O SONHO DE MARIA INÊS - Antonia Marchesin Gonçalves

 

 


O SONHO DE MARIA INÊS

Antonia Marchesin Gonçalves

 

O sonho de Maria Inês era fazer uma viagem de férias num navio para as Ilhas do Caribe. Após alguns anos de economias, sempre separando uma quantia mensal, conseguiu finalmente a tão sonhada viagem, comprando roupas adequadas para quem sabe conhecer o seu príncipe encantado. Roupas esportivas para o dia e trajes mais elegantes para os jantares à noite. O primeiro dia foi para arrumar a cabine com varanda, outro privilégio que se deu, dormiu como um anjo.

Ao acordar, após uma ducha matinal, foi tomar o café da manhã. Ao chegar ao restaurante, quase caiu de costas tamanha quantidade de comidas no salão, não sabia por onde começar e nem o que escolher. Não sabia também que mesa escolher, viu uma mesa que parecia de pessoas solteiras e simpáticas e, com sua bandeja de frutas e bolo, sentou-se se apresentando. Todos corresponderam e se apresentaram. Após o café, resolveu ir tomar sol para se bronzear, se achando muito branca. Passou o dia na piscina, sempre se servindo dos coquetéis que os garçons serviam.

As horas passaram sem perceber. Ao se levantar, sentiu-se tonta, tentou andar e percebeu que o equilíbrio já não existia, tentou chegar até o corrimão do convés e viu dois e, ao tentar pegar, sentiu um vão enorme e sentia-se voar e veio em seguida o choque da água fria e barulhenta. Ela se via afundando com os olhos abertos, achando que estava sonhando de tão lindo que era o fundo do mar de um azul turquesa. De repente, o ar começou a faltar. Se sufocada pela água, teve a consciência de que tinha que subir, lembrou as palavras de sua mãe: num acidente, não entre em pânico, que ele te mata. Subitamente, ficou lúcida e foi subindo o mais rápido que pôde. Ao conseguir emergir, colocou a cabeça para fora e recuperou o ar. Ainda bem que sabia nadar e ficou na posição de boiar, assim pôde avistar o navio. Apesar de afastado, achou que conseguiria chegar até ele.

            

Não se canse, pensou ela, a distância não é pequena, o capitão já tinha sido avisado e parou o navio e mandou dois marinheiros com o bote a motor. Resgatada sem dificuldade, subiu e foi imediatamente levada para a enfermaria. O médico já a esperava, a enfermeira a examinou e tomaram todas as providências para que a temperatura do seu corpo não entrasse em colapso. 

Maria Inês, já com o humor restabelecido, notou a beleza do médico, percebeu a falta de aliança.  E, se encantou. Era o Dr. Rafael. Ele a tratou com respeito e foi cuidadoso ao dizer-lhe: vou te dar alta. Por sorte você soube tomar a atitude certa, mas cuidado com os aperitivos e o estômago vazio, por embriagarem mais rápido. Ela se sentiu envergonhada por ele perceber que era a sua primeira viagem, aprendeu a lição e pensava no ditado da avó: quem nunca comeu melado se lambuza toda.

O restante da semana resolveu passear pelo navio e descansar, aproveitando bem as refeições e fazendo amizades com seus colegas de mesa, todos muito alegres e bebendo moderadamente. Uma moça em especial, de nome Mercedes, teve mais afinidades. Passaram a fazer programas juntas, almoçavam juntas, iam para a piscina e, com isso, trocavam algumas confidências. Foi ela que a alertou sobre o médico Rafael, que todas às vezes que vem para o convés procura estar sempre por perto e te olha muito, disse. Ela passou a observar e realmente assim estava acontecendo. Mercedes, mais experiente em viagem de navio, disse que todos os marinheiros desse tipo de navio, mesmo os de patente, eram conquistadores, tipo um amor em viagem, e que ela ficasse atenta para não cair em roubada, tipo se apaixonar. Aproveite a viagem.

Maria Inês resolveu ficar alerta, fingia que não via o Rafael, mas se esmerava na produção do vestiário e maquiagem. Até o dia em que ele aproveitou que ela estava no convés, deitada numa chaise, e se aproximou, provocando sombra nela para que ela sentisse a sua presença. Ela abriu os olhos. 

 — Olá, disse ele, aproveitando o sol até o último minuto?

 — É verdade, disse ela, as férias estão acabando e logo votarei à rotina.

 — Posso me sentar ao seu lado? 

 — Pode, sim. 

E a campainha de seu cérebro já apitou alerta.

