PAU – A – PIQUE - Oswaldo Romano


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PAU – A – PIQUE

Oswaldo Romano                 
                                                    
            Foi uma tristeza. Judiação é a palavra mais usada. O casebre deveria ficar pronto em quinze dias. Simples, muito simples, seria desmanchado depois da colheita.

            Acomodação para o casal Pedro, Maria e seus dois filhos. Como os demais da colônia, estava sendo construído de Pau-a-Pique.

            A mata, vizinha a futura plantação, fornecia o material necessário. Bambu era o que não faltava. E bonito, grosso, amarelo. Chamado pelos colonos de Bambu Baiano e pelos empreiteiros de Imperial.

            Na sustentação eram usados troncos dos coqueiros, encontrados pela mata a fora. Claro, o melhor dele estava junto a sua copa, e de imediato era a parte por todos cobiçada: o famoso e delicioso palmito. O barro era cavado ali na beira do riacho. Amassado com argila e lançado, dizem no sopapo, nas treliças de bambus, formando as paredes.

            Estava nesse ponto. Pedro, Maria e seus dois filhos, vibravam com o futuro abrigo. Não conheço ninguém que deixe de vibrar quando vê se realizar a esperada construção do que será o seu lar. Logo mais seria coberta, um galho amarrado na sua parte mais alta convidaria vizinhos para uma simples, mas gloriosa comemoração.

            Chuvas eram esperadas, porém só para quando plantadas as sementes. O homem do campo, sente o tempo. Mas seu poder não alcança o imprevisto.

            Assustando surgiram detrás da montanha nuvens negras.

Desgraçadamente desaguaram na colônia em construção. Sempre abençoadas, mas no plantio.

            Sob os olhos de Pedro e Maria as paredes derretiam. Quanto trabalho perdido! O barro escorria, escorria procurando o rio. O pequeno castelo de Pedro e Maria se desmanchava.

            Cessando a tempestade, dita como passageira, viam-se por detrás da montanha novo volume se aproximando. Pedro desiludiu-se de vez. Sentou-se numa pedra, ascendeu o pito, olhou sua obra e num gesto próprio do caipira falou com sigo mesmo: Deus sabe o que faz. A casa podia cair sobre a família quando pronta.

Teve um momento de paz quando viu a inocência dos seus filhos brincando com varas de bambu, prontas para a parede, tremulando no espaço.

            — Filhos! O que estão fazendo?

            — Morcegos, pai. Morcegos.


             Olhando as crianças, foi o ânimo que faltava ao pai para decidir começar tudo de novo.

UMA MEGERA NA ROÇA - Carlos Cedano

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UMA MEGERA NA ROÇA
Carlos Cedano

Ivanilde voltou da cidade onde trabalhou como arrumadeira durante quatro anos, com vinte anos agora voltou por que estava com saudades da roça e queria casar, poderia ser com um dos dois rapazes que tinha namorado antes, Marcio ou Juvêncio.  Estava indecisa e pensou:

Vou casar com aquele que fizer nossa casa de pau-a-pique moderna e mais bonita no prazo de dois meses. Vou falar com eles e vão aceitar, eles gostam de desafios e eu escolherei a melhor!

Os rapazes toparam o desafio e ambos confiavam na vitória. A novidade da disputa circulou na roça e na pequena colônia, formaram-se dois grupos com amigos e parentes em cada lado e o clima se assemelhava a um pleito eleitoral!

O inicio da contenda agitou a vida da vila e nos dois grupos houve reuniões de preparação e trabalhos de mutirão para limpar o terreno, preparar madeira para as ripas verticais e o bambu para as horizontais e concluiriam esta fase elaborando a trama.

Ao tempo que a construção avançava a vizinhança ficava mais envolvida e tomava partido. Vai ganhar Marcio diziam uns, vai ganhar Juvêncio diziam  outros e até formaram uma pequena bolsa de apostas que excitou ainda mais os habitantes.

