Que situação terrível! - Fernando Braga


Que situação terrível!
Fernando Braga

Jose Carlos era e sempre foi um bom profissional, inteligente, dedicado, muito trabalhador, mas  tinha um ponto fraco: as mulheres.

Sua mulher Lurdes, era prendada e reconhecida psicóloga, mas agora com 50 anos já mostrava alguns sinais de  decadência física, mas apenas física.

Certo dia, ela  recebeu um telefonema anônimo afirmando que seu marido estava prevaricando e com a filha mais velha do dono do nosocômio onde trabalhava.

Separaram-se após 30 anos de casamento, o que foi muito sentido pela esposa, filhos, amigos e admiradores. Ele alugou um apto e assumiu o namoro com Rosana, vendo esporadicamente sua família, a quem nada deixava faltar.

Ao fazer 60 anos, cansou-se da outra  e pediu para retornar ao lar. No começo sua esposa rejeitou a proposta, mas após insistência e reconhecer que ele ainda a amava, aceitou.

Decidiram juntos comemorar o reatamento, e de uma maneira grandiosa. Programaram uma viajem, com toda a família, que  havia crescido, ao todo 10 pessoas, incluindo os dois netos. Combinaram irem à Disney em Orlado, mas primeiro passando cinco dias em Miami, aonde iriam para um excelente e dispendioso hotel, o que incluía o aluguel de dois carros.

Encontraram-se todos no Aeroporto de Guarulhos, onde lancharam, compraram algumas revistas e entraram na zona de embarque, não deixando de passar no  Free Shop para comprar algumas bebidas como Champanhe, uísque, bombons e chocolates.

Foram com a  TAM, em uma viajem de 8 horas até a capital da Flórida, saindo às 23, com chegada prevista para as seis horas.


Sentaram-se todos em assentos próximos, ele de mãos dadas com sua compreensiva esposa, que não deixava de exteriorizar contentamento com a viagem, por sua nova vida e felicidade futura.

Jantaram, tomaram vinho, assistiram a um filme e depois fez-se silêncio, porque todos queriam dormir.

Tudo corria muito bem quando por volta das cinco horas, Zé Carlos acordou sua mulher dizendo que não estava se sentindo bem, tinha grande aperto do lado esquerdo do tórax e solicitava que ela lhe trouxesse um pouco de água.

 As aeromoças foram chamadas para dar um atendimento a ele. Piorou rapidamente ficando com o folego curto, suor frio, palidez intensa. Referia muita dor no peito.

 As atendentes perceberam a gravidade do caso, deram-lhe um analgésico. Pelo auto-falante solicitaram a presença de algum médico   presente a bordo e foram avisar os comandantes do avião sobre o acontecimento.

 Estavam a pouco mais de uma hora de Miami, a 10 000 metros de altura, sobre o oceano e o melhor era avisar o serviço de urgência do aeroporto, para o paciente ter um atendimento rápido, condução a hospital  próximo logo após sua chegada.

Um senhor apresentou-se como médico, examinou rapidamente o paciente, viu que estava sem pulso radial e nas carótidas.

 Pediu que tirassem o paciente de seu assento e o colocassem no assoalho começando então a fazer massagem cardíaca e respiração boca a boca associada. Após uns 10 minutos, o médico já exausto,  parou  com as manobras e reexaminando o paciente observou que continuava sem  pulso, não reagia e abrindo suas pálpebras  viu que suas pupilas estavam  dilatadas. Virou para sua mulher e filhos e com voz entrecortada disse:

— Está morto!

O pânico, a confusão se estabeleceu. Lurdes começou a gritar desesperadamente, a chorar copiosamente, beijando-o, abraçando-o, agarrando-se fortemente seu peito e falando muitas coisas sem nexo. Seus filhos e noras  acompanhavam as lamúrias.

Os passageiros participavam daquele episódio tão triste, compadecendo-se do desespero dos familiares, alguns   rezavam. O fato estava consumado.

 Foi dolorosa a espera até o avião aterrissar. Lurdes ainda tinha esperanças de que atendimento em um hospital pudesse mudar o quadro.

Logo após a aterrissagem chegou a equipe de emergência, que colocou o passageiro em uma maca, levando-o à ambulância que aguardava e daí para um hospital próximo, o Jackson Hospital.
A família também foi conduzida ao hospital e ficaram aguardando. É evidente que a morte foi confirmada, certamente causada por um enfarte fulminante.
 Os familiares puderam novamente se acercar do corpo, ocasião em que a mulher novamente entrou em crise de desespero e dizia:
— Por Deus, por que você foi morrer bem agora?! Não tivemos nem  chance de nos reabilitarmos, de vivermos juntos novamente, de recomeçarmos nossa vida. Eu te amava tanto!
 O fato real é que Zé Roberto não gostava de médico, fugia deles, não fazia checkup, mas na verdade sempre tivera boa saúde, não tinha queixas.
Os filhos logo retiraram a mãe do local, sedaram-na a pedido dos médicos e todos foram para um hotel próximo ao aeroporto. No mesmo dia, os filhos receberam o atestado de óbito e foram tratar dos papeis para poderem reconduzir o pai de volta ao Brasil. Foi dada a permissão para o corpo ficar na frigorifica para não deteriorar e injeção de formol na circulação também para conservar o corpo.

 Após dois dias, conseguiram o avião para o transporte do corpo, colocado em um caixão bem lacrado Juntos, embarcaram os nove familiares.

Foram os dois piores dias que haviam passado na vida, considerando a expectativa  de  passarem os 15 melhores dias juntos, para  se reorganizarem em todos os sentidos!

Expectativa   frustrada!

Chegando a São Paulo,  muitos membros família estavam aguardando, amigos   próximos, colegas aguardavam no aeroporto, todos   muito chocados com o inesperado, fortuito  acontecimento.

O corpo ficou exposto mais um dia em um necrotério   e depois  cremado conforme era sua vontade. Nunca pensou em adquirir um terreno em cemitério.


Adeus Zé Carlos!

O ASSASSINATO DO SENHOR FONSECA – CAPÍTULO II - Oswaldo Romano

 

O ASSASSINATO DO SENHOR FONSECA – CAPÍTULO II

Oswaldo Romano                                         

Durante uns quinze dias fiquei no gelo. Apenas dava cobertura à companheiros. Dificilmente passava um momento em que esquecesse a misteriosa morte do Sr. Fonseca.

— Chácara, churrasqueira, biblioteca, empregados, porta trancada e dentro um homem assassinado. Asfixiado? Respiro... É tem o ar condicionado. Mas é o moderno. O antigo tem uma abertura que passa um homem. O que vi é modelo Split, chega apenas um tubo de duas polegadas no vaporizador.

Injetaram outro tipo de gás? Não, ele foi asfixiado. Segundo a pericia, tamparam sua boca.

Não aguentando meu anseio, pedi ao Dr. Jurandir, retorno ao caso.

— Poá, espere esfriar um pouco mais. O caso está quente na sua cabeça.

— Exatamente Doutor. Procuro algumas respostas. Vou montar uma campana e forçar algumas perguntas. Quero respostas.

— Poá. Preciso muito de você aqui. Dá um tempo.

— Sabe doutor Jurandir, estou incomodado. Às vezes perco o sono. Os delegados que cobrem outros horários, questionam o caso. Sinto-me incapaz. Parece que sofri uma derrota. Parece não, estou sofrendo.

— Deixa disso Poá, você é inteligente. Sempre vamos encontrar alguém que queira nos deixar para trás. O bandido teve muito mais tempo de preparar o assassinato, do que você para resolvê-lo. São milhares de casos que estão nas gavetas. E o seu não será o último.

— Mas doutor, o senhor fala de casos intrincados, complexos. Mas esse aí doutor... Não fosse o sumiço dos valores do cofre arrombado, eu diria que o infeliz montou a  própria morte.

— Tá bom! Fosse o caso, eu não acionaria meu melhor detetive. Você quer fugir desse desafio? Eu fui indicado pela viúva. Ela confia em mim!

— O que é isso doutor! Deu zica no pensamento. Sou eu que estou pedindo abrir a gaveta.

— É verdade. Vou te dar mais um mês, ok?

— Ótimo. Posso contar com algumas despesas?

— Claro!

Poá começou interrogando a cozinheira Lourdes.

—- Quando foi que você serviu o doutor pela última vez?

— Seu polícia, quando ele nos dispensou, virou-se para mim e pediu: Antes de saírem eu quero a garrafa de café e torradas. Foi tudo que pediu.

— Quem estava com você na cozinha?

— O jardineiro, o seu Tião.

— Pense e me responda com certeza: Em algum momento ele ficou só?

— Não. Ah, espere... Só saí para fechar a janela do quarto enquanto passava o café. Depois levei as coisas na biblioteca, ele me recebeu como sempre coloquei na escrivaninha, ele me acompanhou, ouvi trancar a porta, como de costume.

— Quando você voltou para a casa encontrou o jardineiro?

— Ele já estava na saída, deu um tchau e foi para a chácara vizinha.

— O que você sabe do crime? Tem medo de me contar?

