RESILIÊNCIA - Yara Mourão



RESILIÊNCIA

Yara Mourão


Nos limites do pântano, havia uma trilha fechada, serpenteando por um terreno movediço até a clareira no pé do morro.

As pessoas que se aventuravam a cruzar esse lado do país não davam respostas simplesmente porque não saiam vivas dali.

Mas havia uma urgência na vida de Diego que o impulsionava a buscar a descoberta da liberdade ou talvez a salvação.

Na vila quente e úmida em que ele morava, a violência cancelava planos, matava o futuro e ceifava vidas. Ele não tinha nada a perder. Sua família já se desintegrara, suas posses se foram e os amigos também. Diego só tinha uma esperança que o mantinha vivo: encontrar Juanita, o amor interrompido pela busca da sobrevivência.

Numa manhã abafada, de nuvens baixas, ele se esgueirou pelo vilarejo adormecido e, como um animal que segue o faro de um alimento, chegou, sedento, ao entorno da trilha.

Levava alguma provisão, algumas ferramentas. Embrenhou-se. Seguiu sem descanso até o entardecer. Tinha que conseguir atravessar a fronteira porque Juanita já estava lá, do outro lado.

Cansado, sentou-se sob uma árvore, arfando. Era, agora, um pássaro ferido. Não sentia as pernas, o corpo doía a qualquer toque. Adormeceu sem querer adormecer.

À noite, a mata uiva. A escuridão congela a alma.

Diego tentava erguer-se, defender-se de qualquer coisa. Tinha muito medo e, sem querer que isso acontecesse, chorou. Chorou pela fuga, pela morte anunciada, pelo amor doído, na saudade de Juanita.

Até que amanheceu. Bebeu gotas amargas de seu cantil e pôs-se a andar. Andar, correr, cair. Caiu e a dor que não tinha que acontecer veio amarrá-lo ao chão. Seguiram-se horas… intermináveis minutos… lágrimas se misturavam ao sangue que escorria pelo seu rosto. Depois veio a febre, o delírio. Ele só conseguia murmurar: ”Juanita, eu vou chegar! ”

Via as luzes morrerem sob as sombras, os pequenos animais se agruparem e fugirem, as cobras se aproximarem ameaçadoras. Não; ele não ia se dar por vencido. Tinha de chegar do outro lado, onde um areal anunciava o novo destino, uma terra prometida para o povo daquele lugar.

Diego lutou com todas as lembranças, com todas as promessas que ainda trazia no coração.

Bebeu toda a água que tinha; comeu as plantas do caminho; jurou que não morreria. Seguiu, trôpego. Andou, se arrastou, até que, numa tarde quente, por entre os galhos do fim da mata, viu aquele brilho arenoso, quase irreal, da praia agreste.

Só pôde dar seu grito de sobrevivência num soluço rouco: “ Juanita, cheguei!’

Diego prostou-se e abraçou a si. Ele soube o quanto é preciso querer viver. E depois, continuar, sem nunca desistir da remota possibilidade de ser feliz.


Antologia 2024: PARTIDAS E CHEGANÇAS. - Sobre criar histórias e publicá-las. - FOTOS

 


(Antonia, Dr Braga, Malina, Adriana, Suzana e Dr Oswaldo. A Silvia e o Gustavo saíram mais cedo e não aparecem nesta foto.)



OBRIGADA, ESCRITORES DO ESCREVIVER!

Sobre criar histórias e publicá-las.

Sobre a Antologia 2024: PARTIDAS E CHEGANÇAS.

 

 

É sempre um prazer enorme compartilhar com vocês a alegria de publicar um livro.

Uma tarde de autógrafos é sempre um marco especial para cada um. Foi assim com o lançamento da obra PARTIDAS E CHEGANÇAS, livro escrito por aqueles que tiveram coragem de transformar sonhos em palavras e palavras em histórias. Sim, precisa de coragem para criar, precisa de coragem para se despir da realidade e criar a ficção.

