direção aos testículos. Começou a urrar, suar copiosamente e apresentar vómitos. Levantou-se, andou e a dor não o deixava. Deitou-se novamente e pediu à esposa, agora acordada e assustada, que fosse até uma farmácia próxima e lhe comprasse comprimidos e ampolas de Baralgin. Ela saiu às pressas.

       Uns 10 minutos após ela ter saído, deitado, com dor irresistível, a porta do quarto se abre e aparece a figura de uma jovem, cabelos longos, traços delicados, vestida com uma camisola branca, que caminhou em sua direção. Ele ficou parado, assustado e ela inclinando-se, tocou o seu abdômen, no local principal da dor.

       Como que por encanto, a dor passou completamente. Com voz maviosa, disse:- Agora vá urinar no banheiro, não na privada. Ele levantou-se e foi.

        Ao urinar, saiu junto uma pedra pequena, do tamanho de lentilha. Coletou-a e guardou em um vidrinho. Voltou ao quarto para rever aquela figura impressionante, mas ela havia desaparecido.  Logo após, chegou sua mulher com a medicação e, ele sorrindo, cantando, mostrou-lhe o vidrinho com a pedra eliminada.

        — Foi um cálculo renal, disse. Nada comentou sobre a visita que tivera.

       Desde este acontecimento sonhava toda noite com aquela dama linda, vestida de branco, com olhos voluptuosamente azuis, que olhava-o com carinho, tocava seu corpo e sumia. Queria continuar o sonho, mas sempre acordava, muito frustrado.

       Meses após, ou melhor, no começo do mês de março do ano seguinte, novamente o sonho. A dama misteriosa reapareceu.

       Desta vez, não perdeu tempo e puxou-a contra seu peito, entrelaçando suas mãos às dela, juntando os lábios. Neste preciso momento ela levitou suavemente, levando-o consigo pelos ares... Tinha ele, a sensação de felicidade completa!

       No dia seguinte, a esposa ao tentar acordá-lo, percebeu que estava roxo, frio e não respirava. Estava morto!

       O legista confirmou a presença de enfarte do miocárdio.

       Aquela dama maravilhosa, nada mais era que, mais um disfarce do notável Cramunhão, que viera buscá-lo para sempre! Ele o havia avisado através daqueles números 7 e 3, míticos, (julho e março), que havia chegado a hora de receber a sua parte do compromisso pactual, firmado naquele domingo em Paris.

O BILHETE - Ledice Pereira



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O BILHETE
Ledice Pereira

Naquele domingo, todos atenderam ao chamado de Silvério Duarte.

O velho, 85 anos, vinha apresentando alguns problemas de saúde que, até então, era invejável. Mas não era isso que o afligia.

Morava na fazenda da qual sempre tirou sua sobrevivência e educou os três filhos: Luís, o mais velho, 55 anos, filho do primeiro casamento, engenheiro agrônomo, braço direito do pai nas coisas da fazenda. Residia a vinte quilômetros dali, num condomínio na parte urbana da cidade; Caio, músico, 13 anos mais moço, considerado, pelo pai, a ovelha negra da família, deixou a fazenda ainda jovem para viver a vida urbana que sempre o atraiu; Lívia, adotada ainda bebê, quando Luís tinha 10 anos,  casou-se com um industrial paranaense, e dali se mudou para seguir o marido, a contragosto de Duarte.

O velho patriarca almejava ter a família toda ao seu redor.

Sonia, sua segunda mulher, o conheceu quando contratada para secretariá-lo, no escritório que montara na cidade. Era seu primeiro emprego, aos 19 anos. Aquele homem vinte e poucos anos mais velho, levemente grisalho, alto, bonito, tremendamente charmoso, a encantou imediatamente.

A atração foi recíproca. Viveram uma paixão avassaladora, enfrentando tudo e todos.

À época, ele tentava manter um casamento de aparências com Svetlana, filha de um poderoso fazendeiro da região, que lhe tinha sido destinada desde criança, naqueles acertos comuns entre famílias abastadas.

Muito jovem, numa época em que não podia expor sua opinião, e com pouca oportunidade de conhecer outras moças na região rural onde vivia, acostumou-se à ideia de tê-la como esposa, deixando-se levar por aquele acordo.

Era um acerto comercial e ela, filha única, levou como dote, as terras que o pai a ela havia destinado, aumentando consideravelmente o patrimônio da família Duarte.

Quando conheceu Sonia, descobriu o que era realmente estar apaixonado. Ao constatar a gravidez da amada, decidiu pela imediata separação, diga-se de passagem, bastante turbulenta para as duas famílias. O sogro jurou vingança. Svetlana entrou em depressão profunda, vindo a falecer poucos anos depois.
Duarte rompeu com o pai, amigos e familiares que se colocaram contra a decisão. 

Ali, o casal viveu uma vida de amor cercado apenas dos filhos e dos velhos e fieis empregados, Maria e Ademir que, além de cuidar dos jardins, passou a exercer a função de motorista.

