Ali Baba (Film Complet) [1997]

Contos de Sherazade - Aladin

Difícil Adjetivar - Vera Lambiasi


Difícil Adjetivar                                                             
Vera Lambiasi

Chegaram no fim de tarde ao alpendre.
De lá, descortinava o anoitecer.
Duas cadeiras de balanço chacoalhavam suas vidas.
Mudos, assistiam o sol sair envergonhado.
Não haviam mais palavras sedentas, paixão debutante.
A rotina fez do casal, amargor.
Era preciso um milagre, a dissolver o rancor.
E ele surgiu, em forma esférica, e alva.
Emocionou por sua grandeza.
Voltaram ao passado ingênuo, quando assistir a lua, dava calafrios.
Choraram ondas do mar, e olharam-se como desconhecidos.
Enevoados em lágrimas, o toque nervoso fê-los despertar.

Era preciso recomeçar.


A beleza do entardecer - Oswaldo Romano




A BELEZA DO ENTARDECER
Oswaldo Romano   
                                                           
        Incrível a Suzy,  sadia que é, não apreciar as belezas da ilha do tio João. É muito estranho.

        Acorda ignorando as coisas que o ser humano considera  mais surpreendentes e desejáveis na vida.

        Acordar com o quebrar das ondas, os pássaros cantando e apreciar a natureza.

        Ela abre a janela. Acontece no momento em que olhando o mar os sons das ondas brandem mais fortes, enrolando-se entre as pedras já banhadas. Vagas mais calmas acomodam-se morrendo na areia.

         Suzy vê que não é só espuma, não. Olha bem. Milhares de bolhas multicoloridas, olhos querendo lhe ver, dizer alguma coisa. Tão pequenas e delicadas, refletem as nuances de um olhar impregnado, apaixonado. Ao ver de onde vêm, encontra uma imensidão de mar ondulado, cintilante, até onde sua vista se perde.

        Suzy começa a extasiar-se. — Esse é o nosso mundo! Desvia o olhar para o céu.        O azul enche todo espaço, alcança o infinito. Nessa imensidão um ponto de luz refletindo chama sua atenção. Ele é a estrela d’Alva. A companheira, o consolo da lua. O misterioso planeta Vênus. Suzy repensa. Um grupo de pássaros coloridos pousa na macieira próxima a sua janela. Suzy desperta de vez. Sai do estado de letargia, apaga completamente sua indiferença com a ilha.

        Procura quase correndo o tio João com seus pulinhos trocados. Passa pela parreira do maracujá, atravessa um pedaço do campo, encontra seu tio.

        — Tio, tio. – Ela chama - Não quero ir embora hoje. Fico para curtir minhas férias.

        — Que ótimo filha! Esta ilha vem fazendo milagres!

        —Mais tarde o senhor vai subir comigo nas pedras para ver o por do sol, vai?
        — Claro filha! É lindo! Nunca cansarei de vê-lo. É Deus que nos olha e lançando seus raios adormece.


        — Puxa Tio. Que inspiração!

AMIGO 171 - Maria Luiza de C.Malina




AMIGO 171
Maria Luiza de C.Malina

Amigo cheio de mal me queres e bem me queres. O fato é que ele tem “amigos” à beça.

Não só anunciou aos amigos, como à imprensa mundial o seu casamento com a princesa da TV brasileira, no, nada menos castelo de Mônaco, tendo como padrinho o próprio príncipe Albert.

Daí por diante, as revistas e imprensa de maior circulação, disputavam a melhor matéria sensacionalista que, corria solta. Até mesmo que o Papa deslocaria um de seus reverendos para este grande dia.

O dia aconteceu. O castelo de Mônaco. Era um castelo SIM, mas não o da família tradicional, era um restaurante chamado  “Castelo de Mônaco”.    O padrinho sim, era o Albert, no entanto era o Albert da Silva, vizinho da comunidade, assim apelidado.

A noiva, esta sim, era uma das princesas da TV brasileira.

Quanto ao papa, ah! Este veio, em carne e osso. Era o papa da igrejinha da comunidade.

Uma coisa boa este Amigo 171 fez. Foi em Mônaco sim. Pagou todas as passagens, até para o gato de estimação, com o qual a noiva entrou, carregando ao colo, ou invés do tradicional “bouquet” de noiva.

