Crime na Vila Zelina - Ises de Almeida Abrahamsohn


Crime na Vila Zelina
Ises de Almeida Abrahamsohn

Acordou com passos furtivos e vozes, mas não conseguia entender o que se dizia. Olhou o despertador: era uma e meia da manhã. Deviam ser as vozes do seu inquilino e talvez de um ou dois outros homens, que se falavam em monossílabos. Durou talvez cinco minutos. Antes de ouvir o rangido da porta dos fundos pensou ter ouvido de novo a ameaça: - “se não pagar, te passo na faca”. Estas visitas já haviam acontecido algumas vezes. A velha senhora demorou a adormecer de novo.

Ficava pensando se fizera certo ao aceitar o rapaz como inquilino. Ele se apresentara há seis meses como vindo do interior, era estudante de letras na universidade e contou que sobrevivia de traduções. Chama-se Rodney. Era muito magro, quase cadavérico e tinha sempre a barba por fazer; talvez a fizesse apenas nos fins de semana quando desaparecia para voltar na segunda à noite. Ia visitar parentes, dissera uma vez. Tinha poucos pertences e mantinha sempre trancada a porta do quarto. Isso a irritava porque não podia entrar para limpar. No início achara que ele apenas queria evitar intromissões. Mas depois ela sentira o cheiro da droga que escapava pelo vão da porta. Agora ela sabia mais coisas: que ele devia dinheiro, também pela droga, além dos aluguéis que sempre atrasava.

Enfim, o rapaz acabava pagando, após ela ter por algumas vezes o ameaçado com despejo. Da última vez, o sujeito até a chamara de velha avarenta. Se ele soubesse a sua história...  Avarenta não era, realmente precisava do dinheiro para sobreviver.

Ela se lembrou de quando ela e seu querido Vassilij, que Deus o tenha, chegaram ao Brasil em 1947. Tinham sobrevivido ao cerco de São Petersburgo durante a guerra. Ela queria esquecer aqueles tempos. Vieram num cargueiro e Vassilij a encorajava durante a viagem: - “Elena, você vai ver, é um novo mundo, ambos trabalharemos, lá não haverá mais fome e nunca faz frio, é um país rico, fértil e quente”.

Realmente não havia frio, mas o inicio foi difícil. Vasilij era professor de russo e falava também alemão e francês o que lhe garantia aulas e encomendas de traduções. Ela era especialista em literatura russa, profissão pouco requisitada em São Paulo naqueles anos pós-guerra. Mas com o salário dele e os extras da venda de pães e geleias, foram se mantendo e conseguiram comprar o sobradinho. Para manter a mente afiada continuava lendo os seus adorados autores russos. Mas Vasilij se fora havia 10 anos, e a magra aposentadoria e o sobradinho na Vila Zelina eram tudo o que ela agora possuía. Tinha setenta anos e outros dez ou talvez ainda vinte pela frente.

A mente já não era a mesma. Seu único divertimento era ler. Às vezes adormecia com o livro entre as mãos. Acordava assustada sonhando que vivia a trama já lida tantas e tantas vezes ou que conversava com o autor. Outras vezes queria lembrar os trechos importantes das novelas que amava, mas a memória fraquejava. Também o bairro onde morava mudara para pior. Antes pacatas, a sua rua e a vizinhança deterioraram e ela mesma soubera de vários assaltos. Vivia amedrontada. Mais ainda ao ter ouvido as ameaças noturnas do traficante.

O tom de voz de Rodney e os últimos insultos que recebera a tornaram ainda mais assustada. “Amanhã à noite ele deverá aparecer e pagar o aluguel; já estava de novo com duas semanas de atraso”, pensou ela. Imaginava a discussão que teria com o rapaz e estava decidida a expulsá-lo. Tinha medo de ser agredida, talvez devesse ter alguma arma à mão. Por precaução, levou consigo o cutelo da cozinha ao subir para dormir.

O rapaz não veio dormir em casa nessa noite. Elena acordou bem cedo, ainda estava escuro. Tinha lido até adormecer e sua cabeça estava tomada pelo romance que estava relendo pela enésima vez. Seria ela igual à vítima do romance? Já ia descer para fazer o seu chá, quando ouviu o ranger da porta dos fundos e passos na direção da cozinha. Eram sem dúvida os passos do desgraçado. Estava fuçando no seu armário de mantimentos. “Maldito!” pensou Elena. Devia ter espionado para saber que era lá, na lata marcada como café, onde guardava o dinheiro para pagar as contas.

Desceu pé ante pé as escadas e viu o vulto do ladrão, iluminado pela luz do quintal, ajoelhado na frente do armário. A posição era excelente. Não teve dúvida! Tomou impulso e acertou-lhe o cutelo no pescoço. O sangue da carótida atingida espirrou longe. O sujeito caiu de lado e a lata de café tombou deixando escapar algumas notas de dez reais. Elena ainda pensou se deveria dar um segundo golpe. Não era preciso. Ele já estava desacordado. Mais alguns minutos sangrando e acabaria de vez.

Catou as notas espalhadas e a lata de café. Tampou-a com cuidado e subiu as escadas. Teria que arranjar outro esconderijo para a lata. Só então se sentou e olhou espantada para o livro aberto ao lado do travesseiro.


Disse então em voz alta: Ora, meu querido Fiódor, antes ele do que eu!

A TRADUTORA - M.Luiza de C.Malina




A TRADUTORA
M.Luiza de C.Malina

Há muito que a campainha não tocava. Não tenho me ausentado devido ao estreito tempo que a editora ofereceu para o término de uma tradução.

Menos mal, concentro-me melhor no trabalho. Anoto no bloco amarelado e empilhado de itens necessários, que preciso chamar um técnico para verificá-la. Penso: mais um item que vai ficar para o depois.

Envolvida até a alma com o verdadeiro sentido das palavras, as páginas transportam-me para outro mundo.  Não percebi o tempo, lembrei-me de não ter feito uma pausa para o almoço, quando o som familiar da campainha interrompeu a concentração.

Ela funciona, pensei aliviada, riscando o item do bloco.

- Quem é? Perguntei, ao olhar pelo monitor. A campainha moderna, não deixa o visitante perceber a vigilância. Não o reconheço, lembra-me a um serviçal.
- Estou procurando pela senhora Alzira, ela está?

- Sim, sou eu mesma – apressada respondi.

- Sou da companhia de alarmes, tenho um chamado para verificar sua campainha.

- Um momento.

Com o visor aberto, eu o observava. Intrigada confundiu-me a cabeça. Olhei para o bloco de recados e...e... o gesto de rabiscar o item “campainha” ainda guardava o calor do lápis na mão. Não deve ser engano, pensei. Além do mais, ela está funcionando. O que será?

No instante em que ia abrir a boca para falar qualquer coisa, que agora se apagou da mente nem sei mais nada, percebo seu olhar nervoso de um lado para o outro da rua  que, no sol a pino nem passarinho voava – ele se prepara com uma arma na mão.

Acredito que quando eu disse “um momento” ele tenha imaginado que o atenderia pessoalmente. Balela! - teria pensado - esta está no papo.

Acionei a vizinha da frente. Neste instante a campainha toca novamente. Gelei. Digo outra vez, um momento? Ah! Meu Deus este cara me tirou do sério.  A vizinha atende surpresa, querendo conversar; áspera eu a interrompo:

- Dona Judith desculpe, é urgente, por favor, olhe pela sua janela. Há uma pessoa tocando a campainha e estou receosa em atender, ele sabe o meu nome, estou um pouco nervosa porque percebi algo na sua mão que aparenta uma arma. Por favor!

- Cla-Claro minha filha, vou averiguar - gagejou.

- Alô, alô! – insisti desesperada pelos instantes atordoantes em que ela se afastou do aparelho. É uma senhorinha idosa e não enxerga bem. Será que tropeçou e caiu! E se  morreu! Minha nossa a culpa será minha, é melhor desligar. Desliguei.

- Dindong!

A campainha, o que faço! Encolhida pensei em não atender e nem olhar quem é. O telefone toca. Que alívio é a senhorinha de voz arrouqueada.

- Minha filha, descu-culpe a demora. A ligação ca-caiu e fui procurar seu número. Não tem nenhum homem em frente a sua ca-casa. Vejo apenas uma ko-Kombi  co-colorida e umas pessoas da época-ca antiga.

Ela está delirando, o que é isto agora?  Acho que tem problema com a, letra “c”. Se levantar a persiana perceberão que estou em casa; faço silêncio dentro de mim; identifico a voz de minha irmã. Co-corro aliviada para abrir o portão e noto – estou gaguejando em pensamento. Isso pega!

“Parabéns prá você, nesta data querida”...

Uma surpresa! Havia me esquecido do aniversário!  Lá estava o marido dela disfarçado de qualquer coisa, rindo de qualquer coisa e segurando qualquer coisa na mão, que eu achei que pudesse ser uma arma.

O susto valeu pela tarde Seresteira !

Lulu de Madame - José Vicente J.de Camargo



Lulu de Madame
José Vicente J.de Camargo                              

Melhor um pássaro na mão do que dois voando!

Foi com esse pensamento, que Mara enfim resolveu dispensar Romeu da sua vida. Para que arriscar seu casamento de quase 10 anos, relação sólida, sem riscos financeiros, por um capricho passageiro, só para estar na moda e dar uma pontinha de inveja ás amigas.

Já tinha ido longe demais e começando a entrar na zona de risco!

E depois, seu objetivo principal foi atingido. Com o romance com Romeu ─ Playboy, boa pinta, solteiro e alguns anos mais moço ─ as amigas que se cuidem, pois mostrou que tem cacife pra levantar qualquer marido tal qual diva famosa de Hollywood.

Além do mais Romeu já a está cansando com sua mania de querer ser convidado para as festas que vai com o marido. Imagine se alguma amiga ciumenta ou que lhe queira fazer um desaforo, mencione algo nas redes sociais como: “Madame e seu poodle de estimação são vistos novamente  na festa da fulana ”...Seria o fim de seu casamento.

Se pelo menos ele tivesse uma conta bancária polpuda, bem recheada até que o divorcio não a assustaria tanto. Mas mal consegue sustentar seu cartão de crédito, imagine o dela que é no mínimo dez vezes maior...

Sem mais delongas ligou para Romeu e marcou as pressas um encontro no apê que o marido lhe cedera para montar seu estúdio fotográfico, motivo que ela inventara como fachada para ocultar os verdadeiros fins.

Quando chegou ao apê, Romeu já a esperava com um champagne esfriando no balde de gelo.

─ Qual o motivo da comemoração?

─ Resolvi dar uma virada radical na minha vida. Responde ele. Começando com nosso romance que quero com esse champagne dar um “tempo”. Foi bom enquanto durou, pura adrenalina de felicidade.  Próxima semana mudo pra Miami onde vou trabalhar como corretor de imóveis. O negocio lá tá tinindo de bom, com essa brasileirada toda abandonando o barco tal qual gato fugindo de água fria. Já anunciei minha decisão na minha página do Facebook e já recebi varias respostas de apoio, inclusive pedidos de interessados por imóveis pra alugar e comprar. Tô animadão!

─ Que champagne que nada! - Grita Mara exaltada por ter sido pega de surpresa com a noticia - Como você não me avisou antes! Sou a cereja do bolo nesse relacionamento, e como tal deveria ser a primeira a saber. Oque devem estar pensando agora minhas amigas?  Que o Lulu deixou a madame a ver navios para ir roer outros ossos na terra do Tio Sam,  na sombra e água fresca das palmeiras com os bolsos recheados de verdinhas. Depois de tudo que fiz, dos convites para as festas que arrumei e do risco que passei que poderia ter terminado com meu casamento.

─ Não exagere! Retruca Romeu fazendo beicinho. Você mesma disse que nosso “fuque-fuque” era de fachada, para inglês ver. Assim que eu tiver meu apê em Miami, você vai lá, torrar umas verdinhas comigo.

Inclusive tenho uma grande ideia! Convença seu marido a comprar uma mansão em Miami, bom investimento. Encontro uma naquelas ilhas paradisíacas com marina própria, lancha na porta, toda brancona  flutuando qual cisne branco, vizinhança repleta de artistas famosos.  Cenário de deixar qualquer das socialites suas amigas de beiço caído.  E ponho foto no Facebook . Ai todas vão se dar conta que o Lulu não abandonou a madame, mas foi na frente, despachado por ela, para aprender a latir em inglês, ir se acostumando aos gramados bem aparados e as palmeiras verdejantes...

─ A ideia não é má! - Emenda Mara já refeita da surpresa. Meu marido tá mesmo precisando desovar algumas propinas, antes que a “lava jato” as confisque. Acho que vai topar...

─ É isso aí! - Completa Romeu - Fecha-se uma porta, abrem-se duas! E vamos curtir esse champagne que tá no ponto certo...


─ Brindemos a Miami! - Exclama Mara, promovendo seu Romeu de Lulu a pitbull e já se vendo estampada nas redes sociais de biquíni, bronzeada, no convés da lancha, ou melhor, do iate ─ pois, segundo o maridão, tem propina que não acaba mais. Dá pra encher toneladas de cuecas! ─ navegando nas águas azuis desse paraíso da tal elite brasileira, que segundo a classe opositora é a culpada pela “quebradeira” do país ... 

Escolhas - Ises de Almeida Abrahamsohn


Escolhas
Ises de Almeida Abrahamsohn


        Dali a uma semana seria o seu décimo primeiro aniversário.

          Giovanna, o que você quer de presente de aniversário? -  perguntou-lhe o pai.

        Ah, meu pai, eu queria muito que você me matriculasse na escolinha de futebol!

        O que é isso, menina? Disse-lhe o pai, num tom de voz irritado. Já conversamos sobre este assunto. De jeito nenhum! Isso é coisa de menino!

         Mas pai, existem tantos times de futebol feminino... Veja os times nos Estados Unidos!

        Minha filha, aqui é o Brasil, não estamos lá. Mas, eu vou pensar no seu caso. Afinal, você sempre se deu bem no que insistiu fazer. - Argumentou o pai, finalizando a conversa.

        Giovanna ficou contrariada, mas as últimas palavras do pai lhe deram alguma esperança.

Sempre foi assim. - pensou ela - Desde que me lembro por gente. Eu adoro azul e detesto cor-de-rosa. Minha mãe queria tranças e eu adoro cabelo curto! Tão mais prático! Pedi uma bicicleta de presente e ganhei duas bonecas. Adoro ciências, mas em vez da oficina de robótica me matricularam na aula de balé, justo no mesmo horário. Eu até gosto um pouquinho do balé, porque afinal para jogar futebol é preciso agilidade. Mas eu já consegui muita coisa por mim mesma. Consegui a bicicleta como presente da madrinha e o skate ganhei do primo Júlio. Eles sim me entendem! Afinal, eu quero mesmo é que me deixem escolher o que gosto de fazer, e meu pai vive implicando comigo, sempre dizendo que isso é coisa de menino.   Eu amo futebol e quero ver se dou jeito para jogar de verdade. Meu amigo Vítor diz que eu sei fazer bem as embaixadas. Foi o que ele me disse ainda outro dia – “Agora você precisa aprender a driblar e chutar melhor”. Preciso bolar um plano para convencer o papai.

“Já sei” - pensou ela - Todos dizem que futebol bem jogado parece balé. Vou pedir ao Vitor e à Ana para me filmarem no celular e vou mandar para ele. Pelo e-mail, claro, porque no face ele vai implicar. Vou me vestir com o collant do balé. Aí eu começo fazendo aqueles passos chatíssimos de sempre do balé e quando o dad começar se entusiasmar com o que ele pensa serem os meus progressos, aparece em cena uma bola azul de futebol e eu começo a fazer as minhas embaixadas e malabarismos!

Assim pensado, assim foi feito. Após alguns treinos e muita paciência do Vítor e da amiga Ana, ficou pronta a filmagem. Giovanna conseguiu enviar o filminho intitulado “ Balé Moderno”, uns dois dias antes do aniversário.

Para “adoçar” o pedido, ainda escreveu no e-mail: “Para o melhor pai do mundo, uma surpresa. De uma são-paulina de coração”. Não que ela realmente o fosse, era mais corintiana, mas o pai era são-paulino roxo, então não custava bajular um pouco.

No dia seguinte cruzou duas vezes com o pai, mas este não falou nada. Na véspera do aniversário se alternava entre alguma esperança e absoluto desânimo. “E se ele se zangar? E se não tiver aberto a caixa de e-mail?

Finalmente, era a manhã do seu aniversário. O pai havia saído bem cedo para pegar um voo para o Rio de Janeiro. Giovanna encontrou-o ao descer para o café, uma grande caixa da loja “Ballerina” com um também enorme laço azul. “Para minha filha bailarina, feliz aniversário de seu pai”- dizia o cartão.

Pronto - pensou ela - Acabou! Ele insiste na história do balé! Eu sabia! E já com os olhos marejados abriu a caixa. Após camadas de papel de seda, a surpresa! Um par de belíssimas chuteiras femininas azuis – ele lembrara a sua cor favorita – e no envelope a matrícula na escola de futebol.


Junto, um bilhete! – Minha querida, se você não virar uma boa jogadora, certamente terá futuro como diretora de cinema! 

A PRÓPRIA VIDA COMO ANTITESE - Oswaldo U. Lopes

         

A PRÓPRIA VIDA COMO ANTITESE
        (uma reflexão a maneira de monólogo)
        Oswaldo U. Lopes

        A proposta era escrever sobre antíteses, mas não era fácil, teve vontade de contar a própria vida toda ela uma antítese, mais perdida do que ganha, mais sofrida que falada.

        Expliquemos: era médico e entre a vida e a morte, o calor da febre e o frio do choque hemorrágico, a hipertensão e a hipotensão, a hipercalcemia e a hipocalcemia vivera sabendo que no fim a antítese virava tese a morte encerrava a história. Aprendera na carne o primeiro aforisma de Hipócrates:

        “A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganosa, o julgamento difícil.” Para dominar a arte, a vida fora sem dúvida breve, a experiência totalmente fugidia e o pouco que restava era a certeza de que o que sabia era de fato nada em comparação ao muito que quisera saber. A sensação era de vazio misturado a um pânico inexplicável.

Na medicina, refletia, tudo girava entre o ser e o não ser, ou melhor, o deixar de ser. Achava desde muito que a tradução do solilóquio shakespeareano, pelo menos na medicina, ficava mais certa com deixar de ser. Não havia, neste ramo do conhecimento, o vazio implícito no não ser. Na medicina tudo era o que existe e o que deixa de existir.

No mais comum, no dia a dia, era sempre a antítese fervente. No centro cirúrgico a constante dicotomia entre a luz e sua falta. A oxigenação era questionada entre o azul e o rosado. Mesmo diante de números da oxigenação dados em precisas porcentagens a dualidade das cores ainda era muito observada e procurada.

O tempo todo a pergunta crucial era antitésica. O eterno questionamento: melhorou ou piorou? Parecia-lhe muitas vezes que a medicina era em suma uma verdadeira antítese, centrada em contradições, confrontos e opostos. Da alegria do nascimento a tristeza da morte, da noticia boa à má noticia. Riso e pranto, anseio e perda, luz e treva, já não distinguia todas as antíteses que vivera.

Lembrava bem e com dor surda as vezes em que houvera a perda irreparável, e como estas o marcaram. Tinha sulcos no rosto e no espírito, traços tristes e vincados. Vivera uma suprema antítese, sempre questionado pela pequenez das possibilidades e do conhecimento.


No escuro, não procurou a luz, colocou a cabeça entre as mãos e pensou, como que rezando, naqueles que havia, em suas mãos, feito a tese final, e assim quedou-se calado por um longo tempo, como se na garganta houvesse um grito esganado e mudo.

Anita - Jeremias Moreira





  ANITA
   Jeremias Moreira
Irmãos de alma, Tota e Giba saíram aquele ano de Taquaritinga. Giba para cursar medicina em Campinas e Tota, um cursinho preparatório à faculdade de arquitetura, em São Paulo. Ele pretendia entrar na FAU e rachava de estudar feito um monge. Nessa vida há três meses, sentia-se cansado. Por isso, quando recebeu o convite do Giba para passar o final de semana em Campinas, aceitou na hora. Precisava dar uma espairecida.

