MISTÉRIO
NO NAVIO
Isabella
Brancher
Há
muitos anos, Patricia vem explorando a ideia de fazer um cruzeiro ao redor do
mundo. Ela quer se libertar das amarras, do seu
passado sombrio e amargo. Assim, após passar anos enclausurada, decide partir
em busca de novas aventuras. A ideia do cruzeiro lhe parece perfeita: conhecer
novos locais, novas culturas, experimentar novos sabores e visitar lugares
ricos em emoção e história.
O
navio tem um roteiro espetacular, que poderá oferecer a Patricia a oportunidade
de recuperar tantos anos perdidos. É 2018, a viagem inaugural do navio Royal
World Classic, o que traz ainda mais glamour à viagem, deixando tudo mais
fresco e vibrante.
Dez
anos haviam se passado desde a falência do seu banco de investimentos em Nova
York, devido à crise das hipotecas. Patrícia havia sofrido muito com as
agressões e o desrespeito de seus clientes, mas suas investidas financeiras
acabaram culminando na sua prisão. Seu sócio também havia cumprido
pena de seis anos; sua detenção havia sido menor por causar menos prejuízo aos
seus clientes.
Finalmente
chegou o dia do embarque. Patrícia juntou suas melhores roupas, um pouco fora
de moda, mas que ainda traziam a elegância do tempo em que era considerada uma
executiva de sucesso. Agradecia aquela oportunidade fazendo uma silenciosa
oração ao seu pai. Fuzileiro naval, seu pai havia recentemente falecido,
deixando todas as suas economias para sua única filha. O porto de embarque era
Miami. Uma emoção sem igual toma conta de Patricia; suas pernas parecem não
conseguir sustentá-la em pé, ou talvez ela não consiga subir a rampa ricamente
adereçada com um tapete vermelho, o que a faz se sentir ainda mais orgulhosa.
Na
fila, enquanto aguarda o embarque, relembra os inúmeros livros que leu durante
o período em que só lhe restava a leitura. Livros que traziam exatamente as
experiências que estava prestes a começar a viver. Como aquele tempo a havia
modificado: tornara-se mais amável, mais empática, olhando para as pessoas com
mais ternura e menos interesse, especialmente financeiro.
Já
era fim de tarde quando o navio começara a deixar o porto naquela linda
primavera. Os próximos destinos seriam Bahamas, Cozumel e Costa Rica. Sempre
teve o desejo de conhecer a vida marinha, muito por conta das histórias
trazidas por seu pai nos retornos de suas viagens. Cozumel era um sonho: poder
mergulhar, ver aquela diversidade de peixes… não via a hora de realizar esse
antigo desejo.
Os
dias de navegação passam calmos e rapidamente; há muitas oportunidades de
diversão e entretenimento a bordo. Rapidamente, sendo Patricia uma pessoa de
negócios, enturmou-se com outros passageiros, criando um círculo agradável de
companhia.
Não
há muitas pessoas no navio — cerca de duzentas —, o que torna ainda mais fácil
conhecer, ao menos visualmente, a maior parte dos seus colegas de viagem.
Percorrem o Canal do Panamá até se abrir para o Oceano Pacífico. Enquanto isso,
os dias iam sendo regados por momentos de sol e piscina, acompanhados de uma
boa leitura ou jogos de tabuleiro com os novos amigos.
Os
jantares são momentos especiais; todos parecem felizes e tranquilos. Boas
conversas sobre o dia, as experiências de viagem e, às vezes, até algo mais
pessoal surgem nas amigáveis trocas.
Em
uma noite mais chuvosa, deixou o restaurante em direção aos seus aposentos.
Estava particularmente cansada naquela noite e decidiu se retirar mais cedo.
Curiosamente, ao descer para o andar das cabines, viu de relance um homem que a
observava. Ficou receosa, mas logo pensou que só poderia ser sua imaginação.
Chegou ao quarto, trocou-se e, já deitada, pensava se seria possível que Sergio
também estivesse no navio. Desfez aquele pensamento cinzento e aproveitou o
movimento do navio para adormecer serenamente.
Sérgio
havia sido seu colega de faculdade; havia estudado economia em Harvard. Ambos
cresceram juntos profissionalmente e, por fim, acabaram se envolvendo
emocionalmente. Sérgio era uma pessoa mais alegre, sempre tirando proveito das
situações e apreciando a vida tranquilamente, mas também era muito ciumento e
possessivo. Ao sair da penitenciária, havia tentado se recolocar no mercado
financeiro, mas sem sucesso. Fez inúmeras tentativas em diversos setores da
economia até conseguir essa posição na tripulação do cruzeiro. Também era um
sonho antigo: trabalhar e viajar pelo mundo lhe pareceu uma boa solução para
tentar recomeçar a vida.
Antes
de conseguir esse emprego no navio, havia passado um tempo na casa de um velho
tio, o qual ganhava a vida consertando de tudo um pouco. Foi por conta dessa
experiência com o tio que conseguiu o emprego para trabalhar na manutenção do
navio. Naquela noite em que Patricia havia visto Sergio de relance, ele havia
ido aos aposentos do Sr. Otávio para verificar um problema em uma torneira.
Na
manhã seguinte, já estavam chegando à costa da Nova Zelândia. A curiosidade de
conhecer aquelas terras ainda parcialmente inexploradas a fez levantar tão logo
percebeu o amanhecer. Preparou-se, desceu para tomar o café e pegar os
primeiros barcos para desembarcar em Auckland. Ao entrar no restaurante, teve a
confirmação de sua preocupação: havia visto novamente Sergio, que seguia pelo
outro corredor. Ficou aflita com a constatação de que ambos estariam juntos,
confinados no navio. Que surpresa o destino havia preparado para ela…
Passou
o dia alegre em Auckland, explorando todos os locais no tempo que lhe era
permitido. Esporadicamente, a imagem de Sergio retornava à sua mente. Havia
preferido fazer essa visita à cidade sozinha, no seu ritmo, mas agora era hora
de voltar ao navio e se preparar para o jantar. No jantar, todos compartilharam
suas experiências. A maioria havia preferido visitar a Sky Tower e o museu da
guerra; Patricia optara por uma caminhada até o Monte Eden.
Terminado
o jantar, Patricia se recostou nas cadeiras do convés superior, apreciando a
noite estrelada. Distraída, aproveitava o final do dia quando, ao olhar para o
lado, percebeu que Sérgio a observava. Os últimos quinze anos percorreram sua
mente. Um misto de angústia e tristeza logo invadiu sua tranquilidade. Sem
pensar profundamente, levantou-se e dirigiu-se à borda do convés. Temendo a
aproximação de Sergio, subiu na balaustrada e, subitamente, jogou-se ao mar.
Sérgio
ficou desesperado ao ver a cena. Sem saber o que fazer, permaneceu imóvel,
olhando a água remexida logo abaixo de si. Aflito com o que havia presenciado,
retirou-se rapidamente para seus aposentos. Sucumbiu ao medo de ser considerado
culpado por aquela queda; tudo o que menos queria naquele momento era arriscar
ser preso novamente. Juntou-se a alguns tripulantes no restaurante da
tripulação, na esperança de construir um álibi. Tomou um chá com alguns
colegas, compartilhou atividades do dia e fez questão de contar um caso
engraçado para que se lembrassem dele caso fossem questionados. Ficou
momentaneamente mais tranquilo e se retirou para dormir.
Em
seu quarto, voltou a rever a cena do salto de Patricia ao mar. Permaneceu
abalado com a ideia do que poderia ter causado aquela reação quando ele se
aproximou.
Patrícia,
quando criança, havia praticado salto em piscina, outra herança do gosto do pai
pelas águas. Fato que Sérgio desconhecia. Patricia sabia que o próximo porto
seria Tauranga, a três horas de automóvel de Auckland. Assim, poderia nadar até
a costa e, no dia seguinte, enquanto o navio fizesse a travessia de Auckland a
Tauranga, alugar um veículo e seguir até lá, retomando a viagem no cruzeiro.
Agora
completamente molhada, sentada à beira da praia, perguntava-se se aquela teria
sido a melhor saída. Afinal, teria que voltar ao navio e não poderia se
esconder pelo restante da viagem. Aquele mergulho inesperado ajudou Patricia a
refletir sobre toda a situação. Não haveria outra alternativa senão enfrentar
Sergio quando estivesse novamente no navio. Não o procuraria, mas também não o
evitaria em uma próxima oportunidade.
Sentou-se
em um bar na praia e pediu uma bebida enquanto esperava seu vestido secar um
pouco. Por sorte, estava com seu cartão de crédito no bolso e pôde tomar a
bebida, além de se hospedar em um hotel próximo ao porto. Na manhã seguinte, se
preocuparia em como chegar a Tauranga.
O
navio aportava em Tauranga. Patrícia o via do café onde estava sentada, a
poucos metros do porto. Esperou que os passageiros descessem para a visitação
da cidade e, assim que possível, retornaria ao navio. Os próximos dias seriam
de longos períodos de navegação, com poucas descidas em terra. Uma leve
frustração se instalou em Patricia; afinal, agora sabia que teria de enfrentar
Sergio em algum momento.
A
vastidão do mar durante aqueles dias serviu como um processo terapêutico.
Refletira e sabia exatamente o que precisava fazer caso Sérgio a procurasse
novamente. Pensara nas palavras e nas possíveis respostas às inúmeras perguntas
que ele guardara ao longo dos anos.
Chegaram
a Ho Chi Min, no Vietnã, e durante todo esse período não havia mais visto
Sergio pelo navio. Ficou contente por serem dias tranquilos, sem nenhum tipo de
confronto. Ao desembarcar em Valparaíso, encontrou Sergio logo ao descer do
navio. Ele havia tirado o dia de folga para conhecer a cidade, um desejo
antigo.
Patrícia
não pôde evitar sua presença e, finalmente, decidiu encarar a conversa que
tanto adiara. Seguiu em sua direção e caminharam em silêncio até a saída do
porto. Ele pegou sua mão; ela aceitou. Continuaram caminhando silenciosa e
calmamente pela praia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário