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C’est la vie… - Carla Di Sessa

 



C’est la vie…

Carla Di Sessa


A vida sabe se divertir, Cecília pensou enquanto esperava pacientemente na fila do caixa do supermercado. Tinha dois carrinhos abarrotados enquanto seu marido cuidava de mais dois e o filho mais velho deles se apoiava em um quinto, cheio de produtos de limpeza.

Cecília e Artur se conheceram no clube, na piscina infantil. Ele, viúvo e pai de 3 filhos, ela separada, mãe de dois. Acabaram se casando e ela engravidou, aumentando de 5 para 6 o número de crianças que amavam e tentavam levar no morde/assopra. Era preciso ter regras, impor limites, fazer cara feia, mas também abraçar, consolar, conversar e tentar entender. 

Seis filhos já eram mais do que suficientes. Artur brincava que todo mundo pensava duas vezes antes de convidar a família deles para jantar. Mas a vida tem muita imaginação e adora reviravoltas.

O segundo filho de Artur queria um cachorro e conseguiu a adesão de todos os irmãos na empreitada. Após muita negociação para distribuir as tarefas que esse pet traria, foram todos a um abrigo e se apaixonaram por um desses vira-latas pretos de pernas finas e rabo comprido. Cecilia reparou que duas meninas observavam de longe seus filhos brincando com o cachorro e perguntou para a atendente quem eram. 

— Aquelas garotinhas são a Mara e a Rafa. São irmãs e sempre vêm aqui brincar com esse cachorro enquanto ele não é adotado.

Cecilia e Artur olharam para as duas meninas, uma agarrada à outra.

— Onde elas moram? Artur perguntou.

— Em uma Casa de Acolhimento. Eles sempre trazem as crianças aqui, é bom para elas e para os bichinhos.

— Vocês vão levar o Tufão embora?  Perguntou uma delas.

A vida já devia estar com a pipoca pronta, esperando os próximos capítulos, pensou Cecília.

Mara e Rafa passaram a frequentar a casa deles depois que Tufão foi morar lá. No começo, se mostravam retraídas, só se soltavam quando viam Tufão e começavam a brincar. Com o tempo, foram ganhando confiança e ficando à vontade com as outras crianças, mas ainda guardavam alguma reserva com Cecília e Artur. Um dia, Mara não veio, estava gripada, com febre e dor de garganta, contou Rafa. 

— Então ela deve estar precisando de bolo de cenoura, disse Artur e chamou a criançada para a cozinha.

— Operação Bolo de Cenoura Cura Tudo! Gritaram.

E o delicioso caos de cozinhar com todas aquelas crianças começou. Rafa participou de tudo, quebrando um dos ovos, revezando para mexer a massa e jogando farinha na forma untada de manteiga.

Depois do almoço, levaram Rafa de volta para a Casa de Acolhimento e aproveitaram para entregar o bolo. Queriam ver Mara, mas a coordenadora disse que ela estava dormindo. 

— Ela está precisando descansar, explicou.

— Pode deixar, eu entrego o bolo para ela, disse Rafa, e digo que vocês todos vieram aqui para visitar.

Naquela noite, Cecília e Artur conversaram longamente, fizeram contas, repensaram o espaço da casa e decidiram.

E assim, após cumpridas todas as formalidades, Mara e Rafa entraram para a família, subindo para 8 o número de filhos.

— Agora é que ninguém convida a gente nem para um café! Comentou Artur, abraçando Cecília enquanto olhavam as oito crianças brincando juntas no parque com Tufão.

Pois é, pensou Cecília. Eu adorava assistir “Doze é Demais” e “Os Seus, Os Meus e os Nossos” quando era adolescente, mas eu sempre quis ser um dos filhos, mas a vida, com seu senso de humor duvidoso, me colocou neste outro papel.  Tudo bem, divirta-se, Dona Vida, que eu, além de ocupada e às vezes estressada, com certeza vou me divertir!



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