Urgência investigativa - Silvia Villac

 

 


Urgência investigativa

Silvia Villac

 

Protássio estava acostumado a lidar com pressão, mas, nesse momento, a vida de Helena, uma criança de apenas 4 anos e meio, dependia mais uma vez de sua habilidade.

Sequestro é sempre um jogo de vida ou morte. Ou cara e coroa porque você pode descobrir o cativeiro ou pagar o resgaste. Porém, em ambos os casos, ainda assim se corre o risco de não encontrar o refém vivo.

Os pais da pequena queriam pagar logo a quantia exorbitante mesmo para um banqueiro, mas, tão logo foi contratado, Protássio deixou bem claro que seria ele a dar as cartas e, em primeiro lugar, era necessário obter alguma prova de vida.

Ela havia sido sequestrada na saída da escola, assim que o segurança abriu a porta do automóvel blindado. Encostaram a arma na cabeça do pobre coitado e, em questão de segundos, a garota foi levada.

O prazo para pagamento do resgaste era de 1 dia e as primeiras 10 horas já tinham se passado e o detetive ainda não havia descoberto praticamente nada.

Os pais o pressionavam, mas ele insistia que esse não era seu método e que eles deviam acreditar que todo o possível estava sendo feito.

Foi montado um esquema de monitoramento e rastreamento de celulares e, desde o 3º contato telefônico, já era Protássio quem atendia as ligações, dizendo ser um amigo da família, estava ali para finalizar tudo o mais breve possível.

Enquanto isso, ele já havia contatado seus amigos da DP, que estavam “mexendo os pauzinhos” e levantando a ficha de todos os empregados e amigos mais próximos da família.

Aparentemente, Protássio tentava passar segurança para os pais, mas por dentro estava muito tenso porque não saía de sua cabeça o caso dos Maldonados, cujo desfecho havia sido trágico: apesar de o resgaste ter sido pago, o pequeno Lúcio nunca voltou para a família.

“Isso não pode tornar a acontecer”! Olhava o celular a cada 2 minutos e só quando faltavam 5 horas para o final do prazo é que recebeu uma notícia que o deixou com esperança de solucionar o caso.

Os detetives da DP haviam descoberto que o “pobre do segurança” tinha ficha criminal em um estado do nordeste do Brasil. Havia trocado de nome e alterado seu RG e CPF, mas fora possível reconhecê-lo através da identificação facial.

Ele já estava nesse emprego há 2 anos e meio e havia sido muito bem recomendado, não se compreendia, dessa forma, como isso fora acontecer.

Com sua experiência e já sendo “macaco velho”, Protássio “espremeu” o sujeito, que não demorou muito, foi logo se entregando. Havia se tornado um viciado no tal do “Jogo do Tigrinho” e acabara devendo dinheiro para um agiota. Ele havia se comprometido a “se emendar” e, de fato, estava “andando na linha”, mas o vício o fez escorregar.

A polícia estourou o cativeiro e encontrou a pequena Helena dormindo o “sono dos justos”, abraçadinha com sua boneca preferida.

Quando Protássio recebeu essa notícia, olhou para o relógio e viu faltarem apenas 5 minutos para o término do prazo dado pelos sequestradores.

“Hoje é um dia que merece ser comemorado”, ele disse para si. Os pais de Helena choraram enquanto abraçavam o detetive, que continuava com aquele velho paletó surrado, com aspecto sujo, mas o casal parecia não se incomodar com esse detalhe, pois o desfecho foi feliz.

Protássio deixou a mansão, entrou em seu velho Corsa desbotado e foi direto para o boteco de costume tomar “umas e outras”. O pagamento por seu serviço podia ser feito depois, porque o importante era “bebemorar”!

 

 

 

Parodiando notícia americana - Yara Mourão

 




Parodiando notícia americana

Yara Mourão

 

Ser um jornalista importante era o sonho de todos os alunos do curso de Comunicações da faculdade. Buscavam motivos, procuravam problemas para fazerem uma reportagem, para darem uma notícia.

Um dia o professor chegou com um anúncio incrível: queriam que se designasse o melhor dos alunos, ou já um profissional, para participar de uma importante reunião na Secretaria de Segurança.

Indicaram Pedro Duarte, o mais preparado de todos.

Sem muita demora, no dia determinado, nas proximidades da faculdade, a Polícia Federal já cercava o prédio da Secretaria de Segurança Pública.

Pedro chegou cedo para se certificar das providências. Logo foi conduzido ao salão das reuniões, onde um grupo de altas autoridades já se encontrava. Estranhou a movimentação, mas seu crachá estava pronto e ele não tinha com o que se preocupar.

Não, até o início da reunião secreta.

Ali, num recinto sufocante, Pedro foi se confrontando com as discussões, com as proposições colocadas. Achou tudo muito estranho. Duvidou da indicação de sua presença, se seria mesmo necessária.

O que se debatia eram estratégias de busca e apreensão, de aprisionamento e de possíveis torturas de pessoas sob suspeita de conspirar contra o Estado.

O que Pedro poderia dizer? Era somente um aluno, não um jornalista tarimbado e da estrita confiança dos órgãos de segurança nacional.

Mas a busca por um furo jornalístico falou mais alto e Pedro quedou-se, abismado, entre segredos, verdades e suposições de cunho altamente secreto do País.

Assim, ficou sabendo de coisas que nunca imaginara saber! O que fazer com essas informações? Guardar para si não fazia sentido. Publicar? Mas eram questões de segurança nacional, altamente secretas.

Pedro se recolheu em um profundo mal-estar.  Certamente fora um engano ele estar ali. Pensou em se desmascarar, mas temeu represálias. Agora tinha provas concretas do envolvimento arbitrário e violento dos órgãos da Defensoria Pública.

Ao primeiro sinal de intervalo, Pedro se retirou do salão. Saiu rápido, quase fugindo. As notícias de acontecimentos reais passavam pela sua memória. Não! Não poderia guardar para si o testemunho da violência oficial.

Ainda era dia quando Pedro enviou mensagens à Faculdade de Comunicação, ao professor e aos caros colegas: “Pessoal, há mais coisas entre o céu e a terra como dizia Shakespeare. Temo pelo que virá. Abro mão de minhas anotações para que o público se dê conta de fatos dos quais nem suspeitavam!”

E agora Pedro era quase um desertor, um vencedor ou um vencido, não sabia. Aguardava as consequências.

Fora tudo muito inusitado; parecia um imenso qui pro quo, uma história de filme policial americano.

Alunos e professores debateram por dias se a prevalência das notícias sobre a sociedade desinformada não é uma faca de dois gumes.

 

 

JULINHA VAI ÀS COMPRAS - Suzana da Cunha Lima

 



JULINHA VAI ÀS COMPRAS

Suzana da Cunha Lima

 


Julinha vai às compras.

Isso significava vestir um pobre/chique.  Vestidinho fora de moda, peruca sem graça e outros artifícios para parecer pobre, mas não tanto, ou seja, pobre para o ladrão desistir de assaltar e o meio chique era para poder entrar em certos estabelecimentos, até mesmo escritórios, para vender suas rabanadas, sem parecer moradora de rua.

Claro que não precisava do dinheiro da venda das rabanadas para nada.  Porém, foi o modo que arrumou para poder entrar na loja do marido e dar uma incerta.

E de quebra, livrou-se de muitos assaltantes que nem sonhariam que, debaixo daquela breguice, estava uma empresária bem-sucedida, de carro zero na garagem.

Porém, naquela segunda-feira, o que ela ia mesmo fazer era dar um “perdido” no marido, ali, na loja dele, no trabalho dele.

Desconfiava da moça que circulava nos vestiários mais do que a bonitinha da caixa. Essa era uma prisioneira daquele guichê, com poucos momentos de folga, porque NÃO tinha substituta designada.

Ah, mas a outra, ah, a outra! Quase sufocando num vestido justo, que favorecia seus seios generosos e com aquelas pernas bronzeadas equilibradas num sapato bico fino altíssimo, andando pra lá e pra cá, num rebolado indecente, era o desfrute de quem estava lá.

Só podia ser ela mesmo a razão dos suspiros e olhares lânguidos dele, até mesmo quando estavam na cama. Não haveria de ser por mim, uma pobre marquesa, pensava ela, olhando os seios caidinhos e uma barriga flácida remanescente de um regime feroz.

Então, meu caro, não é a outra, sou eu mesma, a mãe de seus filhos e é o que temos para hoje, goste ou não. E assim ia levando sua vida sexual com o marido, porque ela sabia muito bem como compensar suas frustrações.  Ou seja, ela também suspirava pelo entregador de pizza, do qual o maridão não tinha o menor conhecimento! HaHaHa

 

 

Clube das Palavras - Adriana Frosoni

 

Clube das Palavras

Adriana Frosoni

 

O grupo de escrita criativa se reúne toda terça-feira à tarde em uma sala do departamento cultural. O ambiente tem um ar nostálgico, mas o cheiro do café fresco trazido na hora, muitas vezes pelo senhor Zezinho, um dos mais antigos e queridos colaboradores do clube, aquece o ambiente como um abraço. Alguém do grupo sempre traz bolo ou outra guloseima, carinhosamente.

Somos, em sua maioria, mulheres — talvez porque sempre tivemos a necessidade de contar histórias, de organizar o caos da vida com palavras, de remendar as ausências com ficção. 

O grupo desenvolve um tema, escreve textos e, cada um, segue lendo seu trecho da semana, esperando o parecer dos colegas. Saímos da reunião sempre carregados de reflexões e, no fundo, todos sabemos: aprendemos muito uns com os outros.

Entre nós, atualmente, há somente um homem, que se destaca não apenas pela presença masculina, mas pela precisão gentil com que analisa nossos textos: Doutor Oswaldo, médico de profissão e escritor por paixão. Sua crítica é um bisturi afiado, mas manuseado com delicadeza. Ele ouve todos com atenção, observa a construção das frases, a cadência das palavras, o fôlego da narrativa. Quando lê o próprio texto, há um misto de serenidade e exatidão em sua voz, sem nunca perder o ar bem-humorado. 

Eu, que venho escrevendo há poucos anos, aceito as observações dele com admiração, ouço seus pontos de vista como se minha história fosse um paciente que merece uma segunda opinião. Pois ele sempre nos motiva, e quando elogia, é porque há mérito. Há um aprendizado oculto na delicadeza das suas palavras. E, se um dia eu conseguir deixá-lo sem palavras, saberei que estou no caminho certo.  


O mistério do Sr. Bruck - Suzana da Cunha Lima

 

O mistério do Sr. Bruck

Suzana da Cunha Lima

 ROTEIRO TEATRAL

 

Primeiro ato

(Homem idoso arrasta o chinelo de couro até a poltrona do alpendre onde senta à espera de passantes. O calor o incomoda, ele enxuga o suor da testa com frequência).

(Como não enxerga bem, força a vista para identificar a voz feminina que está cantarolando.)

 

NAIRPisa na fulô, pisa na fulô. – (cantarola a vizinha enquanto pendura roupas no varal do quintal).

 

SEU BRUCK: (estica o ouvido para o lado da voz que ouve)

Logo cedo e esse calorão de assar de um boi, hein Nair!

 

NAIR: (Ela olha para ele, e sorri) - É bom pra secar minha roupa, Seu Buck – (Ela se lembra de algo, vira para ele, se aproxima do muro) – O Nando, meu filho, disse que na aula de história que ele teve ontem, citaram um tal Cavaleiro Branco que viveu na sua terra. (Levanta as sobrancelhas). Quer dizer, então sua cidade existiu mesmo?

 

SEU BRUCK: (fica irritado, se ergue da cadeira num ímpeto, e grita muito bravo) - Mas é isso, a senhora acha que minto!

Onde já se viu! – (Franze a testa e enxuga imediatamente o suor) – (senta-se devagar e amansa a voz demonstrando

curiosidade)

 O que falaram sobre o Cavaleiro? O povo de hoje

não sabe nada dele.

 

 

(Suspira pensando:  vamos ver o que inventaram sobre o Cavaleiro Branco).

 

(Nair se aproxima mais ainda do muro com os pregadores de roupas na mão. Cochicha como se não houvesse ali somente os dois.)

 

— Tem muito boato, sabe? Mas pelo que dizem, este Cavaleiro Branco existiu mesmo. Mas que diachos ele fazia?

 

(Mr.Bruck sorriu, mais alegre. Refastelou-se na cadeira e buscou seu copo de limonada que tinha chegado gelado e já estava morno)

 

— O que ele fazia? Santa Ignorância...Era simplesmente o chefe dos Maçons. Ou a senhora também não sabe o que são os maçons? Já ia começar a caçoar de Nair, mas ela não deu a menor chance)

 

(Nair se afastou meio ofendida, arrastando as chinelas, ostensivamente)

 

— Nosso professor disse que ninguém é obrigado a saber falar estrangeiro. Onde já se viu...Lá vem o senhor com este palavreado só pra se mostrar muito inteligente...

 

(Entra em casa, resmungando: É por isso que está aí sozinho, ninguém chama pra nada. - E bate a porta com força.)

 

(Mr.Bruck ficou ali meio estatelado com a reação da vizinha, geralmente gente boa.  Como ela não voltava, tratou de se recolher e buscar o alpendre dos fundos de sua casa, mais fresco àquela hora – foi resmungando)

 

— Mas quem diria, a Nair, sempre tão amável... Será que o sol está torrando os miolos dela? Também... lavar roupa ao meio dia, neste sol ? Tem gente que não tem noção mesmo...

 

 (Mas ao passar pela cozinha de sua casa, sentiu o cheirinho do café que a mulher estava coando e já foi se sentando por lá)

 

— Oi Cidinha, a Nair deve estar de TPM, viu? Me respondeu agora como se eu tivesse ofendido o Santo Papa.

 

— O quê? Onde você escutou esta palavra? Aqui em casa não foi não, pois nunca lhe dei a ousadia de pronunciar esta palavra. A gente sempre diz “naqueles dias” e todo mundo entende do que se trata.