A construção continuava e agora faltava apenas aplicar o barro e colocar janelas e portas e ainda teriam dez dias para os acabamentos e pintura! Após o que, Ivanilde decidiria!

Num banco da praça da pequena vila dois idosos comentavam:

            — Então Salustiano, quem acha que vai ganhar o desafio, Marcio ou Juvêncio?

 — Não sei dizer Renato, mas espero que ambos. Mas me diga, a noiva Ivanilde é a filha de seu Teodoro da venda?

            — É ela mesma, Salustiano!

                        — Hum....Essa moça sempre foi muito enjoada e pouco responsável, será que ela mudou?

Agora só faltavam dois dias para Ivanilde visitar as casas pau-a-pique.

No dia final, num domingo, partiu uma caravana e a primeira casa visitada foi a de Juvêncio. Ivanilde adentrou na casa, a percorreu e sem nenhum comentário retirou-se deixando os presentes frustrados e preocupados. Na casa de Marcio aconteceu o mesmo, as pessoas ficaram chocadas e bravas e quando questionada Ivanilde simplesmente respondeu:

                        — Nenhuma das duas casas tinha banheiro nem quarto de hospedes, onde já se viu isso? E se retirou ofendida e sem dar explicações!

Na mesma praça e no mesmo banco da vila, Renato perguntou:

            — O que achou do que fez a Ivanilde, Salustiano?

            — Não estou surpreso, ela não mudou! Mas estou feliz pelos rapazes.

— Não entendi.... Disse Renato.

            — Você imaginou meu amigo um dos dois casado com essa megera enjoada, a vida dele ia ser um inferno! Deus escreve certo por linhas tortas!

Ambos ficaram em eloquente silêncio!

A casinha de caboclo. - Fernando Braga

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A casinha de caboclo.
Fernando Braga

       Quando eu era pequenino, adorava ir passar alguns fins de semana na fazenda de meu avô. Levantava cedo, me deliciava com a gemada de dois ovos caipiras,  batida caprichosamente por minha avó,  tomava o copo de leite tirado na hora, um pedaço pão feito em casa,  e saía montando um dos cavalos, o Sereno ou o Leviano. Sem destino cavalgava pelos campos, pelas estradinhas quase desertas, que ligavam os dois ou três vilarejos próximos.

        Não me esqueço, mesmo decorridos setenta anos, que na curva de uma destas estradinhas, podia-se ver uma casinha de pau-a-pique, com teto de sapé, um pequeno alpendre, um poço com sarilho, um banco tosco na frente da casa, onde várias vezes vi, um rapaz ou sua mulher sentados. Quando parava o cavalo e olhava, eles, gritavam para eu descer e comer um pedacinho de bolo. Algumas vezes aceitei. Ele era o Zé Gazela e ela, sua mulher a Rosinha, muito simpáticos, falavam acaipirado. Quando eu sentava junto, ele pegava a viola e cantava algumas músicas e ela, às vezes, o acompanhava. Parecia um casal feliz, ainda sem filhos.

Eu, um meninote, achava a Rosinha bonita, faceira, meiga, cabelos soltos, com os pezinhos no chão e sempre um sorriso nos lábios, mostrando dentes alvos. Zé gazela trabalhava na vila, todo dia saia cedo e voltava quando estava escurecendo, pronto para comer a comidinha bem preparada de sua mulher.

       Os anos correram, vim estudar em São Paulo, mas nas férias, sempre voltava à fazenda de meu avô.

Mais velho, agora um rapazola, continuava a andar a cavalo, percorrer os mesmos locais antigos. Um dia resolvi passar na frente da casinha do Zé Gazela e por surpresa notei que ela estava abandonada, em ruínas e na frente duas cruzes entrelaçadas. Estranhei muito e ao mesmo tempo tive uma sensação estranha, como se sentisse falta de algo em minha vida. Quando cheguei à fazenda encontrei o Patrício, empregado antigo, que pegava os cavalos no pasto e os arreava para mim.