—Meu Deus! Deus me livre, seu polícia.

— Você ainda é nova aqui. Eu estou aqui para dar segurança. Acham que o Tião e o vizinho, mancomunados teriam...
— Seu polícia, eu não sei de nada. É o senhor quem vai descobrir. Pelo amor de Deus, eu não sei de nada. Tomara o senhor descubra logo.

Sentado na churrasqueira, ouvi vozes do outro lado do gramado, nos fundos da chácara. Subi pelo terreno, muito aclive, vi lá no fundo um campinho de futebol e praticantes que chegavam.

Chamei o pirobo, que várias vezes colaborou. Informou que o campo era usado também pelos empregados das chácaras vizinhas.

Opa! Nasce mais uma esperança. Essa conversa levantou a lebre.

Era comum eu conversar com a viúva dona Thereza, naturalmente sempre trocando pareceres do lamentável fato. Com sua permissão combinamos que o Tião abrisse um caderno onde os jogadores deveriam marcar presença. Cada um tinha uma página com nome e RG. Logo entenderam essa medida, pois o clima estava pesado na área e carecia de cuidados.

Mais alguns dias, dias em que era visto como segurança, pois estava sempre lendo, sentado no banco da churrasqueira.

De posse dos nomes dos frequentadores do campinho, levantei todos os prontuários. Três tinham passagem. Um por roubo, um por briga e um aguardava em liberdade o julgamento por ter matado a mulher.

Entrei fundo no prontuário dos três, e me ative no assassino. Logo no princípio achei que ele entrou de gaiato. Estava escrito: “O casal vinha com pequenos desentendimentos. Ele ficou deturpado quando um amigo lhe contou que estava sendo traído”.

 Residentes na Paraisópolis, dia a dia os ânimos foram engrossando e numa das brigas perdeu o controle atingindo-a com um taco que mantinha atrás da porta.

Depois de uma fria desta, dificilmente alguém  entraria no mundo do roubo e crime. Como nada é impossível, os três passaram a fazer presença na minha carteirinha.


Até então, pouco ou quase nada evoluiu.

E eu ali, sentado no banquinho da churrasqueira, mirava aquela pequena biblioteca, sua estrutura, seu telhado, suas paredes. Uma pequena construção estilo casa de bonecas.

Ganhava café da Lourdes. Um dia falou que a patroa Thereza queria falar comigo. Às vezes conversávamos nos cruzando. Essa foi a primeira vez que me chamou.

— Poá, pensei muito antes de decidir o que vou lhe contar agora. Não devia, mas vai que clareie os acontecimentos e eu seja acusada de esconder detalhes. No Carnaval, na esperança de ficar junto com os meus filhos, o mais velho, o Lauro, deu um sumiço de três dias. Os mesmos dias do acontecimento. Estranhei seu jeito no regresso, e querendo se justificar disse não ter gostado da folia, não foi como esperava, não deu detalhes.

Há pouco havia tido uma grave desavença com o pai por questão da mesada.

— Dona Thereza. Fez bem em me contar. Nada podemos deixar de lado num caso deste. Mas, deve ter sido doloroso a senhora como mãe, ter coragem de me alertar. Tenha calma, ele certamente apenas se divertiu. É próprio dessa moçada. Fique tranquila. Tenho meios de apurar se saiu da cidade pelos sinais do celular. Mas agora... Esqueça. Também não vou registrar no prontuário. Tão logo saiba lhe darei notícias.

— Mas, como?

— Deixa comigo.

Na delegacia, na prestação de contas, o Doutor Jurandir recebeu com espanto a atitude da dona Thereza. Disse conhece-los há muito tempo, desde a pequena Torrinha. São meus conterrâneos.

Meu pedido, para tirar do caminho essa preocupação, foi preencher o pedido solicitando à Técnica, rastear o celular do moço. Percebi que o Jurandir achou exagero essa medida.

— Poá, você tem que investir no rapaz que matou a mulher. Ele está com sérios problemas, enroscado com a justiça. Advogado de porta de cadeia não vai minimizar o resultado da sentença. Precisa contratar um daqueles que conhecemos. Vai custar caro. E a grana? Pode ser que já tenha conseguiu!

— Doutor, a Lourdes...

— Espere. Que Lourdes?

— A cozinheira, doutor. Disse que tomou do café que serviu o Fonseca.

— Antes ou depois que foi fechar a janela?

— Boa pergunta. Vamos deixar a janela pra lá. E a porta doutor? Fechada por dentro, e a chave na fechadura... Me lembro de um caso semelhante doutor. Porém, quando introduzido um bambuzinho no olho da fechadura, por fora, a chave caiu. Caiu em cima de uma folha de jornal enfiada pelo malandro pela fresta inferior da porta. Puxando o jornal, a chave veio junto.

                   — Pena não ter sido assim...

É doutor. Nossa missão é espinhosa! A chave não caiu!

                   — Bota espinho nisso.

***

NO NOSSO PRÓXIMO ENCONTRO O, CAPÍTULO III .




Todos safados! Fernando Braga



Todos safados!
Fernando Braga

      Irany era um funcionário do setor de vendas de uma grande firma de construções. Seu diretor, Flavio, era terrível, muito exigente, altivo, não deixava de criticar seus funcionários pela diminuição de vendas, falta de projetos.

      Marcava reuniões frequentes para mostrar serviço a seus chefes e orientar aquelas¨ tartarugas¨ a serem mais ativas, mais simpáticas, mais convincentes nas vendas, não podendo perder clientes em nenhuma hipótese.

      A situação estava difícil, as vendas haviam caído muito no último ano devido a economia do país, desempenho fraco do  governo, falta de credibilidade. Dizia ele:

— Se vocês não venderem mais, vão acabar perdendo o emprego e vão me ferrar!

       Claudio, este gerente, era simpático, mas apenas com   as mulheres, principalmente com as bonitas, mas um  casca  dura com os seus dependentes no setor. Não era apreciado, a não ser pelos  puxa saco.

      Certo dia pediu a Irany para ir a Santos conversar com o dono de uma imobiliária, que sempre conseguia vender os apartamentos desta construtora, mas que ultimamente vinha fracassando.  Achou melhor dar uma chamada para ver se acelerava as vendas.

      Irany cumpriu sua função procurando o melhor desempenho, mas sabia que ao voltar, seu chefe arranjaria algum ponto para criticá-lo.

Já eram três horas da tarde quando voltou e quando próximo ao Jabaquara, a Imigrantes estava completamente parada por algum provável acidente. Ligou o Wase de seu celular e por ele antes de ficar preso de uma de uma vez, entrou à direita, vez, saiu do congestionamento, conseguiu pegar uma lateral que iria em direção à  Rua do Cursino  e depois pela ponte atingir Vila Mariana. Atravessando a ponte, também o trânsito estava congestionado, mas andava. Dirigido pelo GPS foi pegando uma travessa aqui, outra ali para pegar um pedaço mais livre.

      Por coincidência, ao pegar uma destas transversais viu um Motel e dele saindo uma Mercedes preta e logo em seguida reconheceu ser o carro do chefe. Estava dois carros atrás. Pegou seu celular e tirou fotos do Motel, da Mercedes, do perfil do chefe, que também usava óculos escuros. O transito parado, permitiu.

      Era realmente ele e quem estaria ao seu lado? Certamente não era sua mulher!

       Decidiu segui-lo a certa distância. Com óculos escuros, em seu carrinho, não seria reconhecido por ele. Após uns 10 quarteirões a Mercedes parou, desceu uma bela dama que após despedir-se com um beijo foi em direção a um carro estacionado na frente. Irany estava parado 20 metros atrás e não foi percebido por eles.

      Ele conseguiu fotos deles se despedindo, ela atravessando a rua, entrando em seu carro. Não tinha dúvidas, era Cida, a desejada mulher do diretor de produção, homem bem importante na empresa e que todos sabiam, era muito, muito ciumento. Após ela sair, reviu suas fotos que estavam ótimas. Resolveu não voltar ao trabalho.

      Estava muito excitado e com um bom material para se vingar daquele safado.

      Em casa, chamou sua mulher e lhe contou tudo. Ele sempre fora fofoqueiro, o que aprendera com ela. Ao receber os fatos, ela delirou e disse:

— Não vai fofocar, lembre-se que estamos duros e ele é riquinho. Chegou sua hora!

     No dia seguinte, no trabalho, tudo corria como antes. No tempo livre foi até o departamento de produção para conhecer melhor a Cida e ao longe estava seu maridão, postado na sala especial, envidraçada, em conversa com um cliente. Olhou aquela santa, que devia estar acostumada a prevaricar, cumprimentou-a com a cabeça e viu que ela devia ter também uma posição de destaque na firma.

      Pensou: “Vou acabar com os dois! Com aquele jactancioso metido, impoluto e, talvez com esta vigarista, desonesta! Estão em minhas mãos!”

     Uns dias após, Claudio encontra sobre sua mesa um envelope com seu nome. Sua secretária disse tê-lo apanhado do chão e que alguém o havia empurrado por baixo da porta.