Aos nossos queridos alunos de escrita, todos eles, de hoje e de sempre, e em especial aos autores da antologia 2024 PARTIDAS E CHEGANÇAS, quero dizer que esta é uma conquista que carrega mais do que páginas preenchidas; carrega esforço, criatividade e a vontade de compartilhar mundos que só vocês poderiam criar.

Como já foi dito um dia, vocês não são apenas escritores, são tecelões de ideias, sentimentos e imaginários que agora ganharam vida.  Cada linha escrita reflete um pedaço de vocês, um esforço genuíno de dar forma ao fantástico, e isso nos dá muito orgulho.

Também dedicamos nossa gratidão ao CLUBE ALTO DOS PINHEIROS, ao DEPARTAMENTO CULTURAL e sua DIRETORIA, que oferece o espaço para aprendizado, inspiração e crescimento. O espaço escolhido para o evento do lançamento foi o Bar Baríssimo, um lugar acolhedor, espaçoso, muito bem mobiliado. E a música do saxofonista Carlos abrilhantou o evento. Todos os detalhes estavam perfeitos. Parabéns ao Departamento Cultural pelos preparativos.

Saibam que a OFICINA DE ESCRITA CRIATIVA ESCREVIVER desde o ano de 2012 fica na sala de cursos na Biblioteca, lugar apropriado para leitores e escritores. E, do EscreViver sou coordenadora desde o começo, do que muito me orgulho.

Não imaginam como é prazeroso ver os nomes que estiveram conosco hoje no lançamento, o mesmo prazer sentimos com os nomes que já passaram pelo EscreViver deixando linhas, rimas e histórias publicadas no blog e nos livros. 

Vejo com alegria os mais de 50 livros publicados pelos escritores nesse período, textos premiados, livros premiados que merecem destaque. Vejo o prazer nos olhos de cada um, a satisfação de contarem sobre suas criações e publicações, a aproximação com netos e amigos, a realização do novo…

O ESCREVIVER não agrega apenas incentivo literário, ou apenas fornece ferramentas necessárias para uma boa escrita, não somente isso. O EscreViver aproxima pessoas que buscam incentivo para prosseguir com prazer e realizar novas descobertas.

É graças ao ambiente acolhedor, aos recursos compartilhados e à paixão em promover o poder da escrita que tantos talentos têm florescido nos nossos livros.

O clube não é apenas um lugar onde se pratica esportes ou se reúne com amigos, é também onde se aprende, onde se vivem experiências inovadoras, onde as pessoas se encontram com elas mesmas.

E o ESCREVIVER é uma comunidade onde se sonha junto, onde as palavras se coordenam em eco e as histórias encontram um lar.

Todos os escritores do EscreViver saibam que suas palavras têm o poder de tocar corações, despertar mentes e inspirar o mundo.

Continuem escrevendo, dentro ou fora do ESCREVIVER, continuem a sonhar e nunca deixem de acreditar na força que cada história carrega. Nunca deixe apagar a chama da criatividade, do inesperado, do amor que os personagens carregam nas histórias e despertam na gente. 

A cada texto, a cada aula, vamos plantando sementinhas textuais, com isso, muitas páginas brilhantes ainda virão!

 

Parabéns, autores:


Adriana Frosoni

Antonia Marchesin Gonçalves

Dr. Fernando Braga


Gustavo Kosha

Maria Luiza Malina


Dr. Oswaldo U. Lopes

Silvia Villac


Suzana da Cunha Lima




ESPAÇO RESERVADO PARA FOTOS DO EVENTO:















































Nove Anos de Silêncio - Yara Mourão

 




Nove Anos de Silêncio

Yara Mourão

 

Um nascimento é uma festa, uma agitação. Um renascimento também.

Só que a espera é uma sensação e a esperança é um sentimento.

Se esgueirando pelas portas abertas, a vida quer acontecer de qualquer forma. Ainda que perturbando a ciência e glorificando os céus.

Bento é como um baú enterrado com mensagens para serem lidas no futuro, quando forem descobertas. E, também, é uma testemunha do tempo. De qual tempo? Desse que passa célere e impiedoso, queimando memórias e roubando vivências.