Luís foi o primeiro a chegar, trazendo Luzia, sua mulher. Os filhos vieram depois. Tinha pouco mais de doze anos quando a mãe faleceu. Nutria certa antipatia por Sonia. Intimamente, a culpava pela morte da mãe. O avô materno nunca mais o procurara.

Lívia chegou logo. Estava saudosa e correu a abraçar o pai e Maria, a velha empregada que sempre a acolhia nas horas em que se sentia triste ou com medo.

Era menina quando Sonia veio morar na casa. Tinha  um pé atrás em relação à madrasta, embora sempre tivesse sido tratada com carinho por ela.

Caio demorou um pouco mais a chegar. Vinha de moto, mochila às costas, cabelo preso num rabo de cavalo, roupa surrada, do modo que o pai detestava. Ficou abraçado com a mãe, que representava seu porto seguro. Era distante dos irmãos, que não pareciam fazer muita questão de sua presença.

No final da tarde, o pai pediu à mulher que mostrasse a todos o bilhete que recebera:
Пришел набрать моей мести против вас и всех его потомков. Их земля будет гореть в огне и вы и ваша семья умрет

Ninguém entendeu nada, mas combinaram de consultar um tradutor.

─ Você não tem ideia de quem enviou esse papel, pai ─ perguntou Luís, sem entender o que aquilo poderia significar. Há alguém por essa região de descendência russa? Afinal, os caracteres parecem ser russos, não?

Duarte revelou detalhes de sua separação, quarenta e tantos anos atrás.

─ Svetlana era de origem russa, mas não tinha irmãos, nem primos que eu soubesse. Seu avô, Igor Ivanov, veio fugido para o Brasil, na época da revolução russa, em 1917. Formou família aqui. Casou-se com sua avó, uma italiana rica, e triplicou a fortuna da mulher. Investiu em gado e aumentou as terras. E como Svetlana fosse filha única, sua fortuna me foi dada como dote. Eu administrei e aumentei ainda mais o patrimônio. 

─ Quando eu conheci Sonia e me separei de sua mãe dividi as terras, ficando com a menor parte exatamente para não ter problemas, e não tive mais contato com ninguém. Até porque rompemos relações. O velho ficou uma fera e prometeu vingança, mas não lhe dei importância. Com o tempo esfriaria a cabeça e me esqueceria.  

Naquela época, eu estava muito apaixonado ─ ele disse ─ olhando com carinho para Sonia.

São eles os únicos russos que conheci. Soube da morte dele, há muito tempo, e que a mulher morreu logo depois. Nem sei o que foi feito das terras. Cheguei a pensar em rasgar o bilhete, mas como não sei o que traz escrito, achei melhor dividir com vocês. Quero que me ajudem a pensar o que devo fazer.

Luís, com a pulga atrás da orelha,  encarregou-se de desvendar o significado do bilhete. Despediu-se de todos e partiu com a família, tentando não demonstrar sua preocupação.

Lívia resolveu passar uns dias na fazenda até para ajudar a cuidar do pai.

E Caio, preocupado que a mãe estivesse correndo algum perigo, decidiu permanecer por mais alguns dias junto a ela.

Numa noite quente, dias depois, acordou com um estalido na mata. Ao abrir a janela do quarto, sonolento, Caio assustou-se com a altura das labaredas circundando a casa. Prontamente, chamou o corpo de bombeiros e acordou os empregados para que, juntos, tentassem impedir a aproximação do fogo.

Sonia e Duarte, que dormiam no quarto dos fundos, acordaram com a movimentação.

Lívia também, ao ouvir vozes, juntou-se a eles assustada.

Os bombeiros, depois de muito trabalho, conseguiram conter o fogo e concluíram tratar-se de incêndio criminoso.

Luís, avisado, chegou pela manhã. Trazia consigo o texto traduzido do tal bilhete, confirmadamente, russo:

“Hoje vou concretizar minha vingança contra você.
Suas terras arderão em fogo e você e sua família irão morrer.”

Todos ficaram temerosos e convenceram Duarte a prestar queixa na Delegacia do lugar, além de contratar uma empresa de segurança.

Duarte, pressionado por Luís, resolveu contratar um detetive para tentar descobrir o autor da ameaça. Luís havia tomado conhecimento da atuação e competência de uma tal de Lenita Fragoso que desvendara vários casos na região.

Lenita foi chamada.

Seis meses se passaram e, por mais que esmiuçasse a vida de todos, que moravam nas redondezas, não conseguia chegar a uma conclusão.

Vasculhou a região e não encontrou nenhuma família russa, nem ninguém que odiasse Silvério.

Ao investigar a família de Sonia, encontrou apenas primos distantes. Através de um deles, médico psiquiatra, soube da existência de um antigo pretendente da prima que, desiludido, ao saber que a jovem se apaixonara pelo patrão, mudou-se da cidade não deixando rastros. O homem aparecera em seu consultório, cinco meses atrás, por indicação de um amigo e ele o identificara.

Falava coisas desconexas, estava perturbado, mal vestido, sujo e, de vez em quando, murmurava algumas palavras em idioma desconhecido do médico. Depois de umas quatro sessões, sumiu sem explicações.

A detetive ficou interessada em saber mais sobre a estranha figura. Juntando os pontos, aqui e ali, acabou por segui-lo até um casebre, encoberto por uma densa mata.

Ficou ali de tocaia por vários dias. Era persistente. Até que percebeu um movimento estranho e avistou o homem, que saía trôpego de casa. Aguardou um pouco e penetrou no local. Torceu o nariz. Mal podia respirar. As paredes de pedra tornavam o lugar úmido e insalubre.
O que poderia ela encontrar naquele esconderijo fétido, que misturava odores?
No chão, um fino colchão rasgado coberto por alguns panos grossos e encardidos. Em um fogão de duas bocas, uma panela grudada exalava um cheiro azedo, que se mesclava ao conteúdo de um urinol descascado esquecido num canto. Havia um único e pequeno móvel e, pasmem, embaixo de uma tênue lâmpada pendurada, um lap top, último tipo, aberto. Ficou curiosa.

Um conjunto de alfabetos estranhos misturava-se ali numa verdadeira torre de Babel. Ao explorar o arquivo, verdadeira caixa de surpresas,  deparou, entre outros escritos indecifráveis, com o bilhete que tanto assustara a família Duarte. Finalmente, decifrado o enigma que tanto encafifara a detetive.

Passou a mão no notebook e levou-o consigo, saindo rapidamente dali, e dirigindo-se à casa da família que a contratara para juntos irem à delegacia, portando a prova do crime.

Lenita Fragoso, com sua persistência e determinação, resolvia mais uma complexa charada.      

AQUELE VENDEDOR - Ledice Pereira


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AQUELE VENDEDOR
Ledice Pereira

Jorgina havia percebido aquele vendedor misterioso.

Sempre às terças-feiras, dia que ela procurava não marcar nenhum compromisso, dia que ela reservava para si. Levantava tarde, tomava um belo café, lia com calma o jornal e não se preocupava em cozinhar. Ficava de roupão até tarde, tomava um banho demorado e lá pelas três e meia/quatro horas, saía para dar uma volta. Parava na padaria, onde comprava algo que lhe apetecesse, e voltava para casa, cumprimentando um e outro, parando, às vezes, para conversar com algum passante. Conhecia toda a vizinhança. Morava ali há vinte e cinco anos, antes mesmo de se separar de Eduardo.

Invariavelmente, ao voltar pra casa, dava de cara com o dito vendedor, que ela passou a chamar intimamente de vendedor de ilusões. O homem surgia, como por encanto, com os mais diversos objetos, sempre gentil e sorridente. Apenas uma vez, para ajudá-lo, resolvera comprar um jogo de vassouras. Ela era capaz de jurar que ele a espreitava, tal a precisão de sua aparição.

Naquela tarde, não foi diferente. O sujeito surgiu do nada. Ao contrário das outras vezes, trajava um blazer marinho sobre uma camisa azul clara e vestia uma calça jeans de bom caimento. A barba desenhada o tornava mais bonito. Teria uns cinquenta e poucos anos. Os cabelos grisalhos davam-lhe um charme ainda maior.

Jorgina segurou a respiração. Nunca havia reparado em tantos detalhes. Notou quando ele retirou um bouquet de rosas vermelhas de dentro de um Corolla preto ali estacionado e se dirigiu em sua direção, entregando-lhe as flores.

Não sabia como reagir. Ficou parada sem ter o que falar e até derrubou o pacote que trazia da padaria.

Ele, prontamente apanhou o embrulho, ao mesmo tempo em que dizia:

Pegue, são para você! Desde que me mudei, há oito meses, para aquele prédio ─ apontou para o prédio à esquerda ─ passei a observá-la.  Mas você nunca me enxergou. Por não saber como abordá-la, resolvi me passar por vendedor. Espero que não me julgue muito infantil. Na verdade, sou advogado e trabalho em casa. E... acho que me apaixonei por você!

Jorgina, que sempre se julgou dona de seu nariz, pela primeira vez, não sabia o que dizer. Perdeu literalmente a fala. Pegou as flores, sorriu e o convidou a entrar.


carta para VINHA - Ledice Pereira



CARTAS:



São Paulo, 20 de agosto de 2018
Cara amiga, Vinha

Primeiramente, quero dizer que muito me alegrou sua ida ao estande da Bienal num gesto de amizade e prestígio.

Você, na verdade, trouxe dinamismo, carinho e criatividade ao nosso grupo às quartas-feiras. E, porque não dizer, além dos deliciosos bolos que nos traz com frequência.

Nosso grupo me dá uma satisfação enorme em frequentar, porque me traz  diversão, aprendizado, troca de experiências, deliciosos papos, tornando aquelas tardes proveitosas e agradáveis.

Quero incentivá-la a publicar seu livro. Acho que você tem capacidade e conteúdo para isso.

Sei que é preciso dedicação total e às vezes falta tempo, mas pense nisso. Vai valer a pena. Dá um enorme prazer.

Aceite meu abraço carinhoso

Ledice