      O envelope continha  cinco fotos 10X15,que mostravam bem o seu carro com a chapa exposta, a entrada do motel, um casal dentro do carro saindo do mesmo, uma foto de seu perfil, ela começando a atravessar a rua e depois entrando em seu carro, um Corolla prata.

      Ao deparar com aquelas fotos por pouco não caiu de sua cadeira, fez cara de horror e pegou um copo d’água.   Disse a sua secretária que precisava ir embora por estar com forte dor de cabeça. Saiu olhando para todos que estavam na grande sala adjacente à sua, trabalhando.

      Foi para um bar que costumava frequentar onde tomou uísque  duplo, duas doses e lá ficou tentando descobrir quem teria feito isto com ele. Certamente não era um amigo! Seria algum conhecido, que os vira por acaso? Seria um dos funcionários? Mas naquela  hora todos estavam trabalhando. Seria algum detetive contratado pelo marido dela?

      Meditava: “Meu Deus, a situação é séria. Se esta pessoa comunicar minha mulher, ao marido de Cida, a encrenca é certa e das piores. Poderia até perder o emprego. Seria conveniente falar com Cida? Mas para quê? Só iria  deixá-la descompensada e daí...acabou!”.

      Chegou à conclusão de que devia ser alguém próximo, inclusive para colocar as fotos por baixo da porta.

      Começou a analisar um a um de seus funcionários, inclusive as mulheres. Sentia em seu íntimo que realmente era alguém de dentro.

      “Pera aí, aquele dia, o único que não estava presente era o Irany, que tinha enviado a Santos e que não voltara ao trabalho”.

      No dia seguinte, chamou Irany à sua sala. Perguntou como havia sido o encontro em Santos, a que horas havia voltado e porque naquele dia não retornara ao trabalho. Com a cara explicitada por Irany, disse em seguida:

     — Foi você seu fofoqueiro, seu crápula que colocou este envelope por baixo da minha porta?

      Irany, sem receio disse:

— Crápula é você seu safado, que anda saboreando a mulher do coitado do seu Aristides, seu patrão. Ele não vai gostar de saber disto! E sabe que ele é ciumento!

    — São exatamente 200 mil para eu ficar mudinho.

— Você está me chantageando? Me achacando?

— Estou sim! E, não gosto de você!

— Você ganhou seu FDP! Vou te dar 100 mil e nada mais!

   — Então 150 e estamos fechados!

— OK 150, mas nunca, nunca mesmo conte isto para alguém, inclusive para sua mulher.

— Se você contar ou querer me achacar novamente, vou encomendar a sua morte e você pode ter a certeza que eu cumpro.

    — Me dá a gaita em notas de 100 e 50 e fique sossegado!

     Irany era homem de palavra, recebeu a grana e nunca falou a ninguém, embora fofoqueiro. Deu um pouco para sua mulher e mostrou a gravidade, caso ela contasse para alguma amiga.

     Dois meses após, Claudio, seu chefe, comunicou a todos que estava mudando para uma filial em um bairro distante. Todos ficaram muito satisfeitos com a sua saída, exceto algumas, que o achavam sexy!


      Com exceção de Irany, achavam que ele havia sido promovido!

A melhor viagem de trem - Ises Abrahamsohn


A melhor viagem de trem
Ises Abrahamsohn

         Denise viera para a festa da sobrinha predileta que completava dezoito anos.  Festa de  jovens, animada  e  com  bebida à vontade. Tinha ido dormir às três da manhã e saíra correndo para pegar o trem das  sete de volta à Paris. Ignorou os apelos da irmã para um desjejum mais  consistente. Pegou  dois brownies  de chocolate que tinham sobrado  da festa e colocou-os na bolsa.

Agora, já tranquila,  olhava  distraída pela  janela do trem em movimento. Lembrava os jovens na festa:  roupas  elegantes  e caras e as garotas com  rostos excessivamente  maquilados. Recordava  os seus próprios dezoito anos .  Eram os anos setenta, de rebeldia, das roupas soltas e das  carinhas  lavadas... Ela mesma  não  tinha sido  muito rebelde, mas tivera tantos  namorados.... Sorria... Já existia a pílula... Graças a Deus e aos cientistas!

Denise  lembrou dos brownies  na bolsa e os engoliu com  o café  comprado na estação. Cochilou e voltou a olhar pela janela. Na paisagem ondas  sucessivas  de cintilantes verdes  matizados contrastavam com os esplêndidos amarelos  das flores .

O rapaz loiro sentado do outro lado do corredor lhe sorriu.  Ao retribuir, ela  o viu  flutuar . Sentia-se ela própria  leve: abriu os braços e  pairou  no ar.  O anjo loiro indagou se estava bem.

— Sim, claro, estou maravilhosamente bem!  Ouviu então o toque longínquo, mas  insistente  do  celular. 

— Tia, estou ligando há meia hora. Você está bem?

— Claro que estou, querida!  Nunca  estive  tão bem.

—  Tia Denise, você já comeu os brownies ? 

— Sim, minha flor. Estavam deliciosos!  

— Tia, aqueles brownies  eram especiais!  Foram temperados com  bastante erva,  da boa !

— Pois é, querida, que festa, hein?   E que viagem! A melhor que já fiz de trem!

   

Test Your Awareness : Whodunnit?

É possível escolher a legenda em português neste vídeo.

PEGADAS NA AREIA - Suzana da Cunha Lima



PEGADAS NA AREIA
Suzana da Cunha Lima

Ainda dormindo, rolou na cama, buscando por ela,  mas seus braços só alcançaram o frio de um travesseiro vazio. Seus olhos piscaram e encontraram a luz vermelha do relógio informando que eram 5,30 da manhã. O que ela estaria fazendo a essa hora? Talvez com fome? Inquieto, olhou para o banheiro e logo depois  arrastou seus chinelos pela escada até a cozinha.

A casa silenciosa e até então escura, começava a  clarear com a luz e calor do sol entrando sem cerimônia pelas janelas.  Os pintassilgos vieram  alegremente buscar os farelos que ela deixava no peitoril. Uma brisa perpassou pela cortina de renda e fez o móbile gemer seu carrilhão. Ao longe já se podia ouvir os barulhos dos automóveis na rodovia.

Sorriu contente, tudo parecia normal,  menos a ausência dela. Abriu a porta dos fundos que dava direto na areia e viu seu vulto branco na orla do mar. Respirou aliviado. Ela era meio desligada, sua Luana amada, mas artista é assim mesmo, pensou. Tantas vezes falara que queria acordar cedo para ver o nascer do sol, que, finalmente chegara este dia. Lá estava ela, embevecida, apreciando seu momento.

Ponderou se valia a pena ir ao seu encontro,   mas havia muito sono ainda em seus olhos, resolveu voltar para a cama. Acordou mais tarde do que o normal  com o silêncio.  Silêncio pesado, fluindo por todos os espaços. Sentou-se inquieto na cama. Não a ouviu cantarolar como sempre fazia de manhã, ao preparar a refeição matinal, nem sentiu o cheiro de café subindo as escadas para acordá-lo. Tomou o remédio maquinalmente, e já apreensivo,  desceu e abriu a porta dos fundos,  colocando seus pés descalços na areia. Ela já não estava lá.

Andou até a orla, sentindo o frescor da água a lhe banhar os pés. Esticou os olhos até o horizonte, varrendo todas as possibilidades e ela não se encontrava em nenhuma delas. As gaivotas voavam em elaboradas manobras riscando o azul do céu. A natureza permanecia indiferente à  sua crescente aflição.  As pequenas casas de veraneio daquele balneário eram distantes umas das outras e ele não conhecia nenhum v izinho. Não havia ninguém na praia àquela hora.  Voltou para a casa quase correndo na areia fofa, pensando o que fazer, em telefonar para a polícia, para alguém...

Mas não chegou a entrar, cambaleou, levou a mão ao peito e caiu. E ali ficou inerte, um boneco desarticulado, de olhos espantados.

O delegado chegou com dois investigadores. Mandou-os interditar a casa e buscar indícios ou pistas ao redor. Havia pegadas na areia. Telefonou para a perícia e se dirigiu às duas pessoas sentadas na varanda. Perguntou o nome a  um senhor bem apessoado, na casa dos cinquenta, sentado junto à mulher no banco. Nelson, respondeu ele, esclarecendo que era vizinho e que Luana estivera na casa dele completamente histérica pedindo ajuda. Não sabia o que tinha havido,  assim resolvera acompanhá-la, visto ser grande a distancia de uma casa para outra..  Logo que chegara, havia percebido que o marido estava morto, então resolvera telefonar logo para a polícia.  Só entrara na cozinha para pegar um copo de água para Luana, depois haviam se sentado para esperar.

Fez muito bem, assentiu o delegado. Tinha notado algo diferente na cozinha, coisas espalhadas no chão ou fora do lugar? Nelson assegurou-lhe que tudo estava como devia estar, só havia pegado o copo e água do filtro e veio logo acalmar a senhora, que estava fora de si.