Quando apareceram os primeiros sinais de que Bento acordaria de seu coma profundo, houve uma comoção enorme. Toda a família acorreu ao leito. Entre lágrimas e orações, os apelos de todos fizeram os olhos de Bento se abrirem, suas mãos tocarem outras mãos e ele balbuciou sons incompreensíveis.

Depois que todos se foram, Bento se deu conta de que existia.

Mas, ser um homem, o que seria? Seu corpo lhe era desconhecido; mexer qualquer coisa era estranho e doído. Enxergar luzes e sombras, grandes superfícies ou detalhes pequenos tudo era bem instável ainda. Mesmo perdido nessas sensações, ao menos estava feliz percebendo que ainda estava vivo.

E assim se passaram dias, semanas. Um pouco a cada dia Bento veio ao mundo. Ao mundo que ele não conhecia mais.

Não tinha lógica o que via nos jornais, ou na T.V. O idioma era quase outro, recheado de abreviações incompreensíveis. E aquela maneira silenciosa e interminável de comunicação pelo celular o incomodava bastante.

Bento nem gostava de lembrar de seus anos passados. Já tinha pudor de fazer perguntas, as pessoas se impacientavam com ele. Pois tudo lhe causava espanto e desilusão: “ Brexit? Como assim? Covid-19? O que é isso? A rainha morreu? Tsunami implacável?” Era uma jornada diária de sustos e decepções, o que levou Bento a crer que dormira mais de um século.

Começou a formar uma nova filosofia para a sua vida onde o tempo, ganho ou perdido, era apenas uma questão de perspectiva, e que ele não iria mais se angustiar com isso. Só queria viver.

Assim, seguiu a vida.

E um dia, cansado de tantas voltas que o mundo dá, chamou de lado o companheiro de sempre, e disse assim, meio ansioso: “Sabe, uma coisa eu gostaria muito de saber: será que nesse tempo todo o Corinthians foi campeão?”

Ai, Bento, essa não!

Na verdade, creio que por mais que se filosofe, uma coisa é eterna: o coração dos homens é uma caixinha de surpresas, e às vezes, mais vale uma pequena notícia do que uma grande revelação!

                                                                                                                                                                                                                  

FELÍCIO, O BOM VELHINHO - Antonia Marchesin Gonçalves

 




 

FELÍCIO, O BOM VELHINHO.

Antonia Marchesin Gonçalves.


    

Felício estava em paz naquele dia, havia acabado de enterrar sua mãe querida.

Era filho único, morando no sítio no interior de São Paulo, onde cresceu e desde bem pequeno ajudou os pais, convivendo com o dia-a-dia da agricultura.

Aprendeu a realizar todas as tarefas do preparo da terra, plantio, colheita, armazenamento e venda dos produtos.

Quando os pais envelheceram e adoeceram, ele cuidou deles. Primeiro o pai, e depois a mãe. Apesar do desolamento, via-se com a missão cumprida.

Meses depois, começou a sentir a casa vazia. Era natural o silêncio e arrebatamento com o avançar da idade. Mais tarde, o início de ansiedade e solidão. Foi quando pensou: não posso deixar que a depressão assuma minha vida, preciso fazer algo.

Felício, então, teve uma ideia que lhe parecia satisfatória. Ligou para a Prefeitura, pediu autorização para trazer, uma vez por semana, as crianças da creche ao sítio. Eram crianças de cinco a sete anos. Ele era um homem rico, não teria problema em financiar tudo, desde o transporte até a cozinheira. Teriam as crianças o café da manhã e almoço elaborados com frutas, legumes e verduras colhidas na propriedade. O lanche da tarde teria leite de suas duas vaquinhas.

A direção da escola considerou que seria um bom aprendizado a vida no campo e autorizou o passeio semanal das crianças. Seria uma atividade de mão-dupla, aprenderiam as crianças e fariam companhia para Felício, o bom velhinho.  Os professores, imediatamente, organizaram aulas semanais ao ar livre, onde aprenderiam a plantar, regar e colher. Com Felício aprenderiam, além de todas as tarefas de cultivo, a manter a casa em ordem, mesmo que estivesse sozinho.

Felício ficou muito feliz com a programação e trabalhava para que tudo fosse prazeroso para as crianças. Chegou a montar um playground completo na vasta área próxima à casa.  

Com o tempo, tudo virou uma encantadora realidade. Os seus gatos e cachorros se acostumaram com as crianças e interagiam felizes.

Certo dia, ele se sentiu muito mal e não conseguiu se levantar. Faleceu ali mesmo, entre os lençóis alvos e o cheiro da grama que entrava pela janela. Naquele dia, mais tarde, as crianças o encontraram morto. Para os pequenos, foi um susto muito grande, já estavam tão acostumados aos mimos de Felício.

O prefeito realizou um sepultamento digno de uma celebridade, a escola fechou para o enterro, as crianças totalmente desconsoladas foram dar adeus ao bom amigo Felício.

No testamento de Felício, o sítio foi doado para a creche como lugar de educação contínua sobre agricultura, resiliência, alimentação saudável e dedicação. Ficaria a responsabilidade de manter a tradição de passar um dia por semana, ou mais, cultivando seus próprios alimentos.

A uma semana do Natal, as crianças o apelidaram de Papai Noel, o bom velhinho. 

 

Conto de Natal - Se fosse hoje em dia - Yara Mourão

 

 

Imagem criada por IA

Se fosse hoje em dia.

(Um conto de natal para 2024)

Yara Mourão

 

 

Era início da noite apenas, mas algumas estrelas de maior brilho já se espalhavam pelo céu, prometendo a paz ainda que duvidosa. Pelas ruas empoeiradas pessoas fechadas em seus silêncios passavam como sombras por entre os carros, carroças e motos, numa pressa de chegar em algum lugar, qualquer um, que pudessem chamar de casa, de abrigo.

José desligou a moto e entrou apressado chamando aflito por Maria. Queria ajudá-la a organizar a partida: o que levar, o que deixar. Eles sabiam que a viagem seria arriscada; a moto não era grande, a estrada não era boa já semidestruída pelos bombardeios. Haveria muitos solavancos e Maria, em final de gravidez, talvez não chegasse sequer próximo a capital.

Mas tinham que partir. Aquele território já não era seguro. Esse filho muito amado, por quem tanto esperavam, estava prestes a nascer. Por isso, antes do amanhecer resolveram partir.

Passaram por muito perigos, medos, aflições. A poeira das estradas criava uma nuvem densa, formando uma cortina esfarrapada de onde se podia ver, por entre as frestas, corpos dilacerados entre escombros. Os bombardeios incessantes, ensurdecedores, eram rajadas mortais.

José seguia sem trégua. Buscava rotas entre as construções destruídas, lamentando o desvario e a fuga da terra natal.

Maria tinha toda a semelhança de uma deusa esculpida em pedra sem os sinais que até os sobreviventes exprimem e com a rigidez impassível de quem já não está mais ali.

Foram muitas horas de angústia até chegarem a um local mais reservado. Procuraram por um hotel. Porém, não havia vagas, pois os senhores da guerra estavam todos ali reunidos para suas decisões de combate.

Continuando numa fuga angustiante, se depararam com um galpão de tanques abandonado nos limites da cidade e ali se abrigaram para passar a noite.

Foi assim, em meio a estrondos e explosões, que Maria, em doce aflição, avisou José: “Chegou a hora, José, ele vai nascer!”

José estendeu seu manto. Maria ajuntou seu xale. No céu, uma estrela brilhou mais que todas.

O menino nasceu!

Fez-se um silêncio embebido em preces e lágrimas. Até os animais ali abrigados se uniram em murmúrios de mugidos esmaecidos. Aos poucos, na areia agonizante do deserto, passos marcaram o tempo e o lugar da chegada do Amor.

Os soldados feridos vieram, mãos vazias, ornadas de ataduras e, como se fossem reis, curvaram-se e honraram a um ser pequenino, como se fosse a um deus…

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Peça teatral - A Casa do Faz-de-Conta Yara Mourão



A Casa do Faz-de-Conta

 

A Casa do Faz-de-Conta

 

  Ato

 

Cenário: Sala de uma casa luxuosa, bem decorada. O dono anda por ali, observando toda a arrumação.

