O SONHO DE MARIA INÊS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


O SONHO DE MARIA INÊS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

O sonho de Maria Inês era fazer uma viagem de férias num navio para as Ilhas do Caribe. Após alguns anos de economias, sempre separando uma quantia mensal, conseguiu finalmente a tão sonhada viagem, comprando roupas adequadas para quem sabe conhecer o seu príncipe encantado. Roupas esportivas para o dia e trajes mais elegantes para os jantares à noite. O primeiro dia foi para arrumar a cabine com varanda, outro privilégio que se deu, dormiu como um anjo.

Ao acordar, após uma ducha matinal, foi tomar o café da manhã. Ao chegar ao restaurante, quase caiu de costas tamanha quantidade de comidas no salão, não sabia por onde começar e nem o que escolher. Não sabia também que mesa escolher, viu uma mesa que parecia de pessoas solteiras e simpáticas e, com sua bandeja de frutas e bolo, sentou-se se apresentando. Todos corresponderam e se apresentaram. Após o café, resolveu ir tomar sol para se bronzear, se achando muito branca. Passou o dia na piscina, sempre se servindo dos coquetéis que os garçons serviam.

As horas passaram sem perceber. Ao se levantar, sentiu-se tonta, tentou andar e percebeu que o equilíbrio já não existia, tentou chegar até o corrimão do convés e viu dois e, ao tentar pegar, sentiu um vão enorme e sentia-se voar e veio em seguida o choque da água fria e barulhenta. Ela se via afundando com os olhos abertos, achando que estava sonhando de tão lindo que era o fundo do mar de um azul turquesa. De repente, o ar começou a faltar. Se sufocada pela água, teve a consciência de que tinha que subir, lembrou as palavras de sua mãe: num acidente, não entre em pânico, que ele te mata. Subitamente, ficou lúcida e foi subindo o mais rápido que pôde. Ao conseguir emergir, colocou a cabeça para fora e recuperou o ar. Ainda bem que sabia nadar e ficou na posição de boiar, assim pôde avistar o navio. Apesar de afastado, achou que conseguiria chegar até ele.

            

Não se canse, pensou ela, a distância não é pequena, o capitão já tinha sido avisado e parou o navio e mandou dois marinheiros com o bote a motor. Resgatada sem dificuldade, subiu e foi imediatamente levada para a enfermaria. O médico já a esperava, a enfermeira a examinou e tomaram todas as providências para que a temperatura do seu corpo não entrasse em colapso. 

Maria Inês, já com o humor restabelecido, notou a beleza do médico, percebeu a falta de aliança.  E, se encantou. Era o Dr. Rafael. Ele a tratou com respeito e foi cuidadoso ao dizer-lhe: vou te dar alta. Por sorte você soube tomar a atitude certa, mas cuidado com os aperitivos e o estômago vazio, por embriagarem mais rápido. Ela se sentiu envergonhada por ele perceber que era a sua primeira viagem, aprendeu a lição e pensava no ditado da avó: quem nunca comeu melado se lambuza toda.

O restante da semana resolveu passear pelo navio e descansar, aproveitando bem as refeições e fazendo amizades com seus colegas de mesa, todos muito alegres e bebendo moderadamente. Uma moça em especial, de nome Mercedes, teve mais afinidades. Passaram a fazer programas juntas, almoçavam juntas, iam para a piscina e, com isso, trocavam algumas confidências. Foi ela que a alertou sobre o médico Rafael, que todas às vezes que vem para o convés procura estar sempre por perto e te olha muito, disse. Ela passou a observar e realmente assim estava acontecendo. Mercedes, mais experiente em viagem de navio, disse que todos os marinheiros desse tipo de navio, mesmo os de patente, eram conquistadores, tipo um amor em viagem, e que ela ficasse atenta para não cair em roubada, tipo se apaixonar. Aproveite a viagem.

Maria Inês resolveu ficar alerta, fingia que não via o Rafael, mas se esmerava na produção do vestiário e maquiagem. Até o dia em que ele aproveitou que ela estava no convés, deitada numa chaise, e se aproximou, provocando sombra nela para que ela sentisse a sua presença. Ela abriu os olhos. 

 — Olá, disse ele, aproveitando o sol até o último minuto?

 — É verdade, disse ela, as férias estão acabando e logo votarei à rotina.

 — Posso me sentar ao seu lado? 

 — Pode, sim. 

E a campainha de seu cérebro já apitou alerta.

  — Querida, hoje você sabe que é o grande baile do término da viagem e, normalmente, o comandante escolhe uma passageira para a primeira dança. Sei que você será a escolhida. Mas, gostaria que a segunda dança fosse para mim, ficaria encantado. 

— Será um prazer, disse ela, mas não danço muito bem, prepare os seus pés para sofrerem. - Riram muito.

No dia seguinte, ela marcou massagem, limpeza de pele e fez o cabelo. Escolheu o melhor vestido. Preto e branco, um brinco dourado e o anel que ganhou dos pais na formatura. Olhou-se no espelho, gostou, passou perfume e a carteira preta, completando a toalete.

Foi uma noite encantada, ela se sentia a própria Cinderela e pensava: não quero que acabe. 

Dançou com ele não só a segunda música, como a noite inteira. No dia seguinte, não teve tempo de pensar em nada a não ser fazer as malas e, em seguida, desembarcar. Não viu Rafael, só o capitão e alguns da equipe estavam à postos para a despedida. Um táxi a levou para casa e no caminho só lembrava da aventura, fruto de suas economias, que valeu muito a pena. 

Logo voltou à rotina do seu trabalho, mas estava renovada e com o ego alimentado.

Quinze dias depois, ela estava fazendo o jantar e alguém tocou a campainha do pequeno apartamento. O porteiro não havia comunicado nenhuma visita. Ao abrir a porta, seus olhos arregalaram. Ainda tinha a mão na maçaneta. à sua frente estava Rafael. 

— Oi, disse ele, descobri seu endereço e vim fazer uma surpresa.  Ali mesmo, no corredor, antes de entrar, Rafael se ajoelha, tira do bolso uma caixa contendo um solitário maravilhoso. E então a pede em casamento e a beija. 

 — Sim, caso sim, amor da minha vida. 

 

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