       — Patrício, o que aconteceu com a casa de pau-a-pique do Zé Gazela? - perguntei. - Vi também duas cruzes na frente!

       — Ah! Foi muito triste!  Não é bom nem de lembrá. O Zé Gazela, que era o maió dos cantadô, tocava sua viola e cantava num barzinho da vila. O pessoá diz que um dia, volto antes pra casa e lá encontrou Rosinha, muito aflita e tava  lá  Mané Sinhô.  Tavam enganando o coitado do Zé Gazela. Num acesso de fúria e ciúme, arranco o seu punhar da bainha e antes que pudesse haver uma reação, cravou no peito do Mané Sinhô. Rosinha correu, mas foi arcançada e sem quarqué perdão, mato ela também. Fugiu sem deixa rastro. Isso já faz um ano e nunca ninguém mais viu ele. O povão enterrou os dois ali mesmo.

       — Você sabe né: — Numa casa de caboclo um é poco, dois é bão, três é dimais.

       Cheguei a pensar naquela época: “Quando moço, quero namorar uma belezinha como ela! Nunca supus que o Zé Gazela fosse tão bravo!”.


Aventuras em Pau-a-Pique - José Vicente J. de Camargo

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Aventuras em Pau-a-Pique
José Vicente J. de Camargo


Trilha na mata, sem temer as cobras
Banho no rio, sem medo das piranhas
Comer com dedos, sem notar maneiras 
Descansar em rede, entre duas palmeiras
Esquecer o tempo, no voar das araras  
Sentir suspense:
No som das brisas
No uivar das matas
No pau-a-pique das malocas
Ah! Que saudades das aventuras

Dos meus vinte anos...

A MISTERIOSA LUZ - Sergio Dalla Vecchia

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A MISTERIOSA LUZ
Sergio Dalla Vecchia

Era uma sede de fazenda sem luxo. Tinha o tamanho dos corações dos meus avós. Sempre cabia mais um!

Era lá é que os netos iam passar as férias escolares.

O número de crianças podia chegar até quinze, que era o total dos netos. Time suficiente para movimentar o ambiente com correrias, gritos, brigas, manhas e choros. Era naquela agitação que os dias passavam com a alegria estampada nos rostos das crianças.

Assim, após um dia de travessuras e brincadeiras, o sol se escondia por detrás de uma pequena colina. Era quando a tarde se entregava para noite!

O jantar era servido e logo após, todos iam para a varanda da frente conversar. Ali é que começavam os medos!  O vô Chico desaparecia e de repente surgia de fantasma, vestido com um lençol branco e com a dentadura a amostra.

— BU! –BU! – gemia o vô.

Morríamos de medo, mas mesmo assim uma priminha assustada dizia:

—   Maisi vovô, maisi! - numa mistura de medo e euforia.

Assim ele repetia a cena mais uma ou duas vezes até que os mais novos caíssem no sono e daí direto para cama. Causos de cobras, Saci–Pererê e Mula sem Cabeça eram contados deixando as crianças boquiabertas e sem piscar os olhos.

Certa noite minha mãe conversava alegremente em meio as brincadeiras e causos com os filhos e sobrinhos na varanda, quando resolveu apontar para lado da colina e perguntou para as crianças:

— Vocês estão vendo aquela luzinha lá?

— Sim! -  responderam todos.

— Eu a vejo desde quando era menina e ela sempre esteve ali e intriga muito a todos. A luz surge pairando sobre as ruínas de uma casa de pau-a-pique, no pasto do outro lado do rio Poção. Estou com medo, mas mesmo assim narrarei para vocês o que testemunhei há tempos atrás.  