História de fundo: É uma casa enorme, rica, com vários cômodos; grande jardim, quintal com árvores frutíferas, fonte, recantos bem cuidados. Bom cenário para filmagens, representações.

Personagens:

Mentor: Diego, proprietário da casa. Cineasta.

Dono da casa do Faz-de-Conta: Felipe

Mãe: Amorcito

A empregada: D. Francisca

Filho:

Filha:

1°Colaborador:

2°Colaborador:
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Diego: (andando pela sala, falando ao celular) – Olá, Felipe? Você está disponível para mais uma empreitada?

Felipe: (no celular) – Olá! Como está? Eu estou sempre pronto, Diego! O que você manda desta vez?

Diego: (andando, mostrando a casa) – Sabe, Felipe, eu não consigo ver todo esse ambiente vazio, à espera de realizações. Tenho um projeto em mente, mas queria a sua parceria. Está preparado para um briefing?

Felipe: (animado)-Opa! Mas quem acredita em briefing? Só mais essa vez, hein, já não sei se consigo administrar o caos que seus projetos mirabolantes causam! (risadas)

1° Colaborador: - Ele acha que é ele quem administra o caos! E nós?  Sou eu quem se vira pra fazer as instalações elétricas, ajustar os microfones, os fios por todos os lados...

2° Colaborador:- E eu então, encarando os percalços com os cenários, com os figurinos... Sou um contrarregra à deriva nesse oceano de coisas imprevisíveis.

Diego: (desfazendo dos comentários) – Larguem mão de mi mi mi! Vocês têm aqui o melhor diretor de cena do país, já quase merecendo um Oscar!

1° Colaborador: - Só gostaria de lembrar que é o bam bam bam aqui que tem de deixar tudo prontinho para o show!

2° Colaborador: -Sem falar que sou eu que tenho de dar conta da burocracia com os contratos, pagamentos de horas-extras, lanchinho para os intervalos...

Diego: (rindo) -Lá vem a choradeira! Saibam que isso aqui é o filÉ mignon da arte criativa! Um reality show privé made in Alto de Pinheiros!

Diego: (senta-se e fica sério) -Bom, lá vai! Desta vez vou patrocinar uma história grandiosa, inusitada. Entretanto, preciso contratar um staff apurado, nada de amadores. A não ser para a peça principal; ali, neste lugar, preciso de alguém que tenha uma presença imersa na realidade, entende o que quero dizer?

Felipe: (intrigado) -Seja mais preciso, Diego; não estou conseguindo inserir fato e fake no mesmo bolo!

Diego: (entusiasmado, levanta-se e caminha pela sala) -Calma, Felipe. O conjunto se explica no jogo do faz de conta. A peça principal, que dará a “cola” em tudo, será a empregada.

Felipe: (surpreso)- A empregada?

Diego: (didático) – Sim, a empregada! Por isso terá que ser muito bem talhada, expedita e sensível, porque vai ter de dar conta da casa e das pessoas. Conhece alguém capaz de encarar  essa empreitada?

Felipe: (pensativo) -Olhe, conheço uma senhora que nos servirá com total segurança; trata-se de D. Francisca conhecida de minha família há anos. Pessoa de Minas, trabalhadeira, crente, fiel.

Diego: (aliviado) -Ótimo, Felipe. Então, traga a senhora já praticamente contratada. Quero iniciar os trabalhos o quanto antes. O cachê deve ser sedutor o suficiente para ela se engajar logo de início.

Felipe: (irônico) -Mas, então, Diego, e o tal do briefing? Vai dar ou não?

Diego: (senta-se pensativo) -Ok! Queria contar com o fator surpresa, mas aqui vai todo o escopo: os trabalhos serão uma sequência irreal da vida de uma família rica, composta por um casal e dois filhos.

Felipe: (atento) – Seja mais detalhista, por favor.

Diego: (continuando...) -Ok!  Temos um pai na pele de um irritadiço e grosseiro dono da casa; uma mãe na pele de uma socialite fútil, sempre ligada nas mídias sociais; e os filhos, jovens individualistas, um tanto alienados, com comportamentos e atitudes bem esquisitos.

