Tecnologia a Sete Chaves - José Vicente J. de Camargo

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Tecnologia a Sete Chaves
José Vicente J. de Camargo

Esse chocalhar - pra cá, pra lá -  é o que mais gosto. Me deixa soltinha indo e vindo. Tem vezes que sinto medo de cair, bater no chão duro, ser pisada por alguém, ou pior, cair num buraco escuro e ficar esquecida, perdida para sempre. Minha colega ao meu lado, já passou por isso, mas, por sorte, foi resgatada pelas mãos de nosso dono, que feliz por encontra-la, lhe deu uma beijoca e recolocou-a no chaveiro preso a sua cintura. As pessoas nos chamam – eu e minhas colegas - de “molho”. Não entendo bem por que, mas são detalhes que não me interessam. Só não gosto quando esse tal de “molho” está muito cheio, nos deixando bater umas nas outras. Aí prefiro o aconchego de um bolso ou o escurinho de uma bolsa – se de grife, melhor. O importante é fazer bem meu serviço, não desapontar a quem pertenço. Para tanto devo me entender bem com a fechadura, minha sócia de profissão. Divido com ela um segredo que só a nós pertence. Segredo esse que me custou caro, pois passei, toda prensada num torno, por uma cirurgia de serragem e limagem. O problema é que dona fechadura é muito sensível e algumas vezes não nos encaixamos bem. Nessas ocasiões fico triste, pois meu dono se põe nervoso e me diz impropérios dos mais sujos. Contrariado, ele me deixa num spa, onde recebo uma massagem com óleo rejuvenescedor, que me deixa lisinha, sem ruga nenhuma. Se o atrito com a sócia persiste, não há outro jeito, tenho de trocar meu segredo e lá vem nova cirurgia.

Minha vida é assim, um contínuo abrir e fechar. Quando estou de bem com a parceira fechadura e ela faz aquele “clic” de “de acordo”, para abrir a porta do meu dono, sinto sua mão me transmitindo satisfação. Neste instante também fico ansiosa, imaginando, qual o cenário que está do lado de lá. Será de paz e alegria ou de tristeza e dor? Se sou colocada suavemente na mesinha da entrada, sei que o ambiente é positivo, mas, se sou jogada, já sei que discussões e gritarias virão. Pode ocorrer também, que a mão que me segura, começa a tremer, me passando um sentimento de medo. Perigo a vista, penso, e logo me vem a história que uma amiga contou: “ouvi um tiro e meu dono, me tendo entre os dedos, foi ao chão, manchando-me toda de sangue”. Mas os tremores que tenho sentido até agora, não tiveram esse final trágico. Foram descuidos de janelas e portas abertas, batendo-se ao vento, de luzes acesas esquecidas ou do barulho alegre do gato pela chegada do chefe da casa.

Quando caio em mãos alheias, sinto um calafrio e me enrugo, torcendo para que a sócia fechadura desconfie, e não abra. Só volto ao normal, com o tato conhecido de meu senhor ou sou descartada pelo estranho e fico esquecida dentro da solidão.

Em princípio sou interminável. Minha vida só acaba, se ficar perdida um canto qualquer, pois, sem ter fechadura que me receba, meu serviço perde sentido. Nessa situação, prefiro ir para o lixo reciclável, voltar a ser matéria útil novamente e torcer para que vire chave outra vez. Se assim for, implementarei tecnologia de ponta no meu corpo. Um “chip” que soa alarme e pisca um “led”, toda vez que me perco. Assim meu dono poderá me encontrar facilmente e evito passar pela dor do esquecimento e da solidão. Também assim, meu segredo, que é minha alma e razão da minha vida, estará melhor protegido, sob tecnologia a “sete chaves” ...



PASSEIO NA REALIDADE - Sérgio Dalla Vecchia

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PASSEIO NA REALIDADE
Sérgio Dalla Vecchia

Pepe Legal e seu implacável companheiro Babalu, vagavam pelo deserto do oeste americano.

Conversavam alegremente sobre o último caso desvendado, quando perceberam um objeto voador não identificado pairando sobre eles.

O objeto parecia ter quatro asinhas como as de um beija flor, que batiam em alta velocidade. Do seu corpo saia um bico reluzente que fazia movimentos verticais, para cima como para baixo.

A dupla destemida, mesmo sem saber do que se tratava partiu ao ataque.

Zaz! Foram sugados pelo bico da coisa!

Quando perceberam estavam dentro de um estúdio de televisão. O cenário era de um telejornal que estava no ar!