— Eu era menina e numa certa noite a vovó estava com meus irmãos e eu nessa mesma varanda, e lá estava a luz no mesmo lugar que vocês estão vendo. De repente a vovó, não se sabe porque começou a olhar para a luz e num gesto de coragem resolveu interpela-la:  “Se for alguma alma penada, que dê um sinal!” –Ordenou com firmeza, e para o espanto de todos, a luz partiu acelerada em direção a varanda, onde permaneceu por horas reluzindo acima do telhado.

Mamãe ainda com medo pediu para não olharmos para o lado da luz, criou coragem e continuou a narrativa:

— Foi um pânico geral, a vovó apavorada iniciou a reza de um terço e não parou até que a luz desaparecesse!

—  A notícia se espalhou para os quatro cantos da região!

— Por conta disso, os fazendeiros se reuniram com o padre da cidade, capatazes e até o delegado. Formaram uma expedição, e durante uma noite partiram no rumo da luz. Lá estava ela pairando sobre as ruínas da casinha de pau-a-pique!

— A expedição foi avançando, avançando até que chegou. Examinaram todo o local e nada, ela desaparecera misteriosamente!

— Foi um banho de água fria na expedição. Os homens desapontados e cansados voltaram para suas casas.     

— Passados alguns dias, os fazendeiros ainda inconformados montaram outra expedição e o resultado foi o mesmo. Nada da luz! No entanto ela continuava a ser vista por todos!

Mamãe, visivelmente abatida pelo que acabara de contar ainda disse:
— Crianças, o tempo passou e o fenômeno foi esquecido pela minha geração, mas peço a vocês desta nova geração que reservem esse fenômeno como um causo de família!


Agora vamos todos para a cama se não a cuca vem pegar!

Mensagem do evangelho - Ises de Almeida Abrahamsohn

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Mensagem do evangelho
Ises de Almeida Abrahamsohn

Tereza era absolutamente dependente do telefone celular e principalmente do Whatsapp. Pertencia a grupos de conversas e discussões os mais variados: desde associação do bairro e da igreja até outros sobre raças de cães e gatos, passando pelas amigas da ioga e do curso de culinária vegetariana. Era incapaz de se desligar do aparelho. Deixar de atender a um chamado, impensável! Morria de medo de ser deixada ignorante dos acontecidos ou de conversas importantíssimas e, em consequência, ser relegada ao grupo que ela denominara de “as periféricas”. Para Tereza, eram aquelas pessoas que pouco importavam, seja pelas opiniões destoantes ou por não acompanhar as últimas fofocas do grupo. O marido e as filhas já haviam sugerido que se tratasse da dependência. Afinal, existiam agora grupos de terapia para viciados em celular, tais como aqueles destinados a ajudar os viciados em drogas ou álcool. A “tele-viciada”, como as filhas a chamavam, achava-se normalíssima e atendia a todos as ligações  onde quer que fosse importunando todos os circunstantes, interrompendo conversas e perturbando palestras ou consultas. Até no cinema não consegui se desplugar, ignorando a irritação dos demais espectadores para vergonha de quem a acompanhava.

Tereza, além de católica praticante, dedicava-se às várias atividades beneficentes da igreja do bairro e era apreciada e repeitada. Muito amiga do padre Inácio, pároco da igreja de Santa Terezinha, coordenava os grupos de mães e aulas de catecismo. Porém, o vício da devota senhora perturbava até o calmo padre Inácio. Quando o marido de Tereza o procurou para pedir ajuda de modo a convencê-la a se tratar, o sacerdote sugeriu que lhe falaria no domingo seguinte após a missa.

De fato, neste dia lá estavam na igreja, Tereza e o inseparável celular, acompanhada do marido e filhas. Padre Inácio rezava as primeiras preces do ofertório quando se ouviu o sonoro toque do tal aparelho.

Alô, respondeu Tereza.

Sim, claro Glorinha, sei que é urgente, estou na missa. Sim, iremos hoje à tarde... Pode deixar levarei o bolo...