  — Querida, hoje você sabe que é o grande baile do término da viagem e, normalmente, o comandante escolhe uma passageira para a primeira dança. Sei que você será a escolhida. Mas, gostaria que a segunda dança fosse para mim, ficaria encantado. 

— Será um prazer, disse ela, mas não danço muito bem, prepare os seus pés para sofrerem. - Riram muito.

No dia seguinte, ela marcou massagem, limpeza de pele e fez o cabelo. Escolheu o melhor vestido. Preto e branco, um brinco dourado e o anel que ganhou dos pais na formatura. Olhou-se no espelho, gostou, passou perfume e a carteira preta, completando a toalete.

Foi uma noite encantada, ela se sentia a própria Cinderela e pensava: não quero que acabe. 

Dançou com ele não só a segunda música, como a noite inteira. No dia seguinte, não teve tempo de pensar em nada a não ser fazer as malas e, em seguida, desembarcar. Não viu Rafael, só o capitão e alguns da equipe estavam à postos para a despedida. Um táxi a levou para casa e no caminho só lembrava da aventura, fruto de suas economias, que valeu muito a pena. 

Logo voltou à rotina do seu trabalho, mas estava renovada e com o ego alimentado.

Quinze dias depois, ela estava fazendo o jantar e alguém tocou a campainha do pequeno apartamento. O porteiro não havia comunicado nenhuma visita. Ao abrir a porta, seus olhos arregalaram. Ainda tinha a mão na maçaneta. à sua frente estava Rafael. 

— Oi, disse ele, descobri seu endereço e vim fazer uma surpresa.  Ali mesmo, no corredor, antes de entrar, Rafael se ajoelha, tira do bolso uma caixa contendo um solitário maravilhoso. E então a pede em casamento e a beija. 

 — Sim, caso sim, amor da minha vida. 

 

SOBRE AS ONDAS - Yara Mourão

 




SOBRE AS ONDAS

Yara Mourão

I

 

A primeira impressão de Adèle ao chegar na sala VIP de embarque do porto foi de estar no limiar de uma grande aventura. A decoração do ambiente era deslumbrante, com uma luz feérica iluminando os móveis de rattan orientais. Havia imensas plantas verdejando soberbamente por todo o salão envidraçado, o qual se voltava para o cais. Ali, atracado bem junto ao muro de acesso, já se encontrava a majestosa estrutura do transatlântico ZODIAC.  “Uma obra de arte!”  pensou Adèle! “Um mergulho nos azuis do céu e do mar!”

Essa viagem era parte de seu presente pelo prêmio obtido na importante competição de natação, onde obtivera o primeiro lugar, além de uma significativa soma de dinheiro.

Os cruzeiros têm um horário de partida ao cair da tarde, quando o lusco-fusco das luminárias esboça sombras mágicas no céu, na terra, nas águas…

Adèle caminhou pelo salão mais uma vez, girando para a esquerda, para a direita, sorvendo o entorno como um gole de licor. Lentamente se dirigiu para fora e foi para a longa fila de entrada na lateral do navio.

Ah! Esse era o seu momento, a coroação de seus esforços e de seu sucesso no esporte que amava! Ia com o coração pleno, certa de que a polpuda carteira com os dólares do prêmio estava segura no cofre do navio.

À saída do cais, os navios mal se mexem e só quando atingem o alto-mar em velocidade de cruzeiro é que o movimento contínuo se instala. E Adéle sabia que esse marulhar era de dar enjoo em qualquer um. Para se precaver, logo após se instalar em sua cabine, subiu para o convés superior onde a brisa amainava a tontura e o mal-estar. Ali, sentou-se numa espreguiçadeira e, de tão serena, adormeceu.

Já a noite chegara em alto mar, com estrelas fugidias e horizontes perdidos. Mas o trajeto para o sul deixava à vista ilhas paradisíacas, uma próxima à outra, enfeitando a paisagem...Passaram-se horas… Adèle despertou sobressaltada, sem se dar conta do horário. “Não devia ser tão tarde, todavia passavam pelo convés funcionários apressados, murmurando baixinho, talvez pelo tardio das horas,” pensou ela. Então, levantou-se lentamente, meio zonza, meio adormecida ainda; viu que o céu estava lindo e se aproximou das grades para contemplá-lo. Olhou para cima, olhou para baixo.

Foi num átimo que tudo se deu; no balanço do navio, no balanço de Adèle, ela titubeou, escorregou, se ergueu em passos tortos e, sem mais, caiu no mar.