O repórter assustado indagou:

Quem são vocês? De onde vieram com essas roupas?

A dupla ainda atônita respondeu Pepe Legal:

— Somos justiceiros e viemos do faroeste.

—Justiceiros? Um cavalo e um ratinho! Quá, Quá, Quá!

—Sim lutamos pelos direitos dos injustiçados.

—Ah, é! Então resolvam o problema da fome, dos sem-terra, das guerras e suas consequências.

Babalu, chamando para si os problemas respondeu convicto:

— Para a fome, comida!

— Para sem teto, moradias!

— Para as guerras, a paz! Simples não? Basta querermos! Comece por você, que só mostra manchetes negativas e catastróficas, tudo para chamar atenção e vender mais.  Dê mais ênfase às boas notícias. O bom atrai o bom, o mau atrai o mau!

— Vamos, mexa-se! Gritaram ambos.

— Voltaremos em breve para confirmar o resultado da nossa orientação.


E lá se foi a dupla de justiceiro com mais um caso resolvido!

O PORTA JOIAS - Sérgio Dalla Vecchia


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O PORTA JOIAS
Sérgio Dalla Vecchia

Tão pequenina, usava como único adorno uma simples fitinha vermelha, era a toda poderosa.

A princesa a guardava junto aos delicados seios e não a abandonava nunca.

Todo esse poder era digno de sua importância. Ela era a chave da caixa de joias da princesa. Enquanto todas as outras que a realeza lhe ofertava, eram guardadas em cofre especifico, com sentinelas a porta.

A caixa não continha apenas as joias materiais, mas sim algo muito maior que o peso em ouro, as lembranças e sentimentos de fatos marcantes.

Assim a chave percebia, que a princesa estava carente e triste, quando era retirada do aconchego dos seios.

Ela pegava delicadamente a caixa da gaveta e a pousava sobre a penteadeira. Com olhos melancólicos admirava-a por minutos, e com coragem abria-a, usando a pequena chave para abrir os segredos do passado.

Lá estavam vários tipos de joias. A princesa tateava uma a uma. Parava por segundos com uma peça nas mãos, enquanto esboçava um sorriso. Com outra os olhos brilhavam e assim as sensações eram assimiladas junto com flashes de bons momentos.

O humor já era outro, sorria, por vezes soltava até gritinhos.

O manuseio corria alegre até que ela encontrou uma pulseira de ouro escovado, formada pela união de pequenas meias esferas com um sutil detalhe em vermelho na parte convexa.

Agora a emoção era diferente, testemunhou a chavinha.

A princesa vestiu a joia no punho esquerdo, enquanto levava o braço ao peito e com um suspiro sussurrou: - Que saudades!

A lembrança do baile dos quinze anos veio imediatamente à memória. O salão principal iluminado, a valsa era Danúbio Azul de Johann Strauss.

Ela girava nos braços do jovem oficial da marinha, valsando sem parar pelos quatro cantos do salão.

O deleite era imenso. Enquanto rodopiava, inclinava a cabeça para trás e observava a passagem dos grandes lustres de cristal e os lindos afrescos do teto, como se fosse um caleidoscópio. Tudo era encantador.

Foi o dia mais feliz de sua vida. Estava enamorada. Acreditava ser ele o príncipe encantado.

E para marcar mais ainda essa afinidade ele a presenteou com a tão rica pulseira, ora em seu punho.

Lágrimas escorriam pelo alvo rosto da princesa.

Infelizmente seu grande quer, transportou-se em grande perda.

O amor pelo herói, morto prematuramente em batalha, a mantinha insípida à inúmeros pretendentes.

Assim o tempo passou e não houve mais nenhum príncipe encantado. 

A princesa foi coroada Rainha e ficou conhecida na corte, como a Rainha Virgem.


Reinou brilhantemente durante muito tempo e com a chavinha junto aos seios ainda buscava consolo na inseparável caixa de joias.

A LENDA DA CHAVE PERDIDA - Carlos Cedano

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A LENDA DA CHAVE PERDIDA
Carlos Cedano

Há muitos, muitos anos um pequeno órfão chamado Tito morava com sua avó, Dona Zefa, perto de um belo bosque. Nele viviam muitos pássaros coloridos, esquilos, lebres, e até raposas além de muitos outros pequenos animais. O bosque parecia um pequeno paraíso!