De um raio de dez ou mais metros, olhares irritados e chamados vários: “Psiu! Desliga isso! Não se tem paz nem para rezar!”. - choveram sobre  tele-viciada, para vergonha da família. As filhas aflitas tentavam em vão alcançar o aparelho para desligá-lo mas a dona inabalável se esquivava e continuava a falar. Por fim desligou como se nada tivesse ocorrido.

Minutos adiante com os fiéis ajoelhados o padre rezava “Santo, santo, santo é o senhor Deus dos exércitos...” Ouviu-se de novo o mesmo tilintar irritante e a voz de Tereza ao fundo.

Senhor! -  orou mentalmente padre Inácio - ajudai-me, a me manter calmo. Se sois o Deus dos exércitos, fazei com que se cale este invento demoníaco. Ops! Perdão, Senhor... Não deveria citar o inimigo. É claro que o aparelho foi inventado por aqueles que são à vossa imagem e semelhança.”.

Nesta altura, o sacerdote estava já abalado e com dificuldade conseguiu chegar até o evangelho.

Senhor, o que farei a seguir não é caridoso, mas é para o bem de vossa devota filha e por todos nós que com ela temos que conviver.

O evangelho de hoje é um trecho do apocalipse de São João. Levantem-se todos para ouvir a palavra de Deus:

— ”E então ao final dos tempos serão alertados todos os povos do mundo para a chegada do juízo final. Soarão as trombetas e a palavra de Deus será ouvida por aqueles que terão os ouvidos atentos ao silêncio e o coração pacificado. Estes serão salvos das eternas chamas”.

Continuando, o habitualmente suave padre Inácio levantou a voz e improvisou na homilia:

— Meus caros irmãos, vejamos o recado que São João nos deu. Apenas os que tiverem os ouvidos atentos, serão salvos... Isto quer dizer, serão poupados aqueles que não se deixarem distrair por celulares ou outros instrumentos que obliteram os ouvidos a ponto de interferir com o louvor ao Senhor e a santa missa...

Dizendo isso, o sacerdote dirigiu o olhar para onde estava Tereza. Todos os olhares convergiram em sua direção. Morta de vergonha, só pensava em sumir dali. Padre Inácio continuou o sermão sem outras alusões à telefonia celular. Tereza aguentou firme e se retirou discretamente após a comunhão.


Na semana seguinte procurou um grupo de terapia para se livrar do vício.

CONTOS COM PAU-A-PIQUE - José Vicente J de Camargo

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Pau-a-Pique Infantil
O que é pau-a- pique?
José Vicente J. Camargo

− Pai, o que é casa de pau-a-pique? - Pergunta o filho

− É a que nossos tataravôs construíam quando não existia tijolo nem cimento. As paredes eram de pau de árvores ou de taquaras de bambu entrelaçadas, preenchidas com barro amassado. Ainda existem construções desse tipo. Uma delas é a “Casa dos Bandeirantes”, um dia vou te levar pra conhecer. -  diz o pai.

− Mas a professora disse que é perigoso. Tem o bicho barbeiro que transmite doença.  - retruca o filho.

− É verdade, precisa cuidado. - completa o pai.

− Oba! Então não vou mais cortar cabelo pra não pegar doença. Não gosto daquela maquininha me deixando careca. -  grita o menino.


− Não, senhor! Emenda o pai. Chama barbeiro por que o inseto gosta de picar o rosto das pessoas, no local da barba. E por falar em maquininha, to vendo que amanhã vou te buscar na saída da escola pra irmos cortar essa juba...

