FELICIDADE
NÃO SE COMPRA
Ledice
Pereira
— Enfim, só! – gritou Antonieta, jogando-se no
sofá.
Como esperara por esse momento. Finalmente, estava
livre. Foram anos e anos daquele casamento sem amor, sem respeito, tendo que
abaixar a cabeça e obedecer se não quisesse ser agredida. Sentia arrepios só de
pensar.
— Como pude aguentar tanta humilhação por todo esse
tempo? Trinta e oito anos, longos trinta e oito anos...
Ficou ali, estática, deixando que o pensamento a
levasse para longe.
Tinha apenas vinte quando fizeram seu casamento. As
famílias determinaram sem que pudesse fazer alguma escolha. Não conhecia Antônio,
filho de Custódio Alvelim, homem mais rico da região. Ninguém o apresentou. Só
soube que aquele senhor, vinte anos mais velho, seria seu marido.
Não ousou contrariar o severo pai que, visando a
não perder a fortuna de que a família Alvelim era possuidora, não mediu
esforços para que o prazo para o enlace fosse o menor possível.
Tinha consciência de que a filha não tinha nenhum
atributo que pudesse encantar algum pretendente. Aquela era uma oportunidade de
ouro para que ele colocasse suas finanças em ordem.
Naquele dia distante, Antonieta sentiu que todos os
seus sonhos de juventude iam por água abaixo: estudos, viagens, amor...
Resignada, entrou na igrejinha da cidade, como se
estivesse dirigindo-se para o abate.
E viveu uma vida sem sentido, sem amor, sem
esperança, sem graça.
Os filhos, por não aguentarem o gênio e
intolerância do pai, e com o aval da mãe, trataram de sair dali, um a um, com a
desculpa de querer estudar na cidade grande onde haveria mais oportunidades.
Sem a presença dos filhos, os únicos que lhe davam
alegria, dedicou-se à caridade. Isso a alimentava e a ajudava a passar o tempo.
Achava que nunca ficaria livre daquele martírio.
Quando Antônio adoentou, exigiu ser tratado por
Jandira, uma conhecida enfermeira da redondeza.
Antonieta, ao invés de sentir-se rejeitada, achou uma
ótima solução. Ficaria mais livre. Não teria que cuidar daquele homem por quem
sentia intensa repugnância.
Jandira instalou-se ali, com certa petulância, como
se fosse ela a dona da casa a dar ordens aos empregados e até a Antonieta, que
procurava ignorá-la.
Durante aqueles longos dez meses, a casa
transformou-se num verdadeiro hospital, montanhas de medicamentos, cama e
cadeira hospitalar, balão de oxigênio, cheiro de doença.
Quando Antônio se foi, os filhos precisaram
intervir, firmemente, para que Jandira, contrariada, deixasse a casa. Foi
necessária a presença da Guarda Civil e a ameaça de instaurar uma medida
protetiva contra ela.
Finalmente, Antonieta estava ali, dona de sua
própria vida.
Começou por esvaziar guarda-roupa e gavetas com a
roupa do falecido. Não suportava sentir aquele odor impregnado no ambiente.
Chamou o casal de empregados Sofia e Armando, que
ali trabalhavam desde que os filhos eram pequenos e distribuiu tudo, deixando
que escolhessem o que queriam e dessem o resto a quem quisessem.
Comprou tinta e pincéis para que Armando pintasse
as paredes dos quartos de cores alegres e comprou móveis novos, livrando-se de
tudo que pudesse levá-la a lembranças desagradáveis.
Os filhos surpreenderam-se com as mudanças nas
atitudes da mãe. Ela que sempre fora subserviente, mostrava-se dinâmica,
resolvida, determinada e colocando a mão na massa com força e vontade.
A única coisa que ainda não conseguia, era mexer no
escritório do marido, entupido de papelada, cheio de pó em razão dele não
querer que ninguém limpasse o local. Não sabia nem por onde começar. Sabia que
um dia teria que criar coragem.
Passados meses, certo dia, sentiu que havia chegado
a hora. Ia, finalmente, conseguir enfrentar um dos seus últimos fantasmas.
Dirigiu-se resoluta ao escritório. Abriu a janela. Deixou que o sol invadisse o
ambiente.
Começou por
juntar tudo que estava em cima da escrivaninha. Em pouco tempo, encheu a
lixeira que ficava ali embaixo. Passou um pano úmido sobre a madeira
envelhecida. Sentiu-se mais encorajada. Havia superado o primeiro desafio.
Partiu para as gavetas. Quase desanimou.
Teve vontade de jogar tudo fora. Conteve-se.
“E se tiver algo importante aí no meio” – pensou com seus botões.
Era tanta coisa que foram necessários vários dias.
Separou notas fiscais, recibos, comprovantes de
pagamentos.
Até que se deparou com uma pasta manchada pelo tempo, com uma capa diferente das
outras, amarrada com uma fita avermelhada que as traças haviam se fartado de
devorar.
A primeira página indicava em letras garrafais: SIGILOSO
Sentou-se, pressentindo que se tratava de algo
importante. Tinha todo tempo do mundo.
“Processo criminal contra Custódio Alvelim”
Encerrado por falta de provas
Ali, ficou sabendo que seu sogro, Custódio Alvelim,
numa briga, teria atirado acidentalmente em Tenório Trindade, seu vizinho, que
morreu prematuramente, deixando sua mulher, Jandira Trindade, grávida de cinco
meses.
Juntavam-se inúmeras notas promissórias assinadas
por Antônio Alvelim, filho de Custódio, com valores altos pagos à citada viúva,
que acusava recebimento.
A descoberta ficou martelando na cabeça de
Antonieta. A coincidência de nomes, o crime encoberto do qual nunca se falou,
notas promissórias pagas, tudo muito mal explicado.
Resolveu ir a fundo. Varou a madrugada, abrindo
pastas e lendo folha por folha.
Só percebeu que amanhecera, quando Sofia veio lhe
oferecer um café, achando que a patroa, apesar da hora, já estava fazendo
arrumação no escritório, cuja entrada lhe fora sempre proibida pelo patrão.
Apesar de exausta, Antonieta aceitou o café. Sua
madrugada havia sido reveladora.
Havia encontrado cartas e bilhetes que se
amontoavam numa caixa fechada a chave, que ela conseguira destruir.
Antônio e Jandira Trindade, enfermeira de
profissão, mantinham um relacionamento amoroso desde a tentativa de abafar o
crime cometido por Custódio.
Antônio foi criado naquela família em que o
dinheiro comprava tudo.
Com dinheiro, comprou o silêncio de Jandira.
Com dinheiro, comprou o pai de Antonieta. Este, ao
descobrir tudo sobre o crime cometido, começou a chantagear a família. Foi
convencido a entregar a filha em troca do silêncio.
Mas Antônio não “comprou” a felicidade. Viveu um
amor escondido. Fez a infelicidade de Antonieta e dos filhos.
Jandira, por sua vez, criou o filho sozinha, tendo
que manter em segredo o relacionamento com Antônio.
Quando ele adoeceu, achou que cuidando dele, tinha
mais chance de pleitear, para seu filho, a casa que para ela, por direito, deveria
ser dele numa forma de compensação.
Aquela proximidade e convivência diária, no
entanto, mostrou-lhe a verdade daquele relacionamento. Antônio estava cada vez
mais rabugento, bruto, insuportável.
Antonieta chamou os filhos. Revelou-lhes tudo que
havia descoberto. Inclusive sua suspeita:
“Talvez, um excesso de dose de remédios ministrado
por ela, tenham-lhe abreviado o tempo de vida”.
Apesar de tudo que vivera com Antônio, não poderia
viver com aquela incerteza.
Lenita Fragoso foi indicada para proceder a
investigação. Ela que foi tida como
morta, após sofrer um acidente sério, que lhe tirou de circulação, estava de
volta, com toda competência que lhe era peculiar, para tentar descobrir a real
causa da morte de Antônio.
A primeira providência da perita foi pedir a
exumação do corpo.
II capítulo – A Investigação
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