O delegado resolveu interpelar  a mulher, que parecia mais calma. - Onde estivera até àquela hora? A mulher soluçou um pouco, era bem bonita, notou o delegado, vestida simplesmente uma curta camisola branca, deixando à mostra suas belas pernas bronzeadas. Contou que havia saído bem cedo para visitar o velho farol,  porque haviam lhe dito que o nascer do sol daquele ponto era espetacular. Quando voltara, o marido estava no chão, o olhar morto, a fisionomia crispada.

O que ele havia comido ao jantar? Era doente, cardíaco ou diabético? Haviam brigado, discutido, se irritado um com o outro?

Ela abanou a cabeça, tristemente. - A gente se dava muito bem, delegado. Ele era muito saudável, corria pela praia inteira de manhã e ainda nadava um pouco antes do jantar… - ela tentava segurar os olhos pesados de lágrimas àquelas lembranças.

— O que faziam aqui, neste lugar tão acanhado? - Tiramos duas semanas de férias, eu precisava de paz para compor e ensaiar. – A senhora é artista?- Sim, sim, respondia tentando não chorar. – Violão, explicou em voz baixa. – um silêncio pesado - Tenho um show para daqui a duas semanas.  

 O detetive mandou os investigadores darem uma vistoria na casa. Os peritos chegaram e se encarregaram do corpo, das pegadas na areia e tudo mais que parecia lhes interessar. O delegado entrou na casa e buscou a cozinha. Tudo arrumado, no seu lugar. Não havia louça para lavar. Pelo visto, ninguém tomara café da manhã.  A sala era bem ampla e dava para a varanda em frente ao mar. Subiu ao primeiro andar, havia apenas dois quartos. Um bem pequeno, com uma mesa cheia de partituras, o violão encostado num canto. E outro bem maior, ligado a um banheiro enorme com hidromassagem. 

A mulher o acompanhava e ia respondendo às suas perguntas. - Que remédios ele tomava? - Apenas um remédio para a tireoide, logo cedo, em jejum.  E algumas vitaminas. - Ele examinou as mesinhas de cabeceira e viu o vidro do remédio, em cima de uma receita.

Perguntou se era o tal remédio e ela assentiu.  Vou levar para examinar, não se preocupe, é rotina. Tem o telefone do médico dele?

 Está aí, na receita, informou ela. 

 E seu marido fazia o quê?

—  Era meu agente, respondeu.

Vivia à custa dela, pensou Castro e começou a ficar aborrecido consigo mesmo porque a estava tratando como uma criminosa. A mulher tinha acabado de perder o marido, poxa! Jovem, bonita, artista, se preparando para um show. Um casal bonito, saudável. - Onde você está com a cabeça, homem? Isto é investigação de rotina, você não está mais nos Homicídios. Resolveu abrandar o tom de voz e ser mais gentil.

   Depois que viu o corpo a senhora subiu? - Não senhor, nem entrei em casa, fiquei com medo. Corri para o meu vizinho mais próximo, Dr.Nelson e pedi ajuda, não sabia o que fazer.

 O delegado concordou: Uma esticada e tanto, não é? Mas fez muito bem, já conversei com ele. - Deu outra olhada em tudo, na vista magnífica que se via do janelão do quarto, pensando nas injustiças da vida. O casal alugara aquela linda casinha somente para a mulher poder compor sua música em paz. Quer fato mais idílico? E ele morre estupidamente, certamente de coração.  Suspirou - Desculpe se estou sendo rude, senhora e por fazer tantas perguntas, é parte de meu trabalho.

 Eu entendo, disse ela no meio de um soluço comprido e pegou um lencinho de papel na cabeceira da cama para enxugar os olhos: posso? Aquilo o comoveu: Claro, senhora. Bom, não posso deixá-la sozinha aqui, vou levá-la à cidade. A Pensão de d.Rosita é um bom lugar, tem telefone e internet.  É melhor se vestir e pegue também algumas roupas. Lá vai ficar bem e aproveite para tomar algumas providências, chamar alguém para lhe ajudar nisso, parentes, amigos, não sei. Só sei que a senhora vai atravessar uma fase bem difícil. Logo vão liberar o corpo de seu marido. Tudo faz crer que foi um ataque cardíaco fulminante. Isso acontece muito, mesmo em pessoas saudáveis e esportistas. E conte conosco e com a Equipe para qualquer coisa. - Desceram e ele reuniu os homens para irem embora.

Entrou no final da tarde na delegacia pressentindo que aquela investigação ia levar a nada. Uma semana depois, a sensação de ter esquecido algo, ou não observado algum detalhe começou a lhe perturbar. Vício talvez do tempo que passara só investigando crimes e ocorrências funestas.