Tito era um menino curioso e fazia muitas perguntas à Dona Zefa. Um dia perguntou-lhe por que os aldeões chamavam o bosque de encantado. Sua avó sorri e lhe disse:

— A lenda conta que nele também moravam seres fantásticos: fadas, gnomos, aves inimagináveis e bons espíritos em diferentes estados da matéria. O bosque era cheio de magia e quem tomava conta dele era o mago Fanelão.

— Ele ainda mora aí? Perguntou Tito com a curiosidade cada vez mais refletida no rosto!

— Não meu neto querido, o Mago Fanelão perdeu sua chave mágica que, a pedido de Zeus, Vulcano a tinha forjado. Vulcano entregou a bela chave ao primeiro Druida dos primórdios da antiguidade. Desde então a chave tinha passado de mão em mão até chegar a Fanelão.  A chave tinha a virtude de sentir a nobreza do coração dos seres que podiam adentrar o bosque.

— E como é que ele sentia o coração dos que queriam entrar no bosque... Insistiu Tito.

— Todos os que quisessem entrar passavam frente a Fanelão e se a chave mágica, pendurada em seu  pescoço, se iluminasse poderia entrar! Esse novo ser vinha para fortalecer a felicidade reinante... Mas, infelizmente a felicidade foi quebrada.

— Como? Perguntou Tito, ansioso e interrompendo-a.

— Fanelão já tinha mais de oitocentos anos, os magos também envelhecem né, disse Dona Zefa, por descuido ou esquecimento a chave mágica desapareceu, nunca mais foi encontrada, Fanelão ficou sem os poderes mágicos.

— E dai? Vó.

— Ele desapareceu. Logo o bosque encantado contaminou-se com a luta pela sobrevivência entre fracos e fortes e os seres mágicos que aí moravam partiram para outras esferas do universo.

Tito ficou pensativo por algum tempo e logo disse com firmeza:

— Vó, vou procurar a chave mágica e não vou sossegar até achá-la!

A velha senhora olhou para o neto com rosto cheio de amor e disse:

— A lenda também diz que se você for ao bosque você não a encontrará. É ela que deverá achar você! A chave mágica está no bosque sim, mas talvez até agora não encontrou alguém digno de usá-la, ninguém fez por merecê-la. Creio que você ainda deve primeiro aprender com o mundo dos homens antes de querer aprender no mundo dos mistérios. Seu tempo poderá chegar, vai com fé, meu neto.
...

Aos 25 anos Tito tinha a alma revestida da mais profunda fé, convivera por alguns anos com sábios e importantes filósofos  conhecedores da vida. Agora, de volta, desejava encontrar a chave misteriosa para devolvê-la ao lugar de origem. Sabia que não a encontraria na floresta, mas no espírito das pessoas de bem. E foi assim que após muitos anos Tito descobriu que a chave não era uma peça metálica, mas um sentimento que  sempre esteve dentro dele mesmo….  

O SEGREDO DA CHAVE - Oswaldo Romano


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O SEGREDO DA CHAVE
Oswaldo Romano

        Ainda vou descobrir porque vivo mudando de gaveta em gaveta.

        Sou um segredo da casa. Respeitada o que me traz orgulho. Que eu saiba, sou a única. É fácil resolver esta chave. A chave sou eu! Chave de fechadura, bem entendido.

        Não posso ficar exposta, apreciando o movimento da casa. Eu sou bisbilhoteira, exposta rodaria por todos os aposentos.

        Infelizmente não. Sou colocada dentro das gavetas. Pior ainda, no fundo, nos cantinhos. Às vezes me levam passear. Não gosto, fico muito presa no que chamam de chaveiro. Um treco que abre o bico e se encaixa no meu anel.

        Penduram na cintura e andam balançando por aí. Fico tonta. Me raspam os dentes.

        Uma ocasião doía tanto que irritada fugi daquele gancho. Cai, acho que era um lugar de comida. Cheirava gordura!

        Uma menina foi quem me recolheu. Olhou-me como se eu estivesse ferida. Ela estava saindo. Vestia-se de estudante.

        Pouco antes da saída, vi gente puxando a mesa, cadeiras. Todos os olhos varriam o chão. Tive mais sorte, fui levada pela menina.

        Acabei chegando dentro da escola.

Um homem me pegou. Pendurou-me num prego. De início fiquei muito triste. Quem vem aqui, procura coisas perdidas. Mexem, remexem em todas. Somos muitas. Pegam-me, olham, sou pendurada de novo.

        Aqui é melhor que o escuro fundo das gavetas.

Crianças gritam, correm cantam. Sou feliz! Bem que poderia aproveitar e estudar. Por enquanto só sei abrir e fechar portas. Descobri por que era escondida nos cantinhos das gavetas. Eu era o segredo! Ouvi falar: esta é uma mestra! Que orgulho, hein. Não era uma qualquer, não! Escuto chamar homens aqui de mestre. Confundem-me um pouco.

        Será porque são formados! Já sou mestre sem formatura. Bem que eu quero estudar. Imaginem formada. Esses não perdem por esperar. Eu mexo com línguas. Línguas das fechaduras. Estou no caminho. Bem pensado! Vou procurar fazer mestrado. Serei uma mestrada, formada em línguas. Línguas, afiadas o não, abrem as portas do mundo!


        Dependem do meu segredo.

Opa! Enquanto medito, eis que entra uma moça procurando pelo seu guarda-chuva.  Na espera, me olha, olha outra vez. Ouvi que se chama Ana, monitora aqui da escola. Não se conteve. Abriu sua bolsa, pegou uma chave e veio encostá-la em mim. Era uma chave chata também. Vi por aí, umas quadradas, chamam Tetra. Não sei o que é melhor, ser chata ou quadrada. Eu sou uma Yale chata.  


            Quando veio o guarda chuva, a moça pediu para me ver. Com aquela chata na mão, contou todos meus dentes. Eu estava conhecendo aquela pessoa. Não voltei para o prego, ela me levou! Acabei ficando lá de novo, no canto, no fundo de uma gaveta. Fiquei feliz! Claro, eu sou a chave da felicidade.


Pelas estradas de Tocantins - Ises A. Abrahamsohn

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Pelas estradas de Tocantins
Ises A. Abrahamsohn

Jacqueline sempre foi muito distraída. Desta vez trafegava devagar cantarolando pela rodovia quando seu automóvel se chocou contra algo. Ela parou para ver o que era.

De início não identificou o animal. Apenas viu que era grande e de pelagem cinza amarronzada. A cabeça estava oculta pelo capim do acostamento e o restante se confundia com o solo escuro e o mato ralo.

Bem... Bezerro, bode ou carneiro é que não é! Que animal será?

A moça se armou de coragem e foi se aproximando devagar. O animal respirava e, de quando em quando, emitia um som rouco. Vencendo o medo chegou ainda mais perto. Foi quando viu a enorme cauda cinza de pelos longos e ásperos. Agora sabia que animal era aquele. Só a cauda tinha bem um metro. Não via o focinho, mas aquele esplendido leque era inconfundível. Um tamanduá adulto. Nunca tinha visto um tão de perto.

O que fazer.... Não vou deixá-lo aqui par morrer à beira da estrada. Talvez possa ser tratado. Vou chegar atrasada para a aula da manhã na faculdade, paciência...

Ligou para o posto da policia rodoviária torcendo para que atendessem. Naquelas estradas do Tocantins muitas vezes não se encontra ninguém. Por sorte atenderam. Jacqueline explicou o ocorrido.

̶  Teremos que localizar o pessoal da proteção ambiental. Tem certeza de que é isso o que quer? Vai demorar uma hora para eles chegarem aí!

Agora não posso desistir, pensou. Tenho que ficar para ver se o bicho vai ser mesmo resgatado.

E Jacqueline ficou lá, esperando solitária à beira da estrada até que apareceu a caminhonete da guarda ambiental. Eram dois: o motorista e o veterinário que se apresentou como João Pedro.

̶ Sim. É um tamanduá. Aliás, é uma tamanduá e prenhe. Olhando assim parece que não está muito ferida. Vamos fazê-la dormir para poder transportar.

O veterinário sacou o que parecia uma pistola. Atirou o dardo anestésico certeiro no lombo do animal.

 ̶  Agora esperamos uns quinze minutos até ela dormir.

Jacqueline soube que João Pedro adorava a profissão. Era especialista em animais silvestres. No pequeno posto tratavam de todos os animais feridos ou recuperados das mãos de traficantes, desde pequenos pássaros até os graúdos como antas e veados. A jovem contou que trabalhava com informática na faculdade em Palmas e deu a entender que estava solteiríssima. Era verdade. Há um mês terminara um namoro de dois anos e ainda estava lambendo as feridas.

O animal tinha adormecido. João Pedro se despediu. Mais tarde ela ligou e soube que a tamanduá estava bem após uma cirurgia. Na verdade, tinha sido atingida pela bala de um caçador e desnorteada, acabou chegando na estrada. O choque com o carro atingiu a base da cauda e a atordoou.

Por fim os dois marcaram um encontro para almoço no dia seguinte em Palmas.

Porém João Pedro não apareceu. Jacqueline ligou para o celular do rapaz. Atendeu uma voz feminina.

̶  Sou a irmã. Estou aqui no hospital. Ele foi baleado quando  junto com Antonio, o motorista, foram atrás de caçadores na mata. Você é namorada dele?

̶  Não, não, só nos conhecemos ontem por causa de uma tamanduá ferida, balbuciou Jacqueline. Vou ao hospital quando ele estiver melhor. Dois dias depois soube pelo noticiário do meio dia. João Pedro não sobreviveu.

̶  Era seu namorado? Perguntou a colega ao ver as lágrimas de Jacqueline.


̶  Não, nem chegou a ser! Queria que fosse! Pelo menos a tamanduá se salvou.

VOCÊ VAI MORRER! - Sérgio Dalla Vecchia


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VOCÊ VAI MORRER!
Sérgio Dalla Vecchia

Assim era ela. Meia idade, loura, vistosa e escritora.

Madalena adorava escrever desde pequena. Escrevia romances, e alguns contos.

Havia uma pousada no litoral norte de São Paulo, onde Madalena era habitue. 
Cada quinze dias ela descia a serra e lá hospedava-se na suíte predileta. Decoração praiana, clean, muita claridade, cores e paz. Ambiente inspirador para a escrita.

Madalena escrevia um conto sobre uma autora, que assim como ela se refugiava da grande cidade para um lugar tranquilo a beira mar, onde nunca lhe faltava criatividade literária.

Ouvia-se apenas o som do vento dançando com as árvores, e a madrugada, trazendo a energia do silêncio.

Madalena envolvida vorazmente em seu texto, fecha o conto com a frase: Você vai morrer!

Aliviada com o desfecho impactante que criou, ao mesmo tempo com pena da personagem, cogitava se terminaria ali mesmo, ou daria continuidade provocando um plot na história.

Madrugada adentro e nada de inspiração até que o telefone toca.

Desconfiada não atende.

Eram quatro horas da manhã.

— Quem seria? – Pensou.

Tocou novamente! Hesitou, mas a curiosidade feminina venceu.

— Alô! Quem é?

— Madalena, considere-se uma mulher morta! Morta, ouviu! – Disse uma voz grave de homem.

A linha cai, e ela se pergunta quem poderia ser.

Assustada, enquanto pensava no ocorrido, foi à copa tomar um copo de agua:

— Que coincidência anormal foi essa! Termino o conto com” Você vai morrer”,  e logo em seguida recebo uma ligação dizendo o mesmo para mim! Será que pirei? Estou misturando autor com personagem? Ou então!!! Será ele?

Com o semblante já alterado, ela foi até a recepção e indagou ao dorminhoco porteiro.

— A suíte 171 está ocupada?

— Sim senhora, chegou aquele senhor que sempre vem.

— Ah, só pode de ser ele.

Madalena reuniu toda sua coragem e seguiu em direção à suíte.

Bateu fortemente, gritando;

— Você está aí, seu desgraçado?

A porta abriu e ninguém apareceu!

Madalena entrou pé ante pé, quando de trás da porta pulou sobre ela um homem, vedando-lhe os olhos com as mãos:

— Quero que você morra de tanto rir, das piadas novas que tenho para lhe contar, e tirou as mãos dos seus olhos.

— Só podia ser você ZO seu palhaço! Quase me matou foi de susto!

Os dois se abraçaram como velhos amigos, e riram até o dia clarear.


UM DESFECHO TEMIDO - Carlos Cedano

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UM DESFECHO TEMIDO
Carlos Cedano

Dona Jacinta, viúva de meia idade,  sem filhos, chegou à mesma cidadezinha onde tinha passado suas férias na última década, hospedou-se no pequeno e aconchegante hotelzinho onde sempre era bem recebida. Nele sentia-se em casa,  até pensava algum dia radicar-se na cidade, mas mantinha seu desejo em segredo.

Nas férias sua vida era simples: levantava-se às nove horas da manhã, sem presa se arrumava, depois descia para o café-da-manhã que era sua refeição preferida. A rotina continuava assim dia após dia,  até que numa noite seu sono foi interrompido pelo toque do  celular. Ela deixou tocar, achava um absurdo alguém ligar de madrugada para os outros, mas preocupada que pudesse ser um amigo ou parente querendo comunicar algo importante, atendeu.  

