SOBRE
AS ONDAS
Yara
Mourão
I
A
primeira impressão de Adèle ao chegar na sala VIP de embarque do porto foi de estar
no limiar de uma grande aventura. A decoração do ambiente era deslumbrante, com
uma luz feérica iluminando os móveis de rattan orientais. Havia imensas plantas
verdejando soberbamente por todo o salão envidraçado, o qual se voltava para o
cais. Ali, atracado bem junto ao muro de acesso, já se encontrava a majestosa
estrutura do transatlântico ZODIAC. “Uma obra de arte!” pensou Adèle! “Um mergulho nos azuis
do céu e do mar!”
Essa
viagem era parte de seu presente pelo prêmio obtido na importante competição de
natação, onde obtivera o primeiro lugar, além de uma significativa soma de
dinheiro.
Os
cruzeiros têm um horário de partida ao cair da tarde, quando o lusco-fusco das
luminárias esboça sombras mágicas no céu, na terra, nas águas…
Adèle
caminhou pelo salão mais uma vez, girando para a esquerda, para a direita,
sorvendo o entorno como um gole de licor. Lentamente se dirigiu para fora e foi
para a longa fila de entrada na lateral do navio.
Ah!
Esse era o seu momento, a coroação de seus esforços e de seu sucesso no esporte
que amava! Ia com o coração pleno, certa de que a polpuda carteira com os
dólares do prêmio estava segura no cofre do navio.
À
saída do cais, os navios mal se mexem e só quando atingem o alto-mar em
velocidade de cruzeiro é que o movimento contínuo se instala. E Adéle sabia que
esse marulhar era de dar enjoo em qualquer um. Para se precaver, logo após se
instalar em sua cabine, subiu para o convés superior onde a brisa amainava a
tontura e o mal-estar. Ali, sentou-se numa espreguiçadeira e, de tão serena,
adormeceu.
Já a
noite chegara em alto mar, com estrelas fugidias e horizontes perdidos. Mas o
trajeto para o sul deixava à vista ilhas paradisíacas, uma próxima à outra,
enfeitando a paisagem...Passaram-se horas… Adèle despertou sobressaltada, sem
se dar conta do horário. “Não devia ser tão tarde, todavia passavam pelo
convés funcionários apressados, murmurando baixinho, talvez pelo tardio das
horas,” pensou ela. Então, levantou-se lentamente, meio zonza, meio
adormecida ainda; viu que o céu estava lindo e se aproximou das grades para
contemplá-lo. Olhou para cima, olhou para baixo.
Foi
num átimo que tudo se deu; no balanço do navio, no balanço de Adèle, ela
titubeou, escorregou, se ergueu em passos tortos e, sem mais, caiu no mar.
II
Os
sistemas de segurança logo deram o alarme: as sirenes constantes puseram todos
em alerta. Logo equipes de salvamento se agilizaram com holofotes, botes
salva-vidas; homens prontos para resgatar quem quer que fosse, se atiraram ao
mar. Mas nada foi possível fazer! E a tripulação inteira viu, de camarote, o
desaparecimento da pobre náufraga…
Restava
comunicar à Companhia de Navegação o ocorrido. O comandante ordenou a busca dos
documentos da moça, que, como todos, estavam no cofre do navio.
Quando
o suboficial abriu o cofre, recolheu papéis e uma carteira com muitas cédulas.
Foi até o comandante e, entregando-lhe os documentos, disse: “Senhor, isso é
tudo o que havia lá. Trata-se da senhorita Adèle Rennée, reconhecida
esportista!”
Dois
dias após o ocorrido, numa tarde cinzenta e chuvosa, de mar muito agitado e com
uma tripulação mareada, assustada e temerosa, o Zodiac chegou a uma tal ilha de
Endurodora, primeiro porto onde pôde finalmente aportar. Esse era o
procedimento obrigatório em casos de acidentes durante o percurso de um
cruzeiro. Ali, numa Delegacia de Assuntos Náuticos, o delegado à frente das
investigações, analisando o caso e os documentos apresentados pelos oficiais do
Zodiac, perguntou pelo dinheiro, cujo recibo estava na carteira da passageira
Adèle. “Dinheiro? Qual dinheiro?” Foi a resposta que obteve. “Não havia nada
na carteira, só esses documentos!”
Mas
o delegado tinha certeza de que um valor tão grande em dólares não sumiria
assim. Onde estaria? Com quem?
III
Todos
os funcionários foram intimados a depor sobre o desaparecimento de Adèle e dos
dólares; desde os operadores técnicos até os funcionários das cozinhas, das
lojas, dos estabelecimentos de lazer.
Nesses
interrogatórios, muitas coisas vêm à tona: a vida privada das pessoas, as
condições de trabalho, as motivações e ambições pessoais, os hobbies, etc.
Aquelas eram geralmente pessoas vindas das classes trabalhadoras que precisavam
muito dos empregos e de seus salários, ainda que quase insuficientes.
Mas
nada de conclusivo se apurou. Onde teriam ido parar os milhares de dólares de
Adèle?
Para
o delegado, havia quatro suspeitos principais:
1- O
rapaz que trabalhava no banco do navio e que estava de plantão no momento de
abertura do cofre. Ele se chamava Jonas, tinha os olhos amendoados e a fala
mansa, apaixonado por Ana Clara. Era astrólogo amador e se pautava por tudo o
que o zodíaco dizia e predizia.
2- Ana Clara,
que era a moça do cafezinho, falante demais, rodava o navio inteiro fazendo
perguntas e comentários. Era apaixonada por Jonas, com quem fazia planos de
fugirem para se casarem tão logo tivessem condições financeiras melhores.
3- O
suboficial encarregado dos registros de pessoal, que sabia um pouco da vida de
cada um das centenas de passageiros e que, como fã de crimes sem solução,
estava sempre pronto para participar em lances mirabolantes.
4- A
arrumadeira Luísa, que tinha livre acesso ao camarote dos viajantes para
preparar os banhos, os quartos na hora de dormir, etc., e que em seus melhores
sonhos um dia seria uma dessas viajantes ricas, de alta classe, e não uma mera
camareira.
IV
Cada
um desses estava na mira do delegado.
Mas
um bilhete anônimo foi encontrado na biblioteca onde se lia:
“O DESFECHO DESSE CASO ESTÁ ESCRITO NAS
ESTRELAS!”
Nascido
sob o signo de Aquarius, o delegado pode, por fim, relaxar.
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