Fotografias
Carla Di Sessa
Mariana gostava de fotografias antigas e, ao longo dos anos, foi amealhando as de sua família. Cada vez que alguém resolvia fazer uma arrumação, já sabia que poderia mandar para ela todas as fotos antigas ao invés de simplesmente jogá-las no lixo. Recentemente, sua prima Helena havia mandado para ela duas caixas cheias e ela mal podia esperar para ver o conteúdo.
Mariana gostava de procurar nos rostos antigos os traços das pessoas atuais e foi assim que descobriu, olhando a foto de seu bisavô, os mesmos olhos azuis e cabelos ondulados de seu filho.
Examinava cada rosto, procurando os traços que faziam parte daquela família, imaginando as linhas que se estendiam pelas gerações, fazendo de cada pessoa um personagem da história que unia a todos.
Casamentos, batizados, viagens, aniversários, tudo era o Tempo fazendo sua mágica. Mariana queria ver aquele tempo não só pelo pedaço que lhe cabia, mas também queria saber o antes e o depois. Porém, não se conformava com o fato de o conhecimento do depois ter limites. Queria saber tudo como se fosse um astronauta que no espaço é capaz de enxergar não só a Terra, mas também a imensidão que a rodeia, o antes e o depois espalhado pela eternidade no Universo.
Mariana abriu a primeira caixa e ficou feliz, pois além das fotos havia convites de casamento, cartões postais e algumas cartas, coisas que geralmente traziam ângulos insuspeitados dos acontecimentos.
A primeira coisa que viu na segunda caixa foi a famosa foto de sua tia Idalina sorrindo marota, montada ao contrário em um burrico, a face voltada para o traseiro do animal, isso lá pelos idos de 1930. Mariana pensou divertida que essa tia havia contribuído com pedaços bem coloridos para o fio da história da família.
Continuou olhando até que viu uma foto que lhe chamou a atenção: as pessoas estavam sentadas à mesa, muito sérias, mas o detalhe intrigante era que o rosto de uma das mulheres havia sido cuidadosamente recortado. Quem eram aquelas pessoas? Por que o rosto daquela mulher tinha sido eliminado da fotografia? Rapidamente, a imaginação de Mariana soltou-se desenfreada. Histórias de vingança, tragédias escritas com sangue, tudo parecia possível até que ela pensou: “Chega, vamos ligar para Helena e descobrir a verdade.”
Ligou para a prima e perguntou se ela sabia alguma coisa sobre a estranha foto.
— Ah, disse Helena, é a foto com o rosto recortado, não é? Nem te conto, o rosto é da Tia Idalina. Ela namorou um rapaz chamado José antes de conhecer o tio Gilberto e essa foto é dela com a família do tal José. Ela mesma recortou esse pedaço da fotografia e colocou dentro de um relicário que deu de presente para ele se lembrar dela. Ele tinha sido se alistado no exército e ia partir para lutar na Europa.
“Vejam só”, pensou Mariana, “no fim não é uma história trágica regada a sangue, mas uma cheia de suspiros e beijos apaixonados!”
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