II

Os sistemas de segurança logo deram o alarme: as sirenes constantes puseram todos em alerta. Logo equipes de salvamento se agilizaram com holofotes, botes salva-vidas; homens prontos para resgatar quem quer que fosse, se atiraram ao mar. Mas nada foi possível fazer! E a tripulação inteira viu, de camarote, o desaparecimento da pobre náufraga…

Restava comunicar à Companhia de Navegação o ocorrido. O comandante ordenou a busca dos documentos da moça, que, como todos, estavam no cofre do navio.

Quando o suboficial abriu o cofre, recolheu papéis e uma carteira com muitas cédulas. Foi até o comandante e, entregando-lhe os documentos, disse: “Senhor, isso é tudo o que havia lá. Trata-se da senhorita Adèle Rennée, reconhecida esportista!”

Dois dias após o ocorrido, numa tarde cinzenta e chuvosa, de mar muito agitado e com uma tripulação mareada, assustada e temerosa, o Zodiac chegou a uma tal ilha de Endurodora, primeiro porto onde pôde finalmente aportar. Esse era o procedimento obrigatório em casos de acidentes durante o percurso de um cruzeiro. Ali, numa Delegacia de Assuntos Náuticos, o delegado à frente das investigações, analisando o caso e os documentos apresentados pelos oficiais do Zodiac, perguntou pelo dinheiro, cujo recibo estava na carteira da passageira Adèle. “Dinheiro? Qual dinheiro?”  Foi a resposta que obteve. “Não havia nada na carteira, só esses documentos!”

Mas o delegado tinha certeza de que um valor tão grande em dólares não sumiria assim. Onde estaria? Com quem?

III

Todos os funcionários foram intimados a depor sobre o desaparecimento de Adèle e dos dólares; desde os operadores técnicos até os funcionários das cozinhas, das lojas, dos estabelecimentos de lazer.

Nesses interrogatórios, muitas coisas vêm à tona: a vida privada das pessoas, as condições de trabalho, as motivações e ambições pessoais, os hobbies, etc. Aquelas eram geralmente pessoas vindas das classes trabalhadoras que precisavam muito dos empregos e de seus salários, ainda que quase insuficientes.

Mas nada de conclusivo se apurou. Onde teriam ido parar os milhares de dólares de Adèle?

Para o delegado, havia quatro suspeitos principais:

1-  O rapaz que trabalhava no banco do navio e que estava de plantão no momento de abertura do cofre. Ele se chamava Jonas, tinha os olhos amendoados e a fala mansa, apaixonado por Ana Clara. Era astrólogo amador e se pautava por tudo o que o zodíaco dizia e predizia.

 

2-  Ana Clara, que era a moça do cafezinho, falante demais, rodava o navio inteiro fazendo perguntas e comentários. Era apaixonada por Jonas, com quem fazia planos de fugirem para se casarem tão logo tivessem condições financeiras melhores.

 

3-  O suboficial encarregado dos registros de pessoal, que sabia um pouco da vida de cada um das centenas de passageiros e que, como fã de crimes sem solução, estava sempre pronto para participar em lances mirabolantes.

 

4-  A arrumadeira Luísa, que tinha livre acesso ao camarote dos viajantes para preparar os banhos, os quartos na hora de dormir, etc., e que em seus melhores sonhos um dia seria uma dessas viajantes ricas, de alta classe, e não uma mera camareira.

 

IV

Cada um desses estava na mira do delegado.

Mas um bilhete anônimo foi encontrado na biblioteca onde se lia:

 “O DESFECHO DESSE CASO ESTÁ ESCRITO NAS ESTRELAS!”

Nascido sob o signo de Aquarius, o delegado pode, por fim, relaxar.

VICTÓRIA E JORGE - Carla Di Sessa

 


VICTÓRIA E JORGE

Carla Di Sessa

 

Victoria e Jorge se apaixonaram à primeira vista, como se já se conhecessem há muito tempo, como se fosse uma continuação e não um simples começo.

Victoria sabia que era uma pessoa comum e sem grandes atrativos, a não ser os muitos dígitos no saldo da conta bancária, uma fortuna guardada com unhas e dentes pelo pai e seus advogados, protegendo-a de olhares interesseiros.

Já Jorge tinha todos os atributos que faltavam a ela e por onde passava causava um certo frisson. Além disso, também tinha uma conta bancária atraente, o que solucionava a desconfiança do pai dela, mas, não a curiosidade do mundinho ferino por onde o casal circulava e todos se perguntavam o que afinal ele teria visto nela.