A festa foi uma exaltação à escola de samba. Varou a madrugada. Os gringos já não aguentavam mais o barulho.  Ao final da festa, uma surpresa, toda a comitiva foi escoltada pelos batedores/policiais, direto para o hotel.
O silêncio reinou em Mônaco.


Passada a lua de mel, o casamento passou. Tudo passara de uma brincadeira de mau gosto. Tal qual o beijo no sapo.

A Chave do Enigma - Fernando Sabino


A Chave do Enigma
(trechos)
Fernando Sabino

Minas

O TURISTA perguntou ao mineiro por que o Estado de Minas Gerais é conhecido como "As Alterosas".
— Sei não — foi a resposta. — Vai ver que é por causa das mulheres mineiras, que são muito alterosas. Basta uma para dar logo alteração.

CAMINHANDO pelas ruas de São João del Rei. Uma dor de cabeça renitente pede com urgência um comprimido. Se fosse dor de dente, pediria Cera Dr. Lustosa. Ainda há em São João quem se lembre do próprio Dr. Lustosa, criador da milagrosa cera, cujo cheiro característico me vem da infância. Não encontro nenhuma farmácia aberta. Abordo um passante, que me informa polidamente haver uma de plantão perto da Estação Rodoviária.
— E é muito longe a Rodoviária? — pergunto.
— É — responde ele apenas, e prossegue o seu caminho.

SABARÁ é a terra da jabuticaba. De repente, em certa época do ano, Belo Horizonte se esvaziava: todo mundo vinha a Sabará chupar jabuticabas, que eram vendidas no pé. O freguês chupava quantas quisesse, até cair do galho. Só não podia levar nenhuma.
Há algum tempo um velho coronel mineiro, intrigado, perguntava:
- Todo mundo agora está indo para a Europa: o Juca já foi, o seu Chiquinho também, o Zé da Sá Rita está de mala pronta... É tempo de jabuticaba lá?

NO QUE eu depender de informações desses meus conterrâneos, acabo indo parar na casa da mãe Joana. Pergunto a este outro, no posto de gasolina, a distância dali até Diamantina.
— Não é muito perto não. Mas também não é longe — informa ele, sério.
— Quanto tempo vou levar daqui até lá?
— É conforme, uai. Se correr muito, leva pouco, se correr pouco, leva muito.

OS BECOS em Diamantina conservam os nomes da época do ouro e dos diamantes: Beco das Caveiras, das Gaivotas, da Tasca, do Rapacuia, da Paciência, do Pinta-Ratos. Cada um com sua motivação histórica: o do Pinta-Ratos, por exemplo, é homenagem a um pintor que, para se vingar da Irmandade que lhe devia um dinheiro, trancou-se na sacristia da igreja e pintou dezenas de ratos em suas paredes; o da Paciência era usado para despejo do lixo e pelos tropeiros, que ali satisfaziam suas necessidades — paciência houvesse para passar por ali.

— SE sou mineiro? Bem, é conforme.
Tudo é conforme: sabe-se lá por que estão perguntando? ? O que é ser mineiro, afinal? Basta ter nascido em Minas? Manhoso, ladino, cauteloso, desconfiado — tudo isso junto. Experimente perguntar-lhe com delicadeza:
— Como é mesmo o seu nome todo?
Ele responderá, também delicado:
— Fale a parte que você sabe.
Se por sua vez não perguntar:
— Por que você quer saber?

TUDO que me ocorre dizer sobre o mineiro já foi dito, contado e recontado. Só mesmo me valendo mineiramente do que já escrevi sobre o enigma de Minas:
"Dentro de mim uma corrente de nomes e evocações fluindo desde as minhas origens, como o Rio das Velhas no seu leito de pedras, entre cidades imemoriais... Prefiro estancá-la no tempo, a exaurir-me em impressões arrancadas aos pedaços e que aos poucos descobririam o que resta de precioso em mim - o mistério de minha terra, desafiando-me como a esfinge com seu enigma: decifra-me ou devoro-te.
Prefiro ser devorado."

Trechos extraídos de "A Chave do Enigma", Editora Record - Rio de Janeiro, 1999.
Tudo sobre o autor em "Biografias".

