PRIMOS MUY AMIGOS
Sergio
Dalla Vecchia
Lucas,
adolescente vidrado em fatos e histórias misteriosas, ocupava um aconchegante
quarto no sótão da casa da família. Por opção, pediu aos pais para ter aquele
lugar como seu, embora o sobrado possuísse mais quartos. Foi atendido e a
decoração saiu ao seu gosto. Cortinas escuras limitavam a entrada de luz,
pôsteres de filmes policiais desalinhavam-se pelos cantos. Revistas e livros
adormeciam esparramados. Já no banheiro, a pilha era menor e como recheio
algumas revistas masculinas, que não poderiam faltar para o adolescente.
Certo
sábado, a família recebeu como hóspede um casal de tios vindos do interior,
trazendo o filho da mesma idade de Lucas para passarem ali o fim de semana.
Logo
os tios foram acomodados no quarto de hóspedes e o filho foi para o sótão com
Lucas.
Os
primos pouco se conheciam. A última vez que se encontraram tinham uns sete anos
de idade.
Assim,
Lucas, com cara de poucos amigos, acolheu o primo no seu intocável reduto em um
colchão improvisado.
Ariscos
ensaiaram um diálogo.
O
cenário sinistro causou estranheza no recém-chegado, causando-lhe um impasse.
Fugir para a segurança dos pais no quarto abaixo ou engolir em seco, evitando o
vexame.
Encheu-se
de coragem, contou até dez e resolveu ficar enfrentando o companheiro
excêntrico.
Foram
se entrosando até esboçarem alguns tímidos sorrisos e abriram a porta para a
desconfiança ir se despedindo.
Hora
de dormir! Pijamas novos de visita, vice-versa para o convidado, é o que reza o
protocolo de boa anfitriã e de visita bem-educada.
Proibido
celulares no quarto, normas da casa!
Assim,
não tiveram outra escolha senão conversarem. Lucas, entusiasmado por ter quem
dar-lhe atenção, tomou a iniciativa e em monólogo desfilou suas histórias de
mistérios, assombrações, assassinatos que pareciam não ter mais fim, causando
constrangimentos para o assustado ouvinte.
O
primo, exausto da viagem e após absorver tanto medo, não se conteve e, com os
olhos arregalados, gritou:
—
Chega de tantas lorotas e arrogâncias. Você só conta histórias que outros
vivenciaram. Você não tem a mínima noção do que é ser o protagonista de um
fato. Uma hora ainda te ensinarei como ser um. Virou-se no colchão e rosnou um
até amanhã!
O
domingo acordou e os primos foram até jogar bola na grama, mas logo foram
chamados para o almoço, não deu nem tempo para se desentenderem pela disputa de
bola.
Após
o lauto almoço, os visitantes despediram-se e embarcaram no automóvel de volta
para o interior.
Pelo
vidro de trás do veículo via-se a silhueta do primo com olhar fixo no Lucas,
fazendo aquele sinal característico com uma mão fechada, outra aberta e uma
batendo na outra. Top, top e top!
Pego
de supetão, Lucas ligou no automático e devolveu o cumprimento com o dedo médio
em riste.
Assim,
cada um foi para seu lado após uma despedida pouco diplomática.
Logo,
o domingo cansou e lá se foi Lucas para o sótão dormir.
Ainda
com a imagem do primo caipira na cabeça, levantou a coberta da cama e deparou
com uma caixinha de presente muito bem arrumada contendo um bilhete. Tratou de
lê-lo e dizia:
“Você
que gosta de mistérios, adivinhe quem foi o fabricante desse mimo?”
Lucas,
curioso, tateou a caixinha, era pesada, não fazia barulho e estava muito bem
lacrada. Buscou um estilete e, curioso, rasgou o invólucro, pressentiu algo
estranho, não deu tempo de reagir e um fedor tomou conta do ambiente. Tapou as
narinas, virou rapidamente o rosto com náuseas e logo entendeu o recado.
O
primo lhe ensinou como ser protagonista, conforme havia dito.
—
Lição aprendida, juro que vai ter volta, seu merdinha, praguejou Lucas, fedido
e vermelho de raiva!
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