Bom mesmo é saber levar a vida.
Ledice Pereira
O toque do celular anunciava a Marcia que era hora de levantar-se. Escolhera uma música que lhe recordava a infância, quando sua mãe a acordava cantando. Muitas vezes, já acordada, esperava pelos acordes que soavam pontualmente às 6 horas.
Entrou no banho com os olhos semiabertos, acordando aos poucos e olhando pela janela para sentir como estava a temperatura daquele outono recém-chegado.
O banho quentinho a abraçava, revigorando-a. Tornando-a pronta para enfrentar a maratona diária.
Costumava deixar tudo pronto na cozinha para facilitar e agilizar a refeição que mais gostava de tomar. O cheirinho do café, passando no coador, alimentava-lhe a alma.
Café tomado, saía sorrindo para todos que encontrava e agradecia a Deus por mais aquele dia.
Duas quadras a separavam da estação de metrô. A rotina diária apresentara-lhe todos os metroviários que ali exerciam sua função. Ia distribuindo sorrisos para eles que lhe acenavam.
Acomodada, construía histórias sobre os usuários com quem dividia o percurso, muitos deles habituais.
Observava cada um com seus respectivos cacoetes: aquele senhor, que lembrava muito seu avô, ao bater longos papos consigo mesmo, sem se importar com os demais, gesticulando energicamente, à medida que conversava sozinho. Talvez estivesse treinando para enfrentar uma conversa séria, ou então resolvendo um assunto importante.
Havia o jovem que fingia dormir sempre que notava a entrada de um sessenta mais. Engraçado que nunca perdia o ponto de descida.
Conhecia bem a paqueradora, que suspirava, procurando chamar, em vão, a atenção de um bonitão ao lado.
Mas o que mais Márcia admirava eram as mães, que carregavam seus filhos no colo, ao mesmo tempo que equilibravam sacolas e brinquedos junto da bolsa que levavam rente ao corpo. Isso quando não levavam um bebê no colo e outro pequeno emburrado pela mão e todas as sacolas, bolsas e mochilas como se fossem um polvo com todos os seus tentáculos.
E “aquele” continuava fingindo que dormia;
Era tanta história a chamar a atenção que, quando percebia, já estava na hora de descer do vagão.
Assim, aquela rotina deixava de ser monótona e fazia com que ela chegasse ao trabalho lépida e de bom humor.
Fazia, como se dizia, de um limão azedo, uma deliciosa limonada!
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