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ANTOLOGIA 2026 - RUMORES DO PASSADO
Homem ao mar ou o cruzeiro interrompido - Ises de Almeida Abrahamsohn
Homem
ao mar ou o cruzeiro interrompido
Ises
de Almeida Abrahamsohn
O som penetrante da sirene, três toques estridentes
seguidos por três longos, acordou Jorge na sufocante cabine do navio.
Desorientado, esticou a mão para o celular. Eram três horas da manhã. A outra
mão apalpou o travesseiro ao lado.
Vazio... ― Marilda, Marilda, o
que foi? Levantou-se até a porta do
minúsculo banheiro. Ainda tonto do sono e
do vinho da véspera, vestiu a roupa largada na cama e saiu para o
corredor. Outras pessoas também saíam
das cabines procurando informações.
Aglomeravam-se
à porta do elevador ― O aviso da
sirene, três toques, parece que alguém caiu no mar! O navio parou....
Chegando
ao primeiro deck, Jorge viu o tumulto.
Grande número de pessoas, algumas de roupão sobre a roupa de dormir, se empurravam
em torno de um oficial. Este confirmou que houve um sinal de que uma pessoa
havia caído ou se lançado ao mar. E que as buscas já haviam começado. Porém os curiosos não arredavam o pé dali por
mais que funcionários tentassem fazê-los voltar às cabines.
— Marilda deve ter ouvido a sirene antes
de mim e saído para investigar. Por que
não me acordou? Ela sempre faz
isso... Sabe que tenho insônia e fica
com pena de me acordar.
Jorge
metodicamente procurava a noiva entre os curiosos. Nada. Talvez tenha voltado para a cabine, pensou. Mas estava vazia. Mais uma vez subiu ao
primeiro convés e depois ao segundo, terceiro e quarto decks que estavam
vazios. Agora algumas centenas de
pessoas ocupavam o primeiro convés. Ansiosas,
conversavam, faziam hipóteses e olhavam o mar iluminado por potentes holofotes.
Dois botes motorizados barulhentos circundavam o navio à procura do
acidentado. Mas muitos sabiam que a
chance de encontrar alguém era pequena.
Era uma queda de cerca de 9 metros, e o impacto fazia a pessoa desmaiar e
afundar. Apenas nadadores experientes
conseguiriam retornar à superfície. Depois de muito insistir, Jorge conseguiu
falar com o imediato e reportar o desparecimento de Marilda. O homem não parecia muito convencido. Tentou
acalmar Jorge dizendo que a noiva provavelmente tinha tomado mais um aperitivo
e devia estar dormindo em alguma poltrona. Afinal, tinha visto tantas escapadas
noturnas de homens e mulheres nos seus dez anos de mar. Prometeu que de manhã ordenaria uma busca
sistemática no navio. Agora era impossível
Jorge
não se conformou com o descaso do oficial. Continuou a procura pelo navio, deck
por deck, todos os bares, restaurantes, salas e antessalas, banheiros quando
encontrava abertos, cozinhas... Nem
vestígio de Marilda. Exausto voltou à cabine, tomou um chuveiro, vestiu-se e
foi cobrar do capitão uma busca minuciosa por todo o navio. O capitão pediu um
documento de Marilda e uma foto. Jorge voltou à cabine e pegou a carteira de
motorista na bolsa de mão. Entregou ao capitão e ao retornar olhou de novo a bolsa.
Estranhou, estava quase vazia. Tinha as chaves de casa, alguma maquiagem, pente,
a carteira com algum dinheiro, mas, e a carteirinha azul onde ela guardava os
cartões de crédito? E o relógio de pulso
e o celular? O celular ele achou perto da cama, não sabia a senha para abrir.
Mas o relógio que ela prezava tanto não estava lá. Estranho colocar o relógio para passear no
navio à noite. E os cartões? As lojas estavam fechadas de madrugada e os bares
só aceitavam dólares.
O
rapaz se forçou a ir ao restaurante comer alguma coisa. A busca mencionada pelo
capitão já estava em curso. Começariam
pelos andares inferiores nas alas ocupadas pelos funcionários do navio,
seguindo-se as outras dependências cozinha, lavanderia e depósitos. Depois indagariam,
os passageiros, cabine a cabine. Iria demorar.
E às 11:30 o navio iria atracar em Montevidéu para os passageiros
descerem.
O
que não descia para Jorge era o café com leite e a inocente torrada à custo
mastigado. Encolhido num canto do restaurante ele tentava raciocinar. Certamente Marilda não pulara no mar.
Ninguém leva cartão e relógio para se suicidar. Por que então sumira e quem
teria acionado o sinaleiro na madrugada?
E por quê? Alguém deve tê-la visto
no deck ou conversado com ela. Parecia
normal na noite anterior, alegre e encantada com a viagem até Buenos Aires. Era
a viagem para comemorar o noivado selado com o lindo anel de safira e
minúsculos brilhantes. Safira azul como seus olhos, lembrava Jorge. E continuou
ali a pensar, a matutar hipóteses malucas que rodopiavam na mente para serem logo
afastadas. Estava claro, concluiu, ela
o abandonara, como e por quais razões ele não atinava. Devia estar escondida no
navio, ajudada provavelmente por alguém que ela conseguira convencer. Sim, Marilda era insinuante, convincente e
sabe-se lá que história teria tecido. Na verdade, se deu conta que sabia pouco
sobre ela. Disse que seus pais haviam falecido, que crescera em Mato Grosso,
criada por uma tia que também já morrera.
Era real ou ela criara essa fábula para ele?