Chamou Leôncio, seu investigador. - Havia notado algo diferente naquela situação? A mulher sair da cama e ir de camisola e descalça até o forte, que ficava a um quilômetro daquela casa para ver o nascer do sol? Sem avisar nada ao marido? A hora da morte foi calculada entre 10,00 e 11 horas da manhã. Ela já devia ter voltado.  Onde havia ficado este tempo todo? Certamente não no velho forte, carcomido pelo tempo, sem nenhum atrativo maior do que ver nascer o sol, que durava no máximo uma hora.

Estivera na casa de alguém? Havia algo entre ela e o Dr.Nelson? Por que escolhera logo a casa dele que ficava tão distante? Reparara que ele não era casado e a tratava de Luana. Entrara na cozinha dela com desenvoltura como se a isso estivesse acostumado. – estacou, lembrando algo: ele disse que levou um copo de água para ela, não foi? E não entrou mais na casa. E onde estava esse copo? Na cozinha não havia nenhuma louça aparente. – O que você acha, Leôncio? 

— Doutor, quem sabe ela largou o copo lá na mesa da varanda ou no chão, ela é muito informal. E a necropsia deu morte por causa desconhecida, um infarto. Nada que sugerisse substâncias venenosas ou ilícitas. E o remédio era para tireoide mesmo e foi o que deu na análise dos comprimidos. - suspirou aborrecido.

— Porque ela escolheu a casa do Dr.Nelson?  Vai ver que naquela aflição foi a única que ela viu que lhe pareceu mais perto. É difícil calcular distância na areia batida de sol, o senhor sabe.

— Eu sei que não existem coincidências em situações de crime, isso sim. Algo para mim está soando muito mal. Se fosse na Homicídios a gente ia investigar direitinho o dr.Nelson, e o suposto show dela, as finanças do casal, se haveria seguro de vida, estas coisas. Passava um pente fino em tudo. Ah, Leôncio, você nem imagina o que se descobre nestas investigações. – reclamou o delegado sentindo-se impotente e tolo.

— Os exames não revelaram nada, Dr. Castro. Leôncio estava ficando impaciente com aquela obsessão do delegado. - Não foi comida, não foi veneno.  Teve um ataque cardíaco fulminante e pronto. Mulher sair sem avisar é mais comum do que parece, doutor. Vai ver não queria acordar ele, ou queria que fosse um momento só dela. Cada casal tem sua própria dinâmica. Nada daquilo que o senhor falou agora é crime, nem um vizinho solícito é um cúmplice ou um amante. Vamos encerrar o caso e tratar dos outros.   

— Está certo Leôncio.  Mas somos detetives, nós dois. A gente consegue ver além do que aparenta normalidade. Pode ser que seja viez da profissão, pode ser, a gente desconfia de tudo mesmo.

— Doutor, somos bem poucos aqui, neste balneário, porque nada quase acontece. O chefão perguntou o que deu isso tudo e já tem coisa para a gente investigar. Bebedeira no bar do Tonhão, com muita pancadaria. É a nossa realidade, Dr.Castro.

O processo foi fechado dando “causa mortis” desconhecida, o corpo cremado, Luana foi-se embora. O tempo passou. Semanas depois, em Juquei,  jantando com a família, no final das férias, Leôncio avistou o Dr. Nelson com uma bela mulher ao lado,  num cantinho do restaurante, bem amorosos um com o outro.

Logo reconheceu os dois e filosofou: uma mulher daquelas não ia ficar sozinha muito tempo mesmo. E ele deve tê-la ajudado a passar aquele momento difícil.  Muito natural estarem juntos. - Buscou a carteira e o celular, enquanto pedia a conta. - Bem, volto ao batente amanhã, mas vou já passar um whatsapp para o Castro, ele é capaz de ficar apoplético quando eu contar que vi os dois pombinhos juntos.

Ligou o celular de trabalho, desligado no tempo de férias, e ficou estarrecido com o que leu. Era uma mensagem do Dr.Castro e estava ali há dias.  Ele informava que lera numa revista científica, que havia sido descoberto, já há alguns meses que um isótopo especial agindo como catalisador,  colocado dentro de um comprimido, provocava morte em meia hora no máximo, como se fosse um ataque do coração e não deixava rastros. E um comentário dele: Eu não disse que ali havia coisa?


Leôncio pensou: Um isótopo! Acho que Dr. Castro não vai deixar aqueles dois em paz, não. Mesmo que o caso esteja encerrado e o corpo cremado, vai mandar fazer uma varredura completa na vida do casal – vá que houvesse mesmo um seguro de vida?  E na do Dr. Nelson. Ele era médico do que mesmo?