Vendo Cadeira de Balanço - José Vicente Jardim de Camargo



Vendo Cadeira de Balanço
José Vicente Jardim de Camargo


Com braços bem torneados
Encosto de aconchegante perfil
Assento de suave ondulação...
As juntas das pernas são reforçadas,
Proporcionando um balanço ritmado dos pés.
O material é de madeira de lei,
Revestido de verniz brilhante.

De brinde acompanha dengosa mulata,
Que da tua imaginação nascerá,
Quando você se deixar,

Em sonhos nela balançar...

Dura até acabar, ora pois. - Vera Lambiasi


Dura até acabar, ora pois.
Vera Lambiasi

Vendo Carocha. De uso familiar, carro para toda a vida.
Semivelho, bancos meio gastos.
Direção com um pouco de folga.
Amortecedores um pocadinho moles.
Cambio manual, 4 marchas para frente, e uma para trás. Arranhando a segunda.
Embreagem trepidando.
Pneu suplente recauchutado.
Travões a chiar, às vezes.
Motor batendo pino.
O brucutú, já levaram.

Tratar com Manuel.

JÚLIO ENFRENTA O PERIGO - Oswaldo Romano



JÚLIO ENFRENTA O PERIGO
Oswaldo Romano            
                                                          
        Logo na entrada da trilha que leva à caverna, o medo tomou conta de Júlio. Trilha sinuosa e cheia de obstáculos. Do lado direito um abismo profundo banhado pelo sol só ao meio-dia. Mesmo assim a neblina impedia ver o riozinho que embaixo corria.

        Quando o tempo permitia que aquela neblina aflorasse, ela vinha impregnada de forte cheiro de ácido que fazia as pessoas bambolear.

        Júlio diante das cartas ameaçadoras que recebia, resolveu enfrentar o perigo, primeiro da esburacada trilha e depois o que viria pela frente. Todo esforço era para salvar seu irmão Marcos desaparecido.

        Seu irmão, metido a milionário, provavelmente fez crer a algum bandido, que tinha muito dinheiro. Uma das cartas mencionava aquela caverna. Júlio não se conformava com esse sequestro. Lamentava a sorte do irmão, ao mesmo tempo em que se ruía de indignação por mais essa que ele aprontou.


        Júlio entrou pela mata a procura, e localizou a caverna dos Montes, provável local onde encontraria seu irmão. Não foi fácil encontrá-la tantas eram as enormes pedras no local. Graças a corujas  no cair da tarde, o movimento  de morcegos que entravam e saiam entre as pedras, pouco distante de onde estava, deu para perceber o local da tal caverna.

        Mesmo com dificuldade de alcança-la tomou coragem e se arriscou segurando-se às raízes e galhos, braços que o puxava, resfolegava, puxando o ar que precisava.

        Qual não foi seu susto quando olhando para baixo, subia em sua direção um enorme animal, talvez um crocodilo, mostrando suas garras. Levantando-se, apanhou a maleta de dinheiro que trazia por prevenção, supondo exigências.  Fugindo reiniciou a subida.

        Finalmente viu a entrada. Cautelosamente se aproximou. Uma revoada de morcegos passa por ele envolvendo seu corpo, chapéu e maleta, mas nenhum o tocou.


        Varreu a caverna com a luz da lanterna. Marcos não estava lá! Resolveu voltar e entregar o caso para a policia.

Quem Matou Quem? - José Vicente Jardim de Camargo


Quem Matou Quem?
José Vicente Jardim de Camargo



A vizinhança toda não comentava outra coisa a não ser o assassinato do casal da casa amarela de janelas brancas:

— Amélia matou Roberto com dois tiros a queima roupa! - dizia um

— Não! Retrucava outro.  

— Roberto matou Amélia por ciúmes e depois se matou...

— Não é possível, pois o revolver estava nas mãos de Amélia!

— Sim, depois de matar Amélia, Roberto colocou o revolver na mão dela e puxou o gatilho contra si, dando a impressão de que ela o matou... Roberto queria por a culpa nela pela sua morte... Uma vingança e tanta por ela o ter traído com o Paulinho, seu personal-trainer!

— Mas, os vestígios de pólvora foram encontrados pela policia nas mãos de Roberto...

— Certo, mas as impressões digitais encontradas no revolver são de Amélia...

Na discussão acalorada se aproxima um terceiro vizinho que atento ouve e intervém:

— Vocês não têm desconfiômetro? Está na cara, que foi Paulinho quem matou os dois e construiu a cena do crime para despistar a policia...

— Impossível! Brada um dos primeiros discutidores... Paulinho está de casamento marcado para mês que vem com Joana. Não faria uma coisa dessas e, depois, esse tal de romance dele com Amélia é pura fantasia  daquela ciumenta da Rosa, que jurou se vingar dele quando a deixou...

— E não é que eu vi a Rosa rondando por aqui dias desses... Comenta outro dos debatedores. Quem sabe foi ela? ...