Origem: Releituras

Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti

 
Eu sei, mas não devia
Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.


Origem: Site Releituras

UMA JOVEM DE CARÁTER - Carlos Cedano


UMA JOVEM DE CARÁTER
Carlos Cedano

Said Fuad saiu do Líbano há 30 anos e chegou em São Paulo. Veio com sua mulher e três lindas filhas. Tinham muitos parentes aqui e por isso a adaptação foi relativamente fácil. Esta vantagem também facilitou o sucesso nos negócios. A família era unida e trabalhadora e logo conseguiram instalar uma loja grande na área mais comercial da cidade. Passaram-se alguns anos e as meninas atingiram a adolescência.
Halima sua mulher, comentou com Said:
        - Meu querido marido, é bom se preparar para os pedidos de casamento de nossas filhas que logo, logo vão começar a chover.
        - Sim, já pensei nisso meu amor, e nos dotes também. Estou juntando dinheiro desde que chegamos, tivemos sorte nos negócios e creio que poderemos casa-las muito bem, disse Said.
        - Insha’allah! - respondeu Halima.
Tal como previsto pelo casal, messes após receberam pedidos de vários conterrâneos desejando acertar compromisso de casamento para seus respectivos filhos.  A menina mais solicitada em todas as visitas foi Aisha. Menina bonita que juntava inteligência, energia e muita alegria.
A mão da mais solicitada foi concedida para Omar Rachid, um rapaz de 25 anos, bonito que morava em São Paulo e pertencia a uma das famílias mais tradicionais da colônia libanesa.
Aisha assumiu o casamento com determinação, amor e desejo de contribuir para o sucesso da família e dos negócios. Nos cinco anos seguintes tiveram dois lindos filhos, mas esses acontecimentos foram sobrecarregando demais a pobre esposa que já trabalhava intensamente no comercio familiar. A esposa pediu ao marido colaborar mais no andamento dos negócios.  Ele respondeu que já se encarregava das compras e isso lhe tomava todo seu tempo.
— Talvez você precise se organizar melhor - concluiu seu marido.
Aisha já vinha percebendo que seu marido não era uma pessoa de muita dedicação ao trabalho, tinha comportamentos típicos de menino mimado e superestimava suas poucas realizações. A certeza sobre esse aspecto se acentuavam dia a dia na cabeça da esposa.
Aproveitando a semana que Osmar tinha viajado a negócios, sua esposa foi visitar seus pais que a receberam com a enorme alegria de sempre. Poucos minutos após, Fuad disse:
— Que foi minha filha? Você esta com olhar muito triste, as coisas com seu marido estão bem? Cadê sua alegria? 
Assim que pai acabou de falar Aisha desabou no colo dele  e chorando. Contou-lhes o que estava acontecendo no relacionamento com seu marido:
— O que mais me machuca - disse - é a falta de amor e a insensibilidade dele para comigo e os filhos.
O pai inquietou-se:
— Meu amor, você demorou pra vir a falar conosco, sabemos de tua situação por que estamos bem informados; também temos acompanhado as atividades de teu marido e devo te dizer que ele fala de você como esposa negligente e preguiçosa, que tudo mundo sabe ser uma grossa mentira.  Aisha disse que tinha um plano para separar-se de Osmar e pediu a colaboração de ambos para executa-lo.
O pai convocou Osmar e disse-lhe que quando estava viajando Aisha sentiu-se muito mal e foi levada com urgência ao médico da família. Após um minucioso exame constatou-se que ela estava numa situação de extremo estrese. Recomendou que parasse imediatamente de trabalhar durante pelo menos um ano desligando-se dos negócios e das obrigações domésticas. Fuad também lhe disse que como avôs maternos cuidariam das crianças assim, Osmar poderia assumir plenamente os negócios. Osmar ficou desorientado, porém teve que assumir.

Aisha e seus pais avaliaram que pelo seu caráter, frouxo e negligente, e com a pressão financeira da amante, Osmar pediria falência no máximo em um ano. E foi o que sucedeu. Desse modo o marido mostrou o tamanho de sua incompetência, e sua amante o tamanho de sua ambição, pois como sabia que não existia mais dinheiro, o abandonou. Fuad comprou a massa falida com a certeza que Aisha já “recuperada” do estrese levaria o negócio adiante. 

