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SONHOS DE CRIANÇA - Suzana da Cunha Lima

 






SONHOS DE CRIANÇA

Suzana da Cunha Lima

 

Lúcia guardava no coração um sonho antigo.

Desses que parecem nunca vão se realizar, mas não morrem; vão crescendo com a gente, adquirindo formas novas e desejos mais elaborados: viajar num cruzeiro marítimo!

E esse sonho a acompanhou até se casar, quando o marido, então noivo, totalmente encantado, lhe prometeu uma lua de mel no melhor e mais belo navio que houvesse.

Pesquisou com afinco o que havia na área dos cruzeiros de luxo e finalmente achou um que oferecia o que havia de melhor e mais seguro, além do nome altamente sugestivo: Sussurros de Amor.

Assim, logo após a recepção, embarcaram, ela ainda com seu vestido de noiva, ele com seus trajes de casamento, jovens, belos e apaixonados. Pararam no alto da escada. Uma visão magnífica, o véu de noiva dançando ao redor deles, enquanto ele a beijava no pescoço e ela acenava para os convidados parados no cais.

A suíte nupcial era linda, enorme, com uma varanda apenas entrevista através da cortina vaporosa. Cama king size, TV de tela plana, banheira de hidromassagem, um luxo para reis!

Porém, eles dois, sôfregos, estavam mais interessados em se descobrirem, quando ouviram o estrondo de um trovão e todas as luzes se apagaram. A tempestade irrompeu com força, com mais barulho do que perigo. Raios e trovões cruzavam o céu, sinistramente muito escuro.

Até os geradores entrarem em ação, foram minutos de histeria nos passageiros, muitos deles ainda no convés, apreciando a saída pela baía, coalhada de luzes.

Porém, o navio seguiu impávido, guiado pelas hábeis mãos de seu comandante e suas palavras tranquilizadoras.

Porém, quando tudo parecia amainado, a tempestade já havia perdido a força, ouviu-se um grito desesperado pelos autofalantes: HOMEM AO MAR!

O comandante acionou todo o sistema de luzes e pedidos de socorro e precisou fazer muitas manobras para fazer o navio voltar e tentar resgatar o passageiro que havia caído no mar, numa noite escura e com o mar ainda encapelado.

Pediu aos passageiros que voltassem às suas cabines, colocassem seus salva-vidas e esperassem em silêncio.

Foi quando Carlos procurou a noiva e não a encontrou na cama. Como? Estavam ambos despidos, embaixo dos edredons, e subitamente, ela não estava mais ali. Não estava mais ali? Que coisa absurda!

Lembrou-se do terror dela diante dos trovões, quando precisava acalmá-la, apavorado que ela fizesse algo impensado. E ela já fizera isso antes.

Vestiu-se correndo, olhou pela cabine inteira e saiu para informar ao comandante. Mas não a encontrou. Seu medo atingiu píncaros absurdos. Onde Lúcia poderia estar?

 Quem sabe ela estaria vagando pelo convés, apavorada?

Um trovão pode ser poderoso e aterrador, claro, mas não faz ninguém sumir de uma hora para outra. A menos que…

Subiu à cabine do comandante e,  de longe, percebeu algo errado. Um aglomerado de pessoas aflitas, muitas chorando. Haviam resgatado o passageiro do mar naquele momento.

Seu coração parou.

Alguém estava cobrindo aquele corpo lindo de Lúcia com um cobertor.



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