Julieta ou Júlia
Ises
de Almeida Abrahamsohn
Julieta entrou no restaurante exatamente na hora marcada. Estava ansiosa.
Era
o terceiro encontro que marcava pelo novo aplicativo. Os outros dois foram um
desastre. Em um deles, na verdade, nem chegara a falar com o potencial par. De
longe, já percebera o engano. Era um idoso, ela tinha horror à palavra velho,
talvez já com uns setenta anos. Os sites de encontros permitem muitas mentiras.
Ela mesma se apresentava como Júlia, o nome Julieta era antiquado, divorciada
de 43 anos; na verdade tinha 58 anos, à procura de um companheiro com idade
entre 45 e 55 anos, independente financeiramente, para um relacionamento
baseado em amizade e interesses comuns como viagens, música e arte. E estava
difícil. A questão principal, e ela tinha plena consciência disso, era a idade.
Homens com sessenta anos queriam mulheres quinze ou vinte anos mais jovens. Nas
primeiras experiências com aplicativos, havia colocado sua idade real e
apresentaram-se candidatos com mais de 75 anos. Julieta sentia-se jovem, bem
disposta e queria um parceiro de idade semelhante à sua. Não queria se atrelar
a um companheiro que em breve precisaria de uma enfermeira.
Estava
esperançosa. O contato pela internet fora excelente. Trocaram fotos. As de
Julieta passavam bem por uma mulher mais jovem, graças a um amigo fotógrafo que
caprichara na iluminação e dera alguns retoques no Photoshop. O “date” era
Reinaldo, no site dera a idade de cinquenta e dois anos, também divorciado,
tinha dois filhos adultos e interesses semelhantes aos seus.
Julieta
se vestira com cuidado, vestido com mangas e decote discreto, comprimento mais
curto do que costumava usar, saltos altos. Os cabelos castanhos com
reflexos, compridos, soltos e volumosos, associados à cuidadosa maquiagem,
faziam-na passar facilmente por mulher quinze anos mais nova.
Caminhou
com passos seguros até a mesa onde Reinaldo já a esperava.
Parece
mais velho que cinquenta anos, pensou, mas está bem conservado. E não tem
barriga. Detestava homens desleixados que deixavam a barriga inchar como
grávidas.
Cumprimentaram-se,
e Julieta, agora como Júlia, ia se animando com a conversa. Reinaldo
perguntou se ela tomaria vinho e encomendou uma garrafa de Chardonnay,
escolhido entre os menos custosos. A conversa corria solta. Júlia se anima com
a segunda taça de vinho. Contava episódios de sua adolescência e
escola. Reinaldo se mostrava interessado e contava também sobre sua
juventude vivida em Campinas. Pediram café para encerrar a refeição. Júlia
estava esperançosa. Finalmente um date com potencial de se tornar um
companheiro. Será que ele proporia um segundo encontro?
Foi
quando Reinaldo falou:
—
Júlia, preciso lhe contar uma coisa antes de nos despedirmos.
Pronto,
pensou Júlia, aí vem… Vai dizer que é casado ou arrumar alguma desculpa.
― Gostei muito do
seu jeito, mas tenho que lhe dizer a verdade. Tenho 62 anos e não 52 anos. O resto que coloquei lá é verdade. Sou engenheiro de produção e ainda quero
trabalhar uns bons anos. E eu suspeito que você também tem algo para me contar.
Julieta
deu um sutil suspiro de alívio. Armou seu melhor sorriso e decidiu:
—
Reinaldo, eu também não tenho 43 anos. Na verdade, tenho 58 anos e meu nome é
Julieta. E gostaria de um novo encontro. Eu também suspeitei que você
tinha idade próxima à minha quando você usou as palavras bidú, bitolado,
cafona, eu logo reconheci. São as gírias dos anos sessenta. Eu também uso essas
mesmas palavras. Você deve ter percebido alguma outra que me escapou.
Ambos
começaram a rir. Reinaldo propôs:
― Vamos brindar
então ao nosso encontro, afinal, beber umas
e outras com um broto legal como você não acontece todo dia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário