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O Joaquim, motorista de ônibus - Isabella Brancher

 



O Joaquim, motorista de ônibus

Isabella Brancher

 

Eram 5h50 da manhã, o sol ainda não tinha se levantado e as nuvens baixas cobriam boa parte da cidade. Não havia escolha, Maria tinha que se levantar. O frio do chão percorreu a sua espinha quando se dirigiu ao banheiro. Ainda caminhava cambaleando, cheia de sono. A cidade começava pouco a pouco a acordar. Os sons dos automóveis, buzinas e freadas se faziam mais presentes. Os cachorros abanando os rabos vigorosamente passeavam pelo quarteirão. Era a revelação de que um novo dia se iniciava.

Tinha apenas 20 e poucos minutos para se aprontar; o café, já deixado pré-preparado na cozinha, agora enchia a casa de energia. Um despertar forçado. Saboreou, como de costume, deixou a caneca na pia e desceu. No ônibus, alguns rostos conhecidos faziam o mesmo percurso.

O motorista, Joaquim, a recebia sempre com um caloroso e sorridente bom dia no momento em que ela subia o primeiro degrau. Nesse momento, ela se sentia leve, como se flutuasse, e os degraus deixavam de ser tão altos.

Sentada, sempre nas primeiras cadeiras, observava com atenção os passageiros recorrentes. Procurava ser discreta, mas passava o percurso a explorar cada um dos companheiros de viagem. Imaginava a senhora que subia no ponto seguinte aonde  ela iria, o que faria. Tinha o rosto marcado pelo tempo, as costas levemente curvadas e sempre carregava uma sacola térmica.

Outro passageiro habitual era um jovem rapaz que carregava um instrumento musical em um case. Ele usava umas costeletas compridas, a barba maltratada, e suas roupas eram sempre largas. O tênis, um all star de cano alto, compunha o visual dele, parecia esquecido no tempo. Com um olhar perdido, passava o caminho a dedilhar alguma música sobre sua coxa.

Maria gostava mesmo de observar o motorista, tinha uma queda por ele. Aquele bigode farto preto, as meias alinhadas sob as calças, os sapatos sempre bem engraxados. A camisa, impecavelmente passada. Tudo isso a impressionava. Esbanjava cultura. Queria descobrir de onde vinha. Por que estaria dirigindo aquele ônibus? Quem cuidaria tão bem de sua roupa?

Maria seguia até o ponto final e, durante todo o trajeto, permanecia a observar os passageiros, os habituais, e também os aleatórios. O único momento em que parava de observar os passageiros era quando passavam pela rua que costeava o mar. O mar a fascinava, o azul profundo, a espuma branca ao bater nas rochas e a areia clara traziam serenidade. Muitas vezes pensou em ali descer e correr pela areia, mas sempre se deteve. Estava a caminho do trabalho e não poderia se atrasar.

Dias, semanas se passavam nessa rotina, em muitas viagens Maria se sentia pequena, às vezes invisível. O espaço a oprimia. Hoje se sentia diferente. A atmosfera parecia mais doce, colorida. Ao passar pela costa, o ônibus parou numa reentrância da orla. Joaquim desceu de seu posto, olhou para todos os passageiros. Pediu desculpas. Caminhou lentamente em direção a Maria. Suas pernas tremiam, seu rosto se iluminou. Maria, por sua vez, sentia um calor subir no seu rosto, um nó na garganta, um certo medo. Joaquim tirou do bolso uma pequena caixa, a abriu, nela continha um belo anel. Mostrou a Maria e, sem nunca ter dito mais que um bom dia, se dirigiu a ela e disse: Casa comigo? 

 

 

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