Um golpe eficaz - Fernando Braga



Um golpe eficaz
Fernando Braga

Thirson e Cacilda eram de BH. Ele um simpático vigarista, que viveu muito tempo explorando mulheres de vida fácil. E ela, uma conhecida cafetina, esperta e sagaz.
Com idades beirando os sessenta anos, resolveram morar juntos, mas longe de BH.

Vieram para São Paulo, onde alugaram um apartamento, em um prédio de bom padrão, no bairro do Itaim, e a ideia principal era desferir alguns golpes, que os deixassem com a vida mais tranquila. Para isto convidaram para morar junto uma bela garota de 19 anos, que iniciara há pouco a chamada “vida fácil”. No condomínio, diziam-se um casal, morando com sua neta, que viera para São Paulo estudar. Procuraram logo fazer amizades, receosos de encontrarem algum conhecido de BH. Frequentavam as reuniões do prédio, iam à academia de ginastica e à piscina nos fins de semana. Sua netinha era considerada uma moça linda, prendada, charmosa e educada. Dois andares abaixo, morava Luiz Carlos, um executivo de uma importante firma, da qual era o gerente. Sua mulher era muito simpática, bonita e tinham dois filhos adolescentes. Pareciam muito bem de vida pela postura, relacionamentos e carros importados. Chegaram a se reunir algumas vezes para drinques, salgadinhos e jogar conversa fora. A neta sempre os acompanhava e a toda hora, era elogiada. Especialmente Luiz Carlos trocava olhares sorrateiros com a neta,  e era correspondido.


Um dia, no início da noite, Cacilda desceu ao apto deles, tocou a campainha, dizendo ter vindo pedir uma ajuda ao Luiz Carlos, pois sua TV não estava ligando. Seu marido estava ausente e queria tanto assistir a dois programas. Ele se prontificou a ir dar uma olhada e Cacilda ficou embaixo conversando com sua mulher. Luiz Carlos entrou no apto, que estava todo iluminado e dirigiu-se à sala de TV, mas passou por um dos quartos, porta aberta, onde estava deitada Rosely, a neta, nua, em posição sexy e aparentemente dormindo. Ele parou, olhou, apreciou, sentiu um forte desejo e foi ver a TV. O fio estava cortado, ele os emendou, ligou e a TV pegou. Na volta, parou novamente para apreciar o belo quadro exposto e foi-se embora, muito perturbado. Luiz Carlos, não conseguia tirar da cabeça aquela cena e desde então ficou ansioso para retornar a ver Rosely. Encontravam-se na piscina, onde trocaram olhares matutos, mas não podiam conversar, pois todos ficavam de olho. Um dia encontraram-se ao acaso e puderam trocar algumas palavras. Ele foi direto e logo confessou sua grande atração por ela. Ela também respondeu rapidamente, dizendo que seus avós iriam viajar para Campinas no final de semana e ela estaria sozinha. Se ele quisesse, poderia subir. No final de semana, após despistar sua mulher e filhos conseguiu tempo para subir e encontrar a menina. Passaram juntos três ou quatro horas, satisfazendo-se ambos, plenamente. Após isto, tudo, aparentemente, voltou ao normal. 

Após uns quinze dias, Cacilda e Thirson, foram ao escritório de Luiz Carlos. A secretária os introduziu no amplo e bem decorado escritório e encontrando o chefe, foram solicitados para sentarem-se. Luiz Carlos mostrou-se surpreso com a visita e logo perguntou no que ele poderia servi-los. Cacilda foi direta e disse que vieram lhe pedir um empréstimo. Qual o problema, perguntou ele? Responderam que estavam muito necessitados e queriam 500mil emprestados e sem data para a devolução. Luiz Carlos se assustou e logo disse ser impossível aquele empréstimo. Foi quando Cacilda abriu sua bolsa, tirou um envelope e o entregou a Luiz Carlos. Eram fotos coloridas, muito libidinosas, do affaire de três horas, que ele havia tido com a netinha Rosely. Cacilda comentou ainda, que tinha um filme e todos os negativos. Poderia ele guardar aquelas fotos para se deliciar e que na próxima semana, passariam para coletar o dinheiro. Não queriam, absolutamente, que ele ficasse mal com sua linda família, no condomínio e em seu prestimoso serviço 

Após um mês, o casal mineiro e sua netinha se mudaram para outro condomínio no Morumbi. Podemos concluir que golpes, bem dados, bem preparados, têm grande chance de êxito, principalmente quando atinge um dos principais pontos fracos do homem.


