O som do sino
Carla Di Sessa
O sino da igreja batia pontualmente às seis da tarde todos os dias.
Marcelo ouviu e estranhou. O som parecia, assim, desanimado, não tocava com seu costumeiro entusiasmo. Normalmente tocaria imperioso, lançando seus acordes aos quatro cantos do bairro. Para Marcelo, aquele badalar sinalizava que o dia se encerrava, que ele havia cumprido suas obrigações e que podia ir para casa ver sua família. Começou a organizar suas coisas meticulosamente, pois Marcelo era um homem que valorizava ordem e disciplina, mas algo chamou sua atenção. Ele parou o que estava fazendo e prestou atenção no som do sino que pairava sobre todo o seu escritório. Naquele dia, pareceu a ele que o sino se entristecia ao sinalizar que sua vida monótona e rotineira, como a dele, havia atravessado mais um dia.
Joana ouviu o sino da igreja tocar e pensou: Graças a Deus, seis horas, posso ir embora. Guardou suas coisas e parou em frente ao espelho para checar o cabelo e o batom. Foi aí que notou algo diferente naquele som que escutava desde criança: estava mais austero, menos espalhafatoso. Mas a razão dessa diferença não era importante para ela. A única coisa que lhe interessava era que aquele som, alto ou fraco, desanimado ou escandaloso, marcava a hora em que, finalmente, podia ir se encontrar com Maurício e se perder com ele nas dobras do lençol da cama, sentindo seu cheiro e seu gosto. Sem pensar duas vezes, pegou sua bolsa, apagou as luzes e saiu, trancando a porta atrás de si.
Ah, droga, disse Quinzinho ao ouvir o sino da igreja tocando. Aquele som sinalizava que ele devia se despedir de seus amigos e do futebol que estavam jogando para ir para casa ter aula de piano com Dona Glaucia, uma senhorinha simpática, mas rigorosa, que fazia Quinzinho repetir infinitamente as escalas e arpejos. Quinzinho percebeu algo diferente no som do sino naquele dia, parecia triste por encerrar a sua diversão. Se está arrependido, pensou Quinzinho mal-humorado, podia não tocar e me deixar aqui, feliz, jogando meu futebol. Despediu-se dos amigos e saiu correndo para sua casa.
Isabel ouviu o som do sino e pensou estar atrasada, logo a família estaria em casa e seu sossego acabaria. Precisava organizar o jantar, pôr a mesa e se arrumar para o marido, que gostava de encontrá-la linda, cheirosa e bem arrumada, como se ela fosse uma espécie de Cinderela que, cantando, cuidava do lar ajudada por passarinhos e ratinhos. Isabel sentiu algo diferente no som do sino naquele dia, como se ele também estivesse com preguiça e não quisesse acabar com o próprio sossego. Logo ele, pensou, imperioso, pontual, infalível. Um chato de galocha que não podia deixar um único dia simplesmente passar sem bater seu ponto sonoro às seis da tarde.
Padre Rogério subiu lentamente os degraus estreitos da torre, seus joelhos já não eram o que costumavam ser há 20 anos, mas o sino andava estranho e precisava descobrir por quê. Há dias vinha adiando a expedição, apreensivo com a empreitada que seus joelhos enfrentariam e com o tamanho do problema que iria encontrar. Assim que Padre Rogério chegou ao topo, olhou para o sino e a razão se mostrou: uma fina rachadura cortava o sino como uma cicatriz. O padre suspirou e, naqueles poucos instantes, percebeu que a rachadura simbolizava não só a fragilidade do sino, mas também a da fé daquela cidade.
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