Felipe: (um tanto surpreso, irônico) -Mas é um contexto de TDAH, de TEA? O que pode redundar disso tudo?

Diego (animado)-Aí é que se insere “the heart of the matter” ! D.Francisca, a empregada! Ela será a pessoa mais normal e verdadeira de toda essa circunstância. Ela não pressentirá, nem por um instante que estará participando de uma espécie de reality show.

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II Ato

(Cenário a meia luz; entram os figurantes; foco de luz em um de cada vez até todos aparecerem)

Filha: (admirando a casa) – Nossa, que bela sala! (rodopia) Um cenário caprichado, não é mesmo gente?

Filho: (encenando, teatral) – Ser ou não ser. Eis a questão! Que tal? Isso aqui combina com Shakespeare, não acham?

Mãe: (admirando a sala) – Essa decoração é um capricho!   Espero ser a estrela da peça, circular por esse espaço charmoso... Combina bem comigo!

Pai: (pondo fim aos comentários) – Podem baixar as expectativas, pessoal. Ninguém aqui vai brilhar sob os holofotes tanto assim. Na verdade, teremos que apresentar nossas piores expressões faciais, verbais e gestuais, coisa nada fácil como vocês bem sabem. Afinal, interpretaremos uma família estressada e eu serei o mestre do mau humor patriarcal.

Filho: (desmunhecando um pouco) – Eu que não vou ser a vítima de nenhum tirano aqui, falou?

Mãe: (afetada) – Se eu vou ser a esposa de um mal-humorado acho que mereço um cachê bem alto, certo?

Filha: (divertindo-se) – Pelo jeito vou poder deitar e rolar na teimosia, nas discussões. Sou boa nisso, sabia? Treino em casa direto!

Diego: (sério) – Calma, calma todo mundo. A coisa é séria. Conto com vocês, artistas já escolados na dramaturgia, para dar veracidade à fábula do “show de Truman!”  E lembrem-se bem que a personagem de D. Francisca não é uma artista; trata-se de uma pessoa comum, contratada para trabalhar para essa família rica, entretanto esquisita e mal-educada.

Pai: (sério) – Diego, pode contar conosco. Já trabalhamos juntos antes e rola um bom entrosamento entre a gente. Vamos representar tão bem que D. Francisca não vai nem acreditar com o final da peça!

(Mudança de cenário: agora todo iluminado, tal uma manhã de sol. D. Francisca chega, se arruma num canto pondo um avental e uma touca)

D. Francisca: (discreta, expressão satisfeita) – Êta dia bonito pra começar num emprego novo! Sorte eu tenho, porque é uma família pequena, um casal e só dois filhos – valha-me Deus!- já crescidos; melhor, não darão trabalho!

(Põe a mesa para o café com cuidado e esmero e fica aguardando o pessoal chegar. Entram todos juntos)

Todos: (Jovens emburrados) – Bom dia!

Pai:(arrogante) -Como é, esse café está pronto ou não está? Pode servir, então, em vez de ficar aí parada como uma estátua!

(Sentam-se à mesa com caras de pouco caso)

Mãe: (antipática) – Vejo que essa mesa não está bem-posta! Onde aprendeu a pôr as louças desse jeito? Fique esperta, hein, D. Francisca, que meu marido é muito exigente!

Pai: (autoritário) – Oh, D. Francisca, olhe aqui, o meu guardanapo é colocado ao lado esquerdo do prato; não se esqueça mais disto, entendeu?

D. Francisca: (espantada, consente com um aceno de cabeça.)

Pai: (dirigindo-se aos filhos, áspero) – Não quero comentários à mesa. Quem quiser se manifestar, saia para o quintal e fale com os passarinhos. (dirigindo-se à esposa, bem seco) – “Amorcito”, (diz afetado) vai sair hoje outra vez? Para que? Não quero que se encontre com sua amiga Dolores, entendeu? Essa mulher é péssima companhia para você, muito metida a ser dona da verdade!