Essas
constatações fizeram Jorge sentir-se ainda mais desalentado. Devagar, cambaleando
chegou à cabine. Olhou em volta, a mala
de Marilda com as roupas e sapatos estava lá e o celular que ele iria entregar
ao capitão. Nada mais. Então lembrou.
Claro. O cofre, tinha esquecido de verificar...
Apenas os dólares tinham sumido, seus próprios documentos lá
estavam. Bem lá no fundo viu o estojo vermelho
do anel de noivado e um papel dobrado. Um bilhete... Finalmente!
― Querido Jorge. Perdão, eu não sou
alguém com quem você gostaria de casar. Não sou Marilda. Tenho outro nome e
profissão. Gostei muito de você, cheguei
a me enganar acreditando que poderia abandonar a minha profissão. Desaparecerei
em Montevideo. O anel está aí. Nosso tempo juntos foi maravilhoso. Obrigado por
tudo. Os dólares lhe serão reembolsados
quando chegar ao hotel em Buenos Aires.
Mais não posso falar. Adeus!
Segredo de Família - Yara Mourão
Segredo
de Família
Yara
Mourão
Cinquenta
anos é muito pouco para a alma ferida.
O
tempo que corre de dia está sempre parado na hora de adormecer. Assim, Antonieta
marcava, entre sonhos e sobressaltos, sua cronologia do desespero.
Foi
um acidente, sabiam todos. Tenório Trindade morreu matado de tiro no curral de
sua fazenda. Foi uma tragédia premeditada, uma perda lamentável. O homem era
justo, esforçado. Lutara anos para ter aquelas terras fecundas e seu gado
premiado. Quando pensou em herdeiros para seus bens, escolheu a moça mais
bonita da cidade para ser sua esposa.
Tudo
começou quando o tiro do velho Alvelim, no meio da discussão, jogou por terra
anos de esforços, de benfeitorias, de felicidades.
Na
família de Antonieta, ninguém falava do ocorrido; todos se calavam quando o
assunto chegava às portas da fazenda do velho Alvelim. Ela guardava os fatos e
as dores nas profundezas de seu coração. Um coração acostumado aos revezes da
vida, ao exercício ingrato de criar, com seus filhos, um filho intruso pelo
acaso. Todo dia, ela amaldiçoava os céus por isso.
Antonieta
vivia suas emoções embalada pelos caprichos da natureza: nos invernos longos e
secos, os sentimentos como que hibernavam e ela dava rumo aos seus afazeres;
nos outonos coloridos e primaveras sossegadas, ela plantava e colhia, cuidava
da criação. Mas era quando os dias tórridos e longos chegavam, assolando a vida
com lembranças e pressentimentos, que tudo vinha assombrar Antonieta: aquele
acidente horrível com o Trindade… o desamparo da viúva às vésperas de parir um
filho… o inusitado acolhimento da criança por Antônio, seu marido, como que
para mitigar o crime cometido por seu pai.
Por
que isso foi tido como necessário naquele tempo? Eles já tinham três filhos e a
viúva de Trindade era jovem e de boas posses. À época, Antonieta sabia, ela
também se apiedara. Só anos depois, após suas cismas e desconfianças, juntando
fatos, encontros e desencontros, é que a semelhança se instalou.
Antônio
era o pai da criança.
Essa
foi a pedra que selou os lábios de Antonieta, secou seus olhos, gelou seu
coração.
Haroldo,
Simone e Lauro cresceram soltos pela fazenda, ao lado dos peões e do pequeno
Edgard. Só tardiamente frequentaram a escola do lugarejo. Os quatro estavam
sempre juntos, envolvidos na lida do campo. O trabalho era muito, mas a falta
de condições era maior. Muitas dívidas acometiam Antonieta. Também por isso ela
se maldizia e blasfemava.
Então,
houve um dia em que dois cavaleiros chegaram às portas da fazenda, buscando por
Antônio Alvelim.
Ela
recebeu-os à porta com sua habitual tristeza: “O que queriam? De onde vinham,
tão sem saber da vida dela e da morte de Antônio?” Temia que viessem cobrar dívidas não pagas e
negócios por terminar.
Os
dois homens se achegaram educadamente. Falaram que ela não temesse, não era
nada sobre dinheiro nem papéis. Era sobre gente.
Antonieta
sentiu-se levada por um pé de vento. Sua cabeça rodeou, as pernas estremeceram.
Ela intuiu. Pressentiu algo perturbador, mas se fez altiva.
Os
homens tinham um ar severo. Eles só perguntaram uma vez:
— Onde
está o filho de Trindade?
— Aqui
só estão meus quatro filhos, — disse ela. Não temos nada a ver com Trindade.
Deixem-nos em paz!
Mas
eles não se foram. Queriam o rapaz que agora, disseram, era o herdeiro da
fazenda mais rica e produtiva da região.
Antonieta
já não aspirava a mais nada. Sua propriedade estava empobrecida, não havia como
cuidar da criação, da plantação, da casa. Ela necessitava de ajuda, pois se
perdera em negócios com os bancos, em empréstimos e dívidas impagáveis. Dizia
sempre que Deus não lhe era em nada favorável…
Os
homens se foram naquela tarde. Mas disseram que voltariam, pois sabiam que o
rapaz que buscavam estava ali naquela casa
e tinham de levá-lo para sua real propriedade que a rica herança lhe
dava por direito.
Antonieta
sentiu partir-se o coração outra vez. Edgard, o filho bastardo que ela criara
como um próprio filho, seria hoje um homem rico. O que ela deveria fazer para
sanar tantos anos de um amor dúbio, de dor incontida? E sua urgência em ter um
apoio financeiro para passar por tantas necessidades, seria isso uma ajuda? Não
sabia… devia entregá-lo ao seu destino ou manter o segredo de que ele era filho
de seu marido e não de Trindade? Edgard, que ela sempre chamara de filho,
poderia ter um destino brilhante: dono de uma propriedade rica, com uma vida
sem dificuldades como a que até então ele enfrentava, e ainda dar a Antonieta o
suporte que ela necessitava.
Mas
ela sabia que, se revelasse qualquer indício de sua angústia, seria um
desastre. Edgard perderia o direito à herança, certamente. Um direito que na
verdade ele não tinha. Como ela poderia revelar um segredo guardado por anos
que a protegera de expor a vergonha por ser traída? Por esconder o
constrangimento de criar como filho aquele que não era sangue do seu sangue?
Como roubar a Edgard a chance de ter uma vida farta e produtiva, ainda que sob
o véu da inverdade? Ela conseguiria conviver com mais esse segredo?
Passaram-se
semanas. Ela mirava a estrada poeirenta com os olhos secos, vendo miragens,
sofrendo as horas.
Um
dia os homens voltaram. Ela os recebeu à porta. Perguntaram pelo filho de
Trindade. Disseram que não sairiam dali sem ele. Antonieta sorriu entre
lágrimas. Pediu que aguardassem. Chegando mais perto da cerca, chamou por
Edgard. Ele veio, altivo em seus trajes de labuta no campo.
Os
homens se entreolharam e perguntaram com voz firme:
— Quem
é você?
— Sou
Edgard, filho de D. Antonieta.
—
Você é um Trindade! Viemos te buscar para tomar posse da fazenda que seu pai
deixou para você.
— Meu
pai está morto e essa é a nossa fazenda.
— Você
tem de vir conosco, rapaz!
Edgard
passou os fortes braços pelos ombros de Antonieta e respondeu:
— Minha
mãe, meus irmãos e eu não sairemos daqui. Esse é o lugar que meu pai verdadeiro
me deixou. Aqui me criei, aqui fui feliz. Voltem para onde vieram, porque essa é a minha família e esse é o meu lugar!
Os
homens custaram a crer. Tinham certeza de que aquele era o filho de Trindade.
Mas a convicção de Edgard acabou com as dúvidas e com as certezas daqueles
homens.
Antonieta
se viu perdida num universo de sentimentos… mas então Edgard sabia de seu
segredo? Que agora trazia um resultado tão inesperado, como a gratidão de toda
a vida daquele rapaz, um menino que lhe caiu nos braços como um presságio de
infelicidade?
Antonieta
reconsiderou seu sofrimento de anos e anos e se viu imersa na paz que agora
sentia. A verdade calada no coração de Edgard foi um bálsamo para ela. Foi o
fim de um áspero amor trancafiado há décadas em seu coração. Deu graças aos
céus porque agora se dera conta de que seu segredo lhe trouxera, enfim, o
prêmio mais esperado nessa vida: o da sua reconciliação com Deus!
O avô - Sulcos de um passado - Carla Di Sessa
Pina
estava com o coração apertado, mas, mesmo assim, tinha distribuído as tarefas:
os filhos iriam cuidar das roupas, ver o que queriam ou que os netos queriam e
o resto deveriam encaminhar para o dr. Macedo. Gustavo e ele eram tão amigos,
Pina sabia que Gustavo ajudava o dr. Macedo em suas obras assistenciais e,
portanto, ela achava que Gustavo gostaria de ver suas coisas indo parar nas
sábias mãos do amigo. A ordem era deixar os armários vazios. Perguntaram se ela
não queria guardar alguma coisa de lembrança do marido e ela respondeu que já
havia separado o que queria.
A
filha, Antônia, advogada, se encarregaria da escrivaninha e da estante: deveria
separar a papelada, os documentos, guardar o importante, descartar as bobagens,
escolher os livros. E deveria designar alguém para cuidar dos remédios e coisas
de higiene pessoal. Talvez o Dr Macedo também tivesse um bom destino para
aquelas coisas.
Ela,
Pina, ia cuidar das caixas de fotografias, das cartas e das bugigangas
acumuladas ao longo dos anos.
Os
filhos perguntaram se ela não gostaria de esperar um pouco mais para fazer
aquilo, mas Pina sabia que tinha que fazer logo ou começaria a perder a coragem
de mexer nas coisas de Gustavo. Além disso, queria aproveitar a ajuda dos
filhos que logo iriam embora, de volta às suas vidas.
Abriu
uma caixa qualquer para começar e se deparou com centenas de fotografias: de Gustavo
no colégio Arquidiocesano onde havia estudado, fotos da família dele, fotos da
época do CPOR, convites de bailes de formatura, fotos dos pais dele no dia do
casamento. A mãe dele, Dona Elvira, tinha sido muito bonita, tinha muitos
pretendentes, mas os pais dela a casaram com um homem baixinho, gordinho, nato
in Italia e 17 anos mais velho que ela chamado Enrico. Ele era muito vivo,
alegre, rico e pelas histórias que contavam, havia conquistado a todos, menos
aquela mocinha que deveria se casar com ele e que, vestida de noiva ao estilo
dos anos vinte, olhava da foto direto para quem olhasse para ela, um olhar duro
e frio.
O
sogro, oriundi como ela, Pina, Giuseppina. Juntos, cantavam antigas
canções da Bella Italia e ele adorava quando Pina ia para a cozinha
preparar orichietti ou Zeppole di San Giuseppe (*) para o dia dos
pais. Pina adorava aquela proximidade com o sogro, mas tinha que
reconhecer, aquilo não ajudou muito na relação com a sogra.
Passou
para a próxima foto. Bene, guarda questo, espantou-se. Era uma foto de
uma mulher fazendo pose de Femme Fatale e vestida ao estilo de Hollywood
dos anos 30 / 40: o vestido bem colado ao corpo acentuando todas as curvas, um turbante
na cabeça, uma das mãos no quadril e um sorriso iluminado no rosto. Atrás da
foto estava escrito: Al mio caro amore, Elena.
Então
quella era a tal Elena. A sogra, D. Elvira, nem podia ouvir falar
naquele nome. Mas não devia ser por ciúme, já que a convivência di quelli
due incluía tudo menos amor. Quando o assunto era Elena, as pessoas
se calavam, sorriam sem jeito e alguém desviava a atenção para outro assunto
qualquer. Mas a história que se contava a meia voz pelos cantos era que uma
noite um homem tinha aparecido alta madrugada e chamado por Enrico.
Desculpou-se e disse que havia uma mulher insistindo muito em falar com ele. Enrico
saiu para a escuridão junto com o tal homem e foi resolver o assunto. Voltou
algum tempo depois e chamou Elvira. Ela se levantou assustada, Enrico nunca a
envolvia nesses momentos. Foi até o vestíbulo. Enrico e o homem estavam lá e este
tinha nos braços uma criança, enrolada em trapos.
Chame Das Dores e mande que
cuide da criança, disse Enrico.
Mas quem é, o quê..., ela
começou.
Domani,
ele disse, domani.
Das Dores foi chamada e se
ocupou da criança. Elvira foi para o quarto.
Você pode me explicar o que
está acontecendo?
Domani,
ele disse novamente.
Mas, na verdade, Elvira
sabia que provavelmente nunca mais conversariam sobre aquilo novamente.
Na semana seguinte Enrico
mandou preparar um quarto para aquela criança, que passou a viver ali com Das
Dores.
Alguns dias depois entregou
uma certidão para Elvira: a criança, um menino, era agora filho deles, como
estava escrito no papel e não se falava mais nisso.
Chamava-se Gabriel Pedro
Henrique João.
Nome de príncipe para uma
criatura que chegara enrolada em trapos na calada da noite.
Al mio caro amore, Elena.
Mas quem seria o tal amore,
seu sogro? Ora mai, que
importância tinha aquilo agora? D. Elvira e o sogro já tinham morrido e
provavelmente a tal Elena também. E o filho deles se chamava Gustavo, seu
marido recém falecido, e não Gabriel Pedro Henrique João. Cada coisa que o povo
dali inventava...
Eventualmente todas as
coisas de Gustavo foram organizadas e encaminhadas. Dele ficaria a saudade, a
lembrança do cheiro de cigarros e do som das botas no chão de madeira.
Algum tempo depois, de novo na
calada da noite, alguém chamou do lado de fora da casa. A voz chamava por ela.
D. Giuseppina, D. Giuseppina!
Ela se levantou, vestiu o
peignoir e foi ver o que estava acontecendo.
Que succede,
quem está aí?
Sou eu, Torquato. D Giuseppina,
desculpe, seu Gustavo... não estando, a senhora entende, só me ocorreu chamar pela
senhora.
Mas o que foi?
Mandaram chamar porque tem
uma senhora já nas últimas querendo ver o seu Gustavo. Ela está insistindo
muito.
Dio Santo, uma
sensação de déja vu esfriou o coração de Pina.
Una donna? Quem?
Não sei, não senhora. Só
mandaram dizer para ir logo, ela é muito velhinha. É melhor a senhora ir, pode
ser importante.
Onde é? Onde está essa
pessoa?
Na casa do dr. Macedo.
Está bem, eu vou. Espere um
instante que já volto.
Chegaram à casa do Dr Macedo
que os recebeu na porta.
Pina, ele disse, é Elena,
você sabe quem é, não? Ela pediu para ver Enrico, ela há anos está perdida
dentro das próprias memórias, alienada de tudo. Bem, pensei que talvez você não
se importasse de vir até aqui e dar um pouco de conforto...mas, se não quiser,
tudo bem. Pode ir embora, eu vejo aqui como encaminho as coisas...
No, va bene,
vou entrar, decidiu Pina.
No quarto, Dr. Macedo
colocou uma cadeira ao lado da cama e pediu para Pina se sentar.
Quando Pina se sentou, a
senhora agarrou a mão dela e disse: il bambino, come sta il bambino?
Criança? Que criança?
A que Enrico levou embora. Il
mio bambino, mio tesoro, mio amore.
O coração de Pina deu um
pulo! Então era verdade! Pina olhou para o médico pedindo ajuda para entender o
que estava acontecendo.
A mulher olhou para ela e
disse: Elvira, ele não é filho de Enrico, você sabe, não é? Ele disse que ia te
contar. Mas é meu filho, mio bambino. Elvira, ele te contou, não é?
Pina ficou olhando para a
parede atrás da cama da mulher e não respondeu.
Dio Santo, cosa faccio
adesso? O que devo fazer agora?
Olhou para o Dr Macedo e
perguntou baixinho: é Gustavo, não?
O médico balançou a cabeça.
Então Gustavo não era filho
de Elvira e Enrico? Elvira sabia? E mais importante, Gustavo sabia? Dio Santo!
Elena, Pina disse suavemente,
il bambino sta bene, stai tranquilla. Ora riposati.
A senhora fechou os olhos e
pareceu adormecer.
Dr. Macedo fez sinal para
ela. Saíram do quarto e foram para a
sala.
Gustavo e Pina foram para a
cozinha. Ali, ele preparou café e os dois sentaram-se à mesa.
Sabe Pina, naquela época
Enrico mandava e desmandava nestas paragens e ajeitava a realidade à sua volta
da maneira que melhor lhe aprouvesse. Ninguém questionava, pois sabiam que, bem...
Enrico não mantinha nenhuma pedra no próprio sapato, você me entende, não é?
Dr. Macedo estava mesmo
falando de seu sogro? Aquele homem que cantava com ela e comia a pasta
que ela preparava? Aquela pessoa alegre e sorridente que cativava a todos?
Dr. Macedo continuou: Elena
e ele tiveram um caso, mas ela conheceu um outro homem e foi embora com ele.
Alguns anos depois apareceu por aqui, totalmente dependente do álcool e sabe-se
mais o quê e ainda por cima grávida.
Enrico ficou furioso.
Stupida, stupida!
Ele repetia.
Internamos Elena em uma
clínica e ela ficou ali em tratamento até ter o bebê. Depois do nascimento,
Enrico disse que ia arrumar um outro lugar para ela ficar, mas ela fugiu e
passaram-se algumas semanas até ser encontrada novamente em um estado lamentável,
junto com o tal homem com quem tinha fugido.
Foi então que mandaram
chamar Enrico naquela noite. Quando a viu novamente naquele estado disse para
ela sumir, que não queria mais saber dela, não queria nem ouvir falar seu nome.
O homem que acompanhava Elena ficou furioso, foi atrás de Enrico e o atacou
mas, estava muito bêbado e Enrico se livrou dele facilmente. O homem então
puxou uma faca e correu na direção de Enrico que sacou uma arma e o matou.
Enrico mandou que levassem
Elena embora, não queria saber para onde, qualquer lugar servia desde que fosse
bem longe dali, deu dinheiro para que todas as providências em relação a ela e
ao morto fossem tomadas, pegou o bebê e o levou para casa.
Elena quase enlouqueceu com
tudo aquilo e sumiu. Ninguém mais soube dela até agora, até aparecer por aqui
desse jeito que você viu hoje. Umas pessoas a trouxeram, eu não estava em casa
quando isso aconteceu de modo que não falei com eles, não sei quem são.
O que vamos fazer Pina?
Pina pensou por alguns
instantes.
Nada, não vamos fazer nada,
Dr. Macedo. Enrico, Dona Elvira, Gustavo, estão todos mortos. Elena, bem, está
como está, então o que poderíamos fazer? Contar essa história agora, depois de
todos esses anos? Para quê? Vivemos até agora sem saber de nada e vamos
continuar assim.
Estava na hora de ir embora,
na verdade Pina queria ir embora. Despediu-se do Dr. Macedo e saiu para ir para
a sua casa, onde tinha passado quase a vida inteira e onde estavam a maior
parte de suas lembranças. Queria sair dali e ir ao encontro da tranquilidade.
Mas quando chegou lá um
outro sentimento de perda, além daquele que vinha da perda de Gustavo, apertou
seu coração. Pina olhou para os retratos, viu os rostos e pensou que não sabia quem
eram aquelas pessoas de fato.
Uma tristeza a invadiu e olhando ao seu redor ela percebeu que nada mais era como havia sido até então.
(*) Zeppole di San Giuseppe
são doces tradicionais italianos, típicos do sul da Itália (especialmente Nápoles), preparados em celebração ao Dia de São José (19 de março), que também é o Dia dos Pais na Itália. São pequenas roscas de massa leve — semelhante à massa choux (pâte à choux) — fritas ou assadas, recheadas e cobertas com creme de confeiteiro, finalizadas com cereja em calda e açúcar de confeiteiro.
FELICIDADE NÃO SE COMPRA - Ledice Pereira
FELICIDADE NÃO SE COMPRA
Ledice Pereira
— Enfim, só! – gritou Ofélia, jogando-se no sofá.
Como esperara por esse momento. Finalmente, estava livre. Foram anos e anos daquele casamento sem amor, sem respeito, tendo que abaixar a cabeça e obedecer se não quisesse ser agredida. Sentia arrepios só de pensar.
– Como pude aguentar tanta humilhação por todo esse tempo? Trinta e oito anos, longos trinta e oito anos...
Ficou ali, estática, deixando que o pensamento a levasse para longe.
Tinha apenas vinte quando fizeram seu casamento. As famílias determinaram sem que pudesse fazer alguma escolha. Não conhecia Antônio, filho de Custódio Alvelim, homem mais rico da região. Ninguém o apresentou. Só soube que aquele senhor, vinte anos mais velho, seria seu marido.
Não ousou contrariar o severo pai que, visando a
não perder a fortuna de que a família Alvelim era possuidora, não mediu
esforços para que o prazo para o enlace fosse o menor possível.
Tinha consciência de que a filha não tinha nenhum atributo que pudesse encantar algum pretendente. Aquela era uma oportunidade de ouro para que ele colocasse suas finanças em ordem.
Naquele dia distante, Ofélia sentiu que todos os
seus sonhos de juventude iam por água abaixo: estudos, viagens, amor...
Resignada, entrou na igrejinha da cidade, como se
estivesse dirigindo-se para o abate.
E viveu uma vida sem sentido, sem amor, sem
esperança, sem graça.
Os filhos, por não aguentarem o gênio e
intolerância do pai, e com o aval da mãe, trataram de sair dali, um a um, com a
desculpa de querer estudar na cidade grande onde haveria mais oportunidades.
Sem a presença dos filhos, os únicos que lhe davam alegria, dedicou-se à caridade. Isso a alimentava e a ajudava a passar o tempo. Achava que nunca ficaria livre daquele martírio.
Quando Antônio adoentou, exigiu ser tratado por
Jandira, uma conhecida enfermeira da redondeza.
Ofélia, ao invés de sentir-se rejeitada, achou uma
ótima solução. Ficaria mais livre. Não teria que cuidar daquele homem por quem
sentia intensa repugnância.
Jandira instalou-se ali, com certa petulância, como
se fosse ela a dona da casa a dar ordens aos empregados e até a Ofélia, que
procurava ignorá-la.
Durante aqueles longos dez meses, a casa
transformou-se num verdadeiro hospital, montanhas de medicamentos, cama e
cadeira hospitalar, balão de oxigênio, cheiro de doença.
Quando Antônio se foi, os filhos precisaram intervir, firmemente, para que Jandira, contrariada, deixasse a casa. Foi necessária a presença da Guarda Civil e a ameaça de instaurar uma medida protetiva contra ela.
Finalmente, Ofélia estava ali, dona de sua própria
vida.
Começou por esvaziar guarda-roupa e gavetas com a
roupa do falecido. Não suportava sentir aquele odor impregnado no ambiente.
Chamou o casal de empregados Sofia e Armando, que
ali trabalhavam desde que os filhos eram pequenos e distribuiu tudo, deixando
que escolhessem o que queriam e dessem o resto a quem quisessem.
Comprou tinta e pincéis para que Armando pintasse
as paredes dos quartos de cores alegres e comprou móveis novos, livrando-se de
tudo que pudesse levá-la a lembranças desagradáveis.
Os filhos surpreenderam-se com as mudanças nas
atitudes da mãe. Ela que sempre fora subserviente, mostrava-se dinâmica,
resolvida, determinada e colocando a mão na massa com força e vontade.
A única coisa que ainda não conseguia, era mexer no
escritório do marido, entupido de papelada, cheio de pó em razão dele não
querer que ninguém limpasse o local. Não sabia nem por onde começar. Sabia que
um dia teria que criar coragem.
Passados meses, certo dia, sentiu que havia chegado
a hora. Ia, finalmente, conseguir enfrentar um dos seus últimos fantasmas.
Dirigiu-se resoluta ao escritório. Abriu a janela. Deixou que o sol invadisse o
ambiente.
Começou por
juntar tudo que estava em cima da escrivaninha. Em pouco tempo, encheu a
lixeira que ficava ali embaixo. Passou um pano úmido sobre a madeira
envelhecida. Sentiu-se mais encorajada. Havia superado o primeiro desafio.
Partiu para as gavetas. Quase desanimou.
Teve vontade de jogar tudo fora. Conteve-se.
“E se tiver algo importante aí no meio” – pensou com seus botões.
Era tanta coisa que foram necessários vários dias.
Separou notas fiscais, recibos, comprovantes de
pagamentos.
Até que se deparou com uma pasta manchada pelo
tempo, com uma capa diferente das outras, amarrada com uma fita avermelhada que
as traças haviam se fartado de devorar.
A primeira página indicava em letras garrafais: SIGILOSO
Sentou-se, pressentindo que se tratava de algo importante. Tinha todo tempo do mundo.
“Processo criminal contra Custódio Alvelim”
Encerrado por falta de provas
Ali, ficou sabendo que seu sogro, Custódio Alvelim,
numa briga, teria atirado acidentalmente em Tenório Trindade, seu vizinho, que
morreu prematuramente, deixando sua mulher, Jandira Trindade, grávida de cinco
meses.
Juntavam-se inúmeras notas promissórias assinadas
por Antônio Alvelim, filho de Custódio, com valores altos pagos à citada viúva,
que acusava recebimento.
A descoberta ficou martelando na cabeça de Ofélia.
A coincidência de nomes, o crime encoberto do qual nunca se falou, notas
promissórias pagas, tudo muito mal explicado.
Resolveu ir a fundo. Varou a madrugada, abrindo
pastas e lendo folha por folha.
Só percebeu que amanhecera, quando Sofia veio lhe
oferecer um café, achando que a patroa, apesar da hora, já estava fazendo
arrumação no escritório, cuja entrada lhe fora sempre proibida pelo patrão.
Apesar de exausta, Ofélia aceitou o café. Sua
madrugada havia sido reveladora.
Havia encontrado cartas e bilhetes que se
amontoavam numa caixa fechada a chave, que ela conseguira destruir.
Antônio e Jandira Trindade, enfermeira de profissão, mantinham um relacionamento amoroso desde a tentativa de abafar o crime cometido por Custódio.
Antônio foi criado naquela família em que o
dinheiro comprava tudo.
Com dinheiro, comprou o silêncio de Jandira.
Com dinheiro, comprou o pai de Ofélia. Este, ao
descobrir tudo sobre o crime cometido, começou a chantagear a família. Foi
convencido a entregar a filha em troca do silêncio.
Mas Antônio não “comprou” a felicidade. Viveu um
amor escondido. Fez a infelicidade de Ofélia e dos filhos.
Jandira, por sua vez, criou o filho sozinha, tendo
que manter em segredo o relacionamento com Antônio.
Quando ele adoeceu, achou que cuidando dele, tinha
mais chance de pleitear, para seu filho, a casa que para ela, por direito, deveria
ser dele numa forma de compensação.
Aquela proximidade e convivência diária, no entanto, mostrou-lhe a verdade daquele relacionamento. Antônio estava cada vez mais rabugento, bruto, insuportável.
Ofélia chamou os filhos. Revelou-lhes tudo que
havia descoberto. Inclusive sua suspeita:
“Talvez, um excesso de dose de remédios ministrado
por ela, tenham-lhe abreviado o tempo de vida”.
Apesar de tudo que vivera com Antônio, não poderia viver com aquela incerteza.
Lenita Fragoso, perita renomada, responsável por
elucidar vários casos, foi muito bem indicada para proceder a investigação.
Tida como morta, após sofrer grave acidente criminoso, foi obrigada a
ficar fora de circulação por um bom tempo.
Reservada, preferiu não entrar em detalhes. O importante é que estava de
volta e sedenta de colocar mãos à obra.
A primeira providência foi pedir a exumação do
corpo, instalando-se num hotelzinho da região, embora Ofélia lhe tivesse
oferecido hospedagem. Achou que ninguém deveria vê-las juntas, para não
atrapalhar o curso das investigações.
II capítulo – A Investigação
Enquanto aguardava o resultado dos exames
toxicológicos, procedimento que, por ser meticuloso, costuma demorar um tempo
considerável, Lenita debruçou-se sobre os aspectos do caso. Deu atenção a cada
detalhe que lhe foi passado por Ofélia e os filhos. Promoveu vários encontros, tentando
não deixar escapar nada.
A papelada do escritório foi vasculhada de cabo a
rabo. Pena Ofélia ter se desfeito dos móveis, inclusive do quarto hospitalar ali
instalado. Além do mais, a pintura de parede e a colocação de carpete de
madeira, talvez, pudessem encobrir alguma prova. Tinha que trabalhar com o que
lhe viesse às mãos.
O afastamento temporário de suas atividades não diminuíra
sua capacidade de investigação e muito menos sua intuição. Sentia que ali havia
fumaça e o ditado popular é sábio ao afirmar que “onde há fumaça, há fogo”.
Resolveu procurar Jandira. Para isso, usou o
subterfúgio do encontro casual. Durante dias, estudou cada passo da suspeita.
Seus hábitos, seus horários, seus locais preferidos.
Como turista, passou a frequentar as praças,
igrejas, empórios, que faziam parte da vida de Jandira, que logo a notou e a cumprimentou.
Daí para uma conversa na praça, foi uma questão de dias. Como Lenita imaginava,
não demorou para ser convidada para um café, convite que aceitou sem delongas.
A solidão de Jandira era visível. Sem amigos, sem
emprego, sem outras atividades. Dificilmente, recebia a visita do próprio
filho, que havia se mudado para um centro financeiro desde que se formara em
Economia.
Lenita, sempre munida do seu gravador ligado,
passou a ser companhia constante da enfermeira. E, de certa forma, eu diria,
confidente.
Não foi difícil à investigadora, com toda sua
habilidade, entrar em assuntos que pudessem levá-la a atingir seu objetivo, o
de que a interrogada deixasse escapar alguma informação reveladora.
Já estava desanimando, quando Jandira deixou
escapar que havia se aproximado do médico que cuidava de Antônio. Uma aproximação
com a qual ela chegou a se iludir.
No entanto, Dr. Oswaldo, deu-lhe a entender que Ofélia
o atraia, deixando-a decepcionada e com uma certa raiva.
Essa revelação deixou a
investigadora com a pulga atrás da orelha.
Procurou mencionar o médico em conversas com Ofélia,
que comentou que Antônio tinha confiança absoluta nele. Quando ela sugeriu que
ele procurasse outro profissional para ouvir uma segunda opinião, uma vez que o
tratamento parecia não surtir efeito, Antônio esbravejou, como sempre fazia,
dizendo que ela não devia se meter onde não era chamada.
Por essa razão, Ofélia saía de fininho, sempre que
o doutor vinha examinar o marido. E foram anos, antes dele ficar acamado.
Às vezes, quando Sofia estava muito atarefada com
os afazeres da casa, por educação, servia-lhe, ela mesma um café com biscoitos,
ao que ele agradecia efusivamente com um sorriso enigmático.
Ofélia comentou que, apesar de tentar ser simpático
com ela, havia nele um quê de falsidade que a deixava desconfiada da sua competência.
Mas Antônio não a ouvia. Nem aos filhos, com quem ela comentava o que pensava.
***
A investigação parecia tomar outro rumo.
Lenita estava diante de um grande quebra cabeça. Voltou
ao hotel, debruçando-se sobre suas gravações e anotações.
Procurava a ponta do iceberg.
O que teria deixado escapar – pensava ela?
Eram quatro horas da madrugada, quando adormeceu
entre papéis de anotação.
Acordou bem tarde, assustada com uma trovoada que anunciava tempestade. Estava faminta. Havia perdido o horário do café. Dirigiu-se à padaria perto dali. Estava tão absorta, tomando seu café, que nem viu quando Jandira entrou para abrigar-se da chuvarada que caía. Só então se deu conta do temporal e de que teria que aguardar. Não estava disposta a bater papo. Sua cabeça estava a mil. Assim que a chuva permitiu, retirou-se, despedindo-se, sem muita explicação.
Os próximos dias seriam dedicados à investigação sobre
o Dr. Oswaldo da Costa. Onde nasceu, viveu, estudou, fez residência, exerceu a
profissão, estado civil, existência de processos, tudo que pudesse envolver a
identidade do dito doutor. Nada.
Seria mesmo esse o nome do indivíduo?
Lenita escarafunchou tudo que pode. Consultou todos
os órgãos de investigação, criminal, científico. Resolveu pesquisar sobre um tal
de Oswaldo Leme da Costa Soares, que tinha várias passagens pela Polícia por
venda ilegal de medicamentos não aprovados pela Anvisa.
Descobriu que ele teria cursado dois anos de
medicina, sendo reprovado. Não constava que tivesse continuado e se formado.
Coincidência ou não, Lenita foi a fundo. O que descobriu, deixou-a atônita. Tratava-se
do mesmo sujeito. Havia fotos que não deixavam dúvida. Jandira mostrara-lhe
fotos do “doutor”. É verdade que mudara o corte de cabelo e deixara barba e
bigode. Ali, tratava dos doentes da região, muitos dos quais, constatou, falecidos
prematuramente.
A cidade pequena era bem apropriada para quem
queria esconder-se.
A perita teria que apresentar ao Ministério Público,
um documento muito bem fundamentado, com a juntada de documentação suficiente,
que embasasse a suspeita de que a morte de Antônio e, talvez, de outros
moradores da região, tivessem sido provocadas por tratamentos inapropriados.
O resultado do exame do corpo do falecido, veio corroborar com a investigação, ao revelar anomalias em alguns órgãos, provavelmente provocadas por ingestão de substâncias tóxicas, não contidas nas bulas dos remédios ministrados.
Após mais um mês, em que Lenita trabalhou dia e
noite na elaboração da denúncia, a família de Ofélia, ciente de todos os fatos,
entrou com processo contra o falso médico.
Oswaldo teve prisão preventiva decretada, evitando sua
fuga do país.
Posteriormente, o falso médico foi julgado e
condenado por júri popular, além de ter que pagar uma indenização às famílias lesadas.
Levantado por Lenita, o vultoso patrimônio de Oswaldo era mais do que suficiente
para pagar a todos.
Jandira não foi considerada cúmplice por ficar
comprovado que ela desconhecia o passado do réu.
Ofélia e Jandira tornaram-se amigas, unidas talvez pelas desventuras sofridas na pequena cidade. Devido às duas, e graças à persistência da investigadora, a justiça foi feita, com a prisão do impostor.
SONHOS DE CRIANÇA - Suzana da Cunha Lima
SONHOS
DE CRIANÇA
Suzana
da Cunha Lima
Lúcia
guardava no coração um sonho antigo.
Desses
que parecem nunca vão se realizar, mas não morrem; vão crescendo com a gente,
adquirindo formas novas e desejos mais elaborados: viajar num cruzeiro
marítimo!
E
esse sonho a acompanhou até se casar, quando o marido, então noivo,
totalmente encantado, lhe prometeu uma lua de mel no melhor e mais belo navio
que houvesse.
Pesquisou
com afinco o que havia na área dos cruzeiros de luxo e finalmente achou um que
oferecia o que havia de melhor e mais seguro, além do nome altamente sugestivo:
Sussurros de Amor.
Assim,
logo após a recepção, embarcaram, ela ainda com seu vestido de noiva, ele
com seus trajes de casamento, jovens, belos e apaixonados. Pararam no alto da
escada. Uma visão magnífica, o véu de noiva dançando ao redor deles, enquanto
ele a beijava no pescoço e ela acenava para os convidados parados no cais.
A
suíte nupcial era linda, enorme, com uma varanda apenas entrevista através da
cortina vaporosa. Cama king size, TV de tela plana, banheira de
hidromassagem, um luxo para reis!
Porém,
eles dois, sôfregos, estavam mais interessados em se descobrirem, quando
ouviram o estrondo de um trovão e todas as luzes se apagaram. A tempestade
irrompeu com força, com mais barulho do que perigo. Raios e trovões cruzavam o
céu, sinistramente muito escuro.
Até
os geradores entrarem em ação, foram minutos de histeria nos passageiros,
muitos deles ainda no convés, apreciando a saída pela baía, coalhada de luzes.
Porém,
o navio seguiu impávido, guiado pelas hábeis mãos de seu comandante e suas
palavras tranquilizadoras.
Porém,
quando tudo parecia amainado, a tempestade já havia perdido a força, ouviu-se
um grito desesperado pelos autofalantes: HOMEM AO MAR!
O
comandante acionou todo o sistema de luzes e pedidos de socorro e precisou
fazer muitas manobras para fazer o navio voltar e tentar resgatar o passageiro
que havia caído no mar, numa noite escura e com o mar ainda encapelado.
Pediu
aos passageiros que voltassem às suas cabines, colocassem seus salva-vidas e
esperassem em silêncio.
Foi
quando Carlos procurou a noiva e não a encontrou na cama. Como? Estavam ambos
despidos, embaixo dos edredons, e subitamente, ela não estava mais ali. Não
estava mais ali? Que coisa absurda!
Lembrou-se
do terror dela diante dos trovões, quando precisava acalmá-la, apavorado que
ela fizesse algo impensado. E ela já fizera isso antes.
Vestiu-se
correndo, olhou pela cabine inteira e saiu para informar ao comandante. Mas não
a encontrou. Seu medo atingiu píncaros absurdos. Onde Lúcia poderia estar?
Quem
sabe ela estaria vagando pelo convés, apavorada?
Um
trovão pode ser poderoso e aterrador, claro, mas não faz ninguém sumir de uma
hora para outra. A menos que…
Subiu
à cabine do comandante e, de longe, percebeu algo errado. Um aglomerado
de pessoas aflitas, muitas chorando. Haviam resgatado o passageiro do mar
naquele momento.
Seu
coração parou.
Alguém
estava cobrindo aquele corpo lindo de Lúcia com um cobertor.