Porém, do outro lado da linha uma voz assustada e nervosa, que não conseguiu reconhecer de imediato, lhe disse: “Madalena, considere-se uma mulher morta! Você esta escutando Madalena? Morta” A ligação cai.  Passou a noite pensando nas pessoas que pudessem ter motivo para querer matá-la!

Desceu para o café da manhã, estava com cara de noite mal dormida e muito pálida. Dona Clara, a dona do hotel, indagou:

— O que aconteceu com a senhora Dona Jacinta, não conseguiu dormir bem essa noite ou não esta se sentindo bem?

Ela conta rapidamente sobre a ligação que a deixou preocupada, e disse:

— Hoje liguei várias vezes para minha casa, mas ninguém respondeu. Lembrei que minha empregada também estava de férias, e lembrei  também que...

— E o guarda noturno? Perguntou Dona Clara interrompendo os pensamentos de sua hóspede.

— Deveria estar cuidando da casa! Responde ela.

Dona Jacinta decide então voltar para a capital imediatamente, temia pelo pior e agora tinha motivos para pensar dessa maneira. Arrumou sua mala rapidamente, falou com Dona Clara brevemente e se despediu dela. Daria notícias, ainda disse. E foi para Estação Rodoviária.  Seriam quatro horas de viagem angustiantes!

Chegou à capital ao anoitecer, pegou um táxi e foi para casa. Foi prudente, não entrou imediatamente, esperou para perceber algum movimento, mas nada se ouvia, nada se via com as luzes apagadas. Telefonou ainda várias vezes e como antes, sem respostas, foi então que decidiu chamar a polícia. No interior da casa os detetives descobriram um cadáver com sinais de tortura. O Chefe da investigação, Inspetor Ramiro, perguntou para a dona da casa:

— Dona Jacinta, a senhora reconhece esta pessoa?

— Sim com certeza, é Rodrigo meu guarda noturno, ele morou nesta casa nos últimos vinte e cinco anos, era pessoa de minha absoluta confiança, respondeu  chorando inconsolável.

Os investigadores continuaram a examinar todos os cómodos da casa em total bagunça, os ladrões tinham roubado algumas joias, mas não conseguiram abrir o cofre forte nem levá-lo como parecia ter sido a intenção deles. A polícia também levantou muitas impressões digitais e identificaram como e quando foi rendido o guarda, tinha sido na hora que chegou para dormir.

— A senhora disse que na noite da invasão da casa recebeu uma ligação estranha no seu celular, conte para mim com detalhes Dona Jacinta.

— Sim inspetor, a frase que me ficou marcada foi: “Madalena, considere-se uma mulher morta, ouviu”. Era a voz do meu guarda noturno. Num primeiro momento me desconcertei até que a ficha caiu. É o nosso código! Madalena era um nome combinado que Rodrigo me chamaria em caso de perigo. A palavra morte inserida na frase caracterizaria o grau de risco.  Como pode ver o senhor, eles o torturaram e assassinaram!

— Tudo indica Dona Jacinta que os delinquentes queriam atrai-la a voltar para casa onde seria pressionada  para entregar a combinação do cofre forte.  Rodrigo queria poupa-la desse perigo,  e os convenceu de que conseguiria atrai-la para a capital! Ele sabia que a senhora entenderia o código, como assim foi. Ele salvou sua vida e pagou com a dele! Cara legal.


Ela tinha entendido tudo desde que saiu da cidadezinha. Tinha acontecido o que mais temia, e agora esperava que a polícia pegasse os delinquentes, pistas não faltavam!

AS FÉRIAS DO DESTINO - Sérgio Dalla Vecchia


Locomotiva a vapor

AS FÉRIAS DO DESTINO
Sérgio Dalla Vecchia

O trem seguia audacioso sobre os trilhos, ia deixando para trás as cidades, e a felicidade.

Tetrec, tetrec, tetrec, era o som acalentador das rodas batendo nas emendas dos trilhos, que junto ao balanço do vagão, embalavam o cochilo do jovem Osvaldo. O destemido!

Ele acabara de partir da pequena cidade do interior.

Deixando para trás o aconchego da família, que tinha o necessário para   viver dignamente. Teto, farta comida caseira, fraternidade e muita brincadeira de rua.
Poderia ter ficado por lá, vivendo feliz da vida.

Entretanto algo afligia sua alma. A prosperidade!

Fato distante de ocorrer na pequena cidade, onde o alegre bom dia era o mesmo do cansado boa tarde, dia após dia.

Assim, Osvaldo convicto na busca do destino promissor, entre um cochilo e outro, apreciava o verde dos campos, enquanto seus olhos eram marejados pela força da ambição.



A Mala Preta - José Vicente J. de Camargo

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A Mala Preta
José Vicente J. de Camargo

Aterrissei no horário previsto. Seis horas da manhã. Sonolento, mal dormido, com torcicolo e dor de costas pela incomoda posição, me arremesso para a passarela 3 A onde devo retirar minha bagagem. “Não vejo a hora de tomar aquele banho bem forte e demorado que recompõe as forças e tomar aquele café que só ela sabe fazer – o do avião estava péssimo, gosto de requentado. Antes de retirar a mala, vou dar um pulo na toalete – não sinto vontade em banheiro de avião”.

Na esteira das bagagens levo um susto: Será que minha mala já passou e eu não vi? Demorei muito no banheiro? Nenhuma das malas que estão na esteira é a minha. Que azar! Vou ter que reclamar no balcão da companhia aérea.

À atendente explico nervoso:

A mala é preta, de couro, quatro rodinhas. Embarquei em Moscou, fiz baldeação em Frankfurt, mas a mala veio direto para Cumbica. Aqui está o ticket da bagagem. Preciso urgente dela, pois tenho nela o trabalho que fiz em Moscou e devo apresentar amanhã aos meus clientes.

Senhor! Grita um funcionário da companhia vindo em minha direção:

Sua mala deve ser essa, preta!

Sim, respondo aliviado, ainda bem que a encontrou.

Caiu do carrinho, na pista, replica.

Pego a mala rápido e me dirijo ao ponto de táxi. Chegando em casa, beijo a esposa sonolenta preparando os lanches para os filhos levarem à escola, e conto:

A viagem correu bem, fora o aperto do assento e o extravio da mala que, por sorte, acharam. Senão a viagem a Moscou teria sido em vão, pois o relatório de trabalho que fiz lá, tenho dentro dela.

Corro para o banho com a xícara de café – passado na hora – em mãos. Depois, relaxado, enrolado na toalha, abro a mala em cima da cama:

“Pô! Que é isso? Cadê minhas coisas? Não pode ser, esta mala não é a minha!”
Amélia! Corra aqui...

Reviso novamente a mala e tento pôr a memória em ordem. Ela é idêntica a minha: cor, tamanho, modelo, material. Só o interior é que difere. Mas estava tão certo de que era a minha, que não abri para confirmar. Tampouco notei que está sem a etiqueta de identificação, a minha tem. Me lembro que o funcionário disse que a mala caiu do carrinho de bagagens na pista. Se foi assim, então quer dizer que a minha mala chegou na esteira e foi retirada por alguém.

Amélia chega e surpresa pela visão, exclama:

Meu deus, que é isso!

— É o que estou tentando decifrar.

Não tem nada a não ser essa papelada toda em russo, com essas letras diferentes que não entendo e esses desenhos técnicos que parecem ser de uma instalação fabril, mas também podem ser de uma bomba ou de um míssil. Deduzo que foi também despachada em Moscou e que essas informações devem ser importantes, pois várias páginas têm esse carimbo “Top Secret”, em russo e em inglês. O pior é que está sem a etiqueta do dono, talvez por    conter essas informações secretas. Portanto não tenho como contatá-lo. Nessa altura, ele já percebeu a troca e está ansioso atrás dela. Como a minha tem minha identificação com endereço e telefone, deve me contatar logo.

E se for algo a ver com a máfia russa? Balbucia Amélia. Dizem que são muito violentos, torturam e matam sem dó quem os atrapalha. É uma gang muito poderosa com ramificações em vários países. Quem sabe esses papéis e desenhos secretos não é um contrabando que será entregue aqui em troca de um bom dinheiro? Acho melhor avisar a polícia. Se vierem aqui em casa, estamos todos em perigo, inclusive as crianças.

O pior é que não posso! Respondo. Tenho receio que comecem a me indagar o que estava fazendo em Moscou e o que contém minha mala. Você sabe que meu trabalho lá não teve nada de inocente. Meu relatório na mala que o diga. Tomara que quem esteja com ela, não o leia ou não entende português, como eu não entendo russo, pois, lavar dinheiro sujo dá cadeia, e das bravas. Preciso de mais um café pra pôr a cabeça em ordem e ver o que faço. A coisa tá ficando preta pro meu lado...

O café já não desce gostoso como o primeiro, com a cabeça fresca. Imagens de organização criminosa, sequestro, violências desmascaram o paladar.

Trim – Trim Trim, toca o telefone:

Alô! Sim. É ele quem fala... Como? Encontro aqui em casa? Não! Sugiro na Cafeteria Paulista do Shopping Augusta. Hoje, as quinze horas. Devolvo a mala, que está escondida em lugar seguro (melhor mentir para evitar que venha aqui), só depois de ter uma prova que está com a minha. Venha sozinho e nada de celulares (assim evito gravação e foto). O local é bem movimentado, portanto nem pensar em vir armado. Terei nas mãos um jornal. Estando tudo certo, marcamos um segundo encontro, hoje mesmo, para a troca das malas.

Vou com você!- brada Amélia

Nem pensar, retruco. Vou sozinho, pode ser perigoso. Se for máfia, deve ter outras pessoas vigiando.

No caminho ao Shopping, passo pelo clube, deixo a mala no meu armário do vestiário, e sigo em frente.

Sentado na cafeteria, degusto sem sentir o gosto pelo nervosismo um expresso duplo com pouco açúcar. Me abano com um jornal disfarçadamente, mirando se alguém me olha estranho. No segundo gole, um sujeito puxa a cadeira na minha frente e senta rápido. Espantado pelo gesto repentino, o olho curioso. Sinto uma decepção...

Na minha frente, em vez do mafioso corpulento, de cara enrugada e brava, nariz de boxeador, olhos de rapina, mãos grossas e orelhas grandes, vejo um magrinho, loiro de olhos azuis, face delicada, que me fala com uma voz suave e fina, um tanto afeminada, de forte sotaque russo:

É o Sr. Almeida? Desculpe o atrevimento. Vi seu nome na etiqueta da mala. Sou Ivan Abrazinov, de Moscou e estou com ela. Sinto muito pelo incomodo que estou lhe causando. Como sou novo nesse país maravilhoso, das mil e uma noite, não me acostumei ainda com esse corre-corre um tanto desorganizado das pessoas, com essas cores entrelaçando-se num arco íris esplendoroso, essa miscigenação de raças que me excita a alma, esse jeitinho charmoso em que tudo termina em música, dança e piadas na santa paz. Na esteira do aeroporto estava tão ansioso, que não prestei muita atenção na identificação da mala. Além do mais, estava aflito procurando as outras, seis ao todo. Trouxe várias roupas folclóricas com botas e casacos que quero deslumbrar no próximo carnaval. Desde que aqui cheguei, essa atmosfera do “deixa pra lá” me tem arrebatado. Curou-me de uma forte depressão que tinha em meu país, a qual os médicos davam por incurável. Em troca dessa cura e de todo o carinho que tenho recebido aqui, que me deu um novo viver, quero investir em algo que traga alegria para esse povo. Para tanto vendi minhas propriedades na Rússia herança de várias gerações e quero construir uma fábrica da mais pura vodca, igual as melhores de lá. Viajei a Moscou atrás de um sócio especialista no assunto, que entrasse no negócio fornecendo a tecnologia. Encontrei um que me forneceu a documentação necessária. Só que a trouxe em segredo, para não despertar o apetite da concorrência, sempre ávida por novos mercados, e também para não pagar os impostos de importação de know-how.

A revelação do falso mafioso me cai como uma ducha fria. E eu, que entrei na cafeteria dando uma de 007, agora me vejo frente a uma “drag-queen” moscovita, tão inocente e fofa quanto a neve abundante por lá, disposta a abraçar e beijar agradecida qualquer brasileiro que encontra.

Refeito da decepção lhe pergunto:

Ivan, você leu o relatório que tenho dentro da mala?

Eu? Vira essa boca pra lá! Curiosidade para mim só com coisas vivas, nada de papeis mortos. Só toquei na etiqueta a procura do dono para contatar. E como você, pelo visto todo certinho, deixou também o telefone da residência. Se me der o Whatzapp,  convido para a inauguração da fábrica de vodca. Planejo uma festa de arromba, tipo cabide.

Depois dessa, penso comigo: “Se tem alguma bomba nessa história, ela está comigo, na minha mala”...

Depois de passar pelo clube e trocar as malas com Ivan, abro a porta de casa e Amélia vem correndo ao meu encontro, gesticulando seu nervosismo crônico:
Você está bem? Não te maltrataram? Trocaram as malas?

Sim, respondo. Tudo deu certo, sem violências. De errado só minha desilusão! Entrei de 007 e sai abraçado com uma “drag-queen” pra lá de Carmem Miranda.

Como?


Depois explico. Agora tenho de ir para a empresa me livrar dessa bomba, antes que a “lava jato” a exploda...