DE REPENTE, DUBAI
Isabella Brancher
Maria vivia há muitos anos no Brasil, distante do seu país de origem sentia saudades de tudo e de todos. Em especial dos costumes, das festas, da comida. Lembrava dos motivos que fizeram deixar as suas tradições. Entendia, porém, que naquele momento era a única alternativa: fugir.
Os primeiros anos no Brasil foram muito difíceis, não sabia a língua, tinha muita dificuldade com os costumes, e as comidas eram muito distintas. Procurava em cada mercado aqueles temperos que usava na sua terra natal, mas tudo parecia muito descolorido. Precisava começar a se preocupar em como conseguir se manter no novo país. Havia trazido algum dinheiro e agora, hospedada na casa de parentes, sabia que a estadia seria provisória. A família do seu tio era gigante, ele e a mulher viviam com os seus sete filhos em uma casa com dois quartos. Ela certamente representava um peso e precisava se libertar: de ser inconveniente ou indesejada na casa do tio.
Os dias foram passando e Maria começou a compreender melhor a língua, e a se habituar com os usos e costumes da nova terra. A vida começava a ficar mais adocicada. Conseguiu um emprego como caixa em um supermercado. Era muito vistosa, com seus cabelos fartos em longos cachos, que agora ficavam a mostra, encantava homens e mulheres com sua beleza mais rustica.
Com muito cuidado e perseverança foi juntando recursos pensando no futuro. Voltar as origens era sempre seu primeiro e principal objetivo. Ao chegar no final do mês, quando recebia o salário, uma parte mandava de volta para parentes na terra natal, e outra parte guardava.
Procurava acompanhar as notícias, poucas, que recebia da situação política e social da sua terra. Algumas vinham de parentes. Com o passar dos anos conseguiu voltar a estudar e montou seu próprio negócio. Como era muito criativa usou da sua história para criar peças de roupas estilosas com uma personalidade muito marcante. A vida era solitária, não conseguia se preencher com nada, sentia um vazio constante que a amarrava por dentro.
Os anos se passaram como um relâmpago, e agora, depois de tanto tempo estava pronta para embarcar de volta e rever todos os amados que havia deixado para trás. Preparou as malas, juntou tudo que podia nas malas que levaria e se dirigiu ao aeroporto. Seu corpo vibrava por completo, as roupas pareciam justas demais como se precisasse de espaço para toda aquela sensação que estava sentindo.
Cansada, depois de todo o stress do embarque adormeceu.
Despertou assustada ao perceber que estava sentada ao lado de um homenzarrão. Por alguns segundos, não soube onde estava. Ajeitou-se na poltrona e olhou para a tela do sistema de entretenimento à sua frente. No mapa, um avião avançava lentamente sobre o oceano. O homem ao lado percebeu sua confusão e comentou, com naturalidade:
— Estamos sobrevoando o oceano agora. Vamos fazer uma escala aqui.
Ele apontou para um ponto luminoso no mapa: Doha. Qatar.
Ela franziu a testa: —Doha? Por quê?
— Porque esta é a rota para Dubai—respondeu ele.
Ela ficou imóvel:—Dubai?
A voz saiu baixa, quase um sussurro. Em seguida, apertou o botão para chamar a comissária:
—Desculpe... deve haver algum engano. Por que este avião está indo para Dubai? A comissária pareceu surpresa:—Senhora, este voo sempre teve Dubai como destino. A senhora pensa que está indo para onde? Ela abriu a boca, mas não conseguiu responder. Primeiro, vieram as lágrimas. Depois, os soluços. Por fim, o choro forte e descontrolado, como se, naquele instante, tivesse compreendido que alguma coisa estava terrivelmente errada.
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