Gol de Bicicleta - José Vicente Jardim Camargo


Gol de Bicicleta                                 
José Vicente Jardim Camargo


— Goool, Goool! E é dele, do artilheiro do campeonato, Luizinho! No último minuto do segundo tempo! - Grita o comentarista esportivo... E a torcida do timão em polvorosa pede mais...

Em frente a tv, Dalva e Zelão, desligados do jogo, se enrolam mais na cama e ela comenta:

— Ele só faz gol em campo!Em mim, na cama, não quer saber de nada! É chute pra fora ou gol contra.

— Deixa pra lá! Você sabe que o artilheiro aqui sou eu -  Emenda Zelão, gaúcho dos bons, barman registrado da Churrascaria Paulista e completa:

— E digo mais! Para cada gol que ele fizer em campo, eu faço dois aqui, e mais bonito. E vamos lá Che! Que não temos muito tempo até ele chegar. Posição! Reinicio de partida...

E assim, o encontro amoroso de todas as tardes de domingos de jogos de Luizinho, se repetem desde que Dalva conheceu Zelão.
Ela estava com a amiga Inês, que lhe faz companhia nestes dias, já que Luizinho sai para a concentração do time pela manhã e só volta à noite. Foram almoçar na churrascaria, e tomou um pileque de dar gosto. Zelão caprichou nas caipirinhas já percebendo, pelo bate-papo das duas amigas, que daquele pasto poderia sair vaca gorda.

Tiro e queda! Iniciou-se com troca de olhares, palpites de melhores cortes de carnes, dicas e tipos de se fazer churrascos, pontos do assado até a troca de telefones e o primeiro encontro que acabou tornando-se rotina.

Dalva, de banho tomado, perfumada e maquiada, toda dengosa aguarda a chegada de Luizinho:

— Querida! Assistiu o golaço de cabeça que fiz naquele goleiro franqueiro?

— Lógico! Gozei pra chuchu e achei que dava pra marcar mais.

— Fica pro próximo jogo! A torcida vibra com as jogadas ensaiadas, de mansinho, nada de pressa...
— Ah! Mas, para o próximo você me promete de marcar três. Apostei com a Inês um almoço de domingo na Churrascaria Paulista, Completo! Com aperitivo, vinho e sobremesa.

— Tudo bem, por você faço das tripas coração...

— Ah! E tem mais uma coisinha - diz Dalva fazendo beicinho - Um gol tem de ser de bicicleta...

Luizinho mirando a mulher com orgulho e de peito cheio diz:

— Assim que gosto, mulher que põe fé no maridão! Tua aposta já tá ganha, prometo!

— Mas olha Querida! O dia hoje foi muito cansativo, não vejo a hora de cair numa cama e puxar o ronco...

— O meu também! Retruca Dalva enrolando os olhos e já imaginando as peripécias dos três gols prometidos e a curiosidade de como seria o de bicicleta...



NAMORADOS DESLUMBRADOS - Oswaldo Romano

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NAMORADOS DESLUMBRADOS
Oswaldo Romano      
                                                               
        Clóvis, que assinava Clóvis Diniz, tirando proveito do seu nome vestia-se como um importante jovem, roupas de grife falsas, naturalmente etiquetas que manchavam.        Adquiridas nas imediações da Estação da Luz, procurava mantê-las limpas porque, lavando-as, teve antes uma triste experiência.

        Seu cabelo era o chamado cabelo bom, volumoso, alguns caracóis, soltos ao vento. Posando de filho rico intensificou suas idas às baladas, chegando sempre mais tarde, modo habilidoso de mais garotas o notar.

        Tinha facilidade de iniciar amizades. Não precisava se esforçar muito, seu nome já havia corrido entre elas.

        Dulce, uma morena bonita, muito bem produzida, destacando-se entre as demais, com ele trocavam olhares. Outras meninas chegaram muito mais fáceis. Diniz valorizando-se, já tinha elegido aquela morena que demonstrava cultura, fino trato, certamente de uma família abastada.

