VICTÓRIA E JORGE - Carla Di Sessa

 


VICTÓRIA E JORGE

Carla Di Sessa

 

Victoria e Jorge se apaixonaram à primeira vista, como se já se conhecessem há muito tempo, como se fosse uma continuação e não um simples começo.

Victoria sabia que era uma pessoa comum e sem grandes atrativos, a não ser os muitos dígitos no saldo da conta bancária, uma fortuna guardada com unhas e dentes pelo pai e seus advogados, protegendo-a de olhares interesseiros.

Já Jorge tinha todos os atributos que faltavam a ela e por onde passava causava um certo frisson. Além disso, também tinha uma conta bancária atraente, o que solucionava a desconfiança do pai dela, mas, não a curiosidade do mundinho ferino por onde o casal circulava e todos se perguntavam o que afinal ele teria visto nela.

Mas, ele havia escolhido a ela e a ela jurava eterno amor todas as noites e, Victoria estava embriagada de paixão. Desde que conheceu Jorge sua vida tinha se iluminado como uma árvore de Natal.

E chegou o dia em que aqueles olhos de veludo marrom a olharam e ele a pediu em casamento. E agora a seu lado no altar ele prometia ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

E veio a lua de mel em um navio que os levou por todas as ilhas e praias do Mediterrâneo. Tudo tão romântico, drinks à meia luz, passeios pelo convés ao luar, mais as coisas lindas que ele sussurrava o tempo todo em seu ouvido.

A viagem acabou, mas não a lua de mel. Os dois continuavam apaixonados e Victoria caminhava sem medo ao lado dele.

O primeiro aniversário do casamento deles se aproximava. Ele preparou a surpresa: uma nova viagem de navio. E lá foram os dois novamente viver seu romance embalados pelo oceano.

Uma madrugada Victoria acordou e percebeu que Jorge não estava a seu lado. Chamou por ele, mas não obteve resposta. Então se vestiu e saiu atrás dele. Procurou no bar, nos restaurantes, na piscina e finalmente o achou perto de uma escada que levava a outro deck.

Olhava embriagado para alguém e sorria apaixonado, como olhava e sorria para Victoria. Passava a mão pelos cabelos dessa pessoa e a beijava, como fazia com ela.

Victoria parou petrificada. De repente a outra mulher a viu e, assustada, se afastou de Jorge. Ele olhou para Victoria e o sorriso sumiu do seu rosto. Ele caminhou na direção de Victoria que o olhava confusa, mas subitamente ela entendeu.

Como pôde, Jorge, como pôde fazer isso?

Eu te amo, ele disse, mas os ouvidos dela estavam surdos pelo ódio e os olhos cegos de ciúme.

Eu te amo, ele disse novamente caminhando na direção dela. A mulher vinha com ele, segurando no braço dele firmemente e Victoria entendeu.

Eles a iam matar! Eles a empurrariam por cima da amurada, em dois seria fácil.  Victoria entrou em pânico e começou a correr. Os dois vinham atrás dela, mas de repente não havia mais saída, só a amurada e o oceano lá embaixo. Victoria se abaixou e Jorge tropeçou nela, e a empurrou contra algo de metal que a feriu na testa. Ele perdeu o equilíbrio, escorregou e caiu para o mar, levando a mulher ainda agarrada nele.

Victoria continuou no chão, consciente, mas com os olhos fechados e ficou ali, imóvel, por muito tempo, sem pedir ajuda ou gritar por socorro. Finalmente alguém a encontrou e pediu ajuda: havia uma mulher com uma contusão na testa aparentemente desfalecida no convés.

Victoria estava muito abalada, mas conseguiu contar aos oficiais que se lembrava de ter escorregado e que seu marido tinha tentado segurá-la, empurrando-a sem querer contra uma peça de metal da amurada, o que explicava o machucado na sua testa. Depois não sabia mais o que tinha acontecido, tinha desmaiado.

Uma tragédia. Uma viúva tão jovem, uma morte tão estúpida, tudo muito triste, ocupando todos os sites de notícias e as primeiras páginas dos jornais. Muitas fotos da viúva inconsolável chorando nas revistas de fofoca.

Primeiro eram lágrimas de raiva, depois de aflição de ser descoberta, e, por fim, de alívio. Nunca remorso.

 

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