 

- Sou seu marido, oras! Pra quê tanta frescura? Céus, vou já pro boteco do Neco. Pelo menos lá nos entendemos. A mulherada hoje parece que está toda de TPM.

 

(E levantou-se logo em direção à porta da cozinha que dava direto para a calçada. Ainda repetiu a malfadada palavra mais duas vezes, bem alto, pra mulher escutar e ficar bem irritada.)

 

— TPM! TPM !

 

— Ora, seu malcriado!

 

(E recebeu de volta, na cara, um pano de limpeza bem fedorento e molhado.  Sr.Bruck mal teve tempo de se apoiar no batente da porta, arrancar o pano que tinha se enroscado no seu pescoço, e sair com a ligeireza que suas pernas permitiam.)

 

(Mal chegou na rua,  recebeu o bafo de um sol irado de 40 graus, tonteou e caiu na calçada) Ainda teve tempo de gritar:

 

— Socorro!

 

E desmaiou.  O vizinho que ia passando ainda teve tempo de lhe aparar, impedindo que a queda causasse maiores complicações do que um susto grande- Tentou acalmar sr. Bruck e ao mesmo tempo pedir socorro, porque o velhinho era bem pesado)

 

— Pronto, Sr. Bruck, graças a Deus cheguei a tempo!

 

— D. Cidinha! Ajuda aqui! Seu marido está passando mal!

 

(Alguns transeuntes estavam passando por ali e correram para ajudar. Outro tocou a campainha e uma senhora teve uma crise de histeria)

 

— O que foi, gente, Morreu?

 

— Que morreu nada, o velhinho aqui ameaça, mas não vai...

 

— Já vai tarde, sabe, oh velhinho chato!

 

(Cidinha abriu a porta da casa, viu aquele monte de gente em redor do marido, estatelado na calçada, e se jogou aos pés dele, chorando e gritando)

 

— Ah, minha Nossa Senhora dos Nós Trançados! Me ajuda aqui. Não posso perder o Eustáquio Bartolomeu agora. Não agora, me ajuda, me ajuda!

 

Ainda falta uma prestação para o seguro de vida, ele não pode ir embora assim, sem aviso, é só mais um mezinho.

 

(foi quando reparou na mulher loura que soluçava e gritava ao mesmo tempo. Cidinha gritou furiosa:

 

— Quem é aquela louca que está chorando tanto e chamando meu marido de Taquinho?

 

 

 

(E foi assim que a vizinhança soube de três coisas naquele dia:

 

1 -- Que o nome de sr. Bruck era Eustáquio Bartolomeu

 

2 – Que haviam feito um seguro de vida e só faltava um mês para ser quitado.

 

3 – Que havia uma Nossa Senhora dos Nós Trançados de quem nunca ninguém tinha ouvido falar.

 

 

Mas ninguém soube responder quem era aquela mulher loura que chamava sr.Bruck de Taquinho)

 

E tudo isso foi murmurado, cochichado, gritado por toda aquela gente que mal conhecia o casal. Mas amava uma fofoca.

 

(Enquanto a cortina lentamente vai se fechando ).

 

 

 

 

 

SUZANA DA CUNHA LIMA

 

O Misterioso Segredo - Yara Mourão

 



O Misterioso Segredo

Yara Mourão

 

Andar, andar, que a noite murmura mistérios por entre os prédios, pelas luzes fracas dos abajures nas janelas, no chão do abandono ao final das ruas.

Contemplo esse pergaminho de segredos.

Silenciosos, mas que gritam pelos ares murmúrios de dor, de amor, de incontáveis histórias.

No meio da noite morta, não necessito de sono. Ouço confissões. Dos amantes ainda despertos entre o sonho e o descontentamento.

Chego à porta de Claudio.

Ele dorme? Não dorme.

Ele sussurra palavras de amor.

É Clarice quem o escuta. Ela… Clarice… a que voltou de um lugar distante para reencontrar quem já não a sabia mais.

Quisera ouvir o que dizem.

É tudo uma névoa escura, um murmúrio de mar, um ruído de asfalto. Mas há sinais. Luz na janela da cozinha. Ah! Acordaram e vão beber algo. Mas não! Logo a luz se apaga. A janela se abre e o gato salta para o jardim. O vulto de Clarice passa na penumbra, os longos cabelos soltos, um leque nas mãos.

A casa se ilumina de novo; é uma estrela piscando no meio da noite para orientar os passantes solitários.

 Esse passante sou eu. Um poeta. Que volta a andar, andar. Sem descobrir o segredo dos corações apaixonados.

E volto a andar até o final da noite, desacordada, porque sou um poeta e um poeta não necessita de nada.