Giba morava com mais quatro estudantes num apartamento, numa espécie de república. Nos fins de semana, o pessoal viajava para suas cidades e sobrava acomodação. Naquele sábado específico, haveria a Festa da Cerveja no Tênis Clube. Tota já ouvira falar sobre as festas anteriores e não queria perder essa. Por isso, enquanto caminhava da rodoviária para o apartamento de Tiago, sua cabeça estava povoada de expectativa. Chegou ao endereço, encontrou Giba na companhia de duas garotas no hall de entrada do prédio. Uma delas era a Silvinha, que morava no mesmo prédio. A outra, Soraya, amiga e colega de classe da Silvinha. As duas estavam no terceiro colegial. Tota abraçou Giba efusivamente e depois foi apresentado às garotas. Sentiu o olhar insinuante de Soraya. Animou-se. Mal chegara e já pintava um clima. Pelo jeito o fim de semana ia bombar. 

As meninas estavam incumbidas de conseguir os convites para a festa, mas encontravam dificuldades. A Festa da Cerveja do Tênis Clube era muito concorrida. Como último recurso Soraya apelou para a mãe, que era colunista social do Diário de Campinas, um influente jornal da cidade. E, foi assim, a pedido da filha, que Anita Amaral entrou no circuito e consegui com facilidade os convites para os rapazes.

Como previam, o baile estava animadíssimo. Depois de tomar alguns chopes  Tota e Soraya foram dançar. Em determinado momento, Soraya avistou seus pais numa mesa. Pegou Tota pela mão e foi ao encontro deles. Queria apresenta-lo à mãe, a benfeitora que conseguiu os convites. Antes não tivesse feito. Quando se viu diante de Anita Amaral, uma onda de calor percorreu o corpo de Tota.

Anita era um monumento. Uma exaltação à beleza. Sensual como a Sharon Stone.

Tota entrou num estado de insanidade e desejou trocar a filha pela mãe.
O pai de Soraya conversava com alguém da mesa ao lado e deu pouca atenção ao jovem que acompanhava a filha. Mas, Anita foi calorosa e Tota agradeceu pelos convites.

Em seguida, Soraya o puxou para a pista de dança, mas ele já estava fisgado. Não parava de pensar na mãe da menina. Aos poucos, durante a noite, esfriou com Soraya e começou a perambular pelo clube. Lá pelas tantas, avistou Anita sozinha na mesa. Ele não era do tipo arrojado, mas estava tomado por um ímpeto que ele próprio desconhecia. O momento era aquele. Foi até ela e a convidou para dançar.

Surpresa, Anita aceitou. A orquestra tocava uma música lenta e eles dançaram com certa proximidade. Ela perguntou por Soraya e porque não estavam juntos. E foi aí que a loucura se externou: Tota disse tudo o que sentia. Que, assim que a viu, percebeu que não poderia ter nada com a Soraya, pois se apaixonara pela mãe dela.

Anita não esperava tanta ousadia e mostrou-se surpresa:
— Você é louco?

Tota respondeu que ela que o enlouquecera e que assim que a vira desejou ardentemente ser seu amante. Com certa  indignação, Anita afastou-se. Seguiu-se um silêncio constrangedor. Para Tota pareceu uma eternidade. Deu-se conta da loucura que acabara de fazer. Mas, agora não tinha mais volta. O que fora feito, fora feito.

De repente, Anita se aproximou novamente. Colou seu corpo ao dele e com a mão acariciou sua nuca. Foi tudo muito rápido. Apenas o tempo de dizer com voz suave e sensual, bem próximo ao seu ouvido:

—Então, precisamos ser extremamente cautelosos.

Enxergando com a alma - Suzana da Cunha Lima



Enxergando com a alma
Suzana da Cunha Lima

De  manhã eu tirei o tampão dos olhos e a luz que vinha da janela me ofuscou com um brilho até então, por mim desconhecido.  Pisquei sem querer acreditar no que estava vendo: cores, cores de todos os tons e nuances, com os mais variados brilhos. O que eu estava acostumada a ver opaco e desbotado, de repente tinha adquirido vida, como se fossem recém-pintados. Senti-me como deitada nos jardins de Monet, submersa nos canteiros de suas flores de  tantos matizes e fulgores, debaixo de um céu absurdamente azul.

Sentada em minha cadeira, varria minha sala com um olhar encantado, como criança quando recebe um presente inesperado.  Achei minha casa linda e brilhante, como se um decorador tivesse acabado de decorá-la. O tecido alegre das almofadas se destacava contra o acastanhado dos sofás e as molduras douradas do quadros realçavam as cores das telas. Minha planta de estimação, uma jiboia que cresceu enroscada na coluna, parecia ter sido untada com algum óleo especial, tão magnífica era a cor de suas folhas.

Nunca tomei LSD mas soube que é uma das sensações mais recorrentes: a percepção exagerada das cores.  Antes eu via o mundo desbotado, sem saber como são belos os tons de vermelho e azul e como o branco grita, de tão forte e luminoso.

Experiência maravilhosa: eu fechava o olho operado e via com o outro e depois abria o operado. Que orgia de cores! Como o mundo se oferece, gratuitamente, aos nossos olhos, tão belo, resplandecente e gentil!


Sei que daqui a pouco vou me acostumando e talvez nem perceba mais a diferença entre o antes e o depois.  Mas por ora, como sou grata por me terem devolvido o dom de enxergar com nuances e  brilho.  É como  olhar com a alma, que é quem pode perceber  as sutilezas contidas nas imagens, muito além da forma ou conteúdo.

AMOR DE PRAIA NÃO SOBRE A SERRA - M.Luiza de C.Malina




AMOR DE PRAIA NÃO SOBRE A SERRA
M.Luiza de C.Malina

As férias tinham um destino certeiro – a praia. A nossa sorte é que podíamos levar amigas e amigos, o que tornava mais alegre os anos que seguiam.

O grande dia chegara. Na véspera a checagem dos detalhes da festa estava impecável. Familiares reunidos relembravam a casa de praia sempre cheia, era um espaço   muito vivo. Nas bainhas de conversa de comadres, surgiam perguntas corriqueiras como: o que foi feito de fulano, beltrano etc. e as notícias doces e salgadas fomentavam as bocas com pitada de veneno, até que chegou ao ponto fatídico:

- Vejam só! Quem disse que “amor de praia não sobre a serra”?

Amanhã ele subirá a serra definitivamente. E que belo rapaz!

- Pois é – responde a mãe – quanta aflição com este namoro de verão, mas pelo menos consegui segurar minha menina!

- Que antiquada!

- Sim. Fiz isto, porque certa vez ouvi o sogro, que diga-se de passagem um tanto garanhão, se referir ao candidato a genro “segurem suas cabras porque meu bode está solto”.

Não sabia se a gargalhada era pelo pai ou pelo filho. Mas rimos muito e completei:

- Que coisa para se falar de um filho!

O dia seguinte seria o da famigerada comunhão.

Na igreja, posto no altar, o “filho do bode” brilhava imponente em seu bronzeado de manso bon-vivant. Cochichos das casadoiras, ao pé de ouvidos com olhos faiscantes em direção do noivo, eram percebidos a olho nu. Ele, contudo,   ostentava  a bela dentadura.

Os minutos se passam a passos largos, o noivo inquietou-se, as madrinhas em sapatos apertados trocavam a perna de descanso, as daminhas do lado de fora, brincavam de pega-pega, desmanchando o penteado. A moça da harpa já repetia as músicas.

Todos nervosos. O padre intervém. Celulares são acionados à procura da noiva. Nada. O carro da noiva se aproxima. Mais um alvoroço. A porta da igreja é fechada. No silêncio reina a expectativa. O noivo se endireita. Violinistas a postos.

O motorista desce calmamente em direção do pai, cochicha ao seu ouvido. O pai, com um tapinha no ombro agradece. O carro segue.

O comunicado seria difícil. Resolveu ser breve e prático, sem muito nhenhém.      Apega-se a frase que tanto ouviu, enquanto caminha, pelo tapete vermelho.

- Amigos, “amor de praia não sobe a serra”. A noiva desistiu, mas a festa acontecerá, fiquem à vontade.

Um OHHH! Uníssono entre olhares trocados selou a notícia.

Dirige-se à esposa oferecendo o braço e, se retiram pelo tapete vermelho.


Na festa, enquanto o noivo passava de mão em mão, a noiva envia uma mensagem de texto aos pais: “Desculpe a batata quente que deixei, espero que tenham descascado bem o abacaxi. Amo vocês, Paris me espera.”

Filhos - Carlos Cedano


FILHOS
Carlos Cedano

Maitê e Ricardo moram no mesmo bairro desde crianças, agora já com quatorze anos têm uma amizade legal, porem Ricardo passa por uma fase difícil no relacionamento com seu pai. Um domingo cedo Maitê, indo para a padaria, viu seu amigo sentado num banco da praça, ele parecia de bola murcha!

            — Que foi Ricardo, você esta com a cara de poucos amigos, você brigou com alguém?

                — Sim, com meu pai, o velho está cada dia mais chato, não sai de meu pé!

            — Mas que foi mesmo que aconteceu, conta pra mim direitinho cara?  Falou Maitê.

            — Disse a ele que hoje iria jogar uma pelada com amigos da escola, e ele me perguntou pra quem tinha pedido autorização e eu respondi que eu já tinha quatorze anos e que sabia tomar minhas próprias decisões e me cuidar!

            — Sim, e dai?  Indagou Maitê.

            — Aí meu pai usou o velho argumento dos coroas de que minhas notas da escola não estavam lá essas coisas e que precisava estudar mais e por isso ficaria em casa!  Caso contrario cortaria minha mesada! Acho que ele enfiou o pé na jaca!

            — E logo depois que aconteceu? Insistiu sua amiga.

            — Tratei explicar que já estava tudo quase em dia e ele me disse que estava enchendo linguiça. Eu retruquei dizendo-lhe que ele estava se comportando como um ditador.

            — E... Ele como reagiu? Perguntou Maitê.

            — Ele me disse que eu estava exagerando, que o único que explicava meu comportamento era que eu estava numa fase onde meus hormônios estavam dando uma surra homérica nos meus neurónios. Como não entendi bem o que ele quis dizer com isso, sai batendo a porta de casa e aqui estou!

Ambos ficaram alguns minutos em silencio, e depois Maitê falou com carinho:

            — Ricardo, você está fazendo uma tempestade num copo de agua.  Seus pais te adoram e só querem seu bem, às vezes podem parecer bravos e injustos, mas seu pai, seu Roberto é um anjo sem asas, e sua mãe dona Ruth, um docinho de coco.

Maitê percebeu que Ricardo não estava muito convicto do que ela lhe dissera. Ficou pensando e logo depois falou:

            — Ricardo, pensa bem, nós somos os únicos filhos de nossos pais, eles são inexperientes e têm suas inseguranças, somos como seus porquinhos da índia e cometem erros conosco, nos também temos que educá-los embora nem sempre aprendam!  Temos que ter paciência com eles!

Esse argumento pareceu mais interessante a Ricardo e aos poucos foi se acalmando e disse pra Maitê que estava mais confiante:

— Vou pra casa começar a domar as feras!

Maitê ficou com um aperto no coração, estava em dúvida:


— Será que fiz bem ou piorei as coisas?

O sortudo - Fernando Braga


O sortudo
Fernando Braga

Um cavalo quando jogava futebol! E, desde criança, era o melhor nas peladas. Até a adolescência era menor do que os outros, físico raquítico, mas tinha uma grande característica, corajoso como um inconsequente.

Em uma briga, levava desvantagem pelo seu tamanho, sangrava pelo nariz, pela boca, mas não se cansava de apanhar e lutava até o fim, até que separassem a contenda. Era como o aço e o ferro, o primeiro, que entorta   mas não quebra e o outro que quebra e nem entorta.

Puxando seu pai, cresceu menos que os amigos, não mais do que 1,64 metros e para encorpar fez muita ginástica, usou o método do Charles Atlas, que pediu para vir dos EEUU por correspondência. Além disso, procurou se defender interessando-se pelo judô e depois, pela luta livre. Estudou em São Paulo e aproveitou parte de seu tempo, para também frequentar a conhecidíssima academia dos irmãos Gracie. Ainda como estudante, praticava esportes, o futebol, que jogava muito bem, recebendo o cognome de Ziza, nome relacionado ao famoso Zizinho, meia esquerda da seleção brasileira. Aonde jogasse, era sempre um dos melhores. Tinha ainda muita aptidão para o vôlei, como levantador e mesmo no basquete, era o cestinha. Nas férias, ia ao clube praticar esportes, e à noite gostava da sinuca, onde tirava o dinheiro dos ingênuos que aceitavam desafia–lo. Em resumo, Cicí era um ás em tudo o que fazia, ao que se dedicava, exceto em duas coisas: nos estudos e no cartaz com as meninas, que o achavam baixo e não bonito, embora muito simpático.

Na Universidade fez Agronomia, pois dizia: -  O futuro do país está nos campos, na produção de alimentos. O Brasil, como o celeiro do mundo! Dirigia uma   potente moto, com a qual desafiava o tempo e a velocidade, imitando o Steve McQueen.

Tornou-se conhecidíssimo pelos colegas de toda a faculdade por suas qualidades de grande esportista, faixa preta de judô, qualidades estas, que chegaram aos ouvidos   dos professores, que o estimavam e o aconselhavam a estudar mais. Sua simpatia, delicadeza, espirito alegre, papo fácil, era contagiante e todos sentiam-se felizes quando estavam com o Cicí. Não brigava mais, e era respeitado! Reconhecia simplesmente a sua liderança.  Ele era um misto de Leão com macaco, aquele, por ser temido e forte, e este, por ser ágil, esperto, grande atleta. Tinha sua filosofia. Sempre dizia:

- Na vida não podemos ser jactanciosos, e nunca servis!

Em sua formatura, o orador da turma, no discurso agradecendo aos professores, à grande Faculdade, fez várias referências elogiosas à ele por ter alegrado a vida de todos os colegas, fazendo-os mudarem o jeito de ser, tornarem-se mais alegres e mesmo mais preparados para enfrentar os percalços da vida. Até aqueles, de anos mais baixos, teciam comentários sobre a falta que faria o Cicí dali para a frente.

Voltando à sua cidade, conseguiu um emprego inicial, ganhando pouco, junto à Secretaria da Agricultura,  e uma namorada bonita, mas pobre, com a mesma estatura dele quando colocava sapatos com salto médio nos pés. Não gostava de mulheres mais altas do que ele, o que era tradição naquela época, embora sempre dissesse: - na cama, todos têm a mesma altura.

Certo dia, um vendedor de bilhetes de loteria, insistiu para que ele comprasse um deles fechado, com o número da cobra, terminado em 33. Era loteria de São João, que correria no dia 24 de junho e que daria uma boa gaita ao acertador. Comprou, e guardou-o no cofre.

Na segunda feira, havia se esquecido do bilhete. Foi ao barbeiro fazer a barba, como era comum na época. Os barbeiros eram novidadeiros, falavam muito, principalmente de futebol e o rádio pendurado no alto, ficava sempre ligado, dando notícias e tocando musiquinhas da época.

Com o rosto cheio de espuma, enquanto o barbeiro escanhoava sua barba espessa, a PRB8 Radio Rio Preto, parou a música, para uma comunicação importante: - Atenção, muita atenção, o bilhete de São João saiu para esta cidade e o número premiado foi 226733. Cicí ficou animado, esperançoso, pois sabia que seu bilhete terminava em 33. Saiu de mansinho, foi direto para sua casa, abriu o cofre e conferiu: 226733.

Havia ganho uma quantia que nunca suporia ter! Foram depositados 4,5 milhões em sua conta no Banco do Brasil. Era uma boa, excelente gaita! O que primeiro fez, foi dar 40 mil para o vendedor do bilhete premiado, que ficou felicíssimo. Deu também um pouco para alguns familiares necessitados, para algumas instituições carentes e com os 4,2 milhões restantes, comprou uma fazenda de 400 hectares e entrou de sócio, em uma firma que vendia implementos agrícolas, ração, produtos e medicamentos para animais de grande porte. Finalmente, resolveu casar-se com aquela que era a luz de sua vida, a razão de sua existência, com quem namorava há 7 anos. Sua situação econômica estabilizou-se em um nível suficiente para encarar a vida ainda melhor, e ter seus filhotes.

Continuou muito querido na cidade, jogando futebol, tipo society, até os 68 anos. Quando completou os 70, raso, deu uma grande festa no clube, convidando amigos da cidade que eram muitos, da infância, da escola, faculdade e foi uma farra, inesquecível!

Todavia, como tudo pode acontecer na vida, aos 77 começou a ter falha acentuada de memória, que rapidamente decresceu, sendo tomado pelas mãos do hoje conhecidíssimo Dr. Alemão, o Alzheimer. Tornou-se uma coruja, que abre bem os olhos, presta muita atenção, mas não entende mais nada.


 CiCí  ou Ciça,  continua vivo, mas........Que pena, para ele, e para todos que bem o conheceram!

A REALIDADE E A FANTASIA: QUAL A DISTÂNCIA ENTRE ELAS? - Oswaldo U. Lopes


A REALIDADE E A FANTASIA: QUAL A DISTÂNCIA ENTRE ELAS?
Oswaldo U. Lopes

         Luis Antonio era filho temporão, sete anos mais novo que o irmão, e seis mais novo que a irmã, ou seja, tinha irmãos, mas era filho único. Na casa grande vivia isolado e só. A família era rica e ele era fruto daquela coisa que antes havia e hoje não mais se vê, uma ultima tentativa de aproximação do casal.

        O resultado fora desastroso, era distante do pai e próximo da mãe. Inteligente se dera bem nos estudos e gostava muito de leitura. Aos treze anos já lera quase tudo de Alexandre Dumas. Atos, Porthos, Aramis e D’ Artagnan moravam no seu quarto, era um por todos e todos por um. Costumava assistir junto com Edmond Dantes as aulas do Abade Faria e cavara no enorme quintal da casa, baseado em mapas que criara, imensos buracos buscando o famoso  tesouro do Conde de Monte Cristo. Já se metera em encrencas de que o salvara o jardineiro Joaquim. Uma delas foi se costurar num saco, esquecendo, porém o canivete do lado de fora.

        Nos carnavais luxuosos do clube era conhecido por fantasias autenticas, muitas vezes de mosqueteiro, mas também de toureiro e oficial das tropas de Napoleão. Era visivelmente incentivado pela mãe que muito próxima, realizava nele fantasias que teria gostado de viver.

        Não tendo nenhuma preocupação financeira, enveredou pelas letras modernas e os romancistas do inicio do século XX. Com a morte do pai e depois da mãe, ficou proprietário da casa e herdou a cozinheira Ana Julia e o já conhecido jardineiro Joaquim.

Saia pouco, embora fosse conhecido na vizinhança, tinha até apelido “cavaleiro andante”, gostava de usar uma capa bege que lhe dava um ar de Humphrey Bogart num de seus memoráveis filmes. Gostava de murmurar “Play it again Sam”, mesmo sabendo que essa frase nunca fora pronunciada no famoso filme que lhe servia de mote.  Quando ia ao banco com aquela capa e um chapéu encobrindo o olhar era  saudado ou com a Marselhesa ou com as palavras: “senhor Casablanca”.

A sala do canto, no andar de cima, já fora transformada na “Bodeguita del Medio”, homenagem a Hemingway e a seu drinque favorito: mojitos que Ana Julia aprendera a fazer. No andar de baixo a sala de visitas, redecorada no estilo do Cassino do Rick, tinha num canto um piano dobrável tornando quase presente a figura do Sam.

Para a vizinhança Luis Antonio era um rico inofensivo, para os poucos amigos um excêntrico, para funcionários de bancos, lojas e supermercados que frequentava, um tipo meio louco, em geral calado.

O que ninguém fazia era a pergunta mais séria e inescapável: onde aquilo começara, e mais sério ainda aonde ia terminar? Ainda não havia resposta para nenhuma das duas. Embora para a primeira, por se situar no passado, fosse, talvez, possível, encontrar uma resposta esta não havia. Luis Antonio sempre se opusera a qualquer intervenção psicológica, psiquiátrica ou psicanalítica.


Vivendo naquele lusco-fusco entre o sonho, a fantasia e a realidade, num mundo que era só seu e no qual transitava de um pólo ao outro, às vezes sem si quer se dar conta, Luis Antonio caminhava ante a interrogação maior: conseguiria viver para sempre assim, entre a fantasia e a realidade ou como D. Quixote teria em algum momento um lampejo de lucidez e voltaria a terra e ao mundo real. Será que valeria a pena trocar o universo lírico da fantasia por uma realidade cada vez mais sombria, como a que vivemos, pensam os que assistem essa pseudo-loucura de Luis Antonio.