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Pau-a-Pique Ecológico
José Vicente J. de Camargo

Ele era fã de tudo que era ecológico. Suas roupas, cama e mesa eram de fibras naturais, confeccionadas em teares rústicos numa cooperativa dos trabalhadores sem-terra. Nos móveis e utensílios da casa, o máximo possível de materiais recicláveis. Alimentação só as ecológicas, nada de industrializadas ou congeladas. Tampouco, era adepto da eletrônica de comunicação e consequentemente das redes sociais. Carro, só usava nos fins de semana, repartido com caronistas, nas viagens ao litoral, onde “filava” a casa de um amigo numa praia de pescadores paradisíaca, na base da luz de lamparina, lenha pra cozinhar, rede pra dormir e água cristalina da fonte descendo a mata fechada. Mínimo vestígio possível de civilização.

Num desses fins de semana, num lual na praia, à luz da fogueira aconchegante, embalado pelos chorinhos do violeiro Tião, conhece Verinha, levada para a roda por um amigo do amigo dele. Assim que a viu deslumbrou-se. Seu sorriso luminoso disputava com o brilho da fogueira; seu corpo de curvas bem torneadas, com o perfil das montanhas; seus cabelos esvoaçantes,  com as ondas crispadas ao vento. Depois de aquecer-se com uma branquinha especial, destilada no alambique do Zé Cascudo e curtida com fruta Cambuci, aproximou-se dela e quando ia iniciar o “nunca vi um sorriso igual, etc, etc”, ela o corta rispidamente dizendo:

− Já vou avisando que estou aqui por engano. Comi “gato por lebre” com esse convite de mirar as estrelas em alto mar! Pensei que fosse de uma lancha de dois decks e não da praia sentada na areia fria. Sou patricinha, adoro ir ao shopping comprar roupas de grife, comer em restaurante francês e frequentar baladas dos famosos. Detesto mato e insetos, que são coisas de índio, e tudo que seja “pau-a-pique”, que vocês ecologistas, adoram.

Mediante tal desconsideração pelas coisas naturais, sua paixão platônica esfriou na hora e cedeu lugar a uma vontade de dar uma resposta à altura:

− Que pena! De pau-a-pique gosto sim, mas agora, ao seu lado, estou é de bordão em riste!   Chega mais! Periguete das passarelas...

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Amor em Pau-a-Pique
José Vicente J de Camargo


Tudo silêncio! O escuro reinava entrecortado pelo brilho faiscante dos vaga-lumes e das estrelas cintilantes entre os buracos das telhas e dos vãos das paredes de pau-a-pique do casebre abandonado.

− João, aqui é perigoso! Pode ter barbeiro e a gente pegá doença de chagas que arrebenta o coração.

− Maria! Não sou barbeiro, portanto não sou perigoso. O coração tá arrebentando sim, igualzinho a barriga de prenha de nove meses. Mas não é de doença não! É de vontade mesmo...
Agarra mais mué...

Mulher, Mulher... - Ledice Pereira


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Mulher, Mulher...
Ledice Pereira

Tantas as facetas na nossa vida de mulher.

Agora, por exemplo, estava lavando louça. Sim. Lavando louça. Tentando usar luvas de borracha para não estragar as unhas recém-pintadas.

Que malabarismo! Já quebrei copos, xícaras e pratos. O que posso fazer? Escorregam da minha mão com as luvas. Confesso que tenho muita dificuldade de usá-las. Mas, são um mal necessário.

Também, quero cantar que estou me preparando para um musical do coral a que pertenço. Aí, outra dificuldade: decorar as letras. Apesar do conselho de minha neta de dez anos que diz que tenho que repetir infinitas vezes...

Pior. A apresentação é amanhã. E dá-lhe gravador. E dá-lhe repetir infinitas vezes!
O curso de escrita teve que ficar um pouco de lado. O que não me impede de participar da Antologia de contos que será lançada no Clube  em fins de novembro. Estaremos lá com alguns contos que estou aprendendo a escrever.

Bem, tirando as horas de dona de casa, de motorista particular, de cuidadora - como diz meu marido, de avó coruja e um pouquinho de mãe – por incrível que pareça, ainda – tenho que cuidar da aparência, afinal os brancos insistem em dominar e eu insisto em cobri-los. Ainda não criei coragem para assumi-los. Portanto, como diria uma grande amiga, acabo de chegar em casa após retocar a inteligência.

Estamos aí, vivendo intensamente, sem pensar muito que, afinal, já passamos do cabo da boa esperança.

Mas, se começarmos a pensar muito nisso não vai dar certo.

Alguns amigos têm nos deixado, aos poucos, o que nos faz refletir que a vida é um raio.

Vamos curtir o que nos resta realizando sonhos que nos ajudarão a atravessar esses anos que estão aí por vir. Vamos rir, vamos realizar, vamos amar, vamos percorrer as redes sociais, vamos encontrar amigos, e jogar conversa fora.


Vamo que vamo!

Histórias da Vovó Ana - Oswaldo Romano


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Histórias da Vovó Ana
Oswaldo Romano                                                              

          O tempo, esse danado que não nos abandona, cria um imenso cabedal de situações inusitadas. Ficam na memória e são lembradas a cada estalo de alusão, mesmo em situações as menos propícias.

            Às vezes acontece comigo estar participando de falas na roda de amigos, falas sem endereços, perdidas como flechas lançadas. Uma só palavra me da a senha e transporta-me para lembranças que nada tem haver com o assunto em voga.

            Seria estranho me dizer que o mesmo não acontece com você. Faz parte do gênero humano, dono de milhões de neurônios se confrontando entre si. Um deles naquele momento levantando uma bandeirinha, desvia seu pensamento. Se levado para coisa engraçada, você ri. Ri sozinho. Quem perceber, estranhamente, pergunta-se:

            — Ele está rindo de que? Nem vou perguntar. Posso deixa-lo embaraçado, ou provocar uma resposta enquadrada. 

            A última vez que aconteceu comigo, na roda do café bateu a tola risada. Recordavam-se da Gracinha, a tanajura. Nesse momento, dito a palavra assanhada, foi o suficiente para que eu  lembrasse da minha avó Ana. Ri, ri a gosto, fazer o que?

  Eu com meus doze anos acompanhava a vovó nas suas andanças pelas ruas 25 de março ou Oriente. Íamos sempre de coletivo. A vovó, com seus 70 anos, para mim era muito velha. Eu já a tinha como carola. Carola, mas sagaz. Às vezes suas atitudes me inibiam.

            Quando saíamos a procura de um pano para vestido, entrava em uma, duas, três lojas. Tudo bem. Eu junto, servia como esteio. Só que em todas, o Salim desmanchava as prateleiras.

Apresentando as ultimas sugestões, ele nessa altura jogava aquelas placas enroladas de tecidos sobre o balcão, já desiludido.

Gostosas e inocentes lembranças. Porque será que eu tinha vergonha? Que pecado!

Certa feita, no coletivo, estávamos sentados de frente para duas moças balzaquianas, daquelas que falam desregradas, impondo-se quem fala primeiro, e mais alto.

            Minha vó só assuntava. Franzia a testa, me olhava de esguelho, segurava-se. Percebi que não ia se calar.

A conversa animada, de repente degringolou:  

— Ah! Ele é muito charmoso. Menina! Esta difícil eu me segurar!

— Não é só com você, não. Disse a outra. Vem acontecendo comigo a mesma coisa, e faz tempo!

            A vovó não aguentou. Eu que a conheço há muito tempo, conhecendo das suas tiradas, não esperava outra coisa.

            Com seu jeito de velhinha, vestindo chita matizada, lenço com estampas pelo pescoço, olhava ao redor, correndo os olhos sobre os óculos providos de lentes redondinhas.

            Fixando as moças, num ímpeto entrou na conversa:

            — Meninas! Meninas!

            Elas, surpresas, pararam o papo, virando-se e atendendo a vovó, que quase no grito, disse:


            — Soltem logo, apaguem esse fogo! Fosse comigo eles não me escapariam, não!