(D. Francisca se afasta, assustada. Não consegue falar nada. Encolhida num canto murmura baixinho)

D. Francisca: (Encolhida num canto, murmura baixinho)- Que família estranha!


UM NATAL DIFERENTE - Suzana da Cunha Lima

 




UM NATAL DIFERENTE

Suzana da Cunha Lima

 

O VELHO Samuel estava só, muito só. Olhava desanimado para os campos vazios varridos pela poeira.  Seus vizinhos haviam se mudado há tempos. Um solo rebelde a qualquer plantio os haviam afastados e os mais próximos estavam a uns 30 minutos de caminhada.  Muita estrada para suas pernas fraquejantes.

Não ouvira os apelos da família que o aconselharam a ir morar com eles na cidade grande ou arrumar um cantinho no lugarejo, onde ainda tinha alguns amigos.  Não houve jeito. Era turrão, queria as coisas ao seu modo... e assim foi ficando cada vez mais só.

Falando sozinho, visão embaçada, juntas doloridas e sentindo cada vez mais o peso da solidão. Ao dormir, cabeça no travesseiro e ninguém ao lado, pensava e até chorava:Ninguém!

Para trocar ideias, compartilhar uma cerveja, jogar um carteado, ou discutir o futebol. Ninguém para aquecer seu corpo que se arrebentara na faina diária naquela terra árida e nada generosa. A angústia se apossou dele de maneira avassaladora.

E foi se agravando naquele ano especial, quando o inverno chegou mais cedo, as folhas caíram e ventos frios congelavam os ossos. Mas, sabia ele, era tempo de Natal!

Podia até escutar o badalo do sino da igrejinha distante, tocando alegre e imaginava as casas se enfeitando, as ruas cobertas de luzes piscantes, as crianças agitadas pedindo brinquedos a Papai Noel.

Uma estrela cadente riscou o céu e parou um pouco em cima de sua casa. O que fazia aquela estrela ali, imóvel, brilhando como uma joia num estojo escuro? Samuel teve uma epifania.

Lembrou-se imediatamente de sua infância, ele e os irmãos enfeitando a árvore que seu pai buscara na chácara de o seu Nestor, sua mãe preparando as rabanadas, inigualáveis, até sentia o cheirinho do açúcar com canela estalando de gostoso.

E o mais importante, que ela deixava para o fim: o presépio.  Era sempre o mesmo, Maria, José e o Menino, deitadinho na manjedoura.  Todos lindamente esculpidos em madeira nobre. E ainda havia os bois e vaquinhas e as ovelhas, e todo ano ela acrescentava um animal, ou pastores, depois os Reis Magos e muito verde e flores. E iluminava o presépio de tal maneira que aquelas delicadas figuras pareciam vivas.

— É isso, pensou! Farei igualzinho! Tenho dinheiro guardado para quê? Farei um Natal para a criançada do orfanato.  Com certeza vão ter um Natal simples e triste como todo ano. Mas este ano, não — pensou — Vou dar para eles tudo que tive, quando menino, e, se Deus me ajudar, todo ano até eu morrer.  Telefonou para o orfanato, combinou tudo, enviou roupas novas para todos, e no dia de Natal, apareceu com duas vans carregadas de guloseimas, brinquedos e a árvore.

E enquanto as crianças enfeitavam a árvore do jeito delas mesmo, com muita algazarra e risadas, ele preparou um lindo presépio, do jeitinho que sua mãe fazia. Antes mesmo de pronto, a criançada foi-se achegando, curiosa para saber quem eram aquelas figuras.

“Esta criancinha aí na manjedoura nasceu em Belém.  Seu nome era Jesus. Seus pais eram muito pobres e não havia lugar para eles nos hotéis da cidade. Assim, o dono da estalagem cedeu seu estábulo e arranjou uma manjedoura como berço e os pastores trouxeram panos como sua primeira roupinha.

Não, não nasceu em hospital, com médicos e enfermeiras, não teve ultrassom, nem chá de bebê, nem fotógrafos.

Mas mesmo assim, Ele dedicou sua vida para nos ensinar Respeito, Solidariedade e Compaixão e deixou um único conselho:

Ama teu próximo como a ti mesmo.

Depois Dele, o mundo não foi mais o mesmo".