        O interesse mutuo fez com que logo estivessem juntos. Corria no salão a destacada riqueza dos Diniz, coisa que Dulce procurava ha tempos, tendo como arma  sua beleza. Mas, não tinha nada mais para oferecer. Caso viesse de um lar pobre, mas digno, poderia ser perdoada pela mentira. Acontece que era uma caçadora de dotes, oportunista, com vários golpes a serem esclarecidos. Na verdade seu único bem era uma semovente gata.

         Fez ver ao Diniz que seus pais não permitiriam seu namoro sem uma referência a altura deles, fazendeiros de café na Zona da Mata.

        Diniz viu sua grande oportunidade de tirar o pé da lama. Só precisava encontrar um álibi convincente, que o faria ser um proeminente membro da famosa família. Depois o mais provável lance era ficarem e emplacar uma gravidez.

        Ajudado por um amigo, montou um encontro no salão estando juntos, em que deveria além da surpresa, perguntar pelos seus pais. E aconteceu, recebendo em resposta:

        — Há algum tempo, papai e mamãe estão ocupando nossa casa em Lauderdale, aquela do Croissant Park em Miami.


         — Ah, maravilha amigo. — Bonita é sua namorada, hem! Olhe, quando você for para Lauderdale visita-los, quero ir também. Tenho saudades dos meus padrinhos. Bem, perdão, mas já estava saindo. Alguém me espera. É a vida, amigo. É a vida.

UM MALANDRO CHAMADO ARTHUR - Carlos Cedano

UM MALANDRO CHAMADO ARTHUR
Carlos Cedano

Arthur chegou ao Rio de Janeiro sem muita grana e foi morar com seu primo Roberto que lhe alugou uma vaga no seu minúsculo quarto. Instalou-se e logo teve que pensar como faria para sobreviver. O dinheiro que tinha era o produto da venda de um pequeno sitio que teve que ser dividido com outros parentes, e não duraria muito tempo.

Após uma semana procurando emprego, contentou-se com um cargo de aprendiz de sonoplasta numa estação de radio e começaria a trabalhar no dia seguinte. Porém, Arthur precisaria mais dinheiro para viver.

O passo seguinte foi matricular-se numa faculdade de periferia que a rigor, pouco frequentou, mas lhe dava status. Poucas semanas depois deu o terceiro passo e começou a namorar uma morena bonita de condição modesta. Mas, o problema do dinheiro curto ainda continuava a atormentá-lo, nem sequer podia levar a moça para tomar um sorvete.
Após três messes de namoro Arthur pediu à moça para conhecer seus pais, queria falar com eles. A namorada, Renata, falou com os pais que imediatamente aceitaram e o convidaram para jantar. Todo mundo feliz em casa e cheios de expectativas. Imaginem um estudante de Direito! - Comentou a mãe.
Após o jantar Arthur falou com os pais, seu José e Dona Maria, e disse-lhes:
— Minhas intenções para com sua filha são sérias, inclusive já estou comprando parte dos móveis de nossa futura casa. Entretanto o apartamento de meu primo é tão pequeno que não poderei guarda-los lá, por isso quero solicitar-lhes que os recebam e os guardem até que me case com Renata.  Poderiam fazer esse favor pra mim?
— Evidentemente que sim, responderam ao mesmo tempo os pais.
Uma semana depois estavam chegando cama de casal, armário duplo, dois criados mudos e uma penteadeira que os pais guardaram com todo cuidado. Arthur tinha investido todo o dinheiro que trouxera. E foi assim que ele “ganhou” direitos no lar. Jantava aí todos os dias, sábados e domingos era almoço e jantar e até pernoite. Essa situação durou mais o menos dois anos.
Qualquer insinuação de casamento era respondida por Arthur que somente após sua formatura, que estava indo muito bem nos estudos e que inclusive tinha sido sondado por um conhecido escritório de advocacia, para entrar como advogado Jr. após sua formatura. Cessaram as insinuações por um tempo, até que Arthur tinha percebido que as refeições já não eram tão boas como antes. Com esse sinal, Arthur começou namorar outra moça.
Terminou com Renata e pediu a seu primo Roberto retirar os móveis da casa da ex. Como os móveis pareciam estar em bom estado os despachou imediatamente para casa da Vera, a nova namorada.

Ele foi tratado com os mesmos mimos do namoro anterior e tudo a custo zero também.  Arthur conheceu o tio Rubens irmão de sua sogra, que fazia visitas periódicas pra ela, e o achou muito simpático.
Quase dois anos depois, o noivo percebeu que já estava na hora de fazer uma nova e última “troca” de namorada. Arthur repetiu o ritual, acabou o namoro, pediu para seu primo retirar os móveis e leva-los para casa da nova namorada.
Algo imprevisto aconteceu:

O primo Roberto ligou para Arthur no seu emprego e pediu-lhe para ir com urgência para a casa da Vera, o tio Rubens queria falar com ele antes de entregar os móveis, precisava que ele assinasse um termo de recebimento. Arthur estranhou, mas lá foi ele.

O tio Rubens, que era fiscal da justiça, mostrou o estado dos moveis quase destruídos pela má qualidade da madeira e pelo ataque de cupins. Porém, a surpresa maior foi a apresentação de uma conta minuciosa pelo fornecimento de refeições durante trinta meses além da realização de serviços domésticos, lavar e passar roupa por exemplo. Caso não quisesse pagar, seria processado por falsidade ideológica e estelionato. O processo também poderia incluir os prejuízos causados à família de sua primeira vítima. A conta apresentada era salgada.

Algo previsto aconteceu:


Arthur nunca se formou, casou-se com a Vera, já têm meia dúzia de filhos e moram com a sogra.

MÁRIO UM EXÍMIO PINTOR - Oswaldo Romano


MÁRIO UM EXÍMIO PINTOR
Oswaldo Romano                                                                             
                                                                                                                     
        A gente cruza com Cara de Pau, muito mais vezes do que pensamos. Esta história do Mário, o pintor, assim é contada, mas como presenciei, para mim não foi história, e sim a mais pura verdade.

        Para o futuro, que começa aqui, alguém ao repassá-la, deixa de ser verdadeira e nasce o conto de mais uma bazófia.

        Mário era procurado e disputado como um exímio pintor de portas e paredes. Sua fama dobrava quarteirões. Era essa fama que o sustentava. Enquanto ele levava a reputação, nas obras mantinha o Boia, um afro descendente se lascando de sol a sol.

        Mário rodava as ruas, mas sempre trocando de bairro. Em cada um tinha seu bar preferido onde não dispensava sua pinguinha. Sempre alegava ser uma necessidade dos pintores. Tinham que limpar a guela.

        Com essa rotina, engabelava os que lhe procuravam demorando em ser visto na mesma área.

        — Nossa, Mário! Você sumiu! Era indagado.

        — Pois é senhor Alberto, muito serviço, muito serviço.

        — Quero que você pinte umas portas, lá em casa.

        — Pinto sim, senhor Alberto. Caso eu não possa, levo meu secretário, o Boia e vou dar toda assistência. Amanhã por exemplo não posso.  Vou dar uma entrevista para a imprensa.

        — Muito bom Mário. E qual é o assunto?

Para responder, enfiou a mão no bolso, tirou um papelzinho e leu:

        — Como fazer uma pintura economicamente durável.

Enquanto isso ocorria, o Boia se desdobrava todo na obra. Mário aparecia só para entregar o serviço. Nesse dia Boia não aparecia, Mário dava-lhe folga, e levava todo elogio. Era referencia para as próximas pinturas.

        Com o senhor Alberto não foi diferente. Por vontade dele, foi junto escolher as tintas. Mário mostrando conhecimento, pediu ao atendente que abrisse a lata para falar das suas qualidades e com uma espátula mexeu, mexeu, mexeu. Levantando a espátula, mostrava a consistência da tinta, e deixava escorrer para a lata a grossa composição. O excesso de tinta da espátula era tirado na borda da lata, mas parte ficava depositada no encaixe da tampa.

        Finalizando, Mário colocou sobre a lata a tampa, e precisava encaixá-la. À vista dos demais fregueses, quis resolver dando um soco na tampa. Foi um Deus nos acuda. Espirrou tinta verde por toda loja. Lambuzou todos, homens e mulheres que aguardavam atendimento no balcão. Com a maior Cara de Pau justificou:

        — Falei senhor Alberto. Essa tinta tem uma respeitável cor e volume.


        — É seu Mário... Muito, muito respeitável...


Documentário VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso - TEMA DE VERA LAMBIASI

Documentário VIPs - Histórias Reais de um Mentiroso [com legenda em inglês]

O mentiroso da aviação - Vera Lambiasi


O mentiroso da aviação                                                                       
Vera Lambiasi

Marcelo Nascimento é o nome do sujeito que, no Nordeste, ludibriou Amaury Jr e toda sua produção, dizendo-se Henrique Constantino, filho do dono da Gol, vitorioso empresário das linhas de ônibus, que montou a Companhia Aérea.

O apresentador nunca havia entrevistado o verdadeiro herdeiro, e não sabia que cara tinha.

Agendada a visita, no Recifolia, carnaval fora de época do Pernambuco, puseram-se a conversar, ao vivo, em rede nacional.

O mico foi televisionado a cores, para todo o Brasil.

O charlatão explicava, em minúcias, a vida de Constantino, devia ter estudado um bocado para o golpe. E Amaury, caiu que nem um pato na história.

Portas foram abertas ao provável empresário, teve carro de luxo e helicóptero emprestados, frequentou as melhores festas do Recife.

Depois desta ocasião, o apresentador bonachão passou a checar melhor suas fontes, e sua produção levou a maior comida de rabo de todos os tempos.

Mas a história não acaba aí.

Marcelo, depois de mais algumas falcatruas foi preso por estelionato, teve suas artimanhas contadas em livro por uma escritora, que virou filme na pele de Wagner Moura.

Virou, ele próprio escritor, na prisão, e promete para breve a grande revelação, em um best seller, de quem seriam as duas atrizes globais que teriam tido um caso com ele, nos tempos do Recifolia, dizendo-se Constantino.

O cara não era assim um galã, e teve a chance de namorar duas beldades.
Imagino o estado delas agora.

E Marcelo, já está solto.


Tributo velado ao artista - Oswaldo Romano



Tributo velado ao artista 
Oswaldo Romano                    

                                  
                Entrei na contra mão, lógico parei. Dirigia sonolento, felizmente percebi a tempo, manobrei e voltei.

        Meu carro é vermelho, todos olham surpresos quando apareço, o comentário é notado, e eu fico extasiado. Desço, tiro o cabelo da testa, vejo as garotas formadas, lindas, todas alinhadas.

        Gostam da cor, ele é bonito e bom, bom, bom mesmo.

        Pode ser seu. Entre, pise firme, segure-se na direção, dirija-o com atenção. Fica em consignação, se não achar bom, bom mesmo, aceito a devolução. As garotas não fazem parte, são todas da promoção.

        Agora, prepare seu coração, pras coisas que eu vou contar. Ele pode não lhe agradar, mas carro vermelho tem o seu lugar. Eu vivo pra negociar, me ensinei  a não dizer não, vendo a morte no volante eu respeito o lugar.

        E nos sonhos fui sonhando, sua cor sempre brilhando, mas o mundo foi mudando, e novas cores chegando. As visões se esclarecendo, eu vi  amanhecendo, e o sol aparecendo.

        Este carro é de grife, na estrada pode matar, mas é diferente com a gente, não posso abusar, quer quisesse ou quer pudesse dominar o seu rolar.

        Pela vida o segurei, querendo entrego a você, pois vim lá do sertão, onde esse touro dominei.

        Não vim para enganar, vim para alegrar, fique com ele. Vou pegar minha viola, vou cantar noutro lugar.

        Na corrida já foi bom, mas um dia eu parei, não por motivo meu, ou de quem comigo estivesse, foi por qualquer querer que houvesse.

        Porém por necessidade, disparei para a cidade,  se você não concordar, posso não lhe agradar, não por mim nem por ninguém, espero um dia lhe entregar.

        Na estrada ele é bom, espantou muita boiada, a sua cor ajudou, esparramá-los pela estrada.

        Mas no mundo fui rodando, nas rodas do meu Corcel, vi a morte aproximando,  e a morte e o destino tudo,  eu tinha fora do pensar.


        Vou deixar você esperando, vou com Deus me acompanhando. Prepare o seu coração, vou parar no Campo Santo, vejo a morte sem chorar, eu preciso descansar.