— Deixe de besteira, homem! Rosa, conheço bem, morre de medo de barata, revolver nem de brinquedo seguraria! - Retruca outro - Para mim muito mais suspeita é a Joana, a noiva de Paulinho... Tem jeito de não engolir desaforos, deve ter pego o noivo nos agarros com Amélia...

Um quarto vizinho que passava pela calçada, vendo a discussão calorosa, logo adivinhou que devia se tratar do crime da rua e, pedindo desculpas, foi logo dizendo:

— Pensando bem o crime não compensa, são coisas da vida, quem matou...
— Chega! - Interrompem os demais que discutiam:

— Sapo de fora não chia! Estamos nos finais de descobrir o assassino e nenhum palpite mais será aceito...

O sujeito se afasta, e pensa consigo:

— Idiotas! Se metendo a detetives... E eu, querendo tirar esse peso da consciência, quase confesso minha culpa pela morte de ambos. Não aquentava mais as criticas deles sobre meu comportamento, meu gosto pela vida noturna, minhas visitas...

“Esquizofrênico!” - me diziam. “Vamos dar queixa... Tem de ser internado...”.
Mal sabiam eles que sou fanático por revistas de crime. Foi só misturar algumas histórias e ter a cena perfeita... Mas, pelo menos tentei confessar, o destino não quis...


Agora, espero que aquele cara do fundo pare de me encher o saco dizendo que a noite é para se dormir e não para tocar bateria...

O larapio iniciante - Fernando Braga


O larapio iniciante
Fernando Braga


Nós o conhecíamos   desde os 8 anos. Rapaz forte agora aos 14, filho de nosso empregado no sítio. Tinha duas irmãs mais velhas, seus pais eram ótimos, além de excelentes empregados. Confiança extrema! Moravam em uma casa nova, que havíamos construído para eles e que ficava a próxima à entrada do sitio.

Após viagem demorada, sempre que chegávamos ao nosso sítio era uma verdadeira alegria. Tudo em ordem, a “casa antiga” um primor, a grama bem cortada, os cachorros bem cuidados, o feijão com aquele gosto inigualável, diferente. Havíamos construído dois chalés a uns cem metros da sede, próximo ao lago maior, onde gostávamos de dormir e sempre com dois cachorros soltos.

Várias vezes, começamos a notar falta de algum dinheiro, quando na viajem de volta, íamos fazendo as contas de tudo o que havíamos gasto naqueles dias, em supermercados, açougue, jantares, pagamento de contas, gasolina, etc.

Certo dia aconteceu um fato que nos prendeu a atenção. Eu fui buscar as varas de pescar, que ficavam em um canto do banheiro no chalé de cima, que estava ocupado por meu filho, e sua família. Quando estava saindo, chegou meu filho, que voltava da pequena vila. Disse ele:

— Pai, que estranho! Quando fui pagar minha conta na Vila, não tinha dinheiro em minha carteira. Sumiram uns 300 reais! Será que o dinheiro caiu em algum lugar onde que paramos?

Brinquei com ele:

— Estou saindo de seu quarto, mas não tenho nada com isto!

— Sabe pai, isto não é a primeira vez que acontece. Quando vim com um amigo para cá, há uns dois meses, na volta, ele disse também, sentir falta de dinheiro, uns 250 reais.

— Você tem certeza? - perguntei eu, e sua esposa confirmou.
— Acabei me esquecendo de falar com o senhor. Agora, o fato se repete!

 Se havia algum furto, quem poderia ser? A empregada, seu marido? Impossível! Eram de extrema confiança. Zica, uma moça, que quando estávamos em número maior de pessoas, vinha ajudar? Também não. Como não tínhamos certeza de nada, esquecíamos, achando que havíamos feito gastos, os quais não lembrávamos.

Cogitei comigo mesmo: “Vou investigar. Vou preparar uma armadilha.”

No dia seguinte, tinha que ir à cidade vizinha, e como sempre fazia, convidei Marcelo para ir comigo. No caminho, parei para abastecer o automóvel. Peguei a carteira, paguei em dinheiro, mostrando que, as notas de maior valor ficavam em um compartimento mais escondido. Ao retirar o dinheiro, ele olhava de soslaio e tive certeza de que observara o esconderijo. Eu já suspeitava dele, e com aquele olhar tornou-se para mim o principal, talvez o único, suspeito, Confidenciei à minha mulher:- Na próxima vez vou apanhar o ladrãozinho.

Após duas semanas chegamos novamente ao sítio e na manhã seguinte, contei exatamente o que continha na carteira, incluindo no compartimento especial e fomos até a sede para tomarmos o desjejum. Sentei-me em uma posição que dava para observar as entradas e saídas da casa do caseiro e logo observei o menino saindo em direção ao chalé. Ele viu que estávamos indo para a sede. Após nos alimentarmos fomos calmamente de volta ao chalé. Peguei minha carteira e fui conferir o que restara, tinha certeza de que o furto havia sido perpetrado. Nas divisões da carteira faltavam apenas 20 reais, mas do compartimento mais escondido, havia sido retirados 400.

Minha mulher, que de tudo participou, perguntou:

— E agora, o que fazemos?

— Vamos falar com o ladrãozinho, retruquei.

Fomos até a casa do caseiro e lá encontramos o rapaz. Chamei-o para fora e fomos os três para um local mais distante para conversar.

— Marcelo! Primeiro você vai devolver imediatamente o dinheiro que você roubou. Desconcertado, mas sem negar nada, ele foi busca-lo e nos entregou. E o resto, que você vem roubando sistematicamente, inclusive do meu filho, do amigo dele.

— Não posso devolver, porque já gastei. - respondeu chorosamente.
— Agora, vamos comunicar o acontecido para sua mãe e seu pai.
— Pelo amor de Deus, doutor, tudo, menos contar para o meu pai, ele vai me matar.

Dissemos a ele:

— Você percebeu a gravidade do ato que fez? Você, com uma besteira desta, colocou em risco o bem estar de sua família, o emprego de seu pai, podia ser levado para prestar declarações à polícia. Ele chorava copiosamente e dizia

— Doutor, eu juro que nunca mais vou repetir esta besteira. Me perdoe!

Falamos com sua mãe, que ficou passada e percebeu a fraqueza de seu filho. Pedimos a ela que não falasse com o marido. Ela foi imediatamente falar com Marcelo e logo depois, seu pai tomava conhecimento do fato. O que aconteceu em sua casa, não soubemos. Eles perceberam a gravidade da situação sobre o “mau procedimento” de seu filho. Tranquilizamos os pais, dissemos que nada iria mudar entre nós e que precisávamos arrumar um psicanalista, para tratar do menino. Assim foi feito e decidimos, a conselho do médico, pagar apenas a metade do tratamento, das sessões de análise, para que Marcelo sentisse na pele ao ver seus pais, gastando aquela importância, que sempre fazia falta, em seu tratamento.


Passados seis anos, hoje ele é um moço bem estruturado, com emprego, com medo de errar. Todos esperamos, ardentemente, que continue assim, longe das drogas, de companhias perniciosas, do desejo de se apoderar do alheio, o que é bastante comum em nossos dias.

HOMERO e FÊ - Mario Augusto Machado Pinto.


HOMERO e FÊ.
Mario Augusto Machado Pinto.


Dirigindo depois de um dia de trabalho Homero sente-se cansado. Não gosta de guiar à noite. É que o “Adolfo” - o Fusca – pelas consequências da idade não é muito confiável, empaca quando mais se precisa dele. Em noite com neblina cerrada, como hoje, fica difícil dirigir, a luz dos faróis é fraca, mal dá para enxergar cinco metros à frente. Está com catarata, diz em gozação. Gostoso é dirigir quando a madrugada já escorregou da noite para a manhã e ele vai ao escritório, vendo as cores da nossa Bandeira: o verde do canavial, o amarelo do milharal, o azul do céu, o branco de uma nuvem e a estrela matutina brilhando lá no horizonte. Eta coisa bonita!

Vez ou outra cruza com os cortadores de cana, “boias-fria”. Conseguiu aquecedor para esquentar a comida deles, tem planos de montar um pequeno estrado móvel com tanque de água para o pessoal lavar o rosto e as mãos, mas os “gatos” não querem porque isso atrasaria a volta pra vila. Ninguém reclama. Acham que está bom e na sua santa ignorância, aceitam. Vivem lado a lado com ela e o medo de perder o posto. Lembra da canção “Eh ôô vida de gado, povo marcado, povo feliz”...

Homero vai dirigindo bem devagar, sentindo aquele medinho, o friozinho na espinha, a respiração mais ofegante, ouvindo o tocador de CD no máximo do volume berrar a musica “As Bodas”, do Igor Stravinsky musica que nada tem a ver com ele. Pra ficar atento conversa aos berros com a Fê.

-Então, caçoam os amigos, tem medo de dirigir à noite?
-É verdade, responde, tenho medo, sim.

Antes não era assim, lembra Fê? Você tornava tudo alegre, gostoso. Eu era caladão, mas conseguiu abrir minha boca e um dia contei meus planos de vida pra nós dois. Pedi para cumprir juntos. Dureza pra conseguir, mas cumprimos. Sempre alegre, irradiava alegria e felicidade quando namoradinhos. Andávamos de mãos dadas, apertando os dedos, tocando os ombros, olhando olhos nos olhos. Quando a gente voltava do cinema, de um jantar com os amigos ou de uma festinha você comentava tudo de todos, até de nós mesmos. Como era bom.  Eu esquecia que guiava à noite, imagina!

Esse tempo passou desde quando você ficou doente. Nossos filhos não vinham mais almoçar todos os domingos, os netos não queriam ouvir estórias, iam ao cinema. Ai, Fê, ai.  Eu ficava triste com isso e com sua doença. Fiquei desesperado quando ouvi você falar depois de repetir três vezes que queria falar comigo, que nos deixaria, mas que voltaria quando eu estivesse preparado. Foi horrível. A santidade toda devia ter impedido isso. Aconteceu e desde então levo uma vida meio sem rumo. Pra você saber – ora, claro que sabe – só sinto sua falta. Não me importo mais com amigos, filhos ou netos. Sempre me pergunto: quando vou estar preparado?