Mas, ele havia escolhido a ela e a ela jurava eterno amor todas as noites e, Victoria estava embriagada de paixão. Desde que conheceu Jorge sua vida tinha se iluminado como uma árvore de Natal.

E chegou o dia em que aqueles olhos de veludo marrom a olharam e ele a pediu em casamento. E agora a seu lado no altar ele prometia ser fiel, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

E veio a lua de mel em um navio que os levou por todas as ilhas e praias do Mediterrâneo. Tudo tão romântico, drinks à meia luz, passeios pelo convés ao luar, mais as coisas lindas que ele sussurrava o tempo todo em seu ouvido.

A viagem acabou, mas não a lua de mel. Os dois continuavam apaixonados e Victoria caminhava sem medo ao lado dele.

O primeiro aniversário do casamento deles se aproximava. Ele preparou a surpresa: uma nova viagem de navio. E lá foram os dois novamente viver seu romance embalados pelo oceano.

Uma madrugada Victoria acordou e percebeu que Jorge não estava a seu lado. Chamou por ele, mas não obteve resposta. Então se vestiu e saiu atrás dele. Procurou no bar, nos restaurantes, na piscina e finalmente o achou perto de uma escada que levava a outro deck.

Olhava embriagado para alguém e sorria apaixonado, como olhava e sorria para Victoria. Passava a mão pelos cabelos dessa pessoa e a beijava, como fazia com ela.

Victoria parou petrificada. De repente a outra mulher a viu e, assustada, se afastou de Jorge. Ele olhou para Victoria e o sorriso sumiu do seu rosto. Ele caminhou na direção de Victoria que o olhava confusa, mas subitamente ela entendeu.

Como pôde, Jorge, como pôde fazer isso?

Eu te amo, ele disse, mas os ouvidos dela estavam surdos pelo ódio e os olhos cegos de ciúme.

Eu te amo, ele disse novamente caminhando na direção dela. A mulher vinha com ele, segurando no braço dele firmemente e Victoria entendeu.

Eles a iam matar! Eles a empurrariam por cima da amurada, em dois seria fácil.  Victoria entrou em pânico e começou a correr. Os dois vinham atrás dela, mas de repente não havia mais saída, só a amurada e o oceano lá embaixo. Victoria se abaixou e Jorge tropeçou nela, e a empurrou contra algo de metal que a feriu na testa. Ele perdeu o equilíbrio, escorregou e caiu para o mar, levando a mulher ainda agarrada nele.

Victoria continuou no chão, consciente, mas com os olhos fechados e ficou ali, imóvel, por muito tempo, sem pedir ajuda ou gritar por socorro. Finalmente alguém a encontrou e pediu ajuda: havia uma mulher com uma contusão na testa aparentemente desfalecida no convés.

Victoria estava muito abalada, mas conseguiu contar aos oficiais que se lembrava de ter escorregado e que seu marido tinha tentado segurá-la, empurrando-a sem querer contra uma peça de metal da amurada, o que explicava o machucado na sua testa. Depois não sabia mais o que tinha acontecido, tinha desmaiado.

Uma tragédia. Uma viúva tão jovem, uma morte tão estúpida, tudo muito triste, ocupando todos os sites de notícias e as primeiras páginas dos jornais. Muitas fotos da viúva inconsolável chorando nas revistas de fofoca.

Primeiro eram lágrimas de raiva, depois de aflição de ser descoberta, e, por fim, de alívio. Nunca remorso.

 

MISTÉRIO NO NAVIO - Isabella Brancher

 






MISTÉRIO NO NAVIO

Isabella Brancher

 

Há muitos anos, Patricia vem explorando a ideia de fazer um cruzeiro ao redor do mundo. Ela quer se libertar das amarras, do seu passado sombrio e amargo. Assim, após passar anos enclausurada, decide partir em busca de novas aventuras. A ideia do cruzeiro lhe parece perfeita: conhecer novos locais, novas culturas, experimentar novos sabores e visitar lugares ricos em emoção e história.

O navio tem um roteiro espetacular, que poderá oferecer a Patricia a oportunidade de recuperar tantos anos perdidos. É 2018, a viagem inaugural do navio Royal World Classic, o que traz ainda mais glamour à viagem, deixando tudo mais fresco e vibrante.

Dez anos haviam se passado desde a falência do seu banco de investimentos em Nova York, devido à crise das hipotecas. Patrícia havia sofrido muito com as agressões e o desrespeito de seus clientes, mas suas investidas financeiras acabaram culminando na sua prisão. Seu sócio também havia cumprido pena de seis anos; sua detenção havia sido menor por causar menos prejuízo aos seus clientes.

Finalmente chegou o dia do embarque. Patrícia juntou suas melhores roupas, um pouco fora de moda, mas que ainda traziam a elegância do tempo em que era considerada uma executiva de sucesso. Agradecia aquela oportunidade fazendo uma silenciosa oração ao seu pai. Fuzileiro naval, seu pai havia recentemente falecido, deixando todas as suas economias para sua única filha. O porto de embarque era Miami. Uma emoção sem igual toma conta de Patricia; suas pernas parecem não conseguir sustentá-la em pé, ou talvez ela não consiga subir a rampa ricamente adereçada com um tapete vermelho, o que a faz se sentir ainda mais orgulhosa.

Na fila, enquanto aguarda o embarque, relembra os inúmeros livros que leu durante o período em que só lhe restava a leitura. Livros que traziam exatamente as experiências que estava prestes a começar a viver. Como aquele tempo a havia modificado: tornara-se mais amável, mais empática, olhando para as pessoas com mais ternura e menos interesse, especialmente financeiro.

Já era fim de tarde quando o navio começara a deixar o porto naquela linda primavera. Os próximos destinos seriam Bahamas, Cozumel e Costa Rica. Sempre teve o desejo de conhecer a vida marinha, muito por conta das histórias trazidas por seu pai nos retornos de suas viagens. Cozumel era um sonho: poder mergulhar, ver aquela diversidade de peixes… não via a hora de realizar esse antigo desejo.

Os dias de navegação passam calmos e rapidamente; há muitas oportunidades de diversão e entretenimento a bordo. Rapidamente, sendo Patricia uma pessoa de negócios, enturmou-se com outros passageiros, criando um círculo agradável de companhia.

Não há muitas pessoas no navio — cerca de duzentas —, o que torna ainda mais fácil conhecer, ao menos visualmente, a maior parte dos seus colegas de viagem. Percorrem o Canal do Panamá até se abrir para o Oceano Pacífico. Enquanto isso, os dias iam sendo regados por momentos de sol e piscina, acompanhados de uma boa leitura ou jogos de tabuleiro com os novos amigos.

Os jantares são momentos especiais; todos parecem felizes e tranquilos. Boas conversas sobre o dia, as experiências de viagem e, às vezes, até algo mais pessoal surgem nas amigáveis trocas.

Em uma noite mais chuvosa, deixou o restaurante em direção aos seus aposentos. Estava particularmente cansada naquela noite e decidiu se retirar mais cedo. Curiosamente, ao descer para o andar das cabines, viu de relance um homem que a observava. Ficou receosa, mas logo pensou que só poderia ser sua imaginação. Chegou ao quarto, trocou-se e, já deitada, pensava se seria possível que Sergio também estivesse no navio. Desfez aquele pensamento cinzento e aproveitou o movimento do navio para adormecer serenamente.

Sérgio havia sido seu colega de faculdade; havia estudado economia em Harvard. Ambos cresceram juntos profissionalmente e, por fim, acabaram se envolvendo emocionalmente. Sérgio era uma pessoa mais alegre, sempre tirando proveito das situações e apreciando a vida tranquilamente, mas também era muito ciumento e possessivo. Ao sair da penitenciária, havia tentado se recolocar no mercado financeiro, mas sem sucesso. Fez inúmeras tentativas em diversos setores da economia até conseguir essa posição na tripulação do cruzeiro. Também era um sonho antigo: trabalhar e viajar pelo mundo lhe pareceu uma boa solução para tentar recomeçar a vida.

Antes de conseguir esse emprego no navio, havia passado um tempo na casa de um velho tio, o qual ganhava a vida consertando de tudo um pouco. Foi por conta dessa experiência com o tio que conseguiu o emprego para trabalhar na manutenção do navio. Naquela noite em que Patricia havia visto Sergio de relance, ele havia ido aos aposentos do Sr. Otávio para verificar um problema em uma torneira.

Na manhã seguinte, já estavam chegando à costa da Nova Zelândia. A curiosidade de conhecer aquelas terras ainda parcialmente inexploradas a fez levantar tão logo percebeu o amanhecer. Preparou-se, desceu para tomar o café e pegar os primeiros barcos para desembarcar em Auckland. Ao entrar no restaurante, teve a confirmação de sua preocupação: havia visto novamente Sergio, que seguia pelo outro corredor. Ficou aflita com a constatação de que ambos estariam juntos, confinados no navio. Que surpresa o destino havia preparado para ela…

Passou o dia alegre em Auckland, explorando todos os locais no tempo que lhe era permitido. Esporadicamente, a imagem de Sergio retornava à sua mente. Havia preferido fazer essa visita à cidade sozinha, no seu ritmo, mas agora era hora de voltar ao navio e se preparar para o jantar. No jantar, todos compartilharam suas experiências. A maioria havia preferido visitar a Sky Tower e o museu da guerra; Patricia optara por uma caminhada até o Monte Eden.

Terminado o jantar, Patricia se recostou nas cadeiras do convés superior, apreciando a noite estrelada. Distraída, aproveitava o final do dia quando, ao olhar para o lado, percebeu que Sérgio a observava. Os últimos quinze anos percorreram sua mente. Um misto de angústia e tristeza logo invadiu sua tranquilidade. Sem pensar profundamente, levantou-se e dirigiu-se à borda do convés. Temendo a aproximação de Sergio, subiu na balaustrada e, subitamente, jogou-se ao mar.

Sérgio ficou desesperado ao ver a cena. Sem saber o que fazer, permaneceu imóvel, olhando a água remexida logo abaixo de si. Aflito com o que havia presenciado, retirou-se rapidamente para seus aposentos. Sucumbiu ao medo de ser considerado culpado por aquela queda; tudo o que menos queria naquele momento era arriscar ser preso novamente. Juntou-se a alguns tripulantes no restaurante da tripulação, na esperança de construir um álibi. Tomou um chá com alguns colegas, compartilhou atividades do dia e fez questão de contar um caso engraçado para que se lembrassem dele caso fossem questionados. Ficou momentaneamente mais tranquilo e se retirou para dormir.

Em seu quarto, voltou a rever a cena do salto de Patricia ao mar. Permaneceu abalado com a ideia do que poderia ter causado aquela reação quando ele se aproximou.

Patrícia, quando criança, havia praticado salto em piscina, outra herança do gosto do pai pelas águas. Fato que Sérgio desconhecia. Patricia sabia que o próximo porto seria Tauranga, a três horas de automóvel de Auckland. Assim, poderia nadar até a costa e, no dia seguinte, enquanto o navio fizesse a travessia de Auckland a Tauranga, alugar um veículo e seguir até lá, retomando a viagem no cruzeiro.

Agora completamente molhada, sentada à beira da praia, perguntava-se se aquela teria sido a melhor saída. Afinal, teria que voltar ao navio e não poderia se esconder pelo restante da viagem. Aquele mergulho inesperado ajudou Patricia a refletir sobre toda a situação. Não haveria outra alternativa senão enfrentar Sergio quando estivesse novamente no navio. Não o procuraria, mas também não o evitaria em uma próxima oportunidade.

Sentou-se em um bar na praia e pediu uma bebida enquanto esperava seu vestido secar um pouco. Por sorte, estava com seu cartão de crédito no bolso e pôde tomar a bebida, além de se hospedar em um hotel próximo ao porto. Na manhã seguinte, se preocuparia em como chegar a Tauranga.

O navio aportava em Tauranga. Patrícia o via do café onde estava sentada, a poucos metros do porto. Esperou que os passageiros descessem para a visitação da cidade e, assim que possível, retornaria ao navio. Os próximos dias seriam de longos períodos de navegação, com poucas descidas em terra. Uma leve frustração se instalou em Patricia; afinal, agora sabia que teria de enfrentar Sergio em algum momento.

A vastidão do mar durante aqueles dias serviu como um processo terapêutico. Refletira e sabia exatamente o que precisava fazer caso Sérgio a procurasse novamente. Pensara nas palavras e nas possíveis respostas às inúmeras perguntas que ele guardara ao longo dos anos.

Chegaram a Ho Chi Min, no Vietnã, e durante todo esse período não havia mais visto Sergio pelo navio. Ficou contente por serem dias tranquilos, sem nenhum tipo de confronto. Ao desembarcar em Valparaíso, encontrou Sergio logo ao descer do navio. Ele havia tirado o dia de folga para conhecer a cidade, um desejo antigo.

Patrícia não pôde evitar sua presença e, finalmente, decidiu encarar a conversa que tanto adiara. Seguiu em sua direção e caminharam em silêncio até a saída do porto. Ele pegou sua mão; ela aceitou. Continuaram caminhando silenciosa e calmamente pela praia.