Acho melhor parar no acostamento da estrada. A catarata dos faróis piorou e não vejo direito.         
Pois é, Fê, tudo mudou. Não consigo acompanhar a rapidez do que acontece. Acho que vou me aposentar e criar pombos correio. Não é trabalhoso, gosto do arrulhar deles e é bonito ver a revoada no fim de tarde. 

Mas que neblina doida! Ora, desliguei o motor e ficou tudo ligado. A bateria! Tá difícil ver direito com toda essa neblina. Tá muito forte. Parece massa de suspiro. Vou desligar, é melhor, vai ficar escuro, mas não tem importância. Não, não desligo: vejo... É um vulto! Quem é que vem ai? Ai, Cristo, ai. Parece... É você Fê. Ai. Vem Fê, vem e me abraçar, me abraça bem apertado...

No dia seguinte foi fácil encontrar o “Adolfo”. Estava com a porta do motorista aberta e o vidro abaixado. Continuavam a procura do Homero.


Uma das netas comentou que o Fusca estava com o cheiro da Vó Fê.  

A LENDA DE JACINTO - Carlos Cedano


A LENDA DE JACINTO
Carlos Cedano

Renato ia de seu sitio até  cidade no  velho e fiel calhambeque. A viagem transcorria tranquila, ouvia música e aproveitava para dar rédea solta aos seus pensamentos e projetos. Um deles era trocar de carro.

O que o deixava um pouco triste é que tinha acabado de vender seu pequeno sitio e esta seria a última viagem nesta estrada vicinal de que tanto gostava, onde, tinha a sensação de que a bela floresta era só pra ele.

Começava anoitecer e a garoa que era fina começa a aumentar já quase chovendo e , esfriando rapidamente.

Subitamente numa curva o carro derrapa e “apaga”. Renato tenta algumas vezes dar partida mais sem sucesso. Pega a lanterna,  levanta o capô, mexe em alguns cabos, examina a bateria, verifica o óleo e tenta novamente dar partida e, nada!

A floresta está muito silenciosa. Ouve-se apenas o leve ruído da chuva, mas tem a sensação de que algo ou alguém o está observando. Acha que é sua imaginação, volta a olhar o motor e logo atrás dele escuta uma voz que lhe-diz:

            — É o carburador!

Renato vira-se e vê um cavalo branco.

            — Sim, é o carburador! - Insiste o cavalo.

O coitado mal tem tempo para reagir e subir no carro que por sorte, desta vez, dá partida!  Acelera levando o velho carro a seu “máximo” sem reparar nos buracos e desníveis da estrada. Poucos minutos após, o que lhe-parecera uma eternidade, Renato chega ao entroncamento com a estrada principal. Enxerga logo um posto de gasolina e pra lá se dirige.

Desce cambaleante do carro, pálido e ofegante, a ponto de desmaiar. O dono do posto o ampara,  e grita:

            — Mãe, traz um copo de agua com açúcar. Tem aqui um cara passando muito mal!

Renato senta num banco, ainda tremendo, e lentamente vai se recuperando do susto.

— O que acontece meu amigo?

Em quanto nosso herói conta o acontecido com cavalo branco, a mãe do proprietário se aproxima oferecendo-lhe o copo de agua com açúcar. Renato começou a beber e aos poucos foi recobrando a cor.

O dono do posto conta pra Renato:

— A historia que circula por aqui é a do velho Jacinto, dono de um cavalo branco que acostumava ajudar as pessoas que tivessem problemas com seus carros. Com ajuda de seu cavalo ele os puxava até o entroncamento onde podiam ser consertados. Ele morreu já faz seis anos.

            — Aparece uma vez por ano, encarnado no seu cavalo branco no dia do aniversario de sua morte - comentou a mãe -  E por falar nisso que dia é hoje?

            — Dez de outubro - respondeu o filho.

            — Pois é! Hoje é o aniversario da morte de seu Jacinto. Isso explica tudo! Diga-me jovem - continuo a velha senhora - o que é que o cavalo falou mesmo pra o senhor?

            — Ele falou somente: É o carburador!

            — Era um cavalo com uma mancha negra na testa? Perguntou a senhora.

            — Sim! Disse Renato ansioso por uma resposta.

            — Ah! Não liga não meu jovem, ele não entende p......  nenhuma de mecânica! 



O BROCHE. - Mario Augusto Machado Pinto


O BROCHE.
Mario Augusto Machado Pinto

Sergio, “amigo do peito” há mais de vinte anos, me telefonou pedindo ajuda para solucionar situação constrangedora acontecida em seu clube Itapolo: alguém – não me foi dito o nome – falou em perda de valioso enfeite. Reviraram as instalações e não encontraram o dito cujo. Seu tom de voz, qual roteador, emitia sinais de sintonia com a máxima tristeza e preocupação. Sequer me disse Boa Tarde.

— Chiaro, chiaro. Vou logo mais à noitinha. Deixa uma vaga na sua garagem. Vou direto para o quarto de hospedes.  Ali nos encontraremos. Ali. Não quero que nos vejam juntos quando eu chegar.  Ahn, também janto aí e nos falamos. Tchau. Ah, faz um croqui da ocupação dos quartos.
Esqueci de perguntar quem estava lá.

Enquanto dirijo a “van” assinalada e com os lampejos a funcionar, rememoro: Sergio é o que popularmente se classifica como “uma boa alma”. Somos amigos desde a primeira hora de aula na faculdade. Participamos das mesmas brincadeiras, juntos fizemos bobagens enormes às quais somente os jovens se permitem.  Devido nossa atividade – ele, hospedeiro e eu delegado de policia - guardamos conveniências, mas nunca tivemos e ainda não temos mistérios entre nós e nos encontramos sempre que possível. Pelos casos encrencados que resolvi, ele me considera verdadeiro Poirot. O seu Itapolo é clube chiquérrimo. O nome assinala: ali se pratica polo e competições equestres. É frequentado pelo “crème de la crème” da sociedade paulistana e por chupins que incensam  as estrelas dos jogos e as celebridades da sociedade no momento. Acontecida essa perda e por ela Sergio pedido minha ajuda é sinal de que, não resolvida, a notícia poder ter repercussão prejudicial aos seus negócios. Vamos lá, a causa é boa. É de um amigo!

Pelo celular avisei que estava chegando. Conhecendo o caminho, apaguei as luzes e entrei na descida para a garage já com o motor em ponto morto. Sergio me esperava. Não era para estar ali. Semblante exibia preocupação. Cumprimentamo-nos. Sem nada dizer, fomos direto para o quarto de hospedes.

Entramos e “matei o agrado“ na hora: mesa posta para dois, comida no “réchaud” (pelo cheiro só podia ser ragu de cordeiro ao molho de hortelã, meu prato predileto), vinho tinto Pinot  Noir e um branco no balde de gelo além de sorvete de três sabores nos aguardavam.

Enquanto me colocava a vontade, pedi ao Sergio para me dizer o que aconteceu.
 A nossa amiga Dulce Lisboa, agora Borges, me contou que para o fim de semana veio com dois broches: um, simples, de ouro, estava usando; outro, de platina e pedras, maior valor, era o desaparecido. Tinha certeza absoluta: não o havia perdido.

 Ah, Dulcinha querida. Gosto desta guia amorosa da nossa juventude, amiga para ajuda em qualquer tempestade. Sergio, não era pra você me esperar lá embaixo na garage. Era aqui. Cadê a Dinah?

 Ah, não seca. Está no Rio, com a mãe. Pois é, Dulce me procurou no gramado, rodeou, rodeou e falou meio constrangida sobre o acontecido. Está chateada, coitada, ainda mais por ter acontecido aqui. Tá murcha aquela exuberância toda que você, seu malandro, aprecia até hoje. Guy tá p da vida.

 Sergio, não faz comentário fora do assunto. Fizeram varredura no quarto dela, no banheiro, por debaixo dos móveis, cantinhos das paredes?  Atrás dos quadros? Completa? E nos outros?

 Sim. Não encontramos nada, nem nas lixeiras. Justifiquei dizendo que procurávamos um anel. Sozinho, eu mesmo peguei ferramentas, tirei o sifão da pia e o filtro central dos encanamentos, inclusive da banheira. Serviu para limpar. Estava precisando. Para não despertar curiosidade não fizemos nada nos outros.

 Hoje, notaram algum sinal dos empregados, alguém olhando muito para você, olhares curiosos, dissimulados ou como que de vergonha, mexendo as mãos como quem faz um embrulho? Comportamento normal? Falaram ou comentaram?

— Não, quer dizer, tudo normal e nada foi comentado nem perguntado aguardando sua chegada.

— Você, Sergio, viu o broche? Dulce mostrou antes?

— Não, mas ela me disse ser presente – ela falou regalo - do Borges. Lembra-se dele? – iria estrear amanhã no jantar. Queria mostrar, causar inveja. Sabe como é.

— Bem, Sergio dos meus amores, vamos papar, beber, fofocar e dormir. Por falar em papar: tem alguém solta por aqui? Não? “Oyah, mala cueva”. O programa de divertimentos vai ser igual aos anteriores? Conta as últimas fofocas. Quem com quem? 

Enquanto comíamos, tentei manter conversa, mas não deu. Sergio estava acabrunhado, sem vontade de fofocar. Fomos dormir com aquele sentimento estúpido de vazio no peito.

Minha suíte é um pouco afastada das outras quatro que são unidas como casas geminadas, disponibilizadas somente para importantes personagens; como ainda não é época dos torneios Sergio nelas colocou nossos amigos,  convidados da Dulce e do Guy. Formam um semicírculo unido a um salão usado para recepção Quando necessário funciona como “cafeteria” e restaurante, como agora. Tem ligação camuflada com a arena de prática e competição de adestramento. As cocheiras ficam afastadas.  Nas temporadas o pessoal vai para o hotel local.

Pelo croqui feito pelo Sergio, nossos amigos estão colocados da esquerda para a direita: Dulce – Guy Borges; Alice “três maridos” – Hélio de Souza; Laerte Norton - Ana; Rodrigo Alves  -“caso” da Dulce – Fernanda, a dadona, gostosona , conhecidos, menos o Hélio de Souza, do qual pelo SPhone pedi informações ao Serviço Reservado da Polícia. Resposta: tinha ficha de trambiqueiro. Alice, explosiva, gozadíssima e “pra frentex”, milionária após herdar tudo dos três maridos falecidos, só tem companhias de caráter duvidoso. Mais um? Não era de admirar.

Bem dormido, apresentei-me às sete horas para o café da manhã e fui avisado que só abririam às oito.

— Bem, então fico naquela mesa de canto virada para a entrada.  Vamos lá. Enquanto espero, faça o favor de me trazer depressa um café, o jornal e um copo d’água bem gelada... Dei risada, mas o atendente fez cara de quem não entendeu...

Espera que te espera:  o “pessoal bem” come e se diverte tarde...

Aí, estão chegando. Que turminha bacana, principalmente as mulheres. Tenho conhecimento de causa: pra mim, são o quarteto italiano: Dulce, a Sofia; Alice, a Ana Magnani; Fernanda, a Claudia Cardinali; Ana, a Gina Lolobrigida. Elas sabem. Eu disse pra elas.
Cumprimentos gerais.

— Você aqui? Que surpresa! Sergio não avisou, exclama Dulce.
— Vim passear e encontrei vocês. É ótimo!
— Que bacana! Já tomou café? Já? Que horror! - comenta Fernanda.
— Senta aqui na nossa mesa e vamos papear. Você sabe o programa pra hoje? - pergunta Ana.
— Sentiu frio? Te jogaram da cama? Cadê tua menina? - pergunta Alice.
— Vim só.
— Você, só? Não acredito. Tá doente! - grita Fernanda
— Cadê o jornal? Menino, rápido, busca o jornal - falo eu.
O garoto sai em disparada.

Todo mundo olha para todo mundo. As mulheres se examinam conferindo formas e detalhes. Elas se gostam. Os homens as observam, aguardam minha reação ao vê-las tão apetitosas, algum gesto por menor que seja já que sou solteiro, abençoado pela natureza e sabem que às vezes cumpro deveres de maridos ausentes e sempre deixo saudades. Aceitam-me, mas não me topam muito.

A conversa vai ao sabor do que dá. É falatório descompromissado, todos falam ao mesmo tempo, todos se entendem. São amigos, conhecem e perdoam os pecadilhos de cada um.

Sergio, com melhor figura, apareceu pedindo aprovação ao programa que preparou para o dia:  pela manhã, quer dizer, antes do almoço, show de adestramento – haverá presença de cavaleiros e algumas pessoas da cidade; almoço; soneca; percorrer trilha conhecida; chá; sonequinha; jantar e com a participação de poucas pessoas da cidade, bingo e palhaço; final ainda por confirmar. “Surprise”.

Combinei com Sergio que pela manhã eu faria uma vistoria nos quartos objetivando encontrar pista para encontrar  o broche,  e ele foi formidável afastaria o pessoal: todos gostam de exibição de adestramento.  Deu-me uma cópia da chave mestra dos quartos e por hora e meia manteria os empregados ocupados com outras tarefas.

— Bem, vou indo para o galpão. Quero ter um bom lugar, falei alto para todos ouvirem.

No caminho mudei de rumo e fui aos quartos. Estavam com o cheiro da mulher ocupante – delicia -  bem arrumados, banheiros limpos e pertences nos seus devidos lugares. Pela minha prática, a vistoria foi detalhada. A arrumação ajudou e facilitou muito.

Voltei ao picadeiro e sinalizei ao Sergio que, como combinado, ia à cidade. Por gestos perguntou O.K? Respondi mexendo os braços e as mãos para cima e para baixo: vamos ver. Entendeu?

Foi fácil encontrar e contratar o palhaço indicado pelo Sergio. Alto, ágil, logo disse o que podia fazer e compartilhar com a plateia, independentemente da quantidade de pessoas. Expliquei que tinha liberdade de ação, mas uma exigência a cumprir: o tempo de desempenho tinha de ser de hora e meia pelo menos. Junto com ele contratei ajudante e ”stand girl” bem charmosa. Almoçamos juntos, expliquei o que queria e como. Ao palhaço dei instruções detalhadas em separado. Voltamos todos ao Itapolo. Arrumamos tudo, ensaiamos até obter automatismo no trabalho de todos. Deixei-os no salão, fui para meu quarto e dormi.

Às oito e meia fiz a apresentação do espetáculo dando inicio ao bingo com renda para a creche da prefeitura. Às dez iniciou-se o show de palhaçadas e “mágicas”. Ambas as atividades tiveram a participação entusiasta da plateia; foi sucesso enorme colhendo longos aplausos e pedidos de “bis”. Ao palhaço reafirmei minhas instruções. Quando iniciou conversa com “minhas italianas” aproveitei a empolgação e na “titiquela” voltei à cidade para me divertir um pouco e foi justo quando ele começou a falar com  “minha Sofia”.

Voltei pela manhãzinha e estava preparando o carro para ir embora quando Sergio apareceu apressado perguntando todo afobado:

– Onde o Sr. pensa que vai? Não vai embora, não senhor. Tem que explicar como é que conseguiu encontrar o broche e devolver para a Dulcinha. Vamos ao bar e me conta tudo direitinho desde o começo com a procura nos quartos.

— Bem, comecei, tendo pouco tempo, resolvi jogar na experiência e na sorte: fui de quarto em quarto procurando o broche nas embalagens de maquiagem das mulheres e nas bolsas dos homens. Operação  delicadíssima. Imaginou se deixo cair um vidro de loção ou creme? Numa frasqueira, no puro palpite, faro de policial, encontrei um estojo com massa de “pancake” nova, sem uso, mas toda trincada; instintivamente levantei os pedaços do pó compacto e lá estava o broche. Retirei o broche com máximo cuidado e coloquei uma moeda de R$1,00 no lugar, embaixo da base para levantar um pouquinho os pedaços, tudo feito como se estivesse desarmando uma carga explosiva; cheguei a transpirar. Fiquei com ele e fui à cidade. Acenei pra você. Lembra?

— E ai?

— Fui atrás do palhaço combinando acrescentar ato em que deveria tirar cartas de baralho, carteiras, relógios e pulseiras, entreter com boas demonstrações. Ali mesmo o cara provou que era bom: devolveu meu relógio que tirou quando cheguei e nos cumprimentamos.

— E foi assim mesmo?

— Foi. Direto e simples. No momento certo indiquei a Dulcinha pra ele pegar o broche e “tirar detrás da orelha” e com uma mesura, colocar nas mãos dela, no colo. Ele fez tudo como combinado. Bacanérrimo!

— Sabe, ela gritou, riu e pulou de alegria! Beijou o palhaço! Lembra? Cantou a “bagatelle” Für Elize. Trá, lá ,rá,lá, rá! Porca miséria, só você pra conseguir isso!

— Ué, não era isso que você queria? Foi feito.

— É, mas me conta, conta aqui só pra nós dois que ninguém escuta: frasqueira de quem?

— Ora Sergio. Até parece que você não me conhece. Isso fica aqui comigo e ninguém rasga!

— Desculpe. Agora, sério mesmo: o importante foi ter o problema solucionado a contento. Nem sei como agradecer...

— Ué, então não agradece e, se me permite, me voy, me voy a tierras lejanas... Tchau belo.

Estático, Sergio vê o amigo rapidamente entrar na “van”, ligar o rádio e a sirene, acelerar lançando pedrisco para todos os lados e sumir na direção da junção com a Via dos Bandeirantes.




ASSASSINATO EM FAMILIA! - Carlos Cedano


ASSASSINATO EM FAMILIA!
Carlos Cedano

O inspetor- chefe Rafael Fernandes, chegou ao local do crime e foi logo perguntando aos policias: 
— Alguém entrou na casa?

— Ninguém inspetor Rafa, nem nós nem a diarista que viu a vítima desde a porta,  e chamou a vizinha da frente. Chegamos cinco minutos atrás e ligamos imediatamente para sua delegacia.

— Certo, respondeu o inspetor. Minha equipe de peritos deve estar chegando e vou aproveitar para conversar com a doméstica e a vizinha.  Mas, antes disso, ligou para o médico legista e também para sua delegacia pedindo envio de dois agentes de campo.

Sua equipe básica  era composta de três peritos: Martha especialista em impressões digitais, Rubens fotógrafo e encarregado de filmar a cena do crime; Bento, assistente para registro e análise de documentos. O próprio inspetor, além de orientar a demarcação da cena do crime, faria a coordenação e orientação dos trabalhos.

Enquanto a equipe se preparava para adentrar na casa, o inspetor percorreu a parte externa do imóvel.  . Era uma residência térrea com uma edícula no fundo do jardim. A rigor, a cena do crime deverá coincidir com todo o perímetro do terreno! Concluiu o inspetor. Chamou os agentes de campo.

— Precisamos o maior número de provas para solucionar o caso. Isolem o terreno e façam uma busca minuciosa,  “centímetro a centímetro” – ordenou.

O primeiro a entrar foi o legista que delimitou o núcleo do crime. E uma hora após  revisar o cadáver disse:

            — A causa da morte foi um traumatismo craniano na parte posterior. Foi um golpe muito violento e com um objeto muito pesado. A morte foi quase instantânea. Delimitei a área do núcleo do crime considerando o espalhamento do sangue. Não achei qualquer outra causa aparente, mas a autopsia poderá nos trazer outras informações.

— As fotos e filmagem do corpo já foram realizadas? - Quis saber o inspetor.

            — Sim, e foram bastante minuciosas. Já podemos solicitar ao laboratório a retirada do corpo para análise forense. Ah! Outra coisa inspetor Fernandes, o assassinato deve ter acontecido há uns três a quatro dias atrás, a decomposição está avançada e o cheiro bastante forte!

O cadáver estava caído  em decúbito ventral não mais de dois metros da porta de entrada e a cabeça orientada para lado oposto da porta. Parece que a vítima conhecia o criminoso! Você não daria as costas para um desconhecido! Foi opinião da maioria dos membros da equipe.

— É um bom ponto de partida. Além de conhecido, também podemos supor que se trata de um homem com grande força!  Vejam que a vítima também é grande e com físico avantajado - alimentou o inspetor Rafa.

Durante os dois dias seguintes a equipe toda trabalhou sem descanso e com afinco levantando e classificando o material de prova.  Dias depois, Bento concluiu que o assassino procurava  documentos em gavetas, que o computador estava sem o disco rígido, tentaram abrir o cofre à marretadas, e que o assassino teria se alimentado na cozinha e deixado restos por todos os lados, o que significava que ele permaneceu no imóvel por mais de dois dias.

O inspetor chefe disse a seus colaboradores: Agora o ponto chave é abrir o cofre e examinar seu conteúdo. Já solicitei autorização ao promotor para arromba-lo aqui mesmo e na sua presença.  

Nesse momento entra a perita Martha trazendo um cachimbo dentro de um saco plástico e disse:

—Isso aqui estava na sujeira da cozinha. Examinando os restos de comida na lixeira nos deparamos com este cachimbo de craque. Deve ser do assassino!

— Muito bem Martha, envie para  o laboratório para ver se conseguem extrair o DNA e as impressões digitais, pediu Rafael.

A equipe que abriria o cofre chegou no dia seguinte e após  dois de trabalho árduo encontraram um “tesouro”. Acharam um livro com anotações dos empréstimos realizados com nome das pessoas, recibos e cheques assinados pelos tomadores. Além disso, acharam uma imensa quantidade de dinheiro em reais, dólares e os euros.

O passo seguinte foi entender as anotações do livro e o significado de algumas frases codificadas. Esta tarefa levaria uma semana pelo menos e exigiria o melhor do talento dos peritos.

Revisando suas anotações e outros documentos elaborados pela equipe, o inspetor Rafa percebeu que a vizinha da frente tinha feito referencia a um sobrinho da vítima de nome Roberto. O inspetor atravessou a rua e tocou a campainha, atendeu uma senhora de media idade que perguntou: Pois não?

            — Bom dia senhora Ruth -  cumprimentou o inspetor.

            — Senhorita! - Retrucou dona Ruth - que posso fazer pelo senhor?

            —  Desculpe senhorita! Posso pedir para relembrar a descrição que fez do senhor Roberto, sobrinho da vítima, a nosso funcionário do. Estamos checando todas nossas informações. A nova descrição coincidia com aquela dada anteriormente por ela.

Quando o inspetor estava de saída dona Ruth fez o seguinte comentário: O sobrinho e o tio eram muito parecidos, na altura, na cor dos cabelos, na forma de rosto, até os olhos dos dois eram esverdeados.

— Essa nova informação, senhorita Ruth, é extremamente valiosa. Muito obrigado!

O Rafael também foi falar com a diarista e pediu-lhe pra repetir seu relato anterior. Não agregou nada ao já conhecido.

Com os resultados do exame de DNA obtido do cachimbo de crack e análise das impressões digitais encontradas na casa, o sobrinho foi colocado definitivamente na cena do crime.

A análise dos documentos encontrados  no cofre forte também identificou o sobrinho da vítima como sendo Roberto G. Valdés,  e devedor de Tarcísio F. Valdés. O documento era preciso em citar esse Roberto como sendo o sobrinho na decodificação das anotações feitas nas margens dos documentos. O motivo estava estabelecido.

No dia seguinte o inspetor Rafa e o Promotor Público entraram em contato com a Polícia Federal de São Paulo para solicitar informações criminais da vítima e do sobrinho.

 A folha corrida de ambos era extensa e cabeluda. O tio, Tarcísio, tinha sido estelionatário no início de sua vida criminal e ultimamente agiota. O sobrinho, além de viciado em todos os tipos de drogas, era arrombador de domicílios e traficante. Devia dinheiro a muitos e estava ameaçado de morte. A Polícia Federal buscaria ao tal de Roberto G. Valdés e o entregaria a Polícia de Investigações de São Paulo.

Uma semana depois o sobrinho, agora réu, estava sentado  diante do inspetor-chefe Rafael Fernandes. O interrogatório encontrou resistências iniciais, masante a quantidade de provas, aos poucos foi cedendo e chorando. Houve uma coincidência inesperada durante o interrogatório: Martha pediu licença ao inspetor e sussurrou ao seu ouvido.

— Faça-a entrar! Respondeu o inspetor.

Era uma moça morena carregando um pacote aparentemente pesado e disse:

— Bom dia senhor inspetor, vim devolver a esse safado este objeto que me pediu para guardar, não quero me comprometer com suas besteiras.

Abriram o pacote e lá estava uma impressionante marreta, sem dúvida a arma do crime! Ao vê-la o criminoso desabou e logo confessou sua culpa jurando arrependimento, que não tinha